{"id":1900,"date":"2010-04-05T05:13:24","date_gmt":"2010-04-05T12:13:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=1900"},"modified":"2010-04-05T05:13:24","modified_gmt":"2010-04-05T12:13:24","slug":"anamar-entrevista-o-despertar-da-alquimista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2010\/04\/05\/anamar-entrevista-o-despertar-da-alquimista\/","title":{"rendered":"Anamar: Entrevista &#8211; O Despertar Da Alquimista"},"content":{"rendered":"<p>26.09.1997<br \/>\nO Despertar Da Alquimista<br \/>\nAnamar, mais que uma cantora, \u00e9 uma viajante da alma. As imagens do seu filme interior mudaram nos \u00faltimos dez anos. Aprendeu a serenidade e a luz que se esconde nos gestos e nas palavras. \u201cM\u201d, o seu novo \u00e1lbum, \u00e9 pura vibra\u00e7\u00e3o. \u201cM\u201d de \u201cmais\u201d, \u201cM\u201d de \u201cmorte\u201d, \u201cM\u201d de \u201cmudan\u00e7a\u201d, \u201cM\u201d de \u201cmundo\u201d, \u201cM\u201d de \u201cmar\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2010\/04\/anamar.gif\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2010\/04\/anamar.gif\" alt=\"\" title=\"anamar\" width=\"150\" height=\"226\" class=\"alignnone size-full wp-image-1901\" \/><\/a><\/p>\n<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 234;\ngoogle_ad_height = 60;\ngoogle_ad_format = \"234x60_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p><object width=\"480\" height=\"385\"><param name=\"movie\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/1dH1wG-DHcQ&#038;hl=pt_PT&#038;fs=1&#038;\"><\/param><param name=\"allowFullScreen\" value=\"true\"><\/param><param name=\"allowscriptaccess\" value=\"always\"><\/param><embed src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/1dH1wG-DHcQ&#038;hl=pt_PT&#038;fs=1&#038;\" type=\"application\/x-shockwave-flash\" allowscriptaccess=\"always\" allowfullscreen=\"true\" width=\"480\" height=\"385\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p>A linguagem \u00e9 a da alquimia. Casamento de elementos, dissocia\u00e7\u00e3o e harmoniza\u00e7\u00e3o interior s\u00e3o termos empregues por Anamar para falar de \u201cM\u201d, o seu novo disco, gravado numa igreja. Um banho de luz.<\/p>\n<p>FM &#8211; \u201cM\u201d \u00e9 um t\u00edtulo estranho, n\u00e3o acha? \u201cM\u201d, \u201cMatou\u201d, de Fritz Lang. \u201cM\u201d, o grupo que fez o tema chamado \u201cPop Music\u201d&#8230;<br \/>\nAnamar &#8211; N\u00e3o quer\u00edamos limitar o que se pudesse percepcionar do disco com uma palavra. A ideia de ter s\u00f3 uma letra \u00e9 de as pessoas associarem o que quiserem a essa letra. Deixar uma porta aberta.<br \/>\nFM &#8211; Depois h\u00e1 uma can\u00e7\u00e3o chamada \u201cNSN\u201d&#8230;<br \/>\nAnamar &#8211; A\u00ed \u00e9 por causa do \u201cN\u201d, que se diz com os l\u00e1bios fechados, mas \u00e9 aud\u00edvel c\u00e1 fora. Uma rela\u00e7\u00e3o exterior que nos interessa. Al\u00e9m disso, s\u00e3o as iniciais de \u201cNossa Senhora da Neves\u201d, a quem foi erigida uma capela do s\u00e9c. XII onde foi gravado o CD, no alto da Serra de Montejunto.<br \/>\nFM &#8211; Est\u00e1s sempre a falar em \u201cn\u00f3s\u201d&#8230; N\u00f3s quem?<br \/>\nAnamar &#8211; Este trabalho n\u00e3o foi feito por mim exclusivamente, mas por um n\u00facleo criativo de quatro pessoas: eu, o Andr\u00e9 Louro de Almeida, ao n\u00edvel musical e do conceito de arranjos, e o Tiago Torres da Silva e a Ana Calhau, tamb\u00e9m criadoreas do conceito de origem.<br \/>\nFM &#8211; Que conceito?<br \/>\nAnamar &#8211; Cantar a luz atrav\u00e9s do fado, sendo que, de uma maneira muito comum, o fado est\u00e1 associado a outro tipo de emo\u00e7\u00f5es: ci\u00fame, posse, vingan\u00e7a, escurid\u00e3o, saudade, desilus\u00e3o, revolta&#8230; Mas esse conceito n\u00e3o me entusiasmou especialmente, n\u00e3o estava muito virada para pegar no c\u00f3digo do fado, j\u00e1 muito usado e trabalhado anteriormente. N\u00e3o \u00e9 fado que costumo ouvir em casa, mas coisas com outra espacialidade, indicadoras de outros estados de esp\u00edrito &#8211; Dead Can Dance, Rachmaninov, Brian Eno, David Sylvian&#8230; No entanto, o pacote de letras que o Tiago me apresentou era extraordin\u00e1rio.<br \/>\nFM &#8211; Falou em espacialidade. E religiosidade?<br \/>\nAnamar &#8211; Absolutamente. \u00c9 uma caracter\u00edstica, para mim, b\u00e1sica. No entanto, n\u00e3o \u00e9 assim t\u00e3o \u00f3bvio que a arte entre em linha de conta com ela.<br \/>\nFM &#8211; Essa religiosidade n\u00e3o est\u00e1 a transformar-se, nos dias que correm, um mero amontoado de \u00edcones e imagens, esvaziadas do seu verdadeiro significado?<br \/>\nAnamar &#8211; Todo o fen\u00f3meno de profetas com p\u00e9s de barro, ou aproveitamentos comercial\u00f3ides do fen\u00f3meno \u201cnew age\u201d, mais as seitas, tudo isso e a \u201castrologite\u201d. Se religi\u00e3o significar religar, e \u00e9 da\u00ed que vem a palavra, a\u00ed sim, sou uma pessoa profundamente religiosa. Religar \u00e0 vida, sendo que esta, em si, \u00e9 a transcend\u00eancia.<br \/>\nFM &#8211; \u00c9 engra\u00e7ado estar a falar sobre estas quest\u00f5es. As pessoas estavam habituadas a ter de si outra imagem&#8230;<br \/>\nAnamar &#8211; Eu sei. Deixei de cantar e de aparecer h\u00e1 muitos anos, nove anos. \u00c9 curioso verificar como uma imagem pode ficar cristalizada no tempo. H\u00e1 dez anos, vestia de preto, pintava os l\u00e1bios de vermelho e usava os cabelos muito compridos. Uma imagem que ficou ligada a uma no\u00e7\u00e3o de estilo e \u00e0 sedu\u00e7\u00e3o, ao risco e \u00e0 ousadia. Hoje, nem a minha cara \u00e9 igual. Nem o meu ser interior.<br \/>\nFM &#8211; O que aprendeu nestes \u00faltimos des anos?<br \/>\nAnamar &#8211; Fui crescendo. A op\u00e7\u00e3o, neste per\u00edodo de tempo, de n\u00e3o cantar e de n\u00e3o manter uma actividade p\u00fablica deriva da minha necessidade de ouvir primeiro o que estava c\u00e1 dentro e ver se tinha alguma coisa para dizer. Uma das coisas que aprendi nestes dez anos foi o valor do sil\u00eancio. O valor do quietar. Do respirar, do fruir de tudo o que a vida tem para nos dar, em vez de querermos que as coisas correspondam aos nossos desejos.<br \/>\nFM &#8211; Essa filosofia de vida, transferiu-a para a feitura do seu disco?<br \/>\nAnamar &#8211; este disco n\u00e3o \u00e9 fruto de um trabalho pessoal meu, mas de um trabalho de equipa. O que pediu uma abertura e uma aprendizagem do que \u00e9 \u201ccriar com\u201d outras pessoas, algo que eu n\u00e3o conhecia assim t\u00e3o bem. Nos outros discos trabalhei com muita gente, mas o conceito e o ponto de partida eram definidos por mim. Neste caso, n\u00e3o, fui obrigada a uma disciplina.<br \/>\nFM &#8211; Quer dizer que o seu ego se suavizou?<br \/>\nAnamar &#8211; Tendo um ego, como toda a gente, h\u00e1 partes desconhecidas de mim pr\u00f3pria em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s quais fa\u00e7o quest\u00e3o de estar especialmente atenta, de maneira a estar em sintonia com elas. Quanto mais fundo se vai dentro de n\u00f3s, menos se faz quest\u00e3o de ter ou n\u00e3o ego, de ser isto ou aquilo.<br \/>\nFM &#8211; Como \u00e9 que se processaram as grava\u00e7\u00f5es?<br \/>\nAnamar &#8211; O disco foi gravado quase como um disco ao vivo, em tempo real, o que quer dizer que houve muitas repeti\u00e7\u00f5es, que aproveitei para fazer apuramentos, ao n\u00edvel de quest\u00f5es t\u00e9cnicas. Foi exigida uma concentra\u00e7\u00e3o muito grande, havendo necessidade de se estar tranquilo para que as coisas flu\u00edssem. Ao todo foram tr\u00eas semanas ao longo das quais grav\u00e1mos 21 can\u00e7\u00f5es e&#8230; uma brincadeira.<br \/>\nFM &#8211; Que brincadeira?<br \/>\nAnamar &#8211; Numa ocasi\u00e3o o Joaquin d\u2019Azur\u00e9m estava a tocar guitarra portuguesa num teste de som e eu comecei a cantar por cima. Ou a leitura de um texto sobre uma banda-sonora composta pelo Andr\u00e9 Louro de Almeida.<br \/>\nFM &#8211; Falou, h\u00e1 pouco, do fado, que tamb\u00e9m corre o risco de se desvirtuar. De que forma \u00e9 que sente este tipo de m\u00fasica?<br \/>\nAnamar &#8211; O fado \u00e9 um c\u00f3digo e uma porta de acesso directo \u00e0 alma, como os \u201cblues\u201d ou o \u201cgospel\u201d. Do ponto de vista cultural, cristalizou no tempo. Lembro-me de quando era mi\u00fada e cantar \u201cA can\u00e7\u00e3o do mar\u201d, da Am\u00e1lia, ser um esc\u00e2ndalo. Mas a pr\u00f3pria Am\u00e1lia gostou muito do tema.<br \/>\nFM &#8211; A maneira de se exprimir sugere eleg\u00e2ncia, mesmo quando se trata de espiritualidade&#8230;<br \/>\nAnamar &#8211; Entendo que uma das qualidades da espiritualidade \u00e9 precisamente a eleg\u00eancia. N\u00e3o h\u00e1 esp\u00edrito sem beleza. H\u00e1 uma tentativa da minha parte de tratar a vida com eleg\u00e2ncia. N\u00e3o h\u00e1 harmonia sem ela, todos os pontos de vista radicais ou separatistas, que s\u00f3 tendem para um lado da realidade, n\u00e3o me satisfazem. A vida n\u00e3o \u00e9 separada, tal como a vis\u00e3o das coisas n\u00e3o dever\u00e1 ser separada. A eleg\u00e2ncia \u00e9 uma caracter\u00edstica da verdadeira complementaridade de elementos.<br \/>\nFM &#8211; Quais s\u00e3o os seus elementos?<br \/>\nAnamar &#8211; \u00c1gua e fogo. Embora talvez o mais importante seja o \u00e9ter, o quinto elemento&#8230; A \u00e1gua identifica-se com os sentimentos e as emo\u00e7\u00f5es, com o fundo da alma e o poder de aplicar o cora\u00e7\u00e3o na vida. O fogo equivale a uma verticalidade, a um amor pela verdade, a uma expans\u00e3o, a uma inspira\u00e7\u00e3o, \u00e0 criatividade em si, aquilo que faz com que um \u00e1tomo e outro se juntem dando origem a uma coisa. Por isso tento articular a express\u00e3o, pr\u00f3pria do fogo, com a interioriza\u00e7\u00e3o, pr\u00f3pria da \u00e1gua. Um casamento que \u00e9 um dos trabalhos aos quais me tenho dedicado. \u00c9 como uma cafeteira com \u00e1gua a ferver. \u00c9 bom que a \u00e1gua fervente esteja em total correspond\u00eancia com a intensidade da chama. Se ferve demais, apaga a chama. Se a chama estiver demasiado alta, evapora a \u00e1gua.<br \/>\nFM &#8211; Est\u00e1 a falar como uma alquimista&#8230;<br \/>\nAnamar &#8211; A alquimia \u00e9 um c\u00f3digo de profundidade&#8230; mas na verdade \u00e9 a pr\u00f3pria simplicidade da vida. A harmonia \u00e9 a forma mais simples, mas tamb\u00e9m a que requer mais trabalho.<br \/>\nFM &#8211; Assusta-a o envelhecimento, a decad\u00eancia da beleza f\u00edsica?<br \/>\nAnamar &#8211; Assusta-me o envelhecimento, por estagna\u00e7\u00e3o. O envelhecimento interior. Assusta-me a morte interior, n\u00e3o em mim, e digo n\u00e3o em mim, porque n\u00e3o h\u00e1 receio que em mim, por dentro, morra aquilo que me anima, sen\u00e3o n\u00e3o estava viva. Sou a t\u00edpica sobrevivente. Acredito que existe uma rela\u00e7\u00e3o entre o envelhecimento da mat\u00e9ria e a sabedoria interior. Atrav\u00e9s do tempo, o homem tem acesso a ser, cada vez mais, ele pr\u00f3prio, a ser s\u00e1bio. O envelhecimento f\u00edsico acaba por ser o pre\u00e7o a pagar pela experi\u00cancia vivida. Mas tamb\u00e9m acredito que o corpo f\u00edsico \u00e9 condicionado pela energia interior, nomeadamente a ps\u00edquica. Da\u00ed n\u00e3o saber se as pessoas forem cada vez mais psiquicamente saud\u00e1veis se n\u00e3o ser\u00e3o tamb\u00e9m cada vez mais fisicamente vitais.<br \/>\nJ\u00e1 agora, tamb\u00e9m me assusta a paran\u00f3ia de que todoa a gente queira ser como a Claudia Schiffer at\u00e9 aos 80 anso!&#8230; \u00c9 a prioridade dada \u00e0 pl\u00e1stica, ditada pela moda, uma ditadura de formata\u00e7\u00e3o de mentalidades, respons\u00e1vel pela morte interior de muitas pessoas.<br \/>\nFM &#8211; Vivemos uma \u00e9poca de morte e de apodrecimento. O Apocalipse?<br \/>\nAnamar &#8211; Talvez uma \u00e9poca de altos pre\u00e7os a pagar por tantas cristaliza\u00e7\u00f5es. H\u00e1 uma coisa que me faz muita impress\u00e3o. Habitualmente, a informa\u00e7\u00e3o que chega \u00e0s pessoas \u00e9 sempre sobreo lado negro dos sinais, nos telejornais e nos jornais. Parece qu eh\u00e1 uma publica\u00e7\u00e3o num pa\u00eds, n\u00e3o sei bem qual, que se dedica s\u00f3 a divulgar aquilo que de bom acontece no mundo e que tem tido um p\u00fablico tremendo. Estamos numa fase cr\u00edtica e, por isso, privilegiada. Considerando que o pre\u00e7o \u00e9 alto, porque a tal formata\u00e7\u00e3o da cabe\u00e7a e do \u201cmodus vivendi\u201d das pessoas chegou a um limite de dissen\u00e7\u00e3o com o seu pr\u00f3prio interior, por outro lado existe a oportunidade de ver de caras, a um n\u00edvel extremo, o que n\u00e3o d\u00e1, o que n\u00e3o funciona, que n\u00e3o traz felicidade. Nesse sentido, quanto mais claro se v\u00ea o inimigo, mais f\u00e1cil \u00e9 o entendimento do que poder\u00e1 ser mais criativo.<br \/>\nFM &#8211; Quem ou o que \u00e9 o inimigo?<br \/>\nAnamar &#8211; O medo.<br \/>\nFM &#8211; Como \u00e9 que se pode venc\u00ea-lo?<br \/>\nAtrav\u00e9s da emerg\u00eancia da tomada de consci\u00eancia de quem se \u00e9 e do que se est\u00e1 a fazer. \u00c9 a \u00fanica sa\u00edda. O homem meteu-se numa camisa de for\u00e7as e, de alguma maneira, est\u00e1 a ser encostada \u00e0 parede na press\u00e3o m\u00e1xima. Ou descobre como \u00e9 que sai l\u00e1 de dentro ou ent\u00e3o morre. Acabou o problema, estoira tudo. Acredito, ou melhor, sei internamente que o futuro das coisas \u00e9 sempre e tendencialmente luz.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>26.09.1997 O Despertar Da Alquimista Anamar, mais que uma cantora, \u00e9 uma viajante da alma. As imagens do seu filme interior mudaram nos \u00faltimos dez anos. 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