{"id":1699,"date":"2010-03-06T10:10:31","date_gmt":"2010-03-06T17:10:31","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=1699"},"modified":"2010-03-06T10:10:31","modified_gmt":"2010-03-06T17:10:31","slug":"dossier-krautrock-%e2%80%9ckrautrock%e2%80%9d-around-the-clock","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2010\/03\/06\/dossier-krautrock-%e2%80%9ckrautrock%e2%80%9d-around-the-clock\/","title":{"rendered":"Dossier Krautrock &#8211; \u201cKrautrock\u201d Around The Clock"},"content":{"rendered":"<p>07.05.1997<br \/>\nDossier Krautrock<br \/>\n\u201cKrautrock\u201d Around The Clock<\/p>\n<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 300;\ngoogle_ad_height = 250;\ngoogle_ad_format = \"300x250_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p><a href=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2010\/03\/amonDuulII_CarnivalInBabylon.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2010\/03\/amonDuulII_CarnivalInBabylon.jpg\" alt=\"\" title=\"amonDuulII_CarnivalInBabylon\" width=\"437\" height=\"430\" class=\"alignnone size-full wp-image-1700\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2010\/03\/amonDuulII_CarnivalInBabylon.jpg 437w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2010\/03\/amonDuulII_CarnivalInBabylon-300x295.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 437px) 100vw, 437px\" \/><\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.4shared.com\/file\/137294855\/44028861\/Amon_Dl_II_-_Carnival_In_Babylon__1972_.html\" target=\"_blank\">LINK<\/a><\/p>\n<p><object width=\"425\" height=\"344\"><param name=\"movie\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/tERrnt55E7Q&#038;hl=pt_PT&#038;fs=1&#038;color1=0x3a3a3a&#038;color2=0x999999\"><\/param><param name=\"allowFullScreen\" value=\"true\"><\/param><param name=\"allowscriptaccess\" value=\"always\"><\/param><embed src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/tERrnt55E7Q&#038;hl=pt_PT&#038;fs=1&#038;color1=0x3a3a3a&#038;color2=0x999999\" type=\"application\/x-shockwave-flash\" allowscriptaccess=\"always\" allowfullscreen=\"true\" width=\"425\" height=\"344\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p>O \u201ckrautrock\u201d est\u00e1 vivo e recomenda-se. A estagna\u00e7\u00e3o a que chegou grande parte da m\u00fasica popular neste final de s\u00e9culo levou a uma procura exaustiva de fontes que pudessem revitaliz\u00e1-la. Havia um manancial \u00e0 espera e por explorar. Local: Alemanha. \u00c9poca: anos 70. Chamaram-lhe na altura \u201ckrautrock\u201d, na falta de um termo melhor que pudesse designar a explos\u00e3o de criatividade que entre 1986 e a eclos\u00e3o do \u201cpunk\u201d, em 1976, abalou o imp\u00e9rio pop anglo-sax\u00f3nico.<br \/>\nDecorridos quase 20 anos, m\u00fasicos e p\u00fablico partem de novo em busca da pepita dourada, numa corrida pelo tempo que confunde e estimula ao mesmo tempo. Julian Cope, com o seu manifesto em defesa do \u201ckrautrock\u201d, acendeu o rastilho. Que estranhos nomes e n\u00e3o menos estranhos discos eram estes que o homem dos Teardrop Explodes defendia com unhas e dentes, com o entusiasmo de um fan\u00e1tico? Como uma rajada, entrava pelo final do s\u00e9culo o relato de experi\u00eancias insanas levadas a cabo por cientistas e magos loucos oriundos de uma na\u00e7\u00e3o, ainda e secalhar para sempre, marcada pelos fantasmas do p\u00f3s-guerra. Faust, Amon D\u00fc\u00fcl II, Can, Neu!, Cluster, entre uma multid\u00e3o de outros nomes, chamam a aten\u00e7\u00e3o e os ouvidos para um admir\u00e1vel mundo novo que volta a despontar.<br \/>\nA pequena revolu\u00e7\u00e3o que estes grupos operaram no seu tempo faz-se sentir hoje talvez ainda com mais intensidade do que h\u00e1 20 anos. As bandas do p\u00f3s-rock prestam-lhe vassalagem. Nos Estados Unidos, em Inglaterra, na alemanha, grupos como os Tortoise, Ui, Trans AM, Kreidler, To Rococo Rot, Tarwater, Rome, Gastr Del Sol (de Jim O\u2019Rourke, produtor de \u201cRien\u201d, dos Faust), Stars of the Lid, Fuxa, Him, Jessamine, Earth, Sabalon Blitz, Magnog e Fridge assumem e expandem o lado mais experimental e tecnol\u00f3gico do \u201ckrautrock\u201d, ao proclamar a import\u00e2ncia de grupos como os Cluster, Neu! E La D\u00fcsseldorf.<br \/>\nAntes, j\u00e1 a \u201cnew age\u201d, atrav\u00e9s dos novos planantes da Calif\u00f3rnia (Steve Roach, Robert Rich, Michael Stearns), buscara alento e alimento nos anos 70, na chamada \u201cEscola de Berlim\u201d, representada por Klaus Schulze, Tangerine Dream e Ash Ra Tempel. O mesmo se podendo dizer dos Kraftwerk, que influenciaram toda a cultura \u201ctecno\u201d dos anos 80. Anos 80 cujos corredores clandestinos foram percorridos, na Alemanha, por gente como Palais Schaumburg (de Holger Hiller), Pyrolator, Die Krupps, Der Plan, Einstuerzende Neubauten, Asmus Tietchens, Conrad Schnitzler, Peter Frohmader, Propeller Island, D.A.F., Klaus Kr\u00fcuger, H.N.A.S., Cranioclast, P16.D4, Peter Schaefer ou Strafe F\u00fcr Rebellion.<br \/>\nMas a fatia maior e mais apetec\u00edvel do bolo estava guardada para os pioneiros que nos anos 70 fizeram a s\u00edntese da mem\u00f3ria e da melodia pop dos anos 60 (Beatles e Beach Boys) com o romantismo wagneriano, o espa\u00e7o sideral, o LSD e a tecnologia electr\u00f3nica (ent\u00e3o anal\u00f3gica) mais sofisticada.<br \/>\nEm 1997 assiste-se, finalmente, a um fen\u00f3meno que se julgaria imposs\u00edvel h\u00e1 poucos anos: a ressurrei\u00e7\u00e3o dos grupos cl\u00e1ssicos. Os Faust voltam a reunir-se e a gravar (\u201cRien\u201d e \u201cYou Know FaUSt\u201d). Os Amon D\u00fc\u00fcl II regressam igualmente com um novo \u00e1lbum, \u201cNada Moonshine\u201d. Os Neu!, de Michael Rother e Klaus Dinger, idem com \u201cNeu!4\u201d. Mais recentemente, os La Neu D\u00fcsseldorf (designa\u00e7\u00e3o um pouco redundante, reconhe\u00e7a-se&#8230;) gravaram tamb\u00e9m um novo disco. O mundo volta a ser dominado (mas alguma vez deixou de o ser?&#8230;) pela Alemanha.<br \/>\nO Poprock entrou na guerra entrevistando Stefan Schneider, o homem que manda nos Kreidler e To Rococo Rot, e Jaki Liebzeit, baterista de uma das bandas mais importantes do \u201ckrautrock\u201d original, os Can, que os anos 90 agora homenageiam no duplo \u00e1lbum de remisturas \u201cSacrilege\u201d, por Brian Eno, The Orb, Sonic Boom e Bruce Gilbert, entre outros. Fornecemos ainda uma discografia e notas sobre os principais intervenientes, bem como alguma bibliografia geral dispon\u00edvel sobre o tema.<\/p>\n<p>GRUPOS E DISCOGRAFIA FUNDAMENTAIS DO ROCK ALEM\u00c3O DOS ANOS 70<br \/>\nAgitation Free<br \/>\nInfluenciados pela m\u00fasica \u00e1rabe no primeiro \u00e1lbum, \u201cMalesch\u201d, c\u00f3smicos no segundo. Com Lutz Albrich, dos Ash Ra Tempel, Michael Honig (futuro Tangerine Dream) e Peter Michael Hamel, \u201c2nd Edition\u201d (1973).<br \/>\nAmon D\u00fc\u00fcl II<br \/>\nDo grupo communal designado por Amon D\u00fc\u00fcl I derivou este n]ucleo dos que sabiam tocar. Rock inclassific]avel, gerado dos piores pesadelos do LSD. Reza a lenda que, nos concertos, cada m\u00fasico estava sob o efeito de uma droga diferente. Os \u00e1lbuns reflectem esta mistura de universdos paralelos, alternando longas improvisa\u00e7\u00f5es anarco-c\u00f3smicas com can\u00e7\u00f5es surreais. \u201cYeti\u201d (1970), \u201cTanz der Lemminge\u201d (1971), \u201cWolf City\u201d (1972).<br \/>\nAnnexus Quam<br \/>\nOriundos de D\u00fcsseldorf. Dos deslumbramentos psicad\u00e9licos do primeiro \u00e1lbum, passaram ao \u201cfree jazz\u201d, n\u00e3o menos empanturrado de alucina\u00e7\u00f5es, do segundo. \u201cOsmose\u201d (1970), \u201cBezeihungen\u201d (1972).<br \/>\nAsh Ra Temple \/ Ashra \/ Manuel G\u00f6ttsching<br \/>\nA guitarra el\u00e9ctrica que veio do espa\u00e7o por um dos nomes mais importantes da \u201cKosmische muzik\u201d. Os Ash Ra Tempel eram os meninos bonitos do guru Rolf-Ulrich Kaiser, com as suas \u201cacid jams\u201d apontadas ao infinito. J\u00e1 s\u00f3, como Ashra, G\u00f6ttsching aproximou-se da gal\u00e1xia de Klaus Schulze, com passagem pela pop, o cinema de Phillipe Garrel e aterragem no minimalismo. \u201cSchwingungen\u201d (1972), \u201cInventions for Electric Guitar\u201d (1974), \u201cNew Age of Earth\u201d (1976).<br \/>\nCan<br \/>\nMestres do ritual e dos ritmos do corpo. Filhos de Stockhausen, do \u201cfre jazz\u201d e dos Velvet Underground, inventaram a m\u00fasica do espa\u00e7o interior. No seu caso n\u00e3o faz sentido falar de m\u00fasica \u201cc\u00f3smica\u201d, mas sim de \u201cm\u00fasica microc\u00f3smica\u201d. O \u201cbeat\u201d, enquanto \u00e1tomo da hipnose. \u201cMonster Movie\u201d (1969), \u201cTago Mago\u201d (1971), \u201cEge Bamyasi\u201d (1972), \u201cFuture Days\u201d (1973), \u201cUnlimited Edition\u201d (1976).<br \/>\nCluster<br \/>\nRepresentam o lado mais experimentalista do \u201ckrautrock\u201d. Primeiro chamaram-se Kluster, industriais \u201cavant la lettre\u201d. Joachim Roedelius, o rom\u00e2ntico, e Dieter Moebius, o conceptualista, formaram uma das duplas recorrentes da m\u00fasica electr\u00f3nica alem\u00e3 das \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas. Eno e Bowie assumem a sua influ\u00eancia, bem como a gera\u00e7\u00e3o actual de bandas dos p\u00f3s-rock. Fizeram trio com Brian Eno. \u201cCluster\u201d (1972), \u201cZuckerzeit\u201d (1974), \u201cCluster &#038; Eno\u201d (1977).<br \/>\nHarmonia<br \/>\nAssocia\u00e7\u00e3o dos Cluster com Michael Rother, dos Neu!, banda da qual exploraram o lado mais electr\u00f3nico e minimalista. Juntamente com os Neu! Constituem uma refer\u00eancia fundamental do movimento \u201cpunk\u201d, pela redu\u00e7\u00e3o do ritmo a uma batida primordial. \u201cMusik von Harmonia\u201d (1974), \u201cDeLuxw\u201d (1975).<br \/>\nHolger Czukay<br \/>\nTe\u00f3rico dos Can, congeminou mil estilos e inova\u00e7\u00f5es. Com os Technical Space Composers Crew, na colagem de sons concretos e ambientais com fitas de \u201cworld music\u201d na reciclagem do \u201cdub\u201d. Com a voz do papa. Com um sintonizador de r\u00e1dio e um \u201cdictaphone\u201d. O \u00faltimo dos alquimistas. \u201cCannaxis\u201d (1969), \u201cMovies\u201d (1979).<br \/>\nFaust<br \/>\nCom Frank Zappa e os Henry Cow, um dos nomes que declararam guerra \u00e0 m\u00fasica pop do s\u00e9culo XX. Popularizaram o termo \u201ckrautrock\u201d num tema com este nome do \u00e1lbum \u201cFaust IV\u201d. Na sua m\u00fasica, o paradoxo faz sentido e al\u00f3gica exige a cria\u00e7\u00e3o de novas linguagens. Recentemente voltaram a gravar, radicais coko sempre, agora que o tempo finalmente os apanhou. \u201cFaust\u201d (1971), \u201cSo Far\u201d (1972), \u201cThe Faust Tapes\u201d (1973), \u201cFaust IV\u201d (1973).<br \/>\nEdgar Froese<br \/>\nO guitarrista e l\u00edder dos Tangerine Dream experimentou a solo o lado mais acusm\u00e1tico da m\u00fasica do grupo. \u201cAqua\u201d (1974).<br \/>\nLa D\u00fcsseldorf<br \/>\nEmblema da cidade, na vis\u00e3o mecanicista do percussionista Klaus Dinger, ex-Kraftwerk e ex-Neu!. \u201cLa D\u00fcsseldorf\u201d (1976), \u201cViva\u201d (1978).<br \/>\nLiliental<br \/>\nSupergrupo que juntou Dieter Moebius, dos Cluster, Conny Plank, produtor determinante no desenvolvimento do \u201ckrautrock\u201d, Johannes Pappert, saxofonista dos Kraan, e o industrialista Asmus Tietchens. \u201cLiliental\u201d (1978).<br \/>\nNeu!<br \/>\nA m\u00e1quina de ritmos bin\u00e1rios de Klaus Dinger, sempre na sombra do que melhor eclodiu em D\u00fcsseldorf, aliada ao melodismo viciante e \u201ceasy listening\u201d de Michael Rother. \u201cNeu!\u201d (1972), \u201cNeu! 2\u201d (1973), \u201cNeu! 75\u201d (1975).<br \/>\nPopol Vuh<br \/>\nFlorian Fricke foi dos primeiros a levarem o grande \u201cMoog\u201d para dentro de uma catedral, mas depois a descoberta do cristianismo levou o seu piano para o c\u00e9u. Um dos m\u00edsticos da m\u00fasica alem\u00e3. Compositor de servi\u00e7o de Werner Herzog. \u201cIn Der Garten Pharaos\u201d (1972).<br \/>\nKlaus Schulze<br \/>\nPai da m\u00fasica c\u00f3smica. Tocou bateria nos Psi Free e Tangerine Dream, estudou o cat\u00e1logo do VCS3 nos Ash Ra Tempel e desapareceu, finalmente, entre os circuitos do sintetizador, abra\u00e7ado a um busto de Wagner. H\u00e1 quem adorme\u00e7a ao escutar os seus \u201cmantras\u201d electr\u00f3nicos de 30 minutos e quem jure viajar com eles por outras dimens\u00f5es. \u201cCyborg\u201d (1973), \u201cMirage\u201d (1977), \u201cX\u201d (1978).<br \/>\nKraftwerk<br \/>\nRalf H\u00fctter e Florian Schneider estiveram sempre um pouco \u00e0 margem do \u201ckrautrock\u201d. Ainda experimentaram o ru\u00eddo, nos Organisation e nos dois primeiros \u00e1lbuns, mas com \u201cAutobahn\u201d aboliram a portagem que impedia a livre circula\u00e7\u00e3o nas auto-estradas da m\u00fasica de dan\u00e7a do mundo. Depois transformaram-se em rob\u00f4s e fecharam-se no est\u00fadio Kling Klang, de onde saem de vez em quando para fazerem pontos de ordem \u00e0 m\u00fasica tecno. \u201cOhm Sweet Ohm\u201d, \u201cKraftwerk\u201d (1970), \u201cKraftwerk 2\u201d (1971), \u201cRalf &#038; Florian\u201d (1973), \u201cAutobahn\u201d (1974), \u201cThe Man Machine\u201d (1978).<br \/>\nTangerine Dream<br \/>\nPapas da Escola de Berlim. M\u00fasica on\u00edrica, banda sonora das divaga\u00e7\u00f5es sobre a relatividade de Einstein. A religi\u00e3o dos electr\u00f5es. Tiraram o ritmo aos Pink Floyd abrindo no seu cora\u00e7\u00e3o um pulsar. A primeira fase \u00e9 \u201cfree rock\u201d para tripar ao gosto de Julian Cope. Preferimos os espa\u00e7os mais amplos rasgados pela forma\u00e7\u00e3o quintessencial dos TD: Edgar Froese, Peter Baumann e Chris Franke. \u201cZeit\u201d (1972), \u201cAtem\u201d (1973),\u201dPhaedra\u201d (1974), \u201cRubycon\u201d (1975),<br \/>\nWalter Wegm\u00fcller<br \/>\nWegm\u00fcller era um artista e mago cigano que o acaso fez cruzar com Timothy Leary, profeta e ide\u00f3logo do LSD, e com a turma inteira dos Cosmic Couriers, numa aldeia sui\u00e7a onde teve lugar uma das desbundas de \u00e1cido de todos os tempos. \u201cTarot\u201d (que inclui um baralho de Tarot desenhado pelo pr\u00f3prio) reflecte todas as vertentes, virtudes e defeitos dos primeiros anos da \u201cKosmische Musik\u201d. \u201cTarot\u201d (1973).<br \/>\nWhith\u00fcser &#038; Westrupp<br \/>\n\u201cAcid Folk\u201d que entusiasmou Rolf-Ulrich Kaiser, dando origem ao selo Pilz, subsidi\u00e1rio da \u201cOhr\u201d, sede de todas as aventuras c\u00f3smicas. \u201cTrips und Traume\u201d (1971).<br \/>\nNota: todos os discos dispon\u00edevis em CD.<br \/>\n\u00c0 aten\u00e7\u00e3o dos curiosos: Achim Reichel, Brainticket, Br\u00f6selmaschine, Cosmic Jokers, Cozmic Corridors, Joachim H. Ehrig (Eroc), Embryo, Emtidi, Eulenspygel, ExMagma (na\u00f5 confundir com os franceses Magma), Gila, Golem, Sergius Gollowin, Grobschnitt, Guru Guru, Hoelderlin, Kraan, Mythos, Novalis, Out of Focus, Parzival, Pell Mell, Phantom Band, Release Music Orchestra, Sand, Thirsty Moon, Wallenstein, Xhol, Yatha Sidhra.<br \/>\nBIBLIOGRAFIA<br \/>\n\u201cKrautrocksampler: One Head\u2019s Guide to the Great Kosmische Musik \u2013 1968 Onwards\u201d \u2013 Julian Cope (ed. Head Heritage). Manual.<br \/>\nUm dos respons\u00e1veis pelo recrudescimento de interesse pelo \u201ckrautrock\u201d. O entusiasmo e a linguagem de verdadeiro apreciador com que Cope nos descreve as suas descobertas contagiam. Alguma falta de rigor \u00e9 compensada pelas hist\u00f3rias deliciosas que se l\u00eaem como um romance, por exemplo todo o epis\u00f3dio do retiro sui\u00e7o com Timothy Leary ou a paran\u00f3ia de poder de Rolf-Ulrich Kaiser (\u201cthe kaiser\u201d, como a dada altura lhe chama Cope), patr\u00e3o e mentor dos Cosmic Couriers. Na discografia seleccionada \u00e9 evidente o gosto do \u201cacid head\u201d pelas obras mais \u201ctripantes\u201d (mas tamb\u00e9m mais desconjuntadas&#8230;) do \u201ckrautrock\u201d, privilegiando, quase sempre, os primeiros \u00e1lbuns de cada artista, de que s\u00e3o paradigm\u00e1ticos a inclus\u00e3o da estreia dos Tangerine Dream, a profus\u00e3o de discos dos Ash Ra Tempel das \u201cacid jams\u201d ou a totalidade da dispens\u00e1vel s\u00e9rie dos Cosmic Couriers.<br \/>\n\u201cCosmic Dreams At Play \u2013 A Guide to German Progressive and Electronic Music\u201d, de Dag Erik Asbjomsen (ed. Borderline Productions). Enciclop\u00e9dia.<br \/>\nNotas informativas extensas, embora demasiado subjectivas e reveladoras da propens\u00e3o do autor para valorizar discos pouco representativos. V\u00ea-se que o autor aprecia acima de tudo o progressivo mais lamechas, na \u00e1rea do \u201csinf\u00f3nico\u201d&#8230; Discografias completas. A quantidade de entradas \u00e9 razo\u00e1vel embora haja lacunas. Uma obra que perde, sobretudo, por um grafismo e \u201clettering\u201d infelizes, como consequ\u00eancia de ser mais uma compila\u00e7\u00e3o de um amador do que um trabalho met\u00f3dico. Reprodu\u00e7\u00e3o, a cores e a preto e branco, de capas escolhidas de forma aleat\u00f3ria, com pouca aten\u00e7\u00e3o ao grafismo geral da obra.<br \/>\n\u201cThe Crack In The Cosmic Egg \u2013 Encyclopedia of Krautrock, Kosmische Musik &#038; Other Progressive, Experimental &#038; Electronic Musics from Germany\u201d, de Steve Freeman e Alan Freeman (ed. Audion Publications). Enciclop\u00e9dia.<br \/>\nO melhor e mais completo livro sobre \u201ckrautrock\u201d editado at\u00e9 \u00e0 data, ao contr\u00e1rio dos outros dois, estendendo-se pelos anos 80 e 90. Organizado metodicamente, inclui um mapa da Alemanha com a sinaliza\u00e7\u00e3o das cidades onde tiveram origem alguns dos grupos mais importantes, \u00e0rvores geneal\u00f3gicas, um \u201ctop-100\u201d, editoras, t\u00f3picos gerias e um gloss\u00e1rio. As discografias s\u00e3o acompanhadas, para cada \u00e1lbum, pela lista completa dos m\u00fasicos participantes. Os textos s\u00e3o informativos, rigorosos e excitam a curiosidade. A selec\u00e7\u00e3o de capas, todas com reprodu\u00e7\u00e3o a cores, \u00e9, por si s\u00f3, um prazer \u00e0 parte.<\/p>\n<p>M\u00e1quinas Em Movimento<br \/>\nEntrevista com Stefan Schneider<br \/>\nKreidler e To Rococo Rot s\u00e3o dois projectos liderados por Stefan Schneider, um natural de D\u00fcsseldorf que transportou para os anos 90 os sons mec\u00e2nicos do \u201cKrautrock\u201d da d\u00e9cada de 70 com ber\u00e7o nessa cidade: Kraftwerk, Neu! e La D\u00fcsseldorf. Vizinho de Klaus Dinger, denominador comum destes tr\u00eas grupos, Stefan Schneider faz o ponto da situa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nApontados como representantes da ala mais electr\u00f3nica e radical do \u201cp\u00f3s-rock\u201d, os To Rococo Rot gravaram at\u00e9 \u00e0 data dois \u00e1lbuns, o \u00faltimo dos quais, distribu\u00eddo em Portugal pela M\u00fasica Alternativa, tem por t\u00edtulo \u201cVeiculo\u201d. Mas Stefan Schneider, com quem o P\u00daBLICO conversou, concentra a maior parte do seu tempo nos Kreidler, cujo novo \u00e1lbum, intitulado \u201cWeekend\u201d (distribui\u00e7\u00e3o Megam\u00fasica), embora igualmente apaixonado pelos sintetizadores e pelos ritmos maquinais, oferece can\u00e7\u00f5es para cantarolar num piquenique do fim dos tempos.<br \/>\nFM \u2013 Por que motivo reparte a sua actividade por duas bandas que at\u00e9 nem s\u00e3o radicalmente diferentes uma da outra?<br \/>\nSS \u2013 S\u00e3o bastante diferentes. A m\u00fasica dos To Rococo Rot (TRR) \u00e9 muito mais experimental e minimalista, enquanto os Kreidler se movimentam numa \u00e1rea pop, com can\u00e7\u00f5es estruturadas. Os TRR est\u00e3o mais pr\u00f3ximos da electr\u00f3nica e da tecno.<br \/>\nFM \u2013 Segue m\u00e9todos de composi\u00e7\u00e3o diferentes em cada um dos grupos?<br \/>\nSS \u2013 Sim, at\u00e9 porque os Kreidler s\u00e3o a forma\u00e7\u00e3o mais est\u00e1vel e os seus membros vivem todos na mesma cidade, em D\u00fcsseldorf. Ensaiamos e realizamos espect\u00e1culos com assiduidade. Com os TRR, isso \u00e9 imposs\u00edvel, uma vez que os dois outros elementos vivem em Berlim. Sempre que queremos fazer alguma coisa juntos, sou obrigado a deslocar-me l\u00e1.<br \/>\nFM \u2013 Tanto os Kreidler como os To Rococo Rot fazem m\u00fasica exclusivamente intrumental&#8230;<br \/>\nSS \u2013 N\u00e3o \u00e9 bem assim, nos Kreidler integr\u00e1mos algumas letras no primeiro \u00e1lbum. O segundo, \u201cWeekend\u201d, \u00e9 efectivamente instrumental, mas pensamos regressar aos textos no pr\u00f3ximo.<br \/>\nFM \u2013 Vive em D\u00fcsseldorf, cidade que deu origem, nos anos 70, a grupos como os Kraftwerk, Neu! e La D\u00fcsseldorf. A cidade tem alguma m\u00edstica especial?<br \/>\nSS \u2013 H\u00e1 com certeza uma liga\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o queremos fazer nenhum resumo dessa tradi\u00e7\u00e3o. Essa liga\u00e7\u00e3o sente-se mais pela cidade em si, pelo seu ritmo. H\u00e1 nela uma ind\u00fastria da moda, uma prolifera\u00e7\u00e3o de \u201cDesign\u201d art\u00edstico, tudo isso nos influencia, bem como a forma de relacionamento entre as pessoas, a forma como se vestem e se apresentam. Existe um n\u00edvel de vida bastante caro. Em Berlim \u00e9 diferente, todas as pessoas t\u00eam um emprego, \u00e9 dif\u00edcil sobreviver a\u00ed de outra forma. Continuam a chegar a Berlim pessoas provenientes de outras cidades da Alemanha, porque continua a ser uma cidade atraente, ideal para quem n\u00e3o pretenda fazer coisas especiais.<br \/>\nFM \u2013 Na ficha t\u00e9cnica de \u201cWeekend\u201d, dirige um agradecimento a Klaus Dinger, que pertenceu \u00e0quelas tr\u00eas bandas. Assume a sua influ\u00eancia?<br \/>\nSS \u2013 Klaus \u00e9 meu vizinho. \u00c0s vezes vem ter comigo, de bicicleta, para conversarmos um bocado. H\u00e1 cerca de dois anos convidou-nos para ir ao est\u00fadio que tem em sua casa. Grav\u00e1mos algumas coisas juntos. E em Novembro do ano passado fez dosi espect\u00e1culos no Jap\u00e3o com o baterista e teclista dos Kreidler.<br \/>\nFM \u2013 O que acha da m\u00fasica dos Cluster, outra das bandas dos anos 70 que marca, cada vez mais, toda uma gera\u00e7\u00e3o de novas bandas de m\u00fasica electr\u00f3nica?<br \/>\nSS \u2013 Os discos dos Cluster s\u00e3o muito dif\u00edceis de adquirir na Alemanha. Pura e simplesmente n\u00e3o se encontram nas lojas! Quando muito, existem os discos mais recentes, editados em CD, mas estes destinam-se mais a um tipo de p\u00fablico apreciador de m\u00fasica ambiental. Conhe\u00e7o alguns dos seus trabalhos mais antigos, como \u201cZuckerzeit\u201d, um \u00e1lbum impressionante. O problema \u00e9 que h\u00e1 hoje muita gente a fazer deste tipo de m\u00fasica sem nunca a ter ouvido. As pessoas l\u00eaem os artigos nas revistas, mas n\u00e3o t\u00eam possibilidade de ouvir os discos! Penso que deve acontecer o mesmo na Inglaterra ou nos Estados Unidos, onde se encontram discos dos Kraftwerk e pouco mais&#8230;<br \/>\nFM \u2013 O fen\u00f3meno \u00e9 algo mais que uma moda passageira?<br \/>\nSS \u2013 Penso que os jovens est\u00e3o a come\u00e7ar a explorar uma m\u00fasica, feita h\u00e1 20 ou 25 anos, que tem muitos pontos de contacto com a m\u00fasica que se faz hoje em dia. Por isso faz sentido recuar at\u00e9 esse per\u00edodo. Pessoalmente, acho fant\u00e1sticos como os dois primeiros dos Neu! bem como toda a m\u00fasica dos Kraftwerk.<br \/>\nFM \u2013 Os Can&#8230;?<br \/>\nSS &#8211; Fazem parte de outro universo. Gosto imenso de \u201cTago Mago\u201d, mas t\u00eam outras coisas que acho extremamente aborrecidas.<br \/>\nFM \u2013 Existe hoje algo parecido com um movimento organizado de m\u00fasica electr\u00f3nica feita na Alemanha?<br \/>\nSS \u2013 Bem, est\u00e3o a aparecer alguns nomes novos e interessantes, como os Mike Ink, que fazem m\u00fasica electr\u00f3nica e minimal para dan\u00e7ar. Tamb\u00e9m apafreceu recentemente uma nova revista de m\u00fasica chamada \u201cArt Attack\u201d, com uma loja de discos e uma editora pr\u00f3pria, a Profane. Em Berlim, h\u00e1 os Oval (N.E. \u2013 fizeram remisturas dos Tortoise)&#8230;<br \/>\nFM \u2013 E o circuito da m\u00fasica de dan\u00e7a?<br \/>\nSS \u2013 Aqui em D\u00fcsseldorf existem clubes de \u201ctecno\u201d que passam a m\u00fasica dos Kreidler, mas s\u00e3o s\u00edtios n\u00e3o comerciais, nada que se pare\u00e7a com uma \u201crave\u201d. Em Col\u00f3nia, os clubes s\u00e3o maiores e as pessoas podem sentar-se a ouvir m\u00fasica, conversar ou ver filmes. Claro que os nossos discos podem ser passados nas pistas de dan\u00e7a, mas ela n\u00e3o \u00e9, de forma alguma, m\u00fasica de dan\u00e7a convencional. O que distingue o que est\u00e1 a acontecer por aqui \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o de m\u00fasica electr\u00f3nica que n\u00e3o se destina a ser dan\u00e7ada mas a ser ouvida em casa, embora tamb\u00e9m n\u00e3o seja nada parecido com m\u00fasica ambiental.<br \/>\nFM \u2013 Existem pontos de contacto entre alguma das suas bandas e as bandas de Chicago como os Ui e Tortoise?<br \/>\nSS \u2013 Os TRR gravam na mesma editora dos Tortoise, a City Slang. Gosto de alguns temas deles, com os quais os TRR podem at\u00e9 ter algumas semelhan\u00e7as. Mas s\u00f3 no nosso primeiro \u00e1lbum, no qual tamb\u00e9m us\u00e1vamos equipamento anal\u00f3gico, assim como baixo e bateria convencionais. \u201cVeiculo\u201d vai numa direc\u00e7\u00e3o diferente, no sentido da electr\u00f3nica total.<br \/>\nFM \u2013 Uma electr\u00f3nica fria e minimalista. A m\u00fasica dos novos homens-m\u00e1quina do fim do mil\u00e9nio?<br \/>\nSS \u2013 Sim. O \u201crobot\u201d que tocar\u00e1 com os TRR no final do mil\u00e9nio n\u00e3o vai acabar numa grande explos\u00e3o, com um clamor enorme, mas sim quebrar-se em pequenos peda\u00e7os. O fim ser\u00e1 muito calmo&#8230;<\/p>\n<p>Canibalismos<br \/>\nJaki Liebzeit recorda os Can a prop\u00f3sito de \u00e1lbum de remisturas<br \/>\nOs Can foram um dos grupos mais importantes da cena musical alem\u00e3 dos anos 70. A sua m\u00fasica, marcada pela espontaneidade e pela inova\u00e7\u00e3o, tinha a for\u00e7a de um ritual. Muito por culpa da batida hipn\u00f3tica do baterista Jaki Liebzeit, um dos poucos \u201chomens-m\u00e1quina\u201d de carne e osso. Entre hist\u00f3rias de v\u00f3mitos, vodu e futebol, uma certeza: \u201cOs Can nunca foram um grupo de \u2018krautrock\u2019!\u201d<br \/>\nAdmirador dos Kraftwerk e dos Einstuerzende Neubauten, sem nunca ter ouvido os Faust, Jaki Liebzeit compara a m\u00fasica dos Can a um jogo de futebol. As regras s\u00e3o conhecidas mas, iniciado o jogo, nunca se sabe o que vai acontecer. \u00c9 esse sortil\u00e9gio da incerteza e a precis\u00e3o com que dominaram o acaso que fizeram a m\u00edstica do grupo. Liebzeit desfez, diante do P\u00daBLICO, alguma dessa magia: \u201cA m\u00fasica dos Can tornou-se inofensiva.\u201d<br \/>\nFM \u2013 Nos Can, ficou c\u00e9lebre a batida metron\u00f3mica da sua bateria. Tratou-se de uma reac\u00e7\u00e3o contra as suas ra\u00edzes no free jazz?<br \/>\nJL \u2013 Em parte, sim. Toquei free jazz durante um ano, mas n\u00e3o me sentia satisfeito, sentia necessidade de um ritmo que permanecesse constante. Foi nessa altura que tomei a decis\u00e3o de tocar d euma maneir amais \u201cmon\u00f3tona\u201d.<br \/>\nFM \u2013 Desenvolveu alguma t\u00e9cnica especial?<br \/>\nJL \u2013 De in\u00edcio, tocava oa mesmo tempo que uma caixa-de-ritmos. Ao fim de 20 anos, posso dizer que consigo tocar como uma m\u00e1quina.<br \/>\nFM \u2013 O efeito que a sua bateria provocava era equivalente ao das batidas electr\u00f3nicas da actual m\u00fasica tecno?<br \/>\nJL \u2013 \u00c9 a mesma coisa. Estou actualmente a tocar bateria convencional numa esp\u00e9cie de tecno, ao lado de dois jovens m\u00fasicos, em computadores de ritmo e sintetizadores. Vai sair em breve um disco.<br \/>\nFM \u2013 Nos anos 60 e 70 um concerto dos Can podia estender-se por sete ou oito horas&#8230;<br \/>\nJL \u2013 Acontecia, de facto, quando o p\u00fablico e o ambiente eram prop\u00edcios. era um divertimento! Em todos os concertos toc\u00e1vamos sempre de uma forma espont\u00e2nea, n\u00e3o havia qualquer alinhamento pr\u00e9vio de can\u00e7\u00f5es, como acontece hoje. \u00c0s vezes toc\u00e1vamos um \u00fanico tema durante meia hora ou mais. Era tudo bastante improvisado, talvez \u201cimprovisado\u201d n\u00e3o seja o termo indicado, mas essa tal espontaneidade. Como se convers\u00e1ssemos ou discut\u00edssemos em palco. Podemos compara com um jogo de futebol. As regras do jogo s\u00e3o conhecidas, mas, antes do jogo come\u00e7ar, nunca se sabe o que ir\u00e1 acontecer. era esse o nosso sistema. O fundamental era o modo como faz\u00edamos m\u00fasica no pr\u00f3prio instante. Ainda aqui h\u00e1 semelhan\u00e7as com a cena tecno. Apesar de o som n\u00e3o ser o mesmo, existe uma id\u00eantica abordagem na forma de cria\u00e7\u00e3o, com a dispensa da escrita. Os Can nunca escreveram uma \u00fanica can\u00e7\u00e3o. a m\u00fasica desenvolvia-se toda no est\u00fadio, a partir de uma ideia qualquer.<br \/>\nFM &#8211; As pesoas costumavam falar de uma comunica\u00e7\u00e3o telep\u00e1tica entre os cinco membros do grupo. Era assim t\u00e3o profuno?<br \/>\nJL &#8211; N\u00e3o era telepatia, mas, na realidade, a partir de certa altura, a comunica\u00e7\u00e3o entre n\u00f3s era t\u00e3o boa que podia dar de facto essa impress\u00e3o&#8230;<br \/>\nFM &#8211; Corria tamb\u00e9m uma estranha hist\u00f3ria acerca de certos ritmos vodu que lhe teriam sido ensindos por um certo personagem, mas que n\u00e3o podiam ser tocados ao vivo sem autoriza\u00e7\u00e3o, sob pena do infractor ser executado&#8230;<br \/>\nJL &#8211; Essa \u00e9 outra hist\u00f3ria, mas que nunca aconteceu com os Can. A personagem de que fala era um tocador cubano de congas que veio para a Am\u00e9rica nos anos 50, chamado Chano Pozo. A mim nunca me ensinou nada&#8230;<br \/>\nFM &#8211; Mas h\u00e1 quem jure que voc\u00ea era capaz, num concerto, de voluntariamente fazer vomitar qualquer elemento da assist\u00eancia&#8230;<br \/>\nJL &#8211; Mas isso pode acontecer com qualquer m\u00fasico, se tocar muito mal! [Risos.] Bem, fiz de facto algumas experi\u00eancias, quando tocava free jazz, mas as pessoas vomitavam por causa do som p\u00e9ssimo, penso eu&#8230;<br \/>\nFM &#8211; O LSD ajudou a criar a m\u00fasica dos Can?<br \/>\nJL &#8211; N\u00e3o. A m\u00fasica \u00e9 que devia parecer de tal modo estranha a certas pessoas que as levava a pensar que and\u00e1vamos a tomar LSD a toda a hora. Admito ter tentado algumas vezes, mas sempre sem qualquer rela\u00e7\u00e3o com a m\u00fasica. M\u00fasica e drogas n\u00e3o combinam. A droga n\u00e3o faz tocar melhor, a \u00fanica coisa em que pode melhorar aexecu\u00e7\u00e3o \u00e9 o que vem de entro do m\u00fasico. A droga excita e revela apenas o lado cerebral.<br \/>\nFM &#8211; Tantas hist\u00f3rias em redor do grupo apenas comprovam que este se tornou uma lenda, n\u00e3o \u00e9 verdade?<br \/>\nJL &#8211; Sim, mas apenas na maneira como faz\u00edamos m\u00fasica. \u00c9 isso que interessa aos jovens, saberem que n\u00e3o \u00e9 preciso escrever primeiro, como aconteceu oa longo dos \u00faltimos s\u00e9culos. Depois, n\u00f3s e os Kraftwerk fomos os primeiros grupos a ter os nossos pr\u00f3prios est\u00fadios, no nosso caso, um pequeno castelo nos arredores de Col\u00f3nia. Mais tarde, mud\u00e1mo-nos para uma sala de cinema.<br \/>\nFM &#8211; At\u00e9 que ponto a m\u00fasica \u00e9tnica influenciou a sua forma de tocar?<br \/>\nJL &#8211; Tirei, evidentemente, imensas ideias da m\u00fasica indiana, da \u00e1rabe ou da espanhola. Vivi durante algum tempo em Barcelona, onde ouvia flamenco. Impressionou-me, pelso dan\u00e7arinos, n\u00e3o pela dan\u00e7a em si, pelo modo como conseguem tocar o ritmo com os p\u00e9s no ch\u00e3o, como se fosse uma bateria.<br \/>\nFM &#8211; O que ram exactamente as \u201cEthnological Forgery Series\u201d (\u201cs\u00e9ries de falsifica\u00e7\u00e3o etnol\u00f3gica\u201d) que apareceram nos \u00e1lbuns \u201cLimited\u201d e \u201cUnlimited Edition\u201d?<br \/>\nJL &#8211; Foi mais uma piada. Sent\u00e1vamo-nos a tocar umas m\u00fasicas estranhas, em instrumentos ac\u00fasticos, e acontecia que, por vezes, acabavam por soar a m\u00fasica \u00e9tnica&#8230;<br \/>\nFM &#8211; Sentiu que a entrada de Rosko Gee e Reebop Kwaku Bah para os Can, em 1977, significavam o fim do grupo?<br \/>\nJL &#8211; Sim, mas n\u00e3o por causa desses m\u00fasicos. Acabar, era apenas uma quest\u00e3o de tempo. Um grupo tem um tempo aproximado de vida, em termos criativos, de cerca de sete anos. Depois e sete, oito, na melhor das hip\u00f3teses, dez anos, a criatividade e a tens\u00e3o entre os m\u00fasicos desaparecem. Toda a gente conhece toda a gente. \u00c9 como estar casado. Nos sete primeiros anos \u00e9 bom, epois as pessoas divorciam-se. Os Can deixaram de tocar juntos, mas continuam a ser amigos, talvez at\u00e9 agora mais do que antes.<br \/>\nFM &#8211; Com qual dos dois vocalistas gostou mais de tocar, com Malcolm Mooney ou Damo Suzuki?<br \/>\nJL &#8211; Eram ambos excelentes m\u00fasicos. Mooney trouxe para o grupo uma influ\u00eancia americana. Suzuki era mais ca\u00f3tico, mas tamb\u00e9m mais espont\u00e2neo, inventava as palavras enquanto cantava. Por exemplo, num tema como \u201cBlue bag\u201d, ele simplesmente viu, no ch\u00e3o do est\u00fadio, uns sacos de lixo azuis e isso foi suficiente para fazer deles uma letra&#8230;<br \/>\nFM &#8211; Depois dos Can, envolveu-se noutros projectos e com outros m\u00fasicos. Pe\u00e7o-lhe um coment\u00e1rio breve sobre cada um. Michael Rother&#8230;<br \/>\nJL &#8211; Fez parte de uma esp\u00e9cie d ecomunidade que existia em D\u00fcsseldorf, em torno dos Kraftwerk. Toquei com ele, como com muita outra gente, em est\u00fadio, desde os Eurythmics, no in\u00edcio da sua carreira, aos Depeche Mode&#8230;<br \/>\nFM &#8211; Phantom Band&#8230;<br \/>\nJL &#8211; Um projecto breve que durou apenas dois anos. O conceito que esteve na sua origem nunca ficou bem claro.<br \/>\nFM &#8211; Phew&#8230;<br \/>\nJL &#8211; Gravei dois discos com ela. O primeiro, initulado \u201cPhew\u201d, com Holger Czukay e Conny Plank, que, entretanto, j\u00e1 morreu. O segundo, \u201cOur Likeness\u201d, com membros dos Einstuerzende Neubauten, um dos grupos mais loucos da Alemanha.<br \/>\nFM &#8211; Jah Wobble&#8230;<br \/>\nJL &#8211; Um dos melhores baixistas que encontrei, sem d\u00favida um dos meus favoritos. Por norma, n\u00e3o gosto muito de tocar com baixistas, mas Jah \u00e9 dos poucos com verdadeiro sentido r\u00edmico. Fizemos alguns concertos juntos, no ano passado. H\u00e1 uns meses toc\u00e1mos juntos em Inglaterra, com a Orquestra Filarm\u00f3nica de Liverpool.<br \/>\nFM &#8211; O novo \u00e1lbum de remisturas de temas dos Can, \u201cSacrilege\u201d, o que lhe parece? Concorda com Irmin Schmidt quando ele diz que, no fundo, \u00e9 apenas o mais recente desenvolvimento do \u201cwork in progress\u201d, que foi, desde sempre, toda a m\u00fasica do grupo?<br \/>\nJL &#8211; Concordo. Se tiv\u00e9ssemos continuado a tocar juntos, talvez cheg\u00e1ssemos a fazer algo parecido com a m\u00fasica deste disco, provavelmente at\u00e9 mais cedo&#8230; O esp\u00edrito dos Can est\u00e1 completamente presente no \u00e1lbum: uma esp\u00e9cie de liberdade.<br \/>\nFM &#8211; Os Can est\u00e3o maispr\u00f3ximos, hoje, do seu tempo, do que estavam h\u00e1 30 anos?<br \/>\nJL &#8211; Evidentemente. Nos anos 70, era mais dif\u00edcil \u00e0s pessoas assimilarem e aceitarem um som que era capaz de lhes soar um bocado alucinado. Quando ouvimos, hoje, a m\u00fasica dos Can, n\u00e3o soa, de modo algum, louca, mas como perfeitamente normal. Nos primeiros tempos do grupo, foi dif\u00edcil arranjar um contrato para gravar. Achavam que era uma m\u00fasica demasiado excessiva. Hoje, pode-se consider\u00e1-la bastanre inofensiva&#8230;<br \/>\nFM &#8211; O que pensa da actual onda de interesse em torno do chamado \u201ckrautrock\u201d?<br \/>\nJL &#8211; Grande parte deve-se oa interesse suscitado plo livro de Julian Cope [\u201cKrautrocksampler\u201d, citado na bibliografia deste dossier\u201d]. \u201cKrautrock\u201d que \u00e9, de resto, uma express\u00e3o bastante infeliz, inventada por um ingl\u00eas maluco. \u201cKrauts\u201d era como chamavam aos alem\u00e3es durante a II Guerra Mundial. O mais estranho \u00e9 que os pr\u00f3prios alem\u00e3es acabaram por aceitar o termo. A verdade \u00e9 que os Can nunca foram uma banda de krautrock, pela simples raz\u00e3o de que nunca foram uma banda de rock!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>07.05.1997 Dossier Krautrock \u201cKrautrock\u201d Around The Clock LINK O \u201ckrautrock\u201d est\u00e1 vivo e recomenda-se. A estagna\u00e7\u00e3o a que chegou grande parte da m\u00fasica popular neste final de s\u00e9culo levou a uma procura exaustiva de fontes que pudessem revitaliz\u00e1-la. Havia um manancial \u00e0 espera e por explorar. Local: Alemanha. \u00c9poca: anos 70. 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