{"id":2727,"date":"2011-05-07T07:08:06","date_gmt":"2011-05-07T14:08:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=2727"},"modified":"2011-05-07T07:08:06","modified_gmt":"2011-05-07T14:08:06","slug":"carlos-paredes-%e2%80%93-a-guitarra-que-venceu-o-fado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2011\/05\/07\/carlos-paredes-%e2%80%93-a-guitarra-que-venceu-o-fado\/","title":{"rendered":"Carlos Paredes \u2013 A Guitarra Que Venceu O Fado"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 300;\ngoogle_ad_height = 250;\ngoogle_ad_format = \"300x250_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p>07.03.2003<\/p>\n<p>Carlos Paredes \u2013 A Guitarra Que Venceu O Fado <\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2011\/05\/CarlosParedes.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2011\/05\/CarlosParedes.jpg\" alt=\"\" title=\"CarlosParedes\" width=\"450\" height=\"290\" class=\"alignnone size-full wp-image-2728\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2011\/05\/CarlosParedes.jpg 450w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2011\/05\/CarlosParedes-300x193.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Se Am\u00e1lia foi o fado, Paredes \u00e9 a sua transcend\u00eancia. Am\u00e1lia foi a onda, n\u00edtida e exacta. Paredes, o mar revolto e uma ideia de liberdade que n\u00e3o se esgota no dizer. Disse-o mesmo assim \u2013 com a raiva e a ternura de quem se deu e coroou a solid\u00e3o. A integral <em>O Mundo Segundo Carlos Paredes<\/em>, agora editada, \u00e9 o testemunho vivo desse caminho.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2011\/05\/carlosParedes_OMundoSegundoCarlosParedes.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2011\/05\/carlosParedes_OMundoSegundoCarlosParedes.jpg\" alt=\"\" title=\"carlosParedes_OMundoSegundoCarlosParedes\" width=\"226\" height=\"400\" class=\"alignnone size-full wp-image-2729\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2011\/05\/carlosParedes_OMundoSegundoCarlosParedes.jpg 226w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2011\/05\/carlosParedes_OMundoSegundoCarlosParedes-169x300.jpg 169w\" sizes=\"auto, (max-width: 226px) 100vw, 226px\" \/><\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.megaupload.com\/?d=RS751ANA\" target=\"_blank\">LINK<\/a><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Carlos Paredes e Charlie Haden\" width=\"625\" height=\"469\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ujf6EVam5Ag?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>\u201cCarlos Paredes era de uma dimens\u00e3o muito dif\u00edcil de definir. O Carlos vagueava no espa\u00e7o: \u00e9 um ser et\u00e9reo. Ele n\u00e3o estava c\u00e1, estava para al\u00e9m e acima de n\u00f3s. Pairava no espa\u00e7o. Quando o Carlinhos aparecia para tocar, era um deus\u201d. \u00c9 desta forma que Luiz Goes, um dos mestres do fado de Coimbra e dos primeiros m\u00fasicos a privar com a arte de Paredes, define a personalidade musical e humana do autor de \u201cVerdes Anos\u201d, cuja obra integra acaba de ser compilada pela EMI-VC em forma de caixa, com o t\u00edtulo \u201cO Mundo Segundo Carlos Paredes, Integral, 1958-1993\u201d.<br \/>\nO mundo segundo Carlos Paredes \u00e9 um mundo que a todos fascina mas tamb\u00e9m um mundo cuja originalidade se torna dif\u00edcil de enquadrar sob a lupa da an\u00e1lise mais fria. A m\u00fasica deste \u201cser et\u00e9reo\u201d que, como dizia Goes, parecia pairar no espa\u00e7o enquanto tocava, atinge-nos irremediavelmente na dimens\u00e3o mais tr\u00e1gica do ser portugu\u00eas, nesse ponto onde a mais despojada e apaixonada das solid\u00f5es se sublima amorosamente pela Saudade.<br \/>\nPara al\u00e9m de Am\u00e1lia, Paredes foi, enquanto m\u00fasico, o mais alto expoente desta interioridade, tornada beleza e arrebatamento absolutos nas cordas e na alma de uma guitarra portuguesa. Por estas raz\u00f5es, pelo valor documental e pelas n\u00e3o-raz\u00f5es, de ordem emocional, que cada um descobrir\u00e1 dentro de si, \u201cO Mundo Segundo Carlos Paredes\u201d \u00e9, desde j\u00e1, no cap\u00edtulo das reedi\u00e7\u00f5es, o acontecimento editorial do ano.<br \/>\nApresentado sob a forma de livro forrado interiormente com 37 p\u00e1ginas explicativas, incluindo um texto de apresenta\u00e7\u00e3o de Ruy Vieira Nery, comp\u00f5e-se de oito CDs organizados por ordem cronol\u00f3gica, abrangendo a totalidade do material gravado por Paredes, disperso por EPs e \u00e1lbuns lan\u00e7ados entre 1958 e 1993. 35 anos de carreira ao longo dos quais Paredes deixou vincada a sua arte, parca em quantidade (a sua obra \u00e9 escassa, comparada por exemplo, com o acervo legado por Am\u00e1lia), mas absolutamente imbu\u00edda de uma intensidade inigual\u00e1vel na m\u00fasica deste s\u00e9culo.<\/p>\n<p>Nascer Do Dia<\/p>\n<p>\u201cDespertar\u201d, t\u00edtulo do CD de abertura, \u00e9 composto por 26 temas, dos quais os primeiros quatro, os mais antigos gravados pelo guitarrista, correspondem ao EP \u201cFado de Coimbra\u201d, do Dr. Augusto Camacho, excluindo-se obviamente as colabora\u00e7\u00f5es pr\u00e9vias de Paredes com o seu pai, Artur Paredes.<br \/>\nDescobre-se nesta introdu\u00e7\u00e3o a nostalgia e o t\u00edpico \u201crubato\u201d coimbr\u00f5es que marcariam, sem o esgotar, o estilo do guitarrista, vislumbrando-se desde logo sinais do seu virtuosismo. Entre os temas 5 e 8 deparamo-nos, cara a cara, com o g\u00e9nio musical presente no EP \u201cCarlos Paredes\u201d, de 1962.<br \/>\nOs desenvolvimentos mel\u00f3dicos, em forma de raps\u00f3dia, e, sobretudo, a sua exposi\u00e7\u00e3o em termos t\u00e9cnicos, de imediato entraram em conflito com os dogmas ligados ao instrumento. Hugo Ribeiro, engenheiro de som presente em in\u00fameras grava\u00e7\u00f5es do mestre, ao ouvi-lo pela primeira vez numa sess\u00e3o em casa de Am\u00e1lia, comentou: \u201cAquilo n\u00e3o tinha nada a ver com guitarra portuguesa. Ningu\u00e9m tocava daquela maneira\u201d. N\u00e3o tocava, de facto. Quanto \u00e0 guitarra portuguesa, tornou-se desde esse momento um instrumento nobre e arqu\u00e9tipo pelo qual todos os guitarristas das gera\u00e7\u00f5es posteriores se guiariam.<br \/>\nOutro EP, de 1964, apresenta \u201cGuitarradas sob a Forma de Filme \u2018Verdes Anos\u2019\u201d. N\u00e3o era ainda o tema com o mesmo nome que se tornaria o c\u00e1lice onde vamos beber a transcend\u00eancia, mas as sementes, regadas, como no disco anterior, pela guitarra de Fernando Alvim, estavam j\u00e1 preparadas para fazer florescer uma m\u00fasica ainda mais sofisticada. \u201cFrustra\u00e7\u00e3o\u201d, a faixa final, fere como um punhal, o derradeiro tom menor assombrando como a revela\u00e7\u00e3o do destino. Noite sem v\u00e9us.<br \/>\n\u201cGuitarra Portuguesa\u201d (1967) constitui o \u00e1lbum de estreia, atrav\u00e9s do qual o seu autor entrou em definitivo para a galeria dos imortais. Todos guardamos, no ouvido, no subconsciente ou no cora\u00e7\u00e3o algumas destas melodias. \u201cDan\u00e7a\u201d evidencia o lado mais enraizado na m\u00fasica tradicional de Paredes, enquanto \u201cFantasia\u201d e \u201cPantomina\u201d ilustram as suas liga\u00e7\u00f5es \u00e0 m\u00fasica antiga, respectivamente da Renascen\u00e7a e da Idade M\u00e9dia. \u201cDivertimento\u201d sintetiza, entre a euforia e o sonho, o modo de constru\u00e7\u00e3o mel\u00f3dica, r\u00edtmica e harm\u00f3nica do m\u00fasico. Muitas m\u00fasicas numa m\u00fasica. Paredes e Alvim, genialmente irmanados no mesmo del\u00edrio, formam uma orquestra subliminar, actuante nos v\u00e1rios planos de escuta. \u201cRomance N\u00ba 1\u201d e \u201cRomance N\u00ba 2\u201d s\u00e3o harpa de luz e \u00e1gua. Paredes e Alvim, guitarras em dan\u00e7a sagrada. Precisamente no meio do alinhamento est\u00e1 \u201cVerdes Anos\u201d. E aqui, de t\u00e3o pr\u00f3ximos e t\u00e3o misteriosamente e para sempre distante (n\u00e3o \u00e9 isto, tamb\u00e9m, a Saudade?) resta-nos o sil\u00eancio e a entrega, mas tamb\u00e9m de uma solid\u00e3o exposta com nudez quase cruel, se trata. M\u00fasica em estado puro, verdadeiro \u201cmovimento perp\u00e9tuo\u201d do qual o executante se faz puro agente medi\u00fanico. Aquele que recebe, d\u00e1 e revela.<br \/>\nAlguns segredos t\u00e9cnicos ajudaram a criar esta obra-prima. Recorda Hugo Ribeiro: \u201cO Paredes n\u00e3o custava nada gravar. A grande dificuldade era conseguir ouvir a guitarra atrav\u00e9s dos altifalantes e da aparelhagem como se estivesse a um metro de dist\u00e2ncia. Eu procurava ouvir a guitarra atrav\u00e9s do microfone do \u2018ponto de vista\u2019 dos meus ouvidos em rela\u00e7\u00e3o ao instrumento. Acabei por arranjar uma solu\u00e7\u00e3o: fui vendo onde ouvia bem a guitarra, o que j\u00e1 era muito longe de Paredes. E pus l\u00e1 um microfone, um outro junto de Paredes, que estava desligado; e afastava dele ao m\u00e1ximo a viola do Fernando Alvim&#8230;\u201d. Completam o \u201cDespertar\u201d tr\u00eas temas extra\u00eddos do LP \u201cCoimbra de Ontem de Hoje\u201d (1967) de Luiz Goes.<\/p>\n<p>\u00c1gua Corrente<\/p>\n<p>\u201cNa Corrente\u201d, CD N\u00ba 2, abre com o tema com o mesmo nome, registado em 1969 para o document\u00e1rio televisivo de Augusto Cabrita mas publicado pela primeira vez em CD apenas em 1996. Nesta faixa Paredes tocou guitarra cl\u00e1ssica improvisando em tempo real sobre as imagens projectadas. Um Paredes diferente, abstracto, por vezes quase ausente que desfalece para logo recuperar o fogo e o f\u00f4lego, umas vezes pr\u00f3ximo do esp\u00edrito da bossa-nova, outras num abandono triste ou na perplexidade de quem escutando fora de si, a si mesmo se escuta. O \u201cmundo segundo Carlos Paredes\u201d \u00e9 Carlos Paredes. Em seu redor: paredes de \u00e1gua, paredes de diamante, paredes de cristal. Transparentes,. Inquebr\u00e1veis. Doze minutos e meio de vida como ela \u00e9, ou seja, m\u00fasica: Movimento. Enigma. Tempo. \u201cNa Corrente\u201d \u00e9 um t\u00edtulo perfeito.<br \/>\nPor isso se cai aos trambolh\u00f5es quando, sem aviso, a voz de Jos\u00e9 Carlos Ary dos Santos se faz ouvir lendo poemas medievais e contempor\u00e2neos, com Paredes a acompanh\u00e1-lo. O \u00e1lbum chamava-se \u201cEspiral Op. 70\u201d (foi uma oferta de Natal da ag\u00eancia de publicidade Espiral, onde o poeta era um dos criativos&#8230;) e teve edi\u00e7\u00e3o privada em 1969. Alguns solos (j\u00e1 na guitarra portuguesa) soam distantes. Ary declama \u201cMeu amor, meu amor\u201d, poema seu que Am\u00e1lia cantaria com m\u00fasica de Alain Oulman.<br \/>\nVem a seguir uma raridade: \u201cMeu Pa\u00eds2 (1970), de parceria com a cantora e actriz Cec\u00edlia de Melo, ent\u00e3o companheira de Paredes. Seis tradicionais mais outros tantos originais do guitarrista, sobre poemas de Manuel Alegre, M\u00e1rio Gon\u00e7alves e Carlos de Oliveira. A voz faz lembrar a de C\u00e2ndida Branca-Flor nos tempos folk com a Banda do Casaco. Paredes ouve-a embevecido e d\u00e1-lhe o c\u00e9u repintado da obra anterior. Mas c\u00e9u, seja como for&#8230;<br \/>\n\u201cDan\u00e7as\u201d, CD N\u00ba 3, traz \u201cMovimento Perp\u00e9tuo\u201d, de 1971. Um cl\u00e1ssico. Ao lado dos in\u00e9ditos, o LP inclu\u00eda um par de temas compostos para a banda sonora de \u201cMudar de Vida\u201d, de Paulo Rocha, com a participa\u00e7\u00e3o de Tiago Velez, na flauta, o que confere \u00e0 m\u00fasica uma sonoridade com resson\u00e2ncias \u201cnew age\u201d na linha da m\u00fasica de Paul Horn. \u00c9 o \u00e1lbum em que a veia improvisadora de Paredes se sedimenta num estilo reconhec\u00edvel, feito de reminisc\u00eancias de frases antigas projectadas, paradoxalmente, de acordo com um desejo de supera\u00e7\u00e3o e descoberta constantes.<br \/>\n\u201cQuando entr\u00e1mos para est\u00fadio\u201d, recorda Hugo Ribeiro, \u201co Paredes dizia sempre que \u00edamos fazer experi\u00eancias, nunca era para gravar. \u2018Vamos ver, se calhar, talvez&#8230;\u2019m dizia ele, e fic\u00e1vamos sempre em suspenso, com a sess\u00e3o adiada para o dia seguinte. O Paredes tocava por ali fora e no outro dia vinha ouvir. E depois dizia-me: \u2018Oh Ribeiro, voc\u00ea tinha raz\u00e3o! Aquilo ficou bem!\u2019. Ele entusiasmava-se a tocar. Aquela for\u00e7a an\u00edmica era fenomenal.<br \/>\nH\u00e1 ainda \u201cO Fantoche\u201d (outra melodia entranhada nos ouvidos de todos) que sobrou destas sess\u00f5es, e outras vers\u00f5es, de fado de Coimbra que, pela sua especificidade, foram editadas separadamente em \u201csingle\u201d. Uma delas, \u201cBalada de Coimbra\u201d, com arranjo de Artur Paredes, foi respons\u00e1vel por um desentendimento entre pai e filho. Consta que Artur se ter\u00e1 insurgido contra o facto do filho gravar um arranjo seu sem tocar suficientemente bem&#8230; Os restantes seis temas fazem parte de um \u00e1lbum encetado em 1973 mas apenas editado em 1996 na compila\u00e7\u00e3o de raridades \u201cNa Corrente\u201d. Carlos Paredes reformulara entretanto alguns destes temas para inclus\u00e3o em trabalhos posteriores, \u201cConcerto em Frankfurt\u201d e \u201cEspelho de Sons\u201d, bem como para uma edi\u00e7\u00e3o exclusiva alem\u00e3, \u201cO Oiro e o Trigo2, feita sem o consentimento da editora Valentim de Carvalho, com quem tinha contrato, o que motivaria um corte de rela\u00e7\u00f5es entre ambas as partes.<\/p>\n<p>O Destino Nas M\u00e3os<\/p>\n<p>\u201cAs M\u00e3os\u201d re\u00fane material de \u201c\u00c9 Preciso um Pa\u00eds\u201d (1974), com poemas e voz de Manuel Alegre, e \u201cQue Nunca Mais\u201d (1975), com Adriano Correia de Oliveira. No primeiro, Carlos Paredes socorre-se do \u201cguitarr\u00e3o2, uma guitarra portuguesa modificada que abrangia as escalas da guitarra cl\u00e1ssica e da guitarra portuguesa normal. A revolu\u00e7\u00e3o de Abril ainda fervia e os poemas de Manuel Alegre afirmavam-se em conformidade. Tempos de idealismo que o tempo n\u00e3o cumpriu. Paredes, com a sua proverbial generosidade e o empenhamento pol\u00edtico, deu-se de corpo e alma a esta luta que tamb\u00e9m foi a sua mas da qual outros se aproveitaram Sigamos, para abreviar, que a guitarra de Paredes casava mal com um com\u00edcio. A sua revolu\u00e7\u00e3o era outra e foi essa que verdadeiramente modificou a m\u00fasica em Portugal.<br \/>\nJ\u00e1 o encontro, em dois temas, com Adriano Correia de Oliveira, seu \u201ccompanheiro de estrada\u201d, est\u00e1 mais pr\u00f3ximo da corrente politizada da MPP do p\u00f3s-25 de Abril, cima uma veia tradicional menos dependente da mensagem e do tom panflet\u00e1rio veiculada pelo tom declamat\u00f3rio de Alegre.<br \/>\nA grava\u00e7\u00e3o ao vivo de 1982, na \u00d3pera de Frankfurt, que deu origem a \u201cConcerto em Frankfurt\u201d fecha o alinhamento de \u201cAs M\u00e3os\u201d. O concerto foi gravado sem o conhecimento de Paredes, para n\u00e3o o enervar, e nele encontramos um m\u00fasico em que a tristeza (o desespero?) substitu\u00edra j\u00e1 a melancolia rom\u00e2ntica e o poder de afirma\u00e7\u00e3o de \u201cGuitarra Portuguesa\u201d. \u00c9 fado, realmente fado, a escurid\u00e3o que escorria ent\u00e3o da sua guitarra. Tocava j\u00e1 como se adivinhasse um desfecho tr\u00e1gico, numa luta tit\u00e2nica contra a tirania das notas, procurando esventr\u00e1-las, magoando-as porque elas o magoavam. Redimindo-as, afinal, num \u201clado de l\u00e1\u201d que chega a ser aflitivo, nomeadamente nos seis cantos que comp\u00f5em a \u201csuite\u201d \u201cSeis Cantos Improvisados sobre a Cidade\u201d, ficando o lado mais l\u00edrico reservado para as \u201cSeis Guitarras sobre uma F\u00e1bula\u201d.<\/p>\n<p>Inventar a Solid\u00e3o<\/p>\n<p>Outra colabora\u00e7\u00e3o, desta feita com Carlos do Carmo, em \u201cFado Moliceiro\u201d, para o \u00e1lbum \u201cUm Homem no Pa\u00eds\u201d (1983), abre o CD seguinte, genericamente intitulado \u201cImprovisos\u201d. Mas a \u201cpe\u00e7a de resist\u00eancia\u201d \u00e9 constitu\u00edda pelos dois longos \u201cdi\u00e1logos\u201d da guitarra de Paredes com o piano de Ant\u00f3nio Victorino d\u2019Almeida que formam \u201cInven\u00e7\u00f5es Livres\u201d (1986). Desse encontro, surgido como consequ\u00eancia do interesse manifestado por Paredes em encontrar pontes com outras m\u00fasicas, resultaram espor\u00e1dicas conflu\u00eancias mas, acima de tudo, a evid\u00eancia de duas vis\u00f5es divergentes da m\u00fasica. Paredes tocava voltado para dentro. Vitorino d\u2019Almeida \u00e9 um extrovertido. As cascatas de piano afogaram a guitarra, outras vezes teimosamente tentando chamar a aten\u00e7\u00e3o da guitarra para espa\u00e7os comuns, procurando atrair, aproximar mas, por fim, resignando-se \u00c0 hipot\u00e9tica aproxima\u00e7\u00e3o de dois mon\u00f3logos em vez da comunh\u00e3o. Paredes exigia, sem querer, subservi\u00eancia. Ou uma complementaridade como aquela que lhe era oferecida por Fernando Alvim. Para o maestro tal seria impens\u00e1vel. E a Paredes um s\u00f3 labirinto chegava.<br \/>\nEm \u201cAsas\u201d arruma-se o imprescind\u00edvel \u201cEspelho de Sons\u201d, revisto e aumentado na primeira transi\u00e7\u00e3o de LP para CD. Antologia de temas antigos retrabalhados, nela descobrimos o guitarrista na sua melhor forma, conquistando a m\u00fasica o dom\u00ednio de si mesma nas suas mais \u00ednfimas \u201cnuances\u201d. Paredes tornara-se senhor do seu destino enquanto m\u00fasico. Sente-se a lucidez em cada frase, a vis\u00e3o e a sabedoria do que antes era intui\u00e7\u00e3o e mediunidade. Paredes ataca as notas, j\u00e1 m\u00e3o para as fazer sangrar, mas para se afirmar como igual. N\u00e3o toca \u201ccontra\u201d mas \u201ccom\u201d. A trag\u00e9dia, de inevit\u00e1vel, \u00e9 integrada num patamar de exist\u00eancia superior. Paredes ganhara \u201cAsas sobre o Mundo\u201d (dois in\u00e9ditos acrescentados ao conceito original de \u201cEspelho de Sons\u201d, em edi\u00e7\u00e3o exclusiva para a TAP) e \u00e9 com elas que desce o pano sobre o sexto CD de \u201cO Mundo Segundo Carlos Paredes\u201d.<\/p>\n<p>A Vida, Segundo a Segundo<\/p>\n<p>\u00c9 sabida a incompatibilidade de Paredes em dialogar com outros m\u00fasicos, outras m\u00fasicas. Mas nem por isso os outros m\u00fasicos deixaram de tentar. Charlie Haden, nome hist\u00f3rico do contrabaixo no jazz, insistiu no acasalamento, propondo a descoberta a dois de novos caminhos. Tentativa de uni\u00e3o que em 1990 foi editada em \u00e1lbum, \u201cCharlie Haden e Carlos Paredes\u201d, no qual o contrabaixista cedeu ao guitarrista o maior espa\u00e7o poss\u00edvel no alinhamento. Assim se inicia o CD n\u00famero sete desta integral, \u201cDi\u00e1logos\u201d. De Haden, apenas o hino \u201cSong for Che\u201d. O resto, em temas como \u201cDan\u00e7a dos camponeses\u201d, \u201cMarionetas\u201d, \u201cBalada de Coimbra\u201d, \u201cDivertimento\u201d ou o incontorn\u00e1vel \u201cVerdes anos\u201d, saiu da pena e do transe de Paredes. Haden remete-se a um papel discreto. A improvisa\u00e7\u00e3o, segundo Paredes, n\u00e3o segue os par\u00e2metros do jazz. \u00c9 caminho escuro, mas tamb\u00e9m cravejado de estrelas e cometas. Diante da guitarra ergue-se um espelho. Onde se reflecte o mundo, mas s\u00f3 \u00e0 sua imagem. Tr\u00eas temas finais completam \u201cDi\u00e1logos\u201d, todos gravados na sess\u00e3o realizada em 1992 no Coliseu de Lisboa com os Madredeus. Paredes interpreta s\u00f3 \u201cMudar de vida\u201d, acompanhando o grupo de Teresa Salgueiro e Pedro Ayres Magalh\u00e3es em \u201cCanto de embalar\u201d (com assinatura de Pedro Ayres e Paredes) e no original do grupo, \u201cO navio\u201d.<br \/>\nFaltava a viagem final, a que preenche o derradeiro CD, \u201cMem\u00f3rias\u201d. Paredes, o m\u00fasico, eternizou-se. Paredes, o homem, fraquejava ao fundo do t\u00fanel, desamparado, as m\u00e3os presas nas garras da doen\u00e7a. \u201cCan\u00e7\u00e3o para Titi\u201d, de 2000, sobrevive como testemunho pungente de uma arte que procurou \u2013 e conseguiu \u2013 redimir o mundo da dor. Foi preciso montar \u201ctakes\u201d, colar frases e notas. Para erguer, no final, intacta, a est\u00e1tua de um homem simples que quando tocava guitarra se transformava em mito. Entre o cataclismo de amor que \u00e9 \u201cGuitarra Portuguesa\u201d e a \u201cValsa Diab\u00f3lica\u201d que \u00e9 uma das m\u00faltiplas m\u00e1goas de \u201cTiti\u201d, a m\u00fasica de Paredes cresceu, como escreve Jo\u00e3o Lopes no posf\u00e1cio da Integral, \u201cuma pura identidade em constru\u00e7\u00e3o: uma m\u00fasica carnal, quase animista, ao mesmo tempo que cerebral, pedagogicamente a enunciar a sua pr\u00f3pria ideia de liberdade (&#8230;) uma arte de n\u00e3o abdicar das raz\u00f5es da solid\u00e3o\u201d.<br \/>\nAo escutarmos e \u2013 melhor ainda, ouvirmos \u2013 \u201cO Mundo Segundo Carlos Paredes\u201d sentimo-nos mais s\u00f3s e menos s\u00f3s. Mas \u00e9 essa a ess\u00eancia da Saudade. Saudade do que somos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>07.03.2003 Carlos Paredes \u2013 A Guitarra Que Venceu O Fado Se Am\u00e1lia foi o fado, Paredes \u00e9 a sua transcend\u00eancia. Am\u00e1lia foi a onda, n\u00edtida e exacta. 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