{"id":2643,"date":"2011-02-23T10:33:16","date_gmt":"2011-02-23T17:33:16","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=2643"},"modified":"2011-02-23T10:33:16","modified_gmt":"2011-02-23T17:33:16","slug":"united-states-of-lou-reed","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2011\/02\/23\/united-states-of-lou-reed\/","title":{"rendered":"United States of Lou Reed"},"content":{"rendered":"<p>04.07.2003<\/p>\n<p><strong>United States of Lou Reed <\/strong><\/p>\n<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 234;\ngoogle_ad_height = 60;\ngoogle_ad_format = \"234x60_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p><a href=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/louReed.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/louReed.jpg\" alt=\"\" title=\"louReed\" width=\"450\" height=\"882\" class=\"alignnone size-full wp-image-2644\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/louReed.jpg 450w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/louReed-153x300.jpg 153w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Traz a Coimbra \u201cNYC Man\u201d e \u201cThe Raven\u201d, pe\u00e7as do \u201cpuzzle\u201d da vida de um homem do tamanho de Nova Iorque.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"YouTube video player\" width=\"480\" height=\"390\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/embed\/Uri6LLCZVjg\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>\u201cDuas guitarras, baixo, bateria. Qualquer banda os pode tocar. \u00c9 disto que gosto nas minhas can\u00e7\u00f5es: Pode-se ter o QI de uma tartaruga e tocar-se uma can\u00e7\u00e3o de Lou Reed. \u00c9 tamb\u00e9m o que aprecio no rock \u2018n\u2019 roll. Qualquer um consegue tocar rock \u2018n\u2019 roll, incluindo eu. Tr\u00eas acordes chegam-me perfeitamente. N\u00e3o me interessa aprender mais nenhum. Prefiro dominar estes tr\u00eas. Se s\u00e3o suficientemente bons para John Lee Hooker, tamb\u00e9m s\u00e3o bons para mim\u201d.<br \/>\n\u00c9 deste modo que Lou Reed comenta \u201cHeroin\u201d, uma das can\u00e7\u00f5es emblem\u00e1ticas da sua carreira, inclu\u00edda na antologia \u201cNYC Man\u201d, que serve de base ao alinhamento do duplo concerto em Coimbra, hoje e amanh\u00e3, pelas 22h, no Jardim da Sereia. Atitude de mod\u00e9stia que, de certa forma, \u00e9 contrariada pela grandiloqu\u00eancia de \u201cThe Raven\u201d, o seu mais recente \u00e1lbum, com as suas orquestra\u00e7\u00f5es e uma complexidade, musical e po\u00e9tica, que desmente a teoria dos tr\u00eas acordes. J\u00e1 nos est\u00e1vamos a esquecer: Lou Reed tamb\u00e9m \u00e9 capaz de contar uma boa anedota.<br \/>\nClaro que a voz \u00e9 monoc\u00f3rdica e que a estrutura das can\u00e7\u00f5es permanece, regra geral, fiel aos mandamentos do rock \u2018n\u2019 roll, o que n\u00e3o obsta a que a obra gravada de Lou Reed possa ser considerada um dos blocos de apontamentos \u2013 onde este nova-iorquino de 59 anos anotou de tudo um pouco \u2013 mais ricos da m\u00fasica popular dos nossos dias. Entre as excep\u00e7\u00f5es, contam-se a descarga de ru\u00eddo el\u00e9ctrico em bruto de \u201cMetal Machine Music\u201d (cuidadosamente remasterizado numa edi\u00e7\u00e3o recente, Lou Reed d\u00e1 muita import\u00e2ncia \u00e0 qualidade de som), \u201cThe Bells\u201d, que o pr\u00f3prio define como uma \u201cmini sinfonia rock\u201d (cuidado, Ant\u00f3nio Manuel Ribeiro), com a participa\u00e7\u00e3o do trompetista oriundo do \u201cfree jazz\u201d Don Cherry, e o novo \u201cThe Raven\u201d, obra conceptual inspirada na literatura fant\u00e1stica de Edgar Allan Poe.<br \/>\n\u00c9 igualmente claro, ou escuro, que discos como \u201cBerlin\u201d, uma daquelas obras que nos faz provar o sangue e a noite por um c\u00e1lice do mais puro cristal, \u201cTransformer\u201d, que alguns arrumaram rapidamente na gaveta do \u201cglam rock\u201d, ou \u201cMagic and Loss\u201d, requiem, de uma beleza dolorosa, por um amigo morto, est\u00e3o longe de se confinar \u00e0 constela\u00e7\u00e3o do rock \u2018n\u2019 roll e que aquela asser\u00e7\u00e3o deReed dever\u00e1 ser entendida \u00e0 luz da ironia. Ou, melhor dizendo, do sarcasmo.<\/p>\n<p>Auto-Retrato<br \/>\nO que Lou Reed apresentar\u00e1 ao vivo em Coimbra, depois do concerto semifalhado que constituiu a sua anterior apresenta\u00e7\u00e3o em Portugal, no encerramento da Expo-98, foge \u00e0s regras de funcionamento habituais dos concertos \u201cantol\u00f3gicos\u201d. \u00c0 semelhan\u00e7a de \u201cNYC Man\u201d, n\u00e3o se trata tanto de um \u201cbest of\u201d de propaganda dos \u201cmaiores \u00eaxitos\u201d, mas de uma esp\u00e9cie de filme (ou document\u00e1rio, Reed chama-lhe um auto-retrato) em que cada can\u00e7\u00e3o se relaciona com as que lhe est\u00e3o pr\u00f3ximas, segundo um encadeamento onde prevalecem as conota\u00e7\u00f5es subterr\u00e2neas, as afinidades psicol\u00f3gicas ou geogr\u00e1ficas (em que Nova Iorque aparece, obviamente, como uma das personagens em destaque) ou inusitadas coincid\u00eancias da mat\u00e9ria sonora propriamente dita (o \u201criff\u201d de guitarra de \u201cEcstasy\u201d, de 2000, remete e \u00e9 o prolongamento natural de um outro \u201criff\u201d de guitarra, de \u201cSweet Jane\u201d, dos VU de 1970).<br \/>\nFuncionar de acordo com estes par\u00e2metros at\u00e9 \u00e0s suas \u00faltimas consequ\u00eancias, no disco e em concerto, requer a consci\u00eancia de um vigilante e um pulso de ferro. Assim se compreende que tenha sido o pr\u00f3prio Lou Reed a determinar um alinhamento onde as evid\u00eancias s\u00e3o passagens atrav\u00e9s de buracos negros, ligando mundos que a olho nu parecem t\u00e3o afastados entre si como o sonho da rotina do quotidiano.<br \/>\nDe que outra forma se poder\u00e1 explicar que, na compila\u00e7\u00e3o, \u201cWho am I?\u201d, de \u201cThe Raven\u201d (2002), desemboque em \u201cSweet Jane\u201d, dos Velvet, ou que \u201cKilling Your Sons\u201d (grava\u00e7\u00e3o ao vivo de 1984) se interponha entre \u201cWalk on the Wild Side\u201d e \u201cVicious\u201d, ambas de \u201cTransformer\u201d, embora neste caso, a pr\u00f3pria sequ\u00eancia de t\u00edtulos atire j\u00e1 a imagina\u00e7\u00e3o para um enredo perturbante? Ou que a evoca\u00e7\u00e3o termine nos rec\u00f4nditos, mas t\u00e3o actuais, sons de \u201cPale blue eyes\u201d, dos Velvet do \u00e1lbum hom\u00f3nimo de 1969 (ao vivo ser\u00e1 \u201cCandy Says\u201d)?<br \/>\nAinda o coment\u00e1rio mordaz: \u201cQuando se faz uma compila\u00e7\u00e3o, a \u00faltima pessoa com quem se fala \u00e9 o artista. Geralmente at\u00e9 se espera que ele j\u00e1 esteja morto de maneira a n\u00e3o incomodar com as suas sugest\u00f5es.\u201d Em \u201cNYC Man\u201d, pelo contr\u00e1rio, Lou Reed foi contactado e foi ele quem seleccionou e sequenciou esta hist\u00f3ria de 25 anos na qual se interligam e justap\u00f5em \u2013 numa imagem de aparente caos que ser\u00e1, afinal, uma ordem, a mesma ordem babil\u00f3nica sobre a qual se constroem os m\u00faltiplos ritmos e exist\u00eancias de Nova Iorque -, como se diz no disco, o melodrama e a tragicom\u00e9dia, rock visceral e m\u00fasica ambiental austera. Tudo isto que nos concertos de Coimbra estar\u00e1 representado atrav\u00e9s do m\u00edtico \u201cThe Velvet Underground &#038; Nico\u201d \u2013 com a inclus\u00e3p no alinhamento de \u201cSunday morning\u201d, \u201cVenus in Furs\u201d e \u201cAll Tomorrow Parties\u201d (Laurie Anderson suportar\u00e1 a presen\u00e7a do fantasma de Nico?) \u2013 e da obra-prima de 1973, com \u201cMen of good fortune\u201d e a desola\u00e7\u00e3o de \u201cThe bed\u201d.<\/p>\n<p>O Artista Est\u00e1 \u201cAlto\u201d<br \/>\nH\u00e1 quem diga que o estranho da hist\u00f3ria \u00e9 o facto de Lou Reed ainda estar vivo. Que o \u201canjo do bizarro\u201d, parafraseando o t\u00edtulo de um conto de Edgar Allan Poe, sorria ainda ao explicar que o \u201clado negro\u201d e o \u201clado claro\u201d n\u00e3o s\u00e3o mais do que os dois lados de uma mesma moeda a que chama a \u201cvida real\u201d e que \u00e9 imposs\u00edvel sermos sempre infelizes ou felizes (embora uma can\u00e7\u00e3o como \u201cPerfect Day\u201d mostre que \u00e9 poss\u00edvel ser-se ambas as coisas ao mesmo tempo), ou que can\u00e7\u00f5es que nos habitu\u00e1mos a associar a um estado de depress\u00e3o cr\u00f3nica do artista sejam afinal como \u201cVicious\u201d, o resultado de bons momentos e de \u201cgreat fun\u201d vividos no est\u00fadio na companhia de amigos como Mick Ronson ou Bowie.<br \/>\nSobrevivente dos tempos em que a sua \u00fanica amiga era a hero\u00edna ou diletante hedonista, cronista pop da fauna da \u201cBig Apple\u201d ou poeta iluminado que ousa comparar as palavras de \u201cStreet Hassle\u201d a um mon\u00f3logo de Tennesse Williams, Lou Reed \u00e9 o puto sem grande voz que queria ser o artista que matou a arte, no circo dada antipsicad\u00e9lico com o cartaz Velvet Underground, mas que acabaria por se tornar o grande edif\u00edcio urbano, t\u00e3o \u201calto\u201d como o \u201cempire state human\u201d de que falavam os Human League. Lou Reed, o escarro, e Lou Reed , o esteta. Lou Reed, que se atrapalhou quando, em 1972, na grava\u00e7\u00e3o do \u00e1lbum de estreia, \u201cLou Reed\u201d, lhe puseram pela frente dois dinossauros do rock progressivo, Rick Wakeman e Steve Howe (ambos dos Yes!), e, anos mais tarde, viria a casar-se com a avatar da vanguarda chamada Laurie Anderson. Um corpo, dois rostos. Laurie Anderson, a autora do megadocumento multim\u00e9dia \u201cUnited States of America\u201d, Lou Reed, capaz de injectar na veia de uma can\u00e7\u00e3o de tr\u00eas minutos o reservat\u00f3rio completo de ADN (\u00e1cido defoxirribonucleico, embora o autor de \u201cHeroin\u201d tivesse especial predilec\u00e7\u00e3o pelo p\u00f3 branco) do rock &#038; roll. Cada um deles alter-ego do outro. Ambos representantes dos estados unidos da m\u00fasica popular. Mais especificamente: estados alterados.<\/p>\n<p>Metal e Magia<br \/>\nLou Reed, que se pode gabar de, por sugest\u00e3o da hero\u00edna, ter gravado o \u00e1lbum mais inaud\u00edvel da m\u00fasica popular, o atr\u00e1s citado \u201cMetal Machine Music\u201d, cuja audi\u00e7\u00e3o, na \u00edntegra (coisa que, diz-se \u00e0 laia de anedota, at\u00e9 ao presente ningu\u00e9m logrou aguentar), equivalente a uma radiografia sonora do c\u00e9rebro de um condenado \u00e0 cadeira el\u00e9ctrica no momento da execu\u00e7\u00e3o. Lou Reed, o contador de hist\u00f3rias ternas, das tardes que assassinam o tempo, a ver \u201cthe animals in the zoo\u201d. Lou Reed das fantasmagorias, nas asas do corvo alimentado com os poemas putrefactos, o \u00e1lcool e o \u00f3pio de Poe, em \u201cThe Raven\u201d. Lou Reed, sem receio de empunhar o escalpelo de \u00c9dipo em \u201cRock minuet\u201d. Lou Reed, a fazer soar os sinos subliminares da loucura, em \u201cThe Bells\u201d. Lou Reed, a dan\u00e7ar nos mais datados \u201cnightclubs\u201d de \u201cdisco sound\u201d de NYC, em \u201cSally Can\u00b4t Dance\u201d. Lou Reed da grande perda, que em vez de se abandonar ao abra\u00e7o uterino da morte, e correr para a porta de sa\u00edda, optou por seguir a seta a indicar a (re)entrada na vida, em \u201cMagic and Loss\u201d. E, no entanto, a sua voz continua a ser monoc\u00f3rdica. Quantas hist\u00f3rias cabem numa s\u00f3 corda da garganta?<br \/>\nLou Reed vir\u00e1 a Coimbra acompanhado por Fernando Saunders (baixo), Mike Rathke (guitarra), Jsane Scarpantoni (violoncelo) e Antony (o \u201ccrooner\u201d do momento, com voz de \u201ccastratto\u201d, que actuou recentemente em Portugal ao lado dos Current 93). Sentado algures no palco estar\u00e1 o mestre Guang Yi Ren, professor de artes marciais e terapeuta. Terapia por terapia, antes ouvir \u201cMetal Machine Music\u201d de ponta a ponta.<\/p>\n<p>Os Discos Do Concerto<br \/>\nNa actual digress\u00e3o, o \u201cNYC Man\u201d recuou aos prim\u00f3rdios da sua obra, dela tirando a percentagem maior de can\u00e7\u00f5es para o alinhamento dos concertos. Com o corvo a sobrevoar.<\/p>\n<p><strong>Velvet Underground &#038; Nico (1967)<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/velvetUnderground+Nico.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/velvetUnderground+Nico.jpg\" alt=\"\" title=\"velvetUnderground+Nico\" width=\"500\" height=\"500\" class=\"alignnone size-full wp-image-2645\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/velvetUnderground+Nico.jpg 500w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/velvetUnderground+Nico-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/velvetUnderground+Nico-300x300.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.mediafire.com\/?iyjnm0mty2k\" target=\"_blank\">LINK<\/a><\/p>\n<p>O \u00e1lbum da banana \u00e9 o \u00e1lbum que jamais teria existido sem o patroc\u00ednio de Andy Warhol, o homem-banana. Geralmente considerado como um marco e das obras mais seminais do rock contempor\u00e2neo (seria fastidioso enumerar as bandas para quem os VU s\u00e3o a funda\u00e7\u00e3o), \u201cThe Velvet Underground &#038; Nico\u201d desvia-se apenas por esse pequeno sen\u00e3o de n\u00e3o ser um \u00e1lbum rock. O tribalismo r\u00edtmico deriva antes dos mantras minimalistas de LaMonte Young e do monolitismo hipn\u00f3tico de Tony Conrad, outro frequentador do \u201cTeatro da M\u00fasica Eterna\u201d, do qual John Cale fizera parte, aliada ao dada\u00edsmo do circo Exploding Plastic Inevitable (Warhol, hidra de muitas cabe\u00e7as). S\u00f3 que \u201cVU&#038;N\u201d desce \u00e0 pra\u00e7a p\u00fablica da m\u00fasica popular, servida com uma viol\u00eancia inaudita. E uma voz sem fundo reflectida nas \u00e1guas do po\u00e7o. Sem Nico, a m\u00fasica deste disco teria sido raiva e pedregulhos. Com ela, a passagem do veludo pela pele deixa a sensa\u00e7\u00e3o da cobra. Fria. Por\u00e9m, t\u00e3o pura como a noite.<\/p>\n<p><strong>Transformer (1972)<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/louReed_Transformer.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/louReed_Transformer.jpg\" alt=\"\" title=\"louReed_Transformer\" width=\"400\" height=\"400\" class=\"alignnone size-full wp-image-2646\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/louReed_Transformer.jpg 400w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/louReed_Transformer-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/louReed_Transformer-300x300.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.mediafire.com\/?xhmtzmnhyvm\" target=\"_blank\">LINK<\/a><\/p>\n<p>A ideia era fazer de Lou Reed uma estrela de rock. Miss\u00e3o cumprida. \u201ctransformer\u201d entrou nos tops rodeado de uma aura de v\u00edcio e \u201cglamour\u201d, tudo o que Warhol lhe ensinara mas que s\u00f3 a produ\u00e7\u00e3o e os arranjos da dupla David Bowie (tamb\u00e9m ele fascinado por Warhol) e Mick Ronson conseguiram transformar num objecto apelativamente pop. O inesquec\u00edvel solo de guitarra de Ronson em \u201cVicious\u201d, os coros de \u201cAndy\u2019s chest\u201d, de constru\u00e7\u00e3o ostensivamente bowieana, a inexorabilidade mel\u00f3dica de \u201cPerfect Day\u201d e \u201cWalk on the wild side\u201d, cl\u00e1ssicos eternos, polos apenas aparentemente contr\u00e1rios de uma \u00fanica viv~encia no fio da navalha, n\u00e3o fazem esquece ro \u201cvaudeville\u201d ressacado de \u201cGoodnight ladies\u201d, o martelo-pil\u00e3o dos Velvets, \u201cHangin\u2019 round\u201d, ou o \u201cflash\u201d que daria capa de revista, \u201cNew York telephone conversation\u201d. \u201cTransformer\u201d poderia ter sido um disco de Bowie. Eleg\u00e2ncia e teatro. Reed imprimiu-lhe algo mais: a crueldade.<\/p>\n<p><strong>Berlin (1973)<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/louReed_Berlin.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/louReed_Berlin.jpg\" alt=\"\" title=\"louReed_Berlin\" width=\"400\" height=\"400\" class=\"alignnone size-full wp-image-2647\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/louReed_Berlin.jpg 400w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/louReed_Berlin-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/louReed_Berlin-300x300.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.mediafire.com\/?mltjzjqzmdm\" target=\"_blank\">LINK<\/a><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 um disco para se ouvir muitas vezes. Faz-nos sentir como neve. Quando o gravou, Lou Reed nunca tinha estado nesta cidade. Que importa, se o resultado \u00e9 fiel? \u00c1lbum da solid\u00e3o e decad\u00eancia, come\u00e7a com a recorda\u00e7\u00e3o imposs\u00edvel de uma \u00faltima valsa do p\u00f3s-guerra dan\u00e7ada num cabar\u00e9 de espectros, mas logo um eco isola a voz numa c\u00e1psula de vazio e aus\u00eancia. Eis a Berlim onde cada um desce quando nada resta, p\u00e1tria dos isolados, seringa de sonhos sem cor. Desprende-se de \u201cBerlin\u201d uma atmosfera de desola\u00e7\u00e3o grandiosa, de perda da inoc\u00eancia. \u201cMan of good fortune\u201d \u00e9 um estalo desferido por quem diz \u201cI don\u2019t care at all\u201d. E quando o corpo se deixa cair em \u201cThe bed\u201d, sentimo-nos deslizar para o interior de um caix\u00e3o. Escutando-se ainda a voz de uma mulher que j\u00e1 l\u00e1 n\u00e3o est\u00e1. \u201cThis is the place where we used to live&#8230;\u201d. Adeus. \u201cWhat a feeling\u201d. O que sobra desta obra-prima intemporal \u00e9 dito como se n\u00e3o pudese ser de outra forma: \u201cSad song\u201d. Com orquestra, bandeiras e foguetes a disfar\u00e7ar a dor.<\/p>\n<p>The Raven (2002)<br \/>\nEm Poe viu Lou Reed uma alma g\u00e9mea. \u00c0s mesmas perguntas: \u201cQuem sou eu?\u201d, \u201cPorque \u00e9 que amamos aquilo que n\u00e3o podemos ter?\u201d, \u201cPorque nos apaixonamos pelas coisas erradas?\u201d responderam ambos com o excesso. \u201cThe Raven\u201d re\u00fane material composto por Reed para um projecto mais vasto, \u201cPOE-Try\u201d, com encena\u00e7\u00e3o de Robert Wilson. Duas edi\u00e7\u00f5es distintas divergem no conte\u00fado. Vers\u00e3o simples composta maioritariamente por can\u00e7\u00f5es. Vers\u00e3o dupla com texto declamado, passagens instrumentais e uma vis\u00e3o mais lata do universo de Poe onde cabem o sexo e as drogas. Duas can\u00e7\u00f5es antigas, \u201cPerfect Day\u201d e \u201cThe bed\u201d, foram objecto de novos arranjos e a lista de m\u00fasicos inclui Laurie Anderson, David Bowie, Kate &#038; Anna McGarrigle e a lenda do \u201cfree jazz\u201d, Ornette Coleman.<\/p>\n<p>O Corvo Ou A Pop Nas Asas Do Horror<\/p>\n<p>Reed n\u00e3o foi o \u00fanico, na pop, a perder-se nos horrores de Poe. Tamb\u00e9m Peter Hammill e Diamanda Galas traduziram a decad\u00eancia e a morte que ensombram os seus contos.<\/p>\n<p>\u201cThe Raven\u201d, o corvo que Lou Reed arrancou do t\u00famulo de Edgar Allan Poe para sobre ele construir uma sinfonia l\u00fagrube que \u00e9 como um manto de sombras tombado sobre uma Nova Iorque crepuscular, de s\u00edmbolos e entes deca\u00eddos, inscreve-se numa linha de \u201crock fant\u00e1stico\u201d, que deve a sua inspira\u00e7\u00e3o sobretudo, aos escritores simbolistas do s\u00e9c. XIX. Entre estes, o novelista e poeta norte-americano Edgar Allan Poe (1809-1849) exerce um poderoso fasc\u00ednio sobre a cultura pop, enquanto transdutor de mitologias em que o medo, o mist\u00e9rio e o sobrenatural assumem papel de relevo.<br \/>\nPoe (como H.P. Lovecraft, outro construtor de horrores, no limite da racionalidade mais alucinada, que poucos se atreveram a assumir como bras\u00e3o da pop, ainda que um grupo psicad\u00e9lico americano, dos anos 60 se tenha apropriado do seu nome), fornece, atrav\u00e9s da sua obra, maioritariamente composta por narrativas curtas, todo um imagin\u00e1rio em que o sobrenatural surge n\u00e3o tanto como uma emana\u00e7\u00e3o da transcend\u00eancia, mas como uma deforma\u00e7\u00e3o do real \u2013 o monstro da irracionalidade que se infiltra por uma brecha no c\u00e9rebro e provoca a altera\u00e7\u00e3o das percep\u00e7\u00f5es. O corvo que traz as m\u00e1s novas do Inferno e amaldi\u00e7oa a normalidade. A apropria\u00e7\u00e3o deste imagin\u00e1rio por Lou Reed seria ent\u00e3o mais do que uma fuga para mundos idealizados ou a queda nos abismos infernais, a fixa\u00e7\u00e3o\/sublima\u00e7\u00e3o do hiper-realismo que desde sempre pautou a sua produ\u00e7\u00e3o discogr\u00e1fica. As alucina\u00e7\u00f5es de \u00f3pio do autor de \u201cO anjo do bizarro\u201d, \u201cBerenice\u201d, \u201cO po\u00e7o e o p\u00eandulo\u201d e \u201cO barril de amontillado\u201d vivem em paralelo com as muta\u00e7\u00f5es e aberra\u00e7\u00f5es da Nova Iorque das mil e uma taras, da hero\u00edna e da paran\u00f3ia, das criaturas marginais, \u201cfreaks\u201d perdidos nessa outra alucina\u00e7\u00e3o que adv\u00e9m da aliena\u00e7\u00e3o, da separa\u00e7\u00e3o e, em \u00faltima inst\u00e2ncia, da esquizofrenia que corta em absoluto as amarras que ligam o indiv\u00edduo ao tecido social.<br \/>\nOutros exemplos se podem apontar da rela\u00e7\u00e3o entre o universo liter\u00e1rio fant\u00e1stico de Poe e a pop. O m\u00fasico e poeta Peter Hammill, ex-l\u00edder dos Van Der Graaf Generator, preparou durante mais de 20 anos aquele que poderia ter sido \u2013 mas n\u00e3o foi \u2013 o seu \u201copus\u201d m\u00e1ximo, uma \u00f3pera inteiramente baseada em \u201cA Queda da Casa de Usher\u201d, escrita pelo escritor natural de Baltimore em 1839. Duas vers\u00f5es diferentes deste trabalho comprovam a inadequa\u00e7\u00e3o entre duas personalidades demasiado pr\u00f3ximas ou mesmo irm\u00e3s. Hammill, considerado por alguns um dos grandes poetas ingleses vivos, quebrou a sua imagem contra a reflex\u00e3o que o espelho de Poe lhe devolveu. O seu \u201cIn Camera\u201d, \u00e1lbum de 1974, \u00e9 uma obra t\u00e3o aterradora como os piores pesadelos do escritor simbolista e, de igual forma, uma prova de g\u00e9nio. Deste \u00e1lbum, a passagem dos dem\u00f3nios \u201cGog\u201d e \u201cMagog\u201d pelo esp\u00edrito deixa marcas dif\u00edceis de apagar. Hammill \u00e9 o Poe dos tempos actuais. Igualmente capaz de gelar n\u00e3o o esp\u00edrito, mas o sangue \u00e9 a maneira como a cantora e compositora Diamanda Galas ajustou uma das met\u00e1foras de Poe sobre a peste, a morte e a puni\u00e7\u00e3o divina, \u201cA M\u00e1scara da Morte Vermelha\u201d, \u00e0 sua pr\u00f3pria trilogia sobre a maldi\u00e7\u00e3o e a sida, \u201cMask of the Red Death\u201d, obra sanguinolenta, no sentido infectado, tanto literal como metaf\u00edsico do termo.<br \/>\nConsidere-se ainda, como \u201cfait-divers\u201d, o \u00e1lbum \u201cTales of Mystery and Imagination\u201d, de Alan Parsons Project, inspirado em contos sortidos de Poe, que, apesar de provocar tantos arrepios como uma viagem de comboio-fantasma na feira popular, consegue, mesmo assim, ser o melhor \u00e1lbum entre a fraca discografia do engenheiro de som de \u201cDark Side of the Moon\u201d, dos Pink Floyd.<br \/>\nE se, no campo do minimalismo, Philip Galss baseou uma das suas \u00f3peras-a-vapor tamb\u00e9m em \u201cA Queda da Casa de Usher\u201d, registe-se, como final tenebroso, que os Dark Runner aspiraram os miasmas da obra de Poe para regurgitar a sua electro-tecno-industrial nos \u00e1lbuns \u201cMaster Save Us\u201d e \u201cGentle Sin&#8230;\u201d. O corvo exulta com a putrefac\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>04.07.2003 United States of Lou Reed Traz a Coimbra \u201cNYC Man\u201d e \u201cThe Raven\u201d, pe\u00e7as do \u201cpuzzle\u201d da vida de um homem do tamanho de Nova Iorque. \u201cDuas guitarras, baixo, bateria. Qualquer banda os pode tocar. \u00c9 disto que gosto nas minhas can\u00e7\u00f5es: Pode-se ter o QI de uma tartaruga e tocar-se uma can\u00e7\u00e3o de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[724,726,725,413,44,10],"tags":[750,751,752],"class_list":["post-2643","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos-2003","category-colectanea","category-criticas-2003","category-em-portugal","category-pop","category-rock","tag-lou-reed","tag-nico","tag-velvet-underground"],"views":1969,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2643","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2643"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2643\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2649,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2643\/revisions\/2649"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2643"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2643"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2643"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}