{"id":2042,"date":"2010-04-26T10:14:22","date_gmt":"2010-04-26T17:14:22","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=2042"},"modified":"2010-04-26T10:16:12","modified_gmt":"2010-04-26T17:16:12","slug":"genesis-rael-na-real-em-cascais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2010\/04\/26\/genesis-rael-na-real-em-cascais\/","title":{"rendered":"Genesis &#8211; Rael Na Real Em Cascais"},"content":{"rendered":"<p>04.03.2005<br \/>\nGenesis<br \/>\nRael Na Real Em Cascais<br \/>\nThe Lamb Lies Down On Broadway foi o concerto certo na altura certa. A revolu\u00e7\u00e3o de Abril, e o seu banho de realidade, era ainda uma crian\u00e7a mas o onirismo do rock Progressivo j\u00e1 declinava. Os Genesis acertaram precisamente no meio. Um DVD editado puxa pelas mem\u00f3rias.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2010\/04\/GenesisCascais.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2010\/04\/GenesisCascais.jpg\" alt=\"\" title=\"GenesisCascais\" width=\"450\" height=\"257\" class=\"alignnone size-full wp-image-2044\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2010\/04\/GenesisCascais.jpg 450w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2010\/04\/GenesisCascais-300x171.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Para os que estiveram presentes no Dram\u00e1tico de Cascais nas noites de 5 e 6 de Mar\u00e7o, de 1975, foi o concerto das suas vidas. T\u00e3o importante que, 30 anos depois, um grupo de carolas resolveu juntar-se para comemorar e promover iniciativas alusivas ao concerto: um almo\u00e7o-encontro (amanh\u00e3, no Centro Cultural da Gandarinha, \u00e0s 13h30, com entrada a 30 euros), um n\u00famero da revista Cais dedicado ao concerto e a edi\u00e7\u00e3o de um DVD-document\u00e1rio [ver texto nesta p\u00e1ginas].<br \/>\n1975 foi um ano estranho em Portugal. A ebuli\u00e7\u00e3o provocada pelo 25 de Abril estava longe de se considerar extinta e saborear o gosto da liberdade era ainda estonteante. Viviam-se os tempos do PREC (Processo Revolucion\u00e1rio em Curso), espantava-se o medo que a reac\u00e7\u00e3o erguesse de novo o rosto monstruoso. T\u00e3o monstruoso como a m\u00e1scara que Gabriel vestiu nessas noites, durante a apresenta\u00e7\u00e3o do tema \u201cThe colony of the slippermen\u201d, com as suas bolhas-bal\u00f5es&#8230;<br \/>\nO concerto dos Genesis, m\u00edtico porque catalisador de uma corrente est\u00e9tica \u2013 o rock progressivo \u2013 e centrado no esp\u00edrito da \u00e9poca, foi um sonho tornado realidade para os que l\u00e1 estiveram. Duas noites de escape feito vis\u00e3o, com o COPCON (Comendo Operacional do Continente) a tentar controlar no exterior do Dram\u00e1tico de Cascais aquilo que \u00e9 imposs\u00edvel de controlar, a imagina\u00e7\u00e3o. No segundo dia houve mesmo tiroteio (para o ar) a causar o pandem\u00f3nio geral. Ambiente fervilhante. L\u00e1 dentro, ainda mais quente, estaria delirante.<br \/>\nForam 20 mil os que assistiram \u00e0 apresenta\u00e7\u00e3o de \u201cThe Lamb Lies Down on Broadway\u201d. Para o grupo era o pico de uma carreira que abra\u00e7ara o rock progressivo mas que neste \u00e1lbum prenunciava j\u00e1 a ruptura com um imagin\u00e1rio que o punk arrasaria e formataria em can\u00e7\u00f5es de dois minutos de \u00f3dio e a ainda menor n\u00famero de acordes. As tens\u00f5es eram imensas mas a obra revelou-se capital. Peter Gabriel, Rael (anagrama de \u201cReal\u201d), na iconografia de \u201cThe Lamb&#8230;\u201d, trazia j\u00e1 embrulhada nas suas hist\u00f3rias o dia-a-dia a preto e branco (como a capa do \u00e1lbum, a contrariar a profus\u00e3o crom\u00e1tica das anteriores).<br \/>\nA fantasia dos Genesis deixara de ser a \u201ctrip\u201d de \u201cSupper\u2019s Ready\u201d (\u201cFoxtrot\u201d, 1972), a surrealidade de \u201cNursery Crime\u201d (1971) ou a Inglaterra paradoxal de \u201cSelling England by the Pound\u201d (1973). Agora era a luta de Rael, um porto-riquenho de casaco de cabedal. De certa forma \u201cThe Lamb&#8230;\u201d antecipa o fim do rock progressivo, num ano, 1974, que coincide com a agonia desta corrente musical. As \u201csuites\u201d de 20 minutos desapareceram, dando lugar a can\u00e7\u00f5es curtas que revelam o desejo de Gabriel de chegar a outro p\u00fablico, mais pr\u00f3ximo da pop e menos elitista. N\u00e3o por acaso o grupo teria a sua primeira cis\u00e3o j\u00e1 no ano do concerto, 1975, sendo \u201cThe Lamb&#8230;\u201d por muitos considerado n\u00e3o um \u00e1lbum dos Genesis mas uma obra de Gabriel. Gabriel que encetaria a partir da\u00ed carreira a solo que n\u00e3o fez mais do que confirmar o abandono do rock progressivo. Quanto aos Genesis, depois de breve per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o, sinalizado por \u201cTrick of the Tail\u201d (1976) e \u201cWind and Wuthering\u201d (1976), tinham o caminho aberto para se tornarem num grupo \u201cmainstream\u201d, de est\u00e1dio, para multid\u00f5es.<br \/>\n1975 foi pois o \u00faltimo ano de gl\u00f3ria do Progressivo. O ano seguinte seria o voltar da p\u00e1gina mas \u201cThe Lamb&#8230;\u201d ainda \u00e9 considerado a obra-prima do grupo. O teatro e a inova\u00e7\u00e3o que nessas noites em Cascais fizeram revirar os olhos \u00e0 assist\u00eancia representaram o expoente da est\u00e9tica do grupo. Fumos, m\u00e1scaras, \u201cslides\u201d, ilus\u00f5es de \u00f3ptica transformaram o concerto num ritual de metamorfoses. Mas Peter Gabriel\/Rael que escrevera sozinho toda a pe\u00e7a (duplo \u00e1lbum em disco, mais de duas horas de espect\u00e1culo ao vivo) estava de sa\u00edda. Os Genesis nunca mais voltariam a ser os mesmos. Os elementos da assist\u00eancia tamb\u00e9m.<br \/>\nN\u00e3o foi o primeiro concerto de rock progressivo em Portugal. Antes j\u00e1 por c\u00e1 tinham passado os alem\u00e3es Embryo (curiosamente, a estreia, gratuita, de um concerto deste tipo, aconteceu com um representante do krautrock), os If, os Beggars Opera e \u2013 primeiros a actuarem no Dram\u00e1tico \u2013 os Procol Harum. Mas os Genesis vieram na altura exacta, no apogeu. Ao contr\u00e1rio de outros concertos, em que o mais excitante foi de ordem n\u00e3o-musical, os Genesis trouxeram a perfei\u00e7\u00e3o.<br \/>\nNo caso dos Procol Harum, foi ver parte do p\u00fablico a saltar para o interior do pavilh\u00e3o a partir do telhado, ao mesmo tempo que, numa tentativa para acalmar os \u00e2nimos, a organiza\u00e7\u00e3o anunciava pelos altifalantes que j\u00e1 faltava pouco e que os m\u00fasicos estavam nesse momento a entrar para o avi\u00e3o que os traria de Londres para Lisboa&#8230; Com os Beggars Opera a excita\u00e7\u00e3o aconteceu quando um dos assistentes, culminando um \u201cstrip tease\u201d improvisado, pontapeou um dos sapatos para a plateia. O esmagamento contra a parede da entrada do Monumental, no concerto dos String Driven Thing, n\u00e3o conta. O concerto dos Atomic Rooster em Almada, com o tropel do p\u00fablico a espezinhar o porteiro e este, pisado e espalmado no ch\u00e3o, continuando, num delirante excesso de zelo, a pedir que lhe fossem mostrados os bilhetes, tamb\u00e9m n\u00e3o&#8230; Era o rock em Portugal nos anos conturbados do p\u00f3s-revolu\u00e7\u00e3o.<br \/>\nCasos extremos foram o tiroteio da pol\u00edcia no concerto dos Can no Pavilh\u00e3o dos Desportos, em Lisboa e, no registo oposto, a beatitude ordeira dos que se deslocaram a Cascais para ver e ouvir os Pulsar. Com os Genesis foi tudo em grande: o p\u00fablico em excesso (houve quem, no interior do pavilh\u00e3o, n\u00e3o visse peva do espect\u00e1culo), o visual desmesurado do grupo, a dimens\u00e3o inflacionada da pr\u00f3pria obra, escrupulosamente recriada em moldes art\u00edsticos e t\u00e9cnicos a que Portugal nunca antes assistira.<\/p>\n<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 234;\ngoogle_ad_height = 60;\ngoogle_ad_format = \"234x60_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p><object width=\"425\" height=\"344\"><param name=\"movie\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/W35wtfcByIY&#038;hl=pt_PT&#038;fs=1&#038;\"><\/param><param name=\"allowFullScreen\" value=\"true\"><\/param><param name=\"allowscriptaccess\" value=\"always\"><\/param><embed src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/W35wtfcByIY&#038;hl=pt_PT&#038;fs=1&#038;\" type=\"application\/x-shockwave-flash\" allowscriptaccess=\"always\" allowfullscreen=\"true\" width=\"425\" height=\"344\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p>Genesis<br \/>\nMetralhadoras e Charros<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2010\/04\/GenesisCascais3.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2010\/04\/GenesisCascais3.jpg\" alt=\"\" title=\"GenesisCascais3\" width=\"450\" height=\"714\" class=\"alignnone size-full wp-image-2045\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2010\/04\/GenesisCascais3.jpg 450w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2010\/04\/GenesisCascais3-189x300.jpg 189w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>As recorda\u00e7\u00f5es seguintes pertencem a quem esteve l\u00e1 e se lembra. Com hist\u00f3rias para contar daqueles dois dias de apertos, tiros, mas, sobrelevando tudo, um dos maiores espect\u00e1culos de rock ao vivo em Portugal.<\/p>\n<p>Miguel \u00c2ngelo \u2013 Delfins<br \/>\nTinha 8 anos quase 9, e um dos discos que tinha ouvido no ano anterior era o \u201cSelling England by the Pound\u201d, em casa de umas primas que passavam f\u00e9rias em Inglaterra e traziam alguns vinis que por c\u00e1 n\u00e3o se encontravam. Assim rumei a Cascais, acompanhado pelas referidas primas, irm\u00e3o e pais. Lembro-me do ambiente de celebra\u00e7\u00e3o, era o primeiro dia de concerto e a revolu\u00e7\u00e3o ainda estava fresca. De qualquer modo, n\u00e3o houve grande confus\u00e3o l\u00e1 dentro (ao contr\u00e1rio do segundo dia, onde o COPCON tamb\u00e9m actuou!). Antes do concerto, as pessoas aplaudiam aqueles que conseguiam entrar \u00e0 borla atrav\u00e9s de uma abertura na bancada que dava para o hip\u00f3dromo! Quando as luzes se apagaram toda a gente se p\u00f4s em p\u00e9 em cima das cadeiras, e fiquei em desvantagem. Nisto, um freak simp\u00e1tico ao meu lado p\u00f4s-me \u00e0s cavalitas, de onde vi a maior parte do concerto! Nunca lhe agradeci o suficiente por isso&#8230; A mem\u00f3ria fotogr\u00e1fica resistiu mais ao tempo que a auditiva, embora a interpreta\u00e7\u00e3o de Gabriel e os teclados de [Tony] Banks fossem a marca de \u00e1gua das can\u00e7\u00f5es, juntamente com a guitarra de [Steve] Hackett, o \u00fanico m\u00fasico que tocando sentado contrastava com a exuber\u00e2ncia de Gabriel. Mas tenho presentes, mais ou menos desfocadas, as imagens do manto negro a abrir o seu patchwork colorido em \u201cThe Light Lies Down&#8230;\u201d, do efeito do cone de luz rodando sobre o cantor, da simula\u00e7\u00e3o da \u201ccage\u201d, da ilus\u00e3o, atrav\u00e9s de um manequim, de Gabriel estar nos dois lados do palco ao mesmo tempo, daquela banda de imagem dividida por tr\u00eas ecr\u00e3s \u2013 inovadora para a altura! \u2013 e daquele bal\u00e3o rebentado no fato de estranhas protuber\u00e2ncias que tinha sido usado como imagem promocional do concerto. Este concerto ter\u00e1 cimentado a minha liga\u00e7\u00e3o eterna \u00e0 m\u00fasica pop e apontado uma via profissional alternativa, num pa\u00eds ainda muito atrasado nesse aspecto. Mas era aquilo que quereria fazer \u201cquando fosse grande&#8230;\u201d<\/p>\n<p>David Ferreira \u2013 Director da EMI-VC<br \/>\nEstava t\u00e3o cheio que dava a sensa\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o havia lota\u00e7\u00e3o limite. Est\u00e1vamos todos permanentemente ao colo de algu\u00e9m ou com algu\u00e9m ao nosso colo. H\u00e1 cerca de tr\u00eas anos, eu estava no est\u00fadio do Peter Gabriel para ouvir o \u00faltimo disco dele. N\u00e3o o conhecia pessoalmente. Almo\u00e7\u00e1mos no est\u00fadio da Real World e o Peter Gabriel apareceu est\u00e1vamos n\u00f3s a come\u00e7ar a almo\u00e7ar. Ia cumprimentando as pessoas e na altura em que chegou a minha vez disse-lhe: \u201colhe, n\u00e3o nos conhecemos, mas a primeira vez que o vi foi h\u00e1 vinte e muitos anos\u201d. Ele ficou assim a olhar para mim. At\u00e9 que exclamou: \u201cPortugal&#8230; Portugal&#8230; ah, com as metralhadoras!\u201d Lembrava-se perfeitamente, nunca tinha actuado ao lado de soldados com metralhadoras. Ficou encantado o resto do tempo a contar hist\u00f3rias desse concerto. Tamb\u00e9m me lembro que apareciam dois Peter Gabriels. Mais tarde quando vejo o Phil Collins a assumir as r\u00e9deas como cantor parti do princ\u00edpio que o clone do Peter Gabriel seria ele. E lembro-me que est\u00e1vamos todos vagamente charrados, com o que o tipo do lado fumava. A proximidade das pessoas era t\u00e3o grande que era imposs\u00edvel deixar de sentir o fumo. Foi uma mistura curiosa de uma sobrelota\u00e7\u00e3o terceiro-mundista, metralhadoras e charros.<\/p>\n<p>Z\u00e9 Pedro \u2013 Xutos e Pontap\u00e9s<br \/>\nPara a minha gera\u00e7\u00e3o foi o grande concerto rock. Estava fascinad\u00edssimo. Fui para l\u00e1 com tr\u00eas dias de anteced\u00eancia, s\u00f3 tinha dinheiro para o bilhete de um dia, para o segundo dia falsifiquei, fiz um bilhete \u00e0 m\u00e3o. S\u00f3 o ambiente j\u00e1 era excepcional, podemos comparar, \u00e0 nossa dimens\u00e3o, a um Woodstock.<\/p>\n<p>Manuel Cardoso \u2013 Tantra<br \/>\nFui aos dois dias. Aquilo foi um aperto desgra\u00e7ado, inacredit\u00e1vel, mas os espect\u00e1culos foram memor\u00e1veis. Impressionou-me sempre a obra em si, \u201cThe Lamb Lies Down On Broadway\u201d, embora n\u00e3o seja o meu trabalho preferido dos Genesis. Gosto mais dos dois primeiros \u00e1lbuns, a seguir vem esse e o \u201cTrick of the Tail\u201d. Impressionou-me o espect\u00e1culo, mas o concerto n\u00e3o marcou nada os Tantra. Cresci com os Genesis mas n\u00e3o, essa quest\u00e3o [da influ\u00eancia] foi sempre[ posta] por causa das m\u00e1scaras, as pessoas colam pelo \u00f3bvio. A nossa m\u00fasica n\u00e3o tinha nada a ver com os Genesis, ali\u00e1s era das bandas progressivas, eles e os Pink Floyd, as que menos nos influenciaram.<\/p>\n<p>Lena D\u2019Agua \u2013 Cantora<br \/>\nFui no dia em que houve tiros l\u00e1 fora. Estava tanta gente, tanta gente que ficou imposs\u00edvel. Eu estava pendurada, agarrada a uma grade, como n\u00e3o sou alta, s\u00f3 assim \u00e9 que dava para ver. Fui com dois amigos, um era o meu namorado, futuro marido, e mais um outro da banda, os Beatnicks. Quando cheg\u00e1mos a Cascais, de comboio, estava tanta gente, havia filas que davam a volta ao quarteir\u00e3o. Mas pass\u00e1mos ao p\u00e9 de um porteiro a perguntar quanto tempo \u00e9 que ele achava que ia demorar. Eu estava muito apaixonada, com uma tunicazinha e ele achou que eu estava gr\u00e1vida. \u201cA senhora est\u00e1 \u00e0 espera de beb\u00e9, pode entrar!\u201d. E entr\u00e1mos. O mais incr\u00edvel \u00e9 que eu n\u00e3o estava gr\u00e1vida mas engravidei mesmo nesse m\u00eas, tamb\u00e9m j\u00e1 andava a pedi-las. O concerto foi um espect\u00e1culo de luzes, aquele Peter Gabriel maravilhoso, o que ele fazia no palco&#8230; desaparecia de um lado, aparecia do outro&#8230; Lembro-me de um t\u00fanel por onde ele entrava&#8230; Era tudo fant\u00e1stico para n\u00f3s, na altura o que t\u00ednhamos por c\u00e1 eram os festivais de jazz de Cascais. E a gente n\u00e3o faltava. N\u00e3o \u00e9ramos do jazz, mas era uma maneira de vermos bons m\u00fasicos a tocar.<\/p>\n<p>Manuel Mouzos \u2013 Realizador<br \/>\nFui ao segundo dia, com bilhete, embora depois soubesse pelos meus amigos que houve gente que entrou sem rasgar o seu, por causa da confus\u00e3o \u00e0 porta. Lembro-me de ver na entrada militares e isso marcou-me logo, al\u00e9m do facto de ser a banda, na altura, minha preferida. Todo o frenesim, n\u00e3o s\u00f3 meu, e depois aquela confus\u00e3o que se gerou&#8230; at\u00e9 que um dos militares, sem querer, come\u00e7ou a disparar o que gerou ainda maior confus\u00e3o. A imagem que tenho \u00e9 da entrada ficar de repente um deserto cheio de sapatos e sacolas. Depois de nova tentativa de entrada, quase ia morrendo, espezinhado, caiu uma pessoa \u00e0 minha frente, depois outra, ca\u00edram n\u00e3o sei quantas para cima de mim, foi turbulento. Mas o facto de nos conseguirmos desembara\u00e7ar da situa\u00e7\u00e3o e conseguirmos entrar, l\u00e1 dentro l\u00e1 anim\u00e1mos e realmente foi um concerto magn\u00edfico, quase m\u00e1gico. Quando sa\u00edmos s\u00f3 quer\u00edamos \u00e9 que aquilo continuasse por mais tempo.<\/p>\n<p>Encore<br \/>\n30 Anos Depois<br \/>\nGenesis<br \/>\nEncore Cascais 75<br \/>\nDVD distri. Bazar do V\u00eddeo<br \/>\n7\/10<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2010\/04\/GenesisCascais2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2010\/04\/GenesisCascais2.jpg\" alt=\"\" title=\"GenesisCascais2\" width=\"100\" height=\"145\" class=\"alignnone size-full wp-image-2043\" \/><\/a><\/p>\n<p>H\u00e1 30 anos, o cordeiro deixou a Broadway para vir, mais do que descansar, desatinar Cascais e o p\u00fablico portugu\u00eas. O DVD \u201cGenesis Encore Cascais 75\u201d relembra como tudo se passou, para g\u00e1udio dos que pretenderem reavivar a mem\u00f3ria do m\u00edtico concerto de 6 de Mar\u00e7o de 1975.<br \/>\nIntercalados com os v\u00e1rios depoimentos, surgem imagens da \u00e9poca que recuperam o ambiente pol\u00edtico do pa\u00eds at\u00e9 se chegar ao pr\u00f3prio pavilh\u00e3o Dram\u00e1tico de Cascais e, por fim, a imagens do concerto, captadas por elementos do p\u00fablico.<br \/>\nOs entrevistados v\u00e3o desfiando mem\u00f3rias, nem sempre coincidentes com a realidade. Eram os tempos, diz algu\u00e9m, em que os discos chegavam c\u00e1 com meses de atraso. N\u00e3o \u00e9 verdade. As novidades, muitas delas \u00e1lbuns obscuros, chegavam por via de importa\u00e7\u00e3o com relativa celeridade a discotecas como a Melodia, Universal, Valentim de Carvalho, Sassetti e Sinfonia. Eram tempos, diz outro entrevistado, em que apenas havia publica\u00e7\u00f5es de m\u00fasica em franc\u00eas (presumivelmente estaria a pensar na Rock &#038; Folk\u201d e na \u201cBest\u201d) e em alem\u00e3o (\u201cBravo\u201d9. Errado. Os jornais brit\u00e2nicos \u201cMelody Maker\u201d e \u201cNew Musical Express\u201d h\u00e1 anos que ocupavam semanalmente os escaparates de algumas livrarias e papelarias de Lisboa.<br \/>\nPoliticamente vivia-se o tempo do PREC (\u201cProcesso Revolucion\u00e1rio em Curso\u201d), saltam imagens de com\u00edcios e manifesta\u00e7\u00f5es de rua. O concerto dos Genesis era visto como algo difuso, \u201cuma coisa colada \u00e0 direita\u201d. A voz \u201coff\u201d de Jos\u00e9 M\u00e1rio Branco canta versos como \u201cabaixo a burguesia e a explora\u00e7\u00e3o\u201d. O 11 de Mar\u00e7o n\u00e3o tardaria nessa \u201csemana completamente louca\u201d em que o jornal A Capital anunciava que a \u201cCIA planeia golpe de estado em Portugal antes do fim de Mar\u00e7o\u201d. 20 liceus estavam em greve, era \u201cvulgar\u00edssimo haver cenas de pancadaria\u201d. No meio de tudo isto o concerto dos Genesis era uma \u201ccoisa extra-terrestre\u201d.<br \/>\nChegado o dia, e para n\u00e3o destoar do contexto, \u201cfoi a balb\u00fardia total\u201d. O DVD, realizado por Jo\u00e3o Dias a partir de um conceito idealizado por M\u00e1rio Caeiro, mostra recortes de jornal. Num deles pode ler-se \u201cGenesis em Cascais: Um novo processo de tortura volunt\u00e1ria\u201d. As imagens paradis\u00edacas do jardim anexo ao pavilh\u00e3o escondem a viol\u00eancia e a incomodidade dos que conseguiram entrar, pagando ou n\u00e3o o bilhete de 80 escudos. S\u00e3o mostradas imagens do pavilh\u00e3o, ainda em constru\u00e7\u00e3o. 10 mil, 11 mil pessoas em cada um dos dias transformaram o Dram\u00e1tico de Cascais num barril de p\u00f3lvora.<br \/>\nMas quando o espect\u00e1culo come\u00e7ou finalmente, todo o sofrimento desaparece como por magia. Os rostos ficam \u201chist\u00e9ricos\u201d. Algu\u00e9m fala no chuto que sentiu quando o som irrompeu de repente das colunas. Ningu\u00e9m esqueceu o aparato c\u00e9nico. Peter Gabriel que aparece em dois locais do palco simultaneamente. \u201cUma projec\u00e7\u00e3o\u201d. Um deles era um \u201cboneco\u201d. \u201cJogo de espelhos\u201d. Ainda hoje o mist\u00e9rio permanece. Tamb\u00e9m \u00e9 recordada a parte em que o vocalista dos Genesis passeia dentro de um tubo iluminado. Um \u201cpreservativo gigante\u201d onde Gabriel fazia de \u201cespermatoz\u00f3ide\u201d. S\u00f3 no fim do DVD, sobre as imagens do grupo em palco captadas por um amador, se ouve a m\u00fasica de \u201cThe Lamb Lies Down On Braodway\u201d.<br \/>\nOs extras incluem material fotogr\u00e1fico abundante, desde imagens registadas durante os dois dias de concertos a uma fotoreportagem com fotos do grupo antes e depois dos concertos, em poses descontra\u00eddas na vila e na ba\u00eda de Cascais.<br \/>\nH\u00e1 ainda um apanhado de reac\u00e7\u00f5es da imprensa da \u00e9poca, reprodu\u00e7\u00f5es das p\u00e1ginas da pr\u00f3xima edi\u00e7\u00e3o da revista Cais (CasCAIS 75&#8230;) inteiramente preenchida pelo acontecimento de 1975 e excertos do espect\u00e1culo \u201cThe Lamb Lies Down On Broadway\u201d que o grupo canadiano The Musical Box, clone dos Genesis, apresentar\u00e1 em Lisboa, na Aula Magna, em Maio, comemorando os 30 anos da edi\u00e7\u00e3o original do \u00e1lbum. Os The Musical Box, depois de j\u00e1 terem mimado \u00e1lbuns anteriores do grupo original, como \u201cFoxtrot\u201d e \u201cSelling England By The Pound\u201d, foram desta vez ao ponto de reproduzir os modelos de instrumentos originais usados pelos Genesis em \u201cThe Lamb Lies Down On Broadway\u201d e v\u00e3o socorrer-se igualmente de todos os truques de encena\u00e7\u00e3o que a banda brit\u00e2nica usou em Cascais.<br \/>\n30 anos \u00e9 muito tempo para ser concedido um \u201cencore\u201d. Mas ao ver-se este DVD parece que foi ontem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>04.03.2005 Genesis Rael Na Real Em Cascais The Lamb Lies Down On Broadway foi o concerto certo na altura certa. A revolu\u00e7\u00e3o de Abril, e o seu banho de realidade, era ainda uma crian\u00e7a mas o onirismo do rock Progressivo j\u00e1 declinava. Os Genesis acertaram precisamente no meio. Um DVD editado puxa pelas mem\u00f3rias. 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