{"id":2334,"date":"2010-06-18T10:34:35","date_gmt":"2010-06-18T17:34:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=2334"},"modified":"2010-06-18T10:34:35","modified_gmt":"2010-06-18T17:34:35","slug":"dossier-musica-electronica-portuguesa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2010\/06\/18\/dossier-musica-electronica-portuguesa\/","title":{"rendered":"Dossier: M\u00fasica Electr\u00f3nica Portuguesa"},"content":{"rendered":"<p>14.01.2000<br \/>\nDossier<br \/>\nM\u00fasica Electr\u00f3nica Portuguesa<\/p>\n<p>\u201cTenho que lhe dizer o quanto apreciei o seu \u00e1lbum \u2018Plux Quba \u2013 M\u00fasica para 70 Serpentes\u2019. Considero-o um dos mais originais e maravilhosos trabalhos que alguma vez ouvi. Delicio-me com cada momento do disco, terno e humano e, contudo, caracterizado por uma linguagem muito pr\u00f3pria. A partir do momento em que o ouvi fiquei com vontade de conhecer mais m\u00fasica sua. Escreveu algum material novo desde essa altura? Tem planos para um novo disco? Caso esteja interessado gostaria de gravar alguma da sua m\u00fasica na minha editora.\u201d<br \/>\n(excerto de uma carta endere\u00e7ada a uno Canavarro por Cristoph Heeman, m\u00fasico alem\u00e3o, ex-Coil e actual elemento dos H.N.A.S. e Mimir.)<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2010\/06\/nunoCanavarro_PluxQuba.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2010\/06\/nunoCanavarro_PluxQuba.jpg\" alt=\"\" title=\"nunoCanavarro_PluxQuba\" width=\"300\" height=\"300\" class=\"alignnone size-full wp-image-2335\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2010\/06\/nunoCanavarro_PluxQuba.jpg 300w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2010\/06\/nunoCanavarro_PluxQuba-150x150.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.megaupload.com\/?d=9YB8501H\" target=\"_blank\">LINK<\/a><\/p>\n<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 336;\ngoogle_ad_height = 280;\ngoogle_ad_format = \"336x280_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p><object width=\"425\" height=\"344\"><param name=\"movie\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/ljZtTW0D06A&#038;hl=pt_PT&#038;fs=1&#038;\"><\/param><param name=\"allowFullScreen\" value=\"true\"><\/param><param name=\"allowscriptaccess\" value=\"always\"><\/param><embed src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/ljZtTW0D06A&#038;hl=pt_PT&#038;fs=1&#038;\" type=\"application\/x-shockwave-flash\" allowscriptaccess=\"always\" allowfullscreen=\"true\" width=\"425\" height=\"344\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p>M\u00fasica Electr\u00f3nica Portuguesa em An\u00e1lise<br \/>\nO Ovo da Serpente<br \/>\nChristoph Heeman adorou o disco de Nuno Canavarro, prontificando-se a gravar mais material deste m\u00fasico portugu\u00eas. Por c\u00e1 \u00e9 mais dif\u00edcil. Fizemos o retrato do estado actual da m\u00fasica electr\u00f3nica no nosso pa\u00eds, convidando os m\u00fasicos a pronunciarem-se.<\/p>\n<p>Editado pela Ama Romanta, em 1988, em paralelo com \u201cM\u00fasica de Baixa Fidelidade\u201d, de T\u00f3 Z\u00e9 Ferreira, \u201cPlux Quba\u201d acabou por ser reeditado em CD no ano passado, mas pela editora norte-americana Moikai, de Jim O\u2019Rourke, um dos gurus do p\u00f3s-rock. Acrescente-se ainda o facto de Chrstoph Heeman e Jan Saint-Werner (Mouse on Mars, Microstoria) admitirem a influ\u00eancia de \u201cPlux Quba\u201d.<br \/>\nMas, como santos da casa n\u00e3o fazem milagres, muito menos se os fizerem m\u00fasica electr\u00f3nica e ainda menos se viverem em Portugal, por c\u00e1, este e outros trabalhos s\u00e3o sistematicamente ignorados e mal apoiados pelos \u201cmedia\u201d e recusados pelas grandes editoras. Aos poucos, contudo, criou-se em Portugal um circuito paralelo, no qual tanto a m\u00fasica electr\u00f3nica como outras rotuladas de \u201calternativas\u201d conquistaram um pequeno mas merecido espa\u00e7o. Editoras\/distribuidoras como a Ananana, a \u00c1udeo e a Symbiose arriscaram produzir e editar \u00e1lbuns nacionais que escapam aos esquemas do \u201cmainstream\u201d.<br \/>\n\u00c9 verdade que a m\u00fasica electr\u00f3nica n\u00e3o tem grandes tradi\u00e7\u00f5es em Portugal, se exceptuarmos obras de compositores eruditos como Jorge Peixinho, Constan\u00e7a Capdeville ou Emmanuel Nunes. Na m\u00fasica popular, no auge do rock progressivo foi preciso esperar que o actual maestro Miguel Gra\u00e7a Moura trouxesse de Londres o primeiro sintetizador Moog ouvido em Portugal. O ent\u00e3o teclista dos Pop Five Music Incorporated formou, especialmente para o efeito, em honra do aparelho, os Smoog, cuja estreia ao vivo teve lugar no Coliseu dos Recreios em Lisboa, na primeira parte de um concerto de B. B. King. Depois disso os m\u00fasicos portugueses n\u00e3o se interessaram muito pela tecnologia electr\u00f3nica ent\u00e3o emergente. Os Moogs, A.R.P. e Korgs eram caros, era preciso mandar vir de fora, e sa\u00eda mais em conta adquirir um bom \u00f3rg\u00e3o Hammond ou Farfisa ou um piano el\u00e9ctrico Fender Rhodes ou RMI\u2026<br \/>\nOs Anar Band, de Jorge Lima Barreto e Rui Reininho, foram outros dos pioneiros na utiliza\u00e7\u00e3o do sintetizador em Portugal, com uma m\u00fasica artesanal que misturava a electr\u00f3nica e o free-jazz. Na pop era mais raro escutar-se o Moog com uma excep\u00e7\u00e3o honrosa: o \u00e1lbum \u201c10.000 Anos depois entre V\u00e9nus e Marte\u201d de Jos\u00e9 Cid, um dos marcos da pop progressiva nacional. Alguns anos mais tarde tamb\u00e9m os Tantra, considerados os Genesis nacionais, usaram e abusaram dos sintetizadores.<br \/>\nChegados aos anos 80, assistiu-se \u00e0 explos\u00e3o da electropop, representada em Portugal pelos Street Kids, de Nuno Rebelo e Nuno Canavarro, pelos Corpo Diplom\u00e1tico, de Pedro Ayres e Paulo Gon\u00e7alves, antes de formarem os Her\u00f3is do Mar, e pelos Ocaso \u00c9pico, de Farinha. Era a \u00e9poca de ouro dos sequenciadores e das caixas-de-ritmo. Mas a pedrada no charco foi atirada, nessa mesma d\u00e9cada, pela editora Ama Romanta, de Jo\u00e3o Peste, com o lan\u00e7amento simult\u00e2neo de dois \u00e1lbuns fundamentais: o j\u00e1 citado \u201cPlux Quba\u201d, de Nuno Canavarro, e \u201cM\u00fasica de Baixa Fidelidade\u201d, de T\u00f3 Z\u00e9 Ferreira, dois m\u00fasicos de forma\u00e7\u00e3o na \u00e1rea da electr\u00f3nica erudita, mas com uma sensibilidade pop. \u201cSagra\u00e7\u00e3o do M\u00eas de Maio\u201d, composto por Nuno Rebelo para um desfile de moda, \u00e9 outro objecto incontorn\u00e1vel da electr\u00f3nica portuguesa. Jorge Lima Barreto, agora na companhia de V\u00edtor Rua, ex-GNR, formara entretanto os Telectu, continuando a experimentar novos sintetizadores e f\u00f3rmulas musicais como o minimalismo.<br \/>\nNos anos 90, com a democratiza\u00e7\u00e3o e progressivo compactamento e acessibilidade da tecnologia electr\u00f3nica digital (\u201cPower stations\u201d, \u201csampler\u201d, computador, etc.), tornou-se mais f\u00e1cil e menos dispendioso criar m\u00fasica electr\u00f3nica em Portugal. Proliferaram os grupos, num leque de estilos que vai da m\u00fasica industrial dos Bizarra Locomotiva \u00e0 m\u00fasica cinem\u00e1tica do veterano Lu\u00eds C\u00edlia (em \u201cBailados\u201d), da new age inteligente de Carlos Maria Trindade (a solo, em \u201cDeep Travels\u201d e, com Nuno Canavarro, no cl\u00e1ssico \u201cMr. Wollogallu\u201d) \u00e0 electr\u00f3nica \u201cnoise\u201d dos No Noise Reduction, da colagem estruturalista de Jos\u00e9 Pedro \u201cDiscmen\u201d ;oura \u00e0 vis\u00e3o mais lata e universalista de Nuno Rebelo, V\u00edtor \u201cFreefield\u201d Joaquim e Ant\u00f3nio Emiliano. Para os lados da electr\u00f3nica erudita Jo\u00e3o Pedro Oliveira, Carlos Z\u00edngaro e os Miso Ensemble experimentam, por seu lado, as possibilidades e novos horizontes de uma m\u00fasica que marcar\u00e1, decisivamente, as sonoridades e a sensibilidade art\u00edstica do novo mil\u00e9nio.<\/p>\n<p>Electro-Reparadora Lusitana<br \/>\nCarlos Z\u00edngaro, T\u00f3 Z\u00e9 Ferreira e Miguel S\u00e1 (dos ZZZZZZZZZZZZZZZZP!) responderam a um question\u00e1rio sobre o estado actual da m\u00fasica electr\u00f3nica portuguesa e sobre a m\u00fasica electr\u00f3nica em geral. A repara\u00e7\u00e3o poss\u00edvel.<br \/>\nFM \u2013 \u00c9 poss\u00edvel a cria\u00e7\u00e3o de um circuito regular de m\u00fasica electr\u00f3nica (edi\u00e7\u00e3o de discos, espect\u00e1culos, semin\u00e1rios, etc.), em Portugal? Em que moldes? Quais os principais obst\u00e1culos?<br \/>\nCARLOS Z\u00cdNGARO \u2013 Apesar de algumas fronteiras se dilu\u00edrem, continua a existir uma diferen\u00e7a determinante entre o que \u00e9 comercial e de consumo e o resto (margens?). Como tal, deixando de lado a discoteca ou a \u201crave\u201d, pergunto: onde est\u00e3o os locais para a apresenta\u00e7\u00e3o das \u201clive electronics\u201d contempor\u00e2neas, experimentais, interactivas, etc., com um m\u00ednimo de regularidade e condi\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas e t\u00e9cnicas? Onde est\u00e3o os editores minimamente interessados na publica\u00e7\u00e3o\/divulga\u00e7\u00e3o destas m\u00fasicas? Ainda, quais as institui\u00e7\u00f5es vocacionadas para a organiza\u00e7\u00e3o de semin\u00e1rios tem\u00e1ticos? (Em abono da verdade, o CCB organizou um em 1998, comigo e com o Richard Teitelbaum \u2013 desconhe\u00e7o outras iniciativas do g\u00e9nero.)<br \/>\nA m\u00fasica electr\u00f3nica sofrer\u00e1 exactamente dos mesmos problemas daquelas \u00e1reas no nosso pa\u00eds. Por um lado, um eruditismo formal(izador), fechado, institucional e museol\u00f3gico da chamada \u201cobra\u201d \u2013 nos casos das m\u00fasicas contempor\u00e2nea e electroac\u00fastica -, por outro, a quase total marginaliza\u00e7\u00e3o e mesmo boicote para com todas as outras\u2026<br \/>\nPrincipais obst\u00e1culos? Sendo [certo] que o p\u00fablico existe (j\u00e1 o comprovei repetidas vezes), s\u00f3 poder\u00e1 ser a ignor\u00e2ncia, incultura, reaccionarismo e analfabetismo generalizados de quem decide, divulga e organiza\u2026 &#8211; apenas para ser elegante na linguagem.<br \/>\nT\u00d3 Z\u00c9 FERREIRA \u2013 Se pensarmos em termos da exist\u00eancia de produ\u00e7\u00e3o ou de obras que deveriam ser difundidas ou divulgadas, \u00e9 claro que existe um pequeno mundo em Portugal \u00e0 espera de ser ouvido. Posso citar a actividade do m\u00fasico-compositor Miguel Azguime com o seu festival (anual) M\u00fasica Viva. Estou ciente das dificuldades de log\u00edstica em termos de organiza\u00e7\u00e3o. Para al\u00e9m da quest\u00e3o financeira, h\u00e1 a quest\u00e3o de pessoal t\u00e9cnico motivado. Um primeiro passo seria a produ\u00e7\u00e3o de um calend\u00e1rio dos eventos que se realizam pelo pa\u00eds e sem restri\u00e7\u00f5es de g\u00e9neros ou est\u00e9ticas, talvez nos moldes da Electronic Music Foundation.<br \/>\nUm dos maiores problemas \u00e9 que, paradoxalmente, para um pa\u00eds t\u00e3o pequeno \u2013 n\u00e3o em termos f\u00edsicos, mas no n\u00famero de praticantes \u2013 se saiba t\u00e3o pouco das actividades dos m\u00fasicos, compositores, int\u00e9rpretes, DJ, etc. Creio que um melhor contacto entre \u201calmas g\u00e9meas\u201d seria um bom catalisador de eventos. A mencionada Electronic Music Foundation organizada por Joel Chabade disp\u00f5e na Internet de calend\u00e1rios, gloss\u00e1rios, informa\u00e7\u00f5es diversas e CD. O pr\u00f3prio festival M\u00fasica Viva na edi\u00e7\u00e3o deste ano promove um concurso de obras electroac\u00fasticas a n\u00edvel nacional.<br \/>\nMIGUEL S\u00c1 \u2013 Visto Portugal ser um pa\u00eds perif\u00e9rico, apenas com um s\u00fabito e n\u00e3o muito prov\u00e1vel florescimento de novos projectos, o surgimento de uma publica\u00e7\u00e3o especializada de qualidade e um significativo incremento nos concertos \/ ciclos de m\u00fasica electr\u00f3nica, que promova o encontro com e entre m\u00fasicos internacionais, se pode alimentar uma cena electr\u00f3nica consistente, que abra caminho a uma edi\u00e7\u00e3o discogr\u00e1fica estimulante e regular.<\/p>\n<p>O Paradigma Aphex Twin<br \/>\nFM \u2013 Nesta transi\u00e7\u00e3o de mil\u00e9nio, o termo \u201celectr\u00f3nica\u201d imp\u00f4s-se\u201d como \u201cm\u00e9dium\u201d universal. Qual o ponto da situa\u00e7\u00e3o na rela\u00e7\u00e3o entre uma electr\u00f3nica mais conceptual (com \u201cbackground\u201d na m\u00fasica contempor\u00e2nea, m\u00fasica industrial, minimalista, ambient, kozsmischerock, etc.) e a m\u00fasica de dan\u00e7a.<br \/>\nMIGUEL S\u00c1 \u2013 A m\u00fasica de Richard D. James (Aphex Twin, Poligon Window, entre outros disfarces) \u00e9 o paradigma da dif\u00edcil defini\u00e7\u00e3o de fronteiras na actual m\u00fasica electr\u00f3nica e vital para a compreens\u00e3o dos g\u00e9neros musicais que circundam a m\u00fasica de dan\u00e7a urbana. Quem acompanha a sua obra tem assistido \u00e0 quebra regular de regras formais. Trabalhando com gira-discos, mesas de mistura, computadores e \u201cinstrumentos\u201d por ele criados atrav\u00e9s da modifica\u00e7\u00e3o dos circuitos electr\u00f3nicos das suas m\u00e1quinas, e usando como mat\u00e9ria-prima fontes sonoras processadas de LP, CD, ficheiros de computador, fontes ac\u00fasticas e el\u00e9ctricas.<br \/>\nCARLOS Z\u00cdNGARO \u2013 N\u00e3o poucos praticantes da m\u00fasica de dan\u00e7a foram buscar, manipular, referir, elementos experimentais e divulgados nas \u00e1reas mais conceptuais, assim como tamb\u00e9m se assiste ao inverso: a entrada do DJ, do beat e de outras preponder\u00e2ncias da dance nos conceptualismos mais alargados. Conv\u00e9m, no entanto, assinalar que este tipo de mesti\u00e7agens se verifica em realidades mais abertas e universalistas. Em Portugal, o que \u00e9 pop continua orgulhosamente a s\u00ea-lo e o s\u00e9rio permanece de costas voltadas para os outros sons, cada um no seu min\u00fasculo cub\u00edculo\u2026<br \/>\nT\u00d3 Z\u00c9 FERREIRA \u2013 No limite, qualquer grava\u00e7\u00e3o, da capta\u00e7\u00e3o \u00e0 difus\u00e3o, digam o que disserem os puristas da m\u00fasica ac\u00fastica, est\u00e1 dependente de meios electr\u00f3nicos. Existem. Simplificando, duas atitudes: uma de engenharia, em que o sistema deve ser o mais neutro poss\u00edvel e outra em que a cor do sistema \u00e9 causadora de est\u00edmulo para a cria\u00e7\u00e3o; no extremo, o sistema gera o pr\u00f3prio som.<br \/>\nDistin\u00e7\u00f5es entre g\u00e9neros de m\u00fasicas s\u00e3o cada vez mais dif\u00edceis de concretizar. Impulsionados pela sua pr\u00f3pria actividade, os criadores de m\u00fasica de dan\u00e7a acabam por se ligar a uma corrente pluralista electroac\u00fastica. Certas pe\u00e7as de dan\u00e7a lembram-me formalmente algumas experi\u00eancias da m\u00fasica concreta dos anos 60.<\/p>\n<p>\u201c \u00c0 espera que o \u2018load\u2019 funcione\u201d<br \/>\nFM \u2013 O computador e o \u201csoftware\u201d composicional s\u00e3o factores de normaliza\u00e7\u00e3o. Um m\u00fasico como Paul Sch\u00fctze recusa liminarmente a utiliza\u00e7\u00e3o de \u201csoftware\u201d, alegando que o resultado sonoro denuncia o programa utilizado.<br \/>\nCARLOS Z\u00cdNGARO \u2013 esa afirma\u00e7\u00e3o de Sch\u00fctze \u00e9 muito relativa. Talvez fazendo um \u201cblindfold test\u201d \u00e0s diversas composi\u00e7\u00f5es alegadamente assistidas por computador, cheg\u00e1ssemos a conclus\u00f5es interessantes\u2026 Quando o \u201csoftware\u201d \u00e9 denunciado na composi\u00e7\u00e3o, estaremos talvez a referir a sua utiliza\u00e7\u00e3o mais prim\u00e1ria e \u201cdemocr\u00e1tica\u201d\u2026 S\u00e3o infelizmente raros aqueles que sabem ou se interessam por perverter\/subverter as m\u00e1quinas ou os programas! Em contrapartida, a tecnologia permitiu que o compositor se tornasse mais num \u201cperformer\u201d\/int\u00e9rprete. Com alguns riscos\u2026 Se nos antigos concertos de electroac\u00fastica pass\u00e1vamos horas a olhar para uma s\u00e9rie de colunas de som num palco, agora encontramos alguns senhores sentados atr\u00e1s de um computador, com um ar geral de erudito enfado, carregando em teclas que n\u00e3o vemos e \u00e0 espera que o \u201cload\u201d funcione.<br \/>\nT\u00d3 Z\u00c9 FERREIRA \u2013 Como algu\u00e9m com experi\u00eancia em programa\u00e7\u00e3o, compreendo o ponto de vista acima apresentado. \u00c9 verdade que a implementa\u00e7\u00e3o de uma ideia sobre a forma de programa reflecte escolhas e a habilidade de quem o faz. Um determinado programa ou processo tem sempre um \u201csom\u201d pr\u00f3prio. \u00c9 de facto no campo de organiza\u00e7\u00e3o dos sons que a utiliza\u00e7\u00e3o de programas se pode tornar problem\u00e1tica. Mas tal s\u00f3 acontece se o aceitarmos como aquilo que n\u00e3o s\u00e3o \u2013 \u201csolu\u00e7\u00f5es\u201d universais para problemas de composi\u00e7\u00e3o. Solu\u00e7\u00e3o \u00f3bvia seria implementar-se programas escritos pelo pr\u00f3prio compositor.<br \/>\nFM \u2013 O \u201csampler\u201d \u2013 muleta, f\u00e1brica de sons, arquivo\u2026 Veio democratizar a cria\u00e7\u00e3o electr\u00f3nica, vulgarizando-a ou, pelo contr\u00e1rio, desafiar a criatividade dos m\u00fasicos?<br \/>\nCARLOS Z\u00cdNGARO \u2013 Esta apregoada democratiza\u00e7\u00e3o veio colocar diferentes quest\u00f5es aos que querem fazer m\u00fasica. Todos sabemos que basta carregar num bot\u00e3o para fazer m\u00fasica\u2026 E vivam as benesses das facilidades consumistas! Continuo a tocar um instrumento t\u00e3o antiquado como o violino e, apesar de fazer electr\u00f3nica h\u00e1 mais de 20 anos, continuarei a ser cuidadoso (c\u00ednico?) em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s \u201cnovas descobertas\u201d, que s\u00e3o f\u00e1ceis, baratas e d\u00e3o milh\u00f5es\u2026<br \/>\nMIGUEL S\u00c1 \u2013 O \u201csampler\u201d permitiu um novo olhar sobre o passado, colocando todos os sons do mundo ao alcance de quem os manipula, deixando deste modo de ser determinante o modo de reproduzir o som. Hoje em dia, a m\u00fasica pode ser feita em casa, mas sem prescindir do conhecimento e da intui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A riqueza da \u201cimprecis\u00e3o\u201d<br \/>\nFM \u2013 Digital ou anal\u00f3gico, eis a quest\u00e3o. O p\u00f3s-rock recuperou os sintetizadores anal\u00f3gicos (Moog, ARP, Korg). E que dizer quando um antepassado dos pr\u00f3prios sintetizadores, como o theremin, ganha de novo protagonismo na produ\u00e7\u00e3o electr\u00f3nica mais recente?<br \/>\nMIGUEL S\u00c1 \u2013 Desde 1906, altura em que foi criado o primeiro instrumento electr\u00f3nico, o Telharmonium, e feita a primeira emiss\u00e3o via r\u00e1dio, foram surgindo os meios para a cria\u00e7\u00e3o electr\u00f3nica: Ondes Martenot (1928), grava\u00e7\u00e3o est\u00e9reo (1930), sintetizador RCA (1955), \u201csampler\u201d anal\u00f3gico mellotron (1965), sintetizador Moog (1965), gravador de pistas (1966), sequenciador digital Roland MC-8 (1977), \u201csampling keyboard\u201d Fairlight CMI (1979), \u201ccompact disc\u201d (1980), MIDI (1983). O \u201csoftware\u201d composicional, assim como os exemplo anteriores, veio expandir a capacidade de cria\u00e7\u00e3o de novos recursos t\u00edmbricos. O seu surgimento em nada impede ema saud\u00e1vel coabita\u00e7\u00e3o com a inven\u00e7\u00e3o de 1920 de Leon Theremin.<br \/>\nCARLOS Z\u00cdNGARO \u2013 \u00c9 perfeitamente poss\u00edvel obter as mais diversas sonoridades anal\u00f3gicas com a recente tecnologia digital. O que se passa \u00e9 que \u2013 como de costume com a m\u00fasica de consumo \u2013 mais uma moda atravessa in\u00fameras discuss\u00f5es t\u00e9cnicas e tem\u00e1ticas. A tecno descobriu os velhos monstros anal\u00f3gicos assim como \u201cdescobriu\u201d formas de fazer m\u00fasica j\u00e1 praticadas h\u00e1 vinte e tal anos. Nada mais l\u00f3gico que utilizar os mesmos meios, as mesmas m\u00e1quinas, at\u00e9 porque sempre d\u00e3o uma certa \u201cpatine\u201d e \u201clook\u201d\u2026 Interessante ver superest\u00fadios \u201chi-tech\u201d com a mais sofisticada tecnologia digital, gastarem fortunas em perif\u00e9ricos digitais que ir\u00e3o dar uma \u201ccor anal\u00f3gica\u201d (inclusive ru\u00eddo) \u00e0 mistura final\u2026 O c\u00famulo dos \u201cmodismos\u201d e outros \u201cismos\u201d.<br \/>\nPessoalmente continuo a manipular o meu velho ARP 2601, adquirido em 1978, e que tem agora um valor museol\u00f3gico acrescido. \u00c9 uma dor de cabe\u00e7a se comparado com a facilidade de tecnologias mais recentes, mas continua a ser um ru\u00eddos monstro sagrado!<br \/>\nT\u00d3 Z\u00c9 FERREIRA \u2013 Creio que \u00e9 mais nostalgia do que qualquer impossibilidade dos sistemas digitais actuais. No entanto, existem talvez outras raz\u00f5es para o retorno da popularidade destes sistemas. Uma forma de onda triangular produzida por um gerador anal\u00f3gico \u00e9 mais ou menos impura \u2013 com bastante harm\u00f3nios adicionais \u2013 o que, combinado com os filtros, gerava os t\u00e3o procurados sons. Conseguem-se representa\u00e7\u00f5es mais controladas sob a forma digital, mas perde-se um pouco a riqueza da imprecis\u00e3o. Mas claro que, com programa\u00e7\u00e3o e sistemas digitais flex\u00edveis, se conseguem tamb\u00e9m sons extremamente ricos e creio que quase todos os sintetizadores actuais s\u00e3o digitais de uma maneira ou de outra. Quanto o theremin, a sua expressividade como instrumento adv\u00e9m muito do seu interface, sendo necess\u00e1rio ter alguma pr\u00e1tica, como, por exemplo, num violino, para poder retirar a sons e\/ou gestos expressivos satisfat\u00f3rios.<br \/>\nFM \u2013 Quais os discos de m\u00fasica electr\u00f3nica que considera mais importantes ou que mais o influenciaram?<br \/>\nCARLOS Z\u00cdNGARO \u2013 MEV (Musica Electronica Viva, com Richard Teitelbaum, Alvin Curran, Frederic Rzewski), John Cage, John Chowning, Charles Dodge, Pierre Henry, Max Matthews, Ilhan Mimaroglu, David Tudor.<br \/>\nT\u00d3 Z\u00c9 FERREIRA \u2013 As primeiras composi\u00e7\u00f5es de Karl Heinz Stockhausen, como \u201cGesang der Junglinge\u201d e, de Bernard Parmegiani, \u201cDe Natura Sonorum\u201d. Como influ\u00eancia recente, as composi\u00e7\u00f5es da jovem Natasha Barrett.<br \/>\nMIGUEL S\u00c1 \u2013 Kraftwerk, \u201cAutobahn\u201d (1974); Negativland, \u201cEscape From Noise\u201d (1988); Oval, \u201cDiskont 94\u201d (1995). Nos Cluster, Coil e Aphex Twin, o brilhantismo reside no conjunto da sua obra.<\/p>\n<p>10 DISCOS FUNDAMENTAIS<br \/>\n1.NUNO CANAVARRO: Plux Quba-M\u00fasica para 70 Serpentes (Ama Romanta \/ Moikai, 1988)<br \/>\n2. T\u00d3 Z\u00c9 FERREIRA: M\u00fasica de Baixa Fidelidade (Ama Romanta, ed. em vinilo, 1988)<br \/>\n3. CARLOS MARIA TRINDADE &#038; NUNO CANAVARRO: Mr. Wollogallu (Uni\u00e3o Lisboa, 1991)<br \/>\n4. TELECTU: Evil Metal (\u00c1rea Total, 1992)<br \/>\n5. JO\u00c3O PEDRO OLIVEIRA: Electronic and Computer Music (Num\u00e9rica, 1993)<br \/>\n6. CARLOS Z\u00cdNGARO: Musiques de Sc\u00e8ne (Ananana, 1993)<br \/>\n7. NO NOISE REDUCTION: The Complete No Noise Reduction (Moneyland, 1995)<br \/>\n8. NUNO REBELO: M2 (Ananana, 1996)<br \/>\n9. V\u00cdTOR JOAQUIM: Tales From Chaos (Ananana, 1997)<br \/>\n10. ZZZZZZZZZZZZZZZZP!: Ficta 003 (Ananana, 1998)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>14.01.2000 Dossier M\u00fasica Electr\u00f3nica Portuguesa \u201cTenho que lhe dizer o quanto apreciei o seu \u00e1lbum \u2018Plux Quba \u2013 M\u00fasica para 70 Serpentes\u2019. Considero-o um dos mais originais e maravilhosos trabalhos que alguma vez ouvi. Delicio-me com cada momento do disco, terno e humano e, contudo, caracterizado por uma linguagem muito pr\u00f3pria. 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