{"id":1908,"date":"2010-04-06T08:46:22","date_gmt":"2010-04-06T15:46:22","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=1908"},"modified":"2010-04-06T08:46:22","modified_gmt":"2010-04-06T15:46:22","slug":"paulo-braganca-no-ccb-%e2%80%9cquando-vejo-o-abismo-sou-o-primeiro-a-saltar%e2%80%9d-entrevista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2010\/04\/06\/paulo-braganca-no-ccb-%e2%80%9cquando-vejo-o-abismo-sou-o-primeiro-a-saltar%e2%80%9d-entrevista\/","title":{"rendered":"Paulo Bragan\u00e7a, no CCB: \u201cQuando vejo o abismo sou o primeiro a saltar\u201d &#8211; Entrevista &#8211;"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 300;\ngoogle_ad_height = 250;\ngoogle_ad_format = \"300x250_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p>24.10.1997<br \/>\nPaulo Bragan\u00e7a, no CCB<br \/>\n\u201cQuando vejo o abismo sou o primeiro a saltar\u201d<br \/>\nO rosto l\u00edvido. Um espectro. A capa de Coimbra, levantada sobre o pesco\u00e7o, sugere o vampiro, o sugador de sangue. O ambiente \u00e9 g\u00f3tico, arrepiante. O novo fado de Paulo Bragan\u00e7a, que amanh\u00e3 se apresentar\u00e1 no Grande Audit\u00f3rio do CCB, atrai pelo lado obscuro. O \u201cFado falado\u201d, de Villaret, fala agora do problema da hero\u00edna. No final, o fadista sai de si mesmo, numa busca \u00e1vida de luz.<\/p>\n<p><object width=\"480\" height=\"385\"><param name=\"movie\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/agNKnAgr_MM&#038;hl=pt_PT&#038;fs=1&#038;\"><\/param><param name=\"allowFullScreen\" value=\"true\"><\/param><param name=\"allowscriptaccess\" value=\"always\"><\/param><embed src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/agNKnAgr_MM&#038;hl=pt_PT&#038;fs=1&#038;\" type=\"application\/x-shockwave-flash\" allowscriptaccess=\"always\" allowfullscreen=\"true\" width=\"480\" height=\"385\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p>FM &#8211; Como vai ser a estrutura do espect\u00e1culo?<br \/>\nPaulo Bragan\u00e7a &#8211; \u00c9 quase uma pe\u00e7a de teatro. H\u00e1 um personagem que est\u00e1 em conflito consigo pr\u00f3prio e que vai, \u00e0 medida de cada tema, pensando se fica nas ra\u00edzes do fado ou se as subverte. O come\u00e7o vai ser com fado puro, embora com algumas dissid\u00eancias em termos verbais e musicais. Depois surgem momentos de conflito. No \u201cFado do Her\u00f3i\u201d j\u00e1 h\u00e1, quase, um aviso \u00e0 na\u00e7\u00e3o. A seguir \u00e9 o \u201cAdeus\u201d. \u201cAdeus p\u00e1tria linda, adeus querido lar, adeus Tejo amado at\u00e9 eu voltar&#8230;\u201d, a\u00ed o personagem j\u00e1 est\u00e1 numa galera, seguindo-se um processo interior, com nova quebra e dois temas intimistas, \u201cPecado I\u201d e \u201cPecado II\u201d, at\u00e9 se chegar a uma transnacionalidade, uma \u201ctransfusogress\u00e3o\u201d (fui eu que inventei a palavra), onde surgem temas que n\u00e3o s\u00e3o portugueses nem sequer s\u00e3o cantados em l\u00edngua portuguesa. Dois temas na l\u00edngua \u201croman\u201d, dos romenos, uma l\u00edngua cigana. \u00c9 a procura do singular no universal, sem perder as ra\u00edzes. At\u00e9 se chegar ao \u00faltimo tema que se chama \u201cN\u00e9voa\u201d, onde se diz que \u201ch\u00e1 sempre entre mim e o mundo uma n\u00e9voa que \u00e0s vezes me ataca e me faz ref\u00e9m de uma solid\u00e3o t\u00e3o fria que n\u00e3o me d\u00e1 tr\u00e9gua, guardador de um cofre onde n\u00e3o h\u00e1 vint\u00e9m\u201d. As palavras s\u00e3o do Carlos Maria Trindade com m\u00fasica minha. \u00c9 j\u00e1 um novo ser, que n\u00e3o opina, n\u00e3o julga, \u00e9 s\u00f3 um \u201cvoyeur\u201d que observa tudo de cima. O corpo n\u00e3o existe, s\u00f3 existe um ser pensante. Quas euma di\u00e1spora kafkiana.<br \/>\nFM &#8211; Falou h\u00e1 pouco de uma \u201cviagem\u201d \u00e0 Rom\u00e9nia. \u00c9 imposs\u00edvel n\u00e3o pensar na c\u00e9lebre personagem do Conde Dr\u00e1cula que assombra a sua apresenta\u00e7\u00e3o&#8230;<br \/>\nPaulo Bragan\u00e7a &#8211; Na origem, n\u00e3o foi propositado. Essa liga\u00e7\u00e3o fez-se recentemente. \u00c9 a liga\u00e7\u00e3o ao sangue. Depois, a m\u00fasica cigana \u00e9 t\u00e3o fado como o nosso Fado. Desde mi\u00fado, quando era \u201cteenager\u201d, que comecei a estudar romeno sozinho, de modo a conhecer melhor alguns dos poetas deles. Mas n\u00e3o \u00e9 o terror que me assusta, vejo o terror apenas como um aspecto fant\u00e1stico, como a fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica.<br \/>\nFM &#8211; O seu espect\u00e1culo centra-se no lado mais sombrio do fado&#8230;<br \/>\nPaulo Bragan\u00e7a &#8211; Se reparar, a capa de Coimbra tem a ver com isso. Por acaso a capa que uso agora \u00e9 mais vampiresca&#8230; Uma capa, quando existe, \u00e9 para guardar qualquer coisa escondida, \u00e9 um mist\u00e9rio. O estudante de Coimbra tamb\u00e9m transporta em si algum desse vampirismo. Ou devia&#8230;<br \/>\nFM &#8211; Que tipo de envolvimento com o p\u00fablico procura criar?<br \/>\nPaulo Bragan\u00e7a &#8211; De um modo geral as pessoas ficam desconcertadas. Pela positiva. N\u00e3o se sentem assustadas mas, talvez, intimidadas. Embora houvesse quem sentisse realmente medo e se agarrasse \u00e0 cadeira&#8230; Porque o medo tamb\u00e9m suscita fasc\u00ednio.<br \/>\nFM &#8211; Eo Paulo Bragan\u00e7a, n\u00e3o se auto-sugestiona com a personagem que criou?<br \/>\nPaulo Bragan\u00e7a &#8211; Quando vejo o abismo sou o primeiro a saltar. N\u00e3o tenho medo. Mas tenho respeito pelo medo.<br \/>\nFM &#8211; Prseumo que, cada vez mais, a sua rela\u00e7\u00e3o com os puristas do fado \u00e9 conflituosa?<br \/>\nPaulo Bragan\u00e7a &#8211; Eles, \u00e0 minha frente, nunca me negam. D\u00e3o uma no cravo e outra na ferradura. Eu at\u00e9 percebo a posi\u00e7\u00e3o deles. Mas isto n\u00e3o \u00e9 nada contra eles, mas sim contra a estagna\u00e7\u00e3o do fado. Enquanto que eles, por vezes, me atingem directamente, eu n\u00e3o os procuro atingir a eles. O que procuro atingir \u00e9 a consci\u00eancia colectiva nacional.<br \/>\nFM &#8211; Que tipo de som se poder\u00e1 escutar amanh\u00e3 no CCB?<br \/>\nPaulo Bragan\u00e7a &#8211; Um som estranho. Com um compromisso entre a ci\u00eancia e um lado ac\u00fastico. Guitarras portuguesas lada a lado com \u201csamplers\u201d e tecnologia MIDI.<br \/>\nFM &#8211; De que modo \u00e9 explorada a tal teatralidade que h\u00e1 pouco referiu?<br \/>\nPaulo Bragan\u00e7a &#8211; Por exemplo, abro com o \u201cFado Falado\u201d, onde reverti o texto, pegando nele como s\u00edmbolo do teatro e transformando-o num mon\u00f3logo, com uma nova interpreta\u00e7\u00e3o sonora e textual, bastante dissidente. Por isso lhe chamei \u201cFado Falado Mudado\u201d. Aproveito para falar do problema da hero\u00edna. \u00c9 um texto bastante duro, em que chamo as cosias pelos nomes, numa hist\u00f3ria que de facto se passou na Meia-Laranja. Em termos formais, ouvi  uitas vezes o original do Villaret. A minha vers\u00e3o \u00e9 codificada ao mil\u00edmetro, s\u00edlaba por s\u00edlaba, metricamente igual.<br \/>\nFM &#8211; Qual \u00e9 a sua atitude perante o problema da toxicodepend\u00eancia?<br \/>\nPaulo Bragan\u00e7a &#8211; N\u00e3o estou a julgar ningu\u00e9m mas a constatar uma realidade. Algo de grave que se est\u00e1 a passar no pa\u00eds. Ningu\u00e9m diz que o rei vai nu. N\u00e3o h\u00e1nenhuma fam\u00edlia portuguesa, hoje em dia, que n\u00e3o tenha essa m\u00e1cula, seja por um filho ou por um primo. E tamb\u00e9m verifico que a pol\u00edcia s\u00f3 apanha coca\u00edna e haxixe. Hero\u00edna nunca se apanha. Chega-se a uma ladeia, como eu j\u00e1 cheguei &#8211; e isto \u00e9 o que me dizem porque eu n\u00e3o preciso nada dessas merdas &#8211; a uma ladeia de Tr\u00e1s-Os -Montes, seja onde f\u00f4r, no local mais rec\u00f4ndito, queres um charro, n\u00e3o h\u00e1. Ou se houver, custa dez contos a grama. Coca\u00edna pode custar 25 contos uma grama. E a hero\u00edna custa mil escudos e h\u00e1 a toda a hora. 24 horas por dia, nas barbas da pol\u00edcia, em todo o lado. O Casal Ventoso \u00e9 uma imagem p\u00e1lida do que se est\u00e1 a passar no resto do pa\u00eds. E o mais grave \u00e9 que a hero\u00edna \u00e9 gerida por quest\u00f5es de Estado, por algu\u00e9m&#8230; Por isso \u00e9 que eu canto uma parte que diz \u201cm\u00e3os de sangue na seringa que rasgada a veia pinga, m\u00e3os de Estado maquilhado, m\u00e3os de serra e queima a terra, m\u00e3os bem vendidas, muito finas, m\u00e3os vendadas a arrecadar, n\u00e3o h\u00e1 paix\u00e3o, crime ou morte onde h\u00e1 um fil\u00e3o a correr forte\u201d&#8230; \u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o que me incomoda. Repito: \u00e9 preciso dizer que o rei vai nu.<br \/>\nFM &#8211; Uma forma velada de manter os jovens sob controle?<br \/>\nPaulo Bragan\u00e7a &#8211; \u00c9 uma forma de adormecer as pessoas. E n\u00e3o s\u00f5a s\u00f3 os mais novos. As velhas, neste pa\u00eds, andam todas drunfadas, porque o que se vende mais no pa\u00eds s\u00e3o drunfes e \u00e9 o que tem desconto da Assist\u00eancia Social. N\u00e3o h\u00e1 uma velhinha que n\u00e3o tenha um drunfe em cas, um Xanax, um Valium, um ansiol\u00edtico qualquer. Depois, os putos t\u00eam hero\u00edna. Putos de 16 anos, que eu conhec\u00e7o, que picam, nem sequer fumam, picam! Interessa a algu\u00e9m, de facto, que o povo ande acalmado. D\u00eaem hero\u00edna ao pessoal, para se tornarem nuns energ\u00famenos que n\u00e3o chateiam!&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>24.10.1997 Paulo Bragan\u00e7a, no CCB \u201cQuando vejo o abismo sou o primeiro a saltar\u201d O rosto l\u00edvido. Um espectro. A capa de Coimbra, levantada sobre o pesco\u00e7o, sugere o vampiro, o sugador de sangue. O ambiente \u00e9 g\u00f3tico, arrepiante. O novo fado de Paulo Bragan\u00e7a, que amanh\u00e3 se apresentar\u00e1 no Grande Audit\u00f3rio do CCB, atrai [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[309,25,24,68],"tags":[599],"class_list":["post-1908","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entrevistas-2001","category-fado","category-portugueses","category-world","tag-paulo-braganca"],"views":4073,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1908","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1908"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1908\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1909,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1908\/revisions\/1909"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1908"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1908"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1908"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}