{"id":1468,"date":"2010-01-26T04:17:06","date_gmt":"2010-01-26T11:17:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=1468"},"modified":"2010-01-26T04:17:06","modified_gmt":"2010-01-26T11:17:06","slug":"helga-pogatschar-mars-requiem-conj","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2010\/01\/26\/helga-pogatschar-mars-requiem-conj\/","title":{"rendered":"Helga Pogatschar &#8211; Mars Requiem (conj.)"},"content":{"rendered":"<p>03.04.1998<br \/>\nTecno Na Idade Das Trevas<br \/>\nA Idade M\u00e9dia enfiada em samplers. Cromornas e sanfonas celebram n\u00fapcias com programa\u00e7\u00f5es tecno. J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 respeito pela cronologia, nem pela ordem natural das coisas. Na Europa surgem novos grupos e editoras com uma proposta de fus\u00e3o da m\u00fasica antiga com a electr\u00f3nica. Um movimento que de um s\u00f3 golpe anula 900 anos de Hist\u00f3ria. Os g\u00f3ticos gostam. Mas h\u00e1 quem ainda resista.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2010\/01\/helgaPogatschar_marsRequiem.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2010\/01\/helgaPogatschar_marsRequiem.jpg\" alt=\"\" title=\"helgaPogatschar_marsRequiem\" width=\"280\" height=\"250\" class=\"alignnone size-full wp-image-1469\" \/><\/a><\/p>\n<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 234;\ngoogle_ad_height = 60;\ngoogle_ad_format = \"234x60_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p><a href=\"http:\/\/www.megaupload.com\/?d=SANNDXYK\" target=\"_blank\">LINK<\/a><\/p>\n<p><object width=\"425\" height=\"344\"><param name=\"movie\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/qZFOsawwonM&#038;hl=pt_PT&#038;fs=1&#038;\"><\/param><param name=\"allowFullScreen\" value=\"true\"><\/param><param name=\"allowscriptaccess\" value=\"always\"><\/param><embed src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/qZFOsawwonM&#038;hl=pt_PT&#038;fs=1&#038;\" type=\"application\/x-shockwave-flash\" allowscriptaccess=\"always\" allowfullscreen=\"true\" width=\"425\" height=\"344\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p>A editora alem\u00e3 Gymnastic \u00e9 uma das que lidera o actual movimento da Idade M\u00e9dia enfiada em samples, e lan\u00e7ou a proposta mais radical, um \u201cMars Requiem\u201d composto, produzido e interpretado nos teclados por Helga Pogatschar. Nesta obra um \u201censemble vocal\u201d cl\u00e1ssico, formado por uma soprano, duas meio-soprano, um tenor e um baixo, tem o apoio instrumental exclusivo da electr\u00f3nica e de programa\u00e7\u00f5es v\u00e1rias. Como se diz no livrete de apresenta\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 nem \u201cm\u00fasica cl\u00e1ssica de vanguarda\u201d nem \u201cpop experimental\u201d, mas um bloco totalit\u00e1rio de impress\u00f5es, impreca\u00e7\u00f5es e encantamentos que levam a no\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica de \u201crondo\u201d para uma zona difusa onde F\u00e1tima Miranda dan\u00e7a com Diamanda Galas, e um \u201cLied\u201d e Verdi explode em polifonias barrocas.<br \/>\nO tema da guerra e da desagrega\u00e7\u00e3o f\u00edsica e ps\u00edquica do mundo moderno exterioriza-se atrav\u00e9s de simbologias religiosas e pol\u00edticas que Helga Pogatschar traduz, em termos musicais, em tenebrosas catedrais onde clamam as vozes dos mortos. Entre polifonias sobrenaturais (\u201dTractus\u201d) e explos\u00f5es violentas de m\u00fasica tecno-industrial, h\u00e1 ainda um factor adicional de perturba\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s da utiliza\u00e7\u00e3o de velhas grava\u00e7\u00f5es originais dos anos 30, contendo sess\u00f5es de auto-hipnose para \u201crelaxamento\u201d elaboradas pelo nazi Oscar Shelach. Numa delas pode escutar-se: \u201cS\u00f3 tens direito a viver enquanto fores uma pessoa superior, caso contr\u00e1rio ser\u00e1s pregui\u00e7oso e doente e mereces morrer.\u201d \u201cmars Requiem\u201d d\u00e1 um novo sentido ao termo \u201cbelo-horr\u00edvel\u201d. Os adeptos do g\u00f3tico adoptaram-no sem reservas. (Gymnastic, distri. Symbiose, 8).<\/p>\n<p>Os QNTAL auto-intitulam-se uma banda de \u201ctecno medieval\u201d. \u201cQNTAL\u201d, \u00e1lbum de estreia deste grupo, do qual foi j\u00e1 editado um segundo trabalho, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o em inovador como em teoria possa parecer. A f\u00f3rmula n\u00e3o difere muito da utilizada pelos Enigma, tratando-se neste caso mais de uma mistura do que de uma s\u00edntese dos lugares-comuns da m\u00fasica da Idade M\u00e9dia, com programa\u00e7\u00f5es tecno destinadas a fazer dan\u00e7ar. Com um pouco mais de subst\u00e2ncia os QNTAL poderiam passar pelos Hedningarna da m\u00fasica antiga. Curioso e, em \u00faltima an\u00e1lise, massacrante (Gymnastic, distri. Symbiose, 6).<\/p>\n<p>Bastante mais interessante \u00e9 o novo \u00e1lbum dos Vox, \u201cX Chants\u201d\u201d. Depois de \u201cDiadema\u201d, dedicado \u00e0s can\u00e7\u00f5es da abadessa e m\u00edstica da Idade M\u00e9dia, Hildegard von Bingen, e de \u201cFrom Sapin to Spain\u201d, um p\u00e9riplo pelas tradi\u00e7\u00f5es \u00e1rabes da cultura espanhola, \u201cX Chants\u201d explora as fontes musicais e espirituais dos crist\u00e3os do Oriente \u00e1rabe, procedendo em simult\u00e2neo \u00e0 transmigra\u00e7\u00e3o para o presente de uma pretensa ess\u00eancia das m\u00fasicas dessa \u00e9poca t\u00e3o long\u00ednqua no tempo e, nesse processo, \u00e0 descoberta de novas formas tecnol\u00f3gicas de produ\u00e7\u00e3o musical adaptadas a uma forma de sensibilidade contempor\u00e2nea.<br \/>\nPara os Vox \u00e9 um passo arriscado. O grupo abandonou toda e qualquer instrumenta\u00e7\u00e3o ac\u00fastica, antiga ou n\u00e3o, servindo-se para a feitura desta missa unicamente da voz de Fadia El-Hage, das guitarras el\u00e9ctricas de Wolfram Nestroy e dos samplers e sintetizadores de Vladimir Ivanoff, desde o in\u00edcio o mentor dos Vox. A alian\u00e7a resulta sem atritos, tirando partido de uma produ\u00e7\u00e3o espacial e sem insistir nunca na electricidade. Uma nova religiosidade para o novo mil\u00e9nio presente numa m\u00fasica que deveria servir de li\u00e7\u00e3o aos aprendizes de feiticeiro da new age (Erdenklang, distri. Megam\u00fasica, 8).<\/p>\n<p>Desconhecidos por c\u00e1, os Freiburger Spielleyt s\u00e3o outra forma\u00e7\u00e3o alem\u00e3 praticante de m\u00fasica antiga que revela uma vis\u00e3o diferente da dos grupos mais acad\u00e9micos. A verdade \u00e9 que se assiste neste momento ao aparecimento de uma nova gera\u00e7\u00e3o de m\u00fasicos que alia a erudi\u00e7\u00e3o e a forma\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica e uma atitude e sensibilidade diferentes perante este tipo de report\u00f3rio. Em \u201cO Fortuna\u201d &#8211; sobre a tem\u00e1tica da sorte e do azar na Idade M\u00e9dia, at\u00e9 ao s\u00e9c. XIII, com especial incid\u00eancia nos manuscritos da \u201cCarmina Burana\u201d &#8211; h\u00e1 uma frescura que ressalta sobretudo ao n\u00edvel das concep\u00e7\u00f5es r\u00edtmicas e de liberdades de express\u00e3o como aquela que \u00e9 tomada em \u201cTempus transit gelidum\u201d, no qual a melodia principal \u00e9 desenhada por um assobio. Recomenda-se a audi\u00e7\u00e3o comparada de \u201cO Fortuna\u201d com a definitiva e n\u00e3o menos \u201cher\u00e9tica\u201d vers\u00e3o da \u201cCarmina\u201d pelos Clemencic Consort, na vers\u00e3o em CD triplo da Harmonia Mundi de 1990. De resto, os Freiburguer incluem na sua parafren\u00e1lia instrumental os tradicionais ala\u00fade, \u00f3rg\u00e3o port\u00e1til cromorna, harpa, flauta, sanfona medieval, \u201cgemshorn\u201d, etc., que utilizam da forma mais l\u00fadica pos\u00edvel, pondo justamente em pr\u00e1tica as no\u00e7\u00f5es associadas ao jogo que est\u00e3o na base da feitura do \u00e1lbum. Destaque, ao n\u00edvel das vozes solistas, para a soprano Regina Kabis e para os dois convidados, o tenor Markus Schikora e o baixo Reinhard Mayr (Glasnost, distri. Symbiose, 9).<\/p>\n<p>Finalmente, os Estampie, cuja data de forma\u00e7\u00e3o remonta a 1985, em Munique, apresentam-se com \u201cLudus Danielis\u201d e \u201cCrusaders &#8211; In Nomine Domini\u201d. O primeiro \u00e9 um dos exemplares mais significativos dentro do g\u00e9nero \u201cordo\u201d, \u201cludus\u201d, \u201cversus\u201d ou \u201chistoria\u201d, que designava as primeiras tentativas de alian\u00e7a da m\u00fasica ao teatro, ou seja, o formato oper\u00e1tico, nos tempos do primeiro cristianismo. \u201cLudus Danielis\u201d apresenta-se sob a forma de um drama lit\u00fargico inspirado no Mist\u00e9rio de Daniel &#8211; o qual, por sua vez remonta aos mist\u00e9rios celebrados na missa da P\u00e1scoa &#8211; estruturado como uma \u00f3pera em cinco actos.<br \/>\nM\u00fasica de extraordin\u00e1ria densidade, tanto musical como emocional, revela os Estampie como uma forma\u00e7\u00e3o paradoxal, j\u00e1 que um dos seus elementos, Micahel Popp, \u00e9 tamb\u00e9m o l\u00edder dos QNTAL, al\u00e9m de pertencer ao grupo pop vanguardista Deine Lakaien. O que verdadeiramente espanta nos Estampie \u00e9 a forma como na sua m\u00fasica coincidem a autenticidade e a perversidade. \u00c9 que os Estampie utilizam exclusivamente instrumentos ac\u00fasticos da \u00e9poca mas fazem-no de tal modo que a m\u00fasica soa, n\u00e3o raras vezes, como se fosse electr\u00f3nica. O \u201corganistrum\u201d, sanfona gigante antepassada dos modelos posteriores, \u00edcone musical, visual e ideol\u00f3gico do grupo, dir-se-ia uma g\u00e1rgula medieval, m\u00e1quina org\u00e2nica produtora de sons mutantes que &#8211; e aqui reside o paradoxo &#8211; tocam de perto algumas das correntes de m\u00fasica contempor\u00e2nea. Numa escala mais ampla, n\u00e3o se est\u00e1 longe da vis\u00e3o m\u00edstico-teol\u00f3gico-cosmol\u00f3gica de um vison\u00e1rio como Valentin Clsatrier, escutando um tema como \u201cVocale mathematicos\u201d.<br \/>\n\u201cCrusaders\u201d, editado posteriormente, refor\u00e7a ainda mais esta ilus\u00e3o ao ponto de poder ocasionalmente soar algo artificial. Faixas como \u201cSeigneurs &#8211; Sachiez\u201d e \u201cMaugr\u00e9z tous sainz\u201d transcendem e redimem a \u201ctecno medieval\u201d dos QNTAL com a sua batida, rigorosamente elaborada em artefactos da \u00e9poca, mas que parece seguir \u00e0 risca as normas do ritmo da m\u00fasica de dan\u00e7a electr\u00f3nica dos dias de hoje. Imagine-se uma \u201cestampie\u201d medieval dan\u00e7ada numa catedral g\u00f3tica que, por artes m\u00e1gicas, se tivesse transformado numa imensa discoteca. a est\u00e9tica da capa \u00e9 tipicamente \u201cg\u00f3tica\u201d, mas no sentido actual e deca\u00eddo do termo. A m\u00fasica dos Estampie anula o poder discriminat\u00f3rio da Hist\u00f3ria. Tanto pode ser encarada como a m\u00fasica medieval dos tempos modernos como a m\u00fasica \u201celectr\u00f3nica\u201d da Idade M\u00e9dia. Em todo o caso, m\u00fasica do Apocalipse. (Christophorus, distri. Symbiose, 10 e 8).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>03.04.1998 Tecno Na Idade Das Trevas A Idade M\u00e9dia enfiada em samplers. Cromornas e sanfonas celebram n\u00fapcias com programa\u00e7\u00f5es tecno. J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 respeito pela cronologia, nem pela ordem natural das coisas. Na Europa surgem novos grupos e editoras com uma proposta de fus\u00e3o da m\u00fasica antiga com a electr\u00f3nica. 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