{"id":1757,"date":"2010-03-16T04:06:24","date_gmt":"2010-03-16T11:06:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=1757"},"modified":"2010-03-16T04:06:24","modified_gmt":"2010-03-16T11:06:24","slug":"robert-wyatt-mercador-de-sonhos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2010\/03\/16\/robert-wyatt-mercador-de-sonhos\/","title":{"rendered":"Robert Wyatt &#8211; Mercador de Sonhos"},"content":{"rendered":"<p>19.09.1997<br \/>\nMercador de Sonhos<br \/>\nSeis anos de sil\u00eancio depois de \u201cDondestan\u201d, cortados pela colec\u00e7\u00e3o de gravuras sonoras do mini-CD \u201cA Short Break\u201d, Robert Wyatt tem um novo \u00e1lbum de originais, \u201cShleep\u201d, gravado no est\u00fadio de Phil Manzanera, com a participa\u00e7\u00e3o, entre outros, de Brian Eno, Paul Weller, Evan Parker e Annie Whitehead. Um disco de \u201csonhos maus\u201d por um sonhador que tem experimentado na carne a dor, a utopia e a revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2010\/03\/robertWyatt_Shleep.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2010\/03\/robertWyatt_Shleep.jpg\" alt=\"\" title=\"robertWyatt_Shleep\" width=\"240\" height=\"240\" class=\"alignnone size-full wp-image-1758\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2010\/03\/robertWyatt_Shleep.jpg 240w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2010\/03\/robertWyatt_Shleep-150x150.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 240px) 100vw, 240px\" \/><\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.mediafire.com\/?0mzmzydinmw\" target=\"_blank\">LINK<\/a><\/p>\n<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 468;\ngoogle_ad_height = 60;\ngoogle_ad_format = \"468x60_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p><object width=\"425\" height=\"344\"><param name=\"movie\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/69_4phKV8Nk&#038;hl=pt_PT&#038;fs=1&#038;color1=0x3a3a3a&#038;color2=0x999999\"><\/param><param name=\"allowFullScreen\" value=\"true\"><\/param><param name=\"allowscriptaccess\" value=\"always\"><\/param><embed src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/69_4phKV8Nk&#038;hl=pt_PT&#038;fs=1&#038;color1=0x3a3a3a&#038;color2=0x999999\" type=\"application\/x-shockwave-flash\" allowscriptaccess=\"always\" allowfullscreen=\"true\" width=\"425\" height=\"344\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p>\u201cShleep\u201d \u00e9 o melhor \u00e1lbum de Robert Wyatt, desde \u201cRock Bottom\u201d, a obra-prima gravada em 1974 a seguir ao acidente que o atirou para uma cadeira de rodas. O mesmo acidente que acelerou o processo de descoberta de uma \u201cvoz pessoal\u201d que nos \u00faltimos 25 anos insite em se fazer ouvir com o poder de transfigura\u00e7\u00e3o de um guerrilheiro que faz da poesia a principal arma.<br \/>\n\u201cShleep\u201d \u00e9 uma mistura de \u201cSheep\u201d com \u201cSleep\u201d. De massifica\u00e7\u00e3o com dorm\u00eancia. Wyatt explica que \u201ccome\u00e7ou por ser apenas o t\u00edtulo de uma can\u00e7\u00e3o\u201d, embora sejam l\u00edcitas outras conota\u00e7\u00f5es, como \u201cThe Little Sleep\u201d, uma novela policial de Raymond Chandler.<br \/>\nO sono e o sonho. Robert Wyatt teve problemas com o primeiro, transformando em arma o segundo. \u201cH\u00e1 dois, tr\u00eas anos, tive uma fase em que, pura e simplesmente, n\u00e3o conseguia dormir.\u201d \u201cShleep\u201d resgata o onirismo, da mesma forma que \u201cRock Bottom\u201d exorcizava os traumas deixados pelo acidente que o tornou parapl\u00e9gico, e \u201cNothing Can Stop Us\u201d era a reac\u00e7\u00e3o violenta contra uma situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica considerada \u201cintoler\u00e1vel\u201d.<br \/>\nCada can\u00e7\u00e3o de \u201cShleep\u201d \u00e9 ent\u00e3o como que o \u201cpolaroid de um sonho\u201d. \u201cPrefiro os sonhos maus aos sonhos bons. Quando acordo de um sonho bom, o choque com a realidade od dia-a-dia \u00e9 maior.\u201d N\u00e3o se trata, diz, de um projecto iseol\u00f3gico &#8211; \u201cNunca injecto os meus discos com qualquer forma de ideologia, tento sempre que sejam totalmente independentes.\u201d Mesmo \u201cNothing Can Stop Us\u201d ou um tema como \u201cEast Timor\u201d de \u201cOld Rottenhat\u201d? \u201cTalvez nessa altura, nos anos 80, sim, a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica em Inglaterra estava a tornar-se intoler\u00e1vel, com a emerg\u00eancia de movimentos racistas e nazis. Foi uma \u00e9poca em que passava mais tempo a participar em com\u00edcios do que a ouvir ou a preocupar-me com m\u00fasica.\u201d<br \/>\nTrata-se, afinal, t\u00e3o-s\u00f3 da projec\u00e7\u00e3o intuitiva de estados de alma que tanto exigem, para se fazerem ouvir, do canto panflet\u00e1rio da Internacional Socialista, como se encolhem num balbuciar triste e, por vezes, incoerente, de uma crian\u00e7a ferida. Ou de um louco encarcerado na certeza das suas pr\u00f3prias convic\u00e7\u00f5es. De um pouco como \u201cRock Bottom\u201d n\u00e3o se sai igual ao que se entrou. Os \u00e1lbuns seguintes, de \u201cRuth Is Stranger Than Richard\u201d a \u201cDondestan\u201d, demonstram essa mesma impossibilidade de fazer frente, com a const\u00e2ncia dos iluminados ou dos masoquistas, ao reflexo do espelho. Mas a\u00ed est\u00e1 \u201cShleep\u201d para nos fazer crer o contr\u00e1rio.<br \/>\nGravado no est\u00fadio de Phil Manzanera, companheiro de longa data de Wyatt, \u201cShleep\u201d re\u00fane mem\u00f3rias e fragmentos da anterior discografia, num \u201cpuzzle\u201d que necessita de tempo para se fazer compreender na sua totalidade. Um tempo que o pr\u00f3prio m\u00fasico reserva para si, de forma a tornar coerente \u201cum processo de composi\u00e7\u00e3o org\u00e2ncio, feito de intui\u00e7\u00f5es\u201d. Processo que tem in\u00edcio em casa, num gravador de quatro pistas, em articula\u00e7\u00e3o estreita com a sua mulher, Alfreda Benge &#8211; autora dos textos e das capas de grande parte da discografia recente do m\u00fasico -, com quem Wyatt tem partilhado in\u00fameras experi\u00eancias e viagens pelo mundo.<br \/>\nPara \u201cShleep\u201d, Robert Wyatt convidou velhos amigos, como Phil Manzanera e Brian Eno, este \u00faltimo \u201cum aventureiro que lida com a m\u00fasica como uma crian\u00e7a\u201d, cuja influ\u00eancia foi determinate no resultado final de um tema como \u201cHeaps of Sheeps\u201d, a fazer lembrar \u00e1lbuns como \u201cTaking Tiger Mountain (By Strategy)\u201d ou \u201cAnother Green World\u201d.<br \/>\nMas \u00e9 ainda no modo de articula\u00e7\u00e3o dos m\u00fasicos convidados que \u201cShleep\u201d se afasta de \u201cRock Bottom\u201d, embora sejam evidentes tra\u00e7os comuns entre os dois discos (as \u201cdrones\u201d de sintetizador, o piano sincopado a 16 rota\u00e7\u00f5es, inspirado em Cecil Taylor, as melodias de \u201cnursery rhyme\u201d em contraste com sequ\u00eancias instrumentais de \u201cbig band\u201d espectral). Mas enquanto \u201cRock Bottom\u201d era grande dor, redimida pelo g\u00e9nio, suportada pela companhia de amigos, \u201cShleep\u201d \u00e9 a partilha fraterna com esses mesmos amigos, numa assun\u00e7\u00e3o do colectivo como for\u00e7a impulsionadora do acto criativo.<br \/>\nPor vezes o jogo de mem\u00f3rias cruzadas est\u00e1 escondido, surgindo de forma indirecta. Como uma linha de sintetizador dos Cluster introduzida por Brian Eno. Ou a utiliza\u00e7\u00e3o de fitas magn\u00e9ticas com fundo industrial em \u201cWas a Friend\u201d, nas quais Wyatt reconhece haver uma rela\u00e7\u00e3o com a m\u00fasica de outro amigo seu, Charles Heyward, dos This Heat e Camberwell Now. Noutras, a fonte revela-se de maneira mais \u00f3bvia. Como a fabulosa apropria\u00e7\u00e3o das inflex\u00f5es vocais de Bob Dylan de \u201cSubterranean Homesick Blues\u201d e dos blues em geral, em \u201cBlues In Bob Minor\u201d, sobre um ritmo bin\u00e1rio decalcado de um tema de \u201cOld Rottenhat\u201d, na segunda das duas participa\u00e7\u00f5es de Paul Weller, fundador dos The Jam, neste \u00e1lbum.<br \/>\nEvan Parker e Annie Whitehead, representantes da \u201cvelha\u201d escola do \u201cnew jazz\u201d brit\u00e2nico, acrescentam a improvisa\u00e7\u00e3o e a surpresa. Antes mesmo da aventura, iniciada nos anos 60 ao abrigo do movimento de Canterbury, com os Soft Machine, Wyatt era presen\u00e7a ass\u00eddua em grava\u00e7\u00f5es de jazz, tocando bateria ao lado de m\u00fasicos como Wolfgang Dauner. O acidente &#8211; uma queda de um quarto andar, no decorrer de uma festa mais animada &#8211; de que foi v\u00edtima ter\u00e1 inviabilizado uma carreira promissora como instrumentista de \u201cjazz\u201d? Wyatt recusa esta possibilidade. Prefere dizer que a bateria era um empecilho que o impedia de trabalhar em profundidade a m\u00fasica que verdadeiramente sentia.<br \/>\nDe resto, basta lembrar que na altura em que, em 1970, os Soft Machine iniciavam a sua pr\u00f3pria aventura pelo jazz, com outro dos \u00e1lbuns que \u00e9 um marco da m\u00fasica dessa d\u00e9cada, o duplo \u201cThird\u201d, Robert Wyatt contrapunha \u00e0s longas improvisa\u00e7\u00f5es, em compassos esquisitos, dos seus companheiros, a sua pr\u00f3pria \u201csuite\u201d pop vocalizada, \u201cThe Moon In June\u201d, can\u00e7\u00e3o m\u00e1gica mas que o votaria ao ostracismo pelos intelectuais do grupo, Hugh Hopper, Mike Ratledge e Elton Dean. \u201cAdorava fazer esse tipo de m\u00fasica, mas era \u00f3bvio que os outros n\u00e3o queriam vocaliza\u00e7\u00f5es. Acabei por ser marginalizado.\u201d Wyatt viria ainda a reformular a eterna quest\u00e3o &#8211; pop contra vanguarda &#8211; no projecto Matching Mole (tradu\u00e7\u00e3o em ingl\u00eas da fon\u00e9tica, em franc\u00eas, \u201cmachine mole\u201d, Soft Machine, precisamente), de cujos dois \u00fanicos \u00e1lbuns gravados, \u201cMatching Mole\u201d e \u201cLittle Red Record\u201d, sairia um hit como \u201cO Caroline\u201d (repescado pelos Mynci Zygoti Mynci no seu disco de estreia), a par de instrumentais obscuros do mais puro experimentalismo.<br \/>\nMas Robert Wyatt desdenhou sempre do jazz mainstream, preferindo a ala mais radical deste g\u00e9nero musical e os cantores de soul que ouvia na juventude.<br \/>\nRegozija-se ao fazermos men\u00e7\u00e3o de duas obras, pouco conhecidas, que resolvem a quest\u00e3o de uma vez or todas, a velha guerra entre vanguarda e acessibilidade, nas quais a sua participa\u00e7\u00e3o \u00e9 decisiva: \u201cThe Hapless Child and Other Incrustable Stories\u201d, de Michael Mantler, disc\u00edpulo herm\u00e9tico de Don Cherry (outro dos her\u00f3is trompetistas de Wyatt, a par de Mongesi Feza), com a guitarra de Mike Oldfield, e \u201cFictious Sports\u201d, com a chancela de Nick Mason, baterista dos Pink Floyd, e a alta inspira\u00e7\u00e3o das composi\u00e7\u00f5es de Carla Bley, com quem o ex-Soft Machine viria a tocar em posteriores ocasi\u00f5es.<br \/>\nEm \u201cFictious Sports\u201d, Robert Wyatt cantava \u201cI\u2019m a Mineralist\u201d. Hoje o compositor de uma banda sonora contra o abuso de animais em experi\u00eancias cient\u00edficas, \u201cThe Animals Film\u201d, confessa o seu interesse por duas tem\u00e1ticas, na apar\u00eancia, d\u00edspares: os insectos e as estrelas. O micro e o macrocosmo, segundo \u201cuma tradi\u00e7\u00e3o de simbolismo que sempre existiu, de forma quase subterr\u00e2nea, em Inglaterra, em autores como William Blake\u201d. E \u00e9 de uma estrela que acaba a falar, Diana Spencer: \u201cA minha reac\u00e7\u00e3o \u00e0 sua morte foi semelhante \u00e0 da maior parte das pessoas. Fiquei triste. \u00c9 sempre bom as pessoas poderem viver um conto de fadas, ou participar numa \u2018soap opera\u2019. E, ao menos por uma vez, foi poss\u00edvel ver o povo ingl\u00eas a exprimir uma emo\u00e7\u00e3o. \u201cO sono e o sonho, uma vez mais. A comandarem o mundo, simultaneamente secreto e luminoso, esculpido em cicatrizes, de Robert Wyatt.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>19.09.1997 Mercador de Sonhos Seis anos de sil\u00eancio depois de \u201cDondestan\u201d, cortados pela colec\u00e7\u00e3o de gravuras sonoras do mini-CD \u201cA Short Break\u201d, Robert Wyatt tem um novo \u00e1lbum de originais, \u201cShleep\u201d, gravado no est\u00fadio de Phil Manzanera, com a participa\u00e7\u00e3o, entre outros, de Brian Eno, Paul Weller, Evan Parker e Annie Whitehead. 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