{"id":2198,"date":"2010-05-20T06:23:02","date_gmt":"2010-05-20T13:23:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=2198"},"modified":"2010-05-20T06:23:02","modified_gmt":"2010-05-20T13:23:02","slug":"no-smoking-orchestra-%e2%80%93-maiores-do-que-a-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2010\/05\/20\/no-smoking-orchestra-%e2%80%93-maiores-do-que-a-vida\/","title":{"rendered":"No Smoking Orchestra \u2013 Maiores Do Que A Vida"},"content":{"rendered":"<p>21.01.2005<br \/>\nNo Smoking Orchestra \u2013 Maiores Do Que A Vida<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/NoSmokingOrchestra.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/NoSmokingOrchestra.jpg\" alt=\"\" title=\"NoSmokingOrchestra\" width=\"450\" height=\"639\" class=\"alignnone size-full wp-image-2200\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/NoSmokingOrchestra.jpg 450w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/NoSmokingOrchestra-211x300.jpg 211w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/NoSmokingOrchestra_EKusturica.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/NoSmokingOrchestra_EKusturica.jpg\" alt=\"\" title=\"NoSmokingOrchestra_EKusturica\" width=\"450\" height=\"288\" class=\"alignnone size-full wp-image-2201\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/NoSmokingOrchestra_EKusturica.jpg 450w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/NoSmokingOrchestra_EKusturica-300x192.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>A energia \u00e9 a mesma dos filmes. Uma for\u00e7a de auto-defesa contra um mundo que pretende apagar as minorias. O que ouve \u00e9 \u201cpunk\u201d balc\u00e2nico. O que se v\u00ea \u00e9 circo. O que adivinha, uma \u201carte maior do que a vida\u201d. Kusturica e a No Smoking Orchestra passaram por Lisboa como um vendaval.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/EmirKusturica_LifeIsAMiracle.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/EmirKusturica_LifeIsAMiracle.jpg\" alt=\"\" title=\"EmirKusturica_LifeIsAMiracle\" width=\"263\" height=\"350\" class=\"alignnone size-full wp-image-2199\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/EmirKusturica_LifeIsAMiracle.jpg 263w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/EmirKusturica_LifeIsAMiracle-225x300.jpg 225w\" sizes=\"auto, (max-width: 263px) 100vw, 263px\" \/><\/a><\/p>\n<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 200;\ngoogle_ad_height = 200;\ngoogle_ad_format = \"200x200_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p><a href=\"http:\/\/rapidshare.com\/files\/46286339\/lveum.rar\" target=\"_blank\">LINK<\/a><\/p>\n<p><object width=\"425\" height=\"344\"><param name=\"movie\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/Zbk2cWPnXXY&#038;hl=pt_PT&#038;fs=1&#038;\"><\/param><param name=\"allowFullScreen\" value=\"true\"><\/param><param name=\"allowscriptaccess\" value=\"always\"><\/param><embed src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/Zbk2cWPnXXY&#038;hl=pt_PT&#038;fs=1&#038;\" type=\"application\/x-shockwave-flash\" allowscriptaccess=\"always\" allowfullscreen=\"true\" width=\"425\" height=\"344\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p>Afinal de contas ningu\u00e9m cometeu suic\u00eddio em palco durante o concerto da No Smoking Orchestra, segunda-feira, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, como o cantor da banda, Dr. Nele Karajilic, admitira. O niilismo punk que rodeia como uma aur\u00e9ola esta orquestra que Dr. Nele fundou em 1980 funciona hoje como um r\u00f3tulo de provoca\u00e7\u00e3o perfeitamente civilizada que tem tudo de espect\u00e1culo de circo mas onde n\u00e3o ficaram perdidas de vistas as inten\u00e7\u00f5es intervencionistas que estiveram na sua origem.<br \/>\nA energia \u00e9 f\u00edsica, contagiante, mas a sensa\u00e7\u00e3o de perigo est\u00e1 ausente. Ou talvez esteja disfar\u00e7ada.<br \/>\nA f\u00faria balc\u00e2nica continua a animar os gestos e os sons desta pequena orquestra que hoje se apresenta nos palcos de todo o mundo como um fen\u00f3meno da moda onde milita uma \u201cmovie star\u201d, de seu nome Emir Kusturica, o realizador politicamente desalinhado que toca guitarra no grupo como \u201cforma de terapia\u201d. A energia, essa, diz Kusturica, \u00e9 a mesma que utilizou para filmar \u201cO Tempo dos Ciganos\u201d (1988), \u201cUnderground\u201d (1995), \u201cGato Preto, Gato Branco\u201d (1998) ou \u201cA Vida \u00e9 um Milagre\u201d (2004) \u2013 os dois \u00faltimos com banda sonora da No Smoking Orchestra, que substituiu Goran Bregovic como comparsa musical do cineasta<\/p>\n<p>Dr. Nele Tem Unza Unza No Sangue<br \/>\nEm palco, no concerto lisboeta que marcou o encerramento da \u201cLife os a Miracle Tour\u201d, Emir Kusturica \u00e9 um dos mais calmos. \u201cSou o mais velho da banda, um old punker (risos)\u201d, reconhece ao Y, com um sorriso cansado, nos bastidores da velha sala de Santo Ant\u00e3o, ap\u00f3s o concerto. De tarde, durante os ensaios, ainda ostentava a barba que era uma das suas imagens de marca. \u00c0 noite, por\u00e9m, o rosto bem escanhoado d\u00e1-lhe uma outra apar\u00eancia, rejuvenescida, do \u201cguitar hero\u201d que nunca quis ser, embora \u201cthe show must go on\u201d e tamb\u00e9m ele se entregue de alma e cora\u00e7\u00e3o a encena\u00e7\u00f5es que pouco t\u00eam a ver com a m\u00fasica, mas que t\u00eam o cond\u00e3o de excitar ainda mais a multid\u00e3o. Como fazer par com o violinista, \u201co juiz\u201d, e obrigar a sua guitarra a ranger contra uma corda estrategicamente esticada no ar.<br \/>\nDr. Nele Karajilic \u00e9 a ant\u00edtese de Kusturica, o cromo irrequieto que enverga uma colorida camisa justa com estampado Rorschach e n\u00e3o p\u00e1ra um minuto quieto no palco ou nos banhos de multid\u00e3o a que se entrega durante o espect\u00e1culo. Karajilic \u00e9 a bomba-rel\u00f3gio prestes a explodir, o propagandista de megafone e o apresentador de servi\u00e7o que cita Frank Zappa e grita de cinco em cinco minutos, em portugu\u00eas, a palavra \u201cobrigado\u201d, s\u00f3 porque a vogal aberta \u201co\u201d lhe parece quase comest\u00edvel e porque pode ser pronunciada durante bastante tempo. \u201cOoooooooobrigado!\u201d. Dr. Nele tem indubitavelmente \u201cunza unza\u201d no sangue, o rem\u00e9dio musical que a No Smoking Orchestra garante fazer aumentar no organismo a prote\u00edna do amor.<br \/>\nTerminada o concerto, ao contr\u00e1rio de Kusturica que parece prostrado, Dr. Nele continua euf\u00f3rico. \u201cLisboa apresentou uma das melhores audi\u00eancias que alguma vez tivemos! E o lugar \u00e9 fant\u00e1stico, a arquitectura parece do per\u00edodo shakespeareano, at\u00e9 por isso foi engra\u00e7ado tocarmos aqui \u2018Romeu e Julieta\u2019\u201d. A Julieta em quest\u00e3o foi encontrada entre a assist\u00eancia, num dos camarotes laterais do Coliseu. \u201cJulieta\u201d foi apenas uma das v\u00e1rias espont\u00e2neas que num ou noutro momento do concerto deram corpo adicional \u00e0 folia do grupo. Dr. Nele n\u00e3o esconde, ali\u00e1s, o gosto em ver-se rodeado de \u201cgroupies\u201d, habituais nos espect\u00e1culos da banda. \u201cAparecem sempre, umas vezes melhores, outras piores\u201d, ria-se \u2013 \u201cs\u00e3o como \u2018cheerleaders\u2019\u201d, as raparigas contratadas para animarem alguns espect\u00e1culos desportivos. \u201cEu sou o chefe das \u2018cheerleaders\u2019\u201d.<br \/>\nApetece questionar de onde vem esta entrega quase s\u00f4frega ao espect\u00e1culo desbragado&#8230; Dr. Nele \u00e9 perempt\u00f3rio: \u201cIsso ter\u00e1 que perguntar \u00e0 minha m\u00e3e\u201d. Como combust\u00edveis garante que apenas se socorre \u201cdo vinho e da cerveja\u201d.<br \/>\nUma digress\u00e3o como \u201cLife is a Miracle Tour\u201d j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 como as dos primeiros tempos em que o grupo andava \u201cdois e tr\u00eas meses na estrada, sem parar\u201d. \u201cCheg\u00e1vamos ao fim, parec\u00edamos m\u00e1quinas\u201d. Hoje a orquestra faz dez espect\u00e1culos por m\u00eas, mas aproveita-os bem, mesmo que \u00e0s vezes nem sequer fixem os nomes das cidades por onde passam. O de Lisboa certamente que n\u00e3o o v\u00e3o esquecer. \u201c\u00c9 uma sala perfeita, gosto de sentir a assist\u00eancia perto de mim, mais de um ou dois metros j\u00e1 \u00e9 demais\u201d.<br \/>\nDurante duas horas Dr. Nele Karajilic foi o comp\u00e8re de uma cerim\u00f3nia tresloucada. Como as personagens dos filmes de Kusturica, os m\u00fasicos personificam gente t\u00e3o incontrol\u00e1vel como a vida. \u00c9 o gosto pelo exagero, pela ilus\u00e3o (os truques de ilusionismo com que a Orchestra enfeita os seus \u201cshows\u201d), pela metamorfose cont\u00ednua e inadi\u00e1vel. H\u00e1 um saxofonista que sopra no limite do paroxismo para logo a seguir se aquietar sob mel\u00edfluas melodias de casino. H\u00e1 uma gigantesca tuba enrolada em torno de um homem que persegue e dispara sobre Dr. Nele. H\u00e1 um baterista sulf\u00farico que n\u00e3o \u00e9 o habitual (o habitual, Stribor Kusturica, filho do cineasta, ficou em casa, aleijado num bra\u00e7o), um acordeonista compenetrado e h\u00e1, \u00e9 claro, o homem vestido de escuro e sem o brilho Rorschach do vocalista, para onde todos os olhos se voltam constantemente numa devo\u00e7\u00e3o n\u00e3o dissimulada. Ali est\u00e1 ele, Emir Kusturica, que trocou o baixo pela guitarra el\u00e9ctrica, levando muito a s\u00e9rio o seu segundo papel, de rocker.<br \/>\nTudo somado e em corrupio sem pausas, a m\u00fasica, a encena\u00e7\u00e3o, o humor, os truques e at\u00e9 algum dramatismo t\u00eam o colorido gordo do \u201cmaior que a realidade\u201d. O mesmo realismo fant\u00e1stico, ou melhor, o mesmo fant\u00e1stico realista que Kusturica filma e que Fellini j\u00e1 filmava antes dele. Logo de in\u00edcio, numa das primeiras can\u00e7\u00f5es, Dr. Nele, afogado nos bra\u00e7os da multid\u00e3o, grita, \u201cumas vezes \u00e9 em cima, outras \u00e9 em baixo, umas vezes \u00e9 o para\u00edso, outras o inferno\u201d. As palavras mal se ouvem numa montanha-russa onde cabe um pouco de tudo. A vida, com os seus altos e baixos, as suas personagens humanas que buscam o amor e a felicidade, por mais escondidos que estejam, est\u00e3o aqui presentes numa mini-f\u00e1bula que ofusca na superf\u00edcie.<br \/>\n\u201cIsto \u00e9 maior do que a vida\u201d, garante Dr. Nele. \u201cIsto\u201d s\u00e3o duas horas de espect\u00e1culo da No Smoking Orchestra que contagiam por completo, mais do que n\u00e3o seja pelo movimento e o bul\u00edcio, o p\u00fablico. \u201cTenho a certeza de que a minha mulher n\u00e3o ficaria satisfeita ao ouvir-me dizer isto, mas a m\u00fasica \u00e9, realmente, mais importante do que tudo o resto, mais importante at\u00e9 do que a fam\u00edlia, tenho muita pena, mas \u00e9 assim. A \u201cLife is a Miracle Tour\u201d terminou mas o merecido descanso ser\u00e1 sol de pouca dura. J\u00e1 em Fevereiro iniciar-se-\u00e1 nova digress\u00e3o que levar\u00e1 a No Smoking Orchestra a Israel, Am\u00e9rica do Sul, Let\u00f3nia, Est\u00f3nia e Litu\u00e2nia, Fran\u00e7a e Jap\u00e3o.<br \/>\nPara os membros da banda, s\u00e3o muitos dias vividos juntos na estrada. T\u00e3o excitantes como os concertos? Nem por isso. \u201cS\u00e3o chatos!\u201d. L\u00e1 est\u00e1 a vida real a espreitar e sem, como nos filmes, o milagre da alegria para oferecer. \u201cMas adoro viajar, \u00e9 ali\u00e1s uma das coisas melhores que h\u00e1 em ser-se m\u00fasico\u201d. Dr. Nele j\u00e1 ultrapassou os 40 anos mas evidencia a vitalidade de um garoto. As tropelias de palco s\u00e3o inevit\u00e1veis. \u201cN\u00e3o consigo agir de outra maneira, uma vez punk, punk para sempre!\u201d. Apesar de punk, n\u00e3o \u00e9 um troglodita, n\u00e3o se escusando a fazer mais um n\u00famero, o da cortesia, em resposta \u00e0s solicita\u00e7\u00f5es da comitiva VIP da embaixada da S\u00e9rvia e Montenegro que no final veio cumprimentar a banda aos camarins&#8230;<\/p>\n<p>No Pequeno Mundo De Emir<br \/>\nAlguns metros a seu lado, em sil\u00eancio e pouco dado a conversa\u00e7\u00f5es, Emir Kusturica largara finalmente a guitarra que raramente desatara da cintura. Tem fama de fugir aos jornalistas e um jeito especial de voltar as costas sempre que lhe apontam uma c\u00e2mara fotogr\u00e1fica. Mas agora que tudo est\u00e1 consumado, a timidez ou o receio abrem uma brecha. Parece esgotado. A energia que pusera na sua actua\u00e7\u00e3o el\u00e9ctrica \u00e9 a mesma que ilumina os seus filmes? \u201cAbsolutamente!\u201d, responde. E a m\u00fasica, \u201cdesenhada exactamente da mesma maneira\u201d que os filmes \u2013 \u201cum ponto de cruzamento de muitos estilos diferentes, disciplinado por um pulso e uma din\u00e2mica muito firmes, din\u00e2mica e tempos que absorvem muitos dos estilos e a hist\u00f3ria da regi\u00e3o dos Balc\u00e3s. Belgrado n\u00e3o \u00e9 como Londres, \u00e9 uma cidade onde se cruzam v\u00e1rios ventos\u201d, explica.<br \/>\nKusturica aproveita ao m\u00e1ximo o prazer que lhe proporciona tocar ao vivo para uma multid\u00e3o \u2013 o prazer da \u201ctroca\u201d e da \u201ccomunica\u00e7\u00e3o\u201d. Uma comunica\u00e7\u00e3o \u201cbem disposta\u201d, como \u201calgu\u00e9m que viaja num comboio e sem trav\u00f5es \u2013 uma maravilha!\u201d. Tamb\u00e9m para o cineasta a arte \u00e9 bem maior do que a vida, onde o \u201cestilo tem que ser o de lutar por uma identidade pr\u00f3pria\u201d.<br \/>\n\u201cPorque sentimos a press\u00e3o do grande mundo e que estamos em risco de a perder. A press\u00e3o que se faz sentir no modo como est\u00e3o a destruir as pequenas na\u00e7\u00f5es e culturas locais\u201d.<br \/>\nEm momento algum, mesmo quando o circo das apar\u00eancias deixa pouco mais para ser visto, Kusturica abandona uma perspectiva pol\u00edtica. Algo de absoluto de que n\u00e3o prescinde. Mas os jovens que do outro lado pulam e vibram e riem quando \u201co juiz\u201d toca violino com ar sisudo, envergando um vestido de mulher, estar\u00e3o suficientemente atentos ao essencial para compreender a mensagem? \u00c9 uma quest\u00e3o de tempo. \u201cSe n\u00e3o est\u00e3o, acabar\u00e3o por aprender\u201d.<br \/>\nKusturica \u2013 que abandonou Sarajevo, onde nasceu, para se instalar em Belgrado, atraindo deste modo ainda mais a antipatia do governo b\u00f3snio \u2013 continuar\u00e1 a tocar com a No Smoking Orchestra, \u201cde vez em quando\u201d, principalmente nas \u201ccidades grandes\u201d. \u00c9 uma honra para mim poder continuar a pertencer a este mundo de defesa de uma identidade pr\u00f3pria, um mundo protegido\u201d. Mas \u00e9 numa cidade pequena e ideal que ele pr\u00f3prio construiu para albergar a produ\u00e7\u00e3o de \u201cA Vida \u00e9 um Milagre\u201d que a vida decorre como um conto de fadas, imune \u00e0s press\u00f5es do \u201cgrande mundo\u201d. Em K\u00fcstendorf, completa com uma igreja e uma escola, n\u00e3o existe persegui\u00e7\u00e3o nem separa\u00e7\u00e3o. \u00c9 nesta cidade-para\u00edso constru\u00edda de raiz que Kusturica \u2013 b\u00f3snio de origem mu\u00e7ulmana que durante a guerra nunca escondeu a sua simpatia pelo lado s\u00e9rvio, a favor de uma Jugosl\u00e1via unificada \u2013 se defende das agress\u00f5es exteriores.<br \/>\nPara tr\u00e1s ficou a colabora\u00e7\u00e3o com Goran Bregovic, que assinara as primeiras bandas sonoras. \u201cFoi uma amizade que ficou exausta\u201d. Com a No Smoking Orchestra, para onde ele pr\u00f3prio comp\u00f5e alguma da m\u00fasica, \u00e9 \u201cf\u00e1cil\u201d trabalhar. \u201cAssobiamos, tocamos frases, juntamos tudo, fazemos as correc\u00e7\u00f5es e vamos para o est\u00fadio. \u00c9 um bom trabalho\u201d. E sempre sem o receio de exagerar. \u201cSe queremos que a arte seja de facto maior que a vida, tem que ser assim\u201d. No fim de contas, diz, a sua arte, al\u00e9m de auto-defesa e campo de preserva\u00e7\u00e3o, pretende ser \u201cterap\u00eautica\u201d. Para o p\u00fablico e para si. Bastam algumas gotas de \u201cunza unza\u201d por dia para fazer um homem feliz.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>21.01.2005 No Smoking Orchestra \u2013 Maiores Do Que A Vida A energia \u00e9 a mesma dos filmes. Uma for\u00e7a de auto-defesa contra um mundo que pretende apagar as minorias. O que ouve \u00e9 \u201cpunk\u201d balc\u00e2nico. O que se v\u00ea \u00e9 circo. O que adivinha, uma \u201carte maior do que a vida\u201d. 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