{"id":12687,"date":"2025-11-17T05:47:23","date_gmt":"2025-11-17T12:47:23","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=12687"},"modified":"2025-11-17T05:47:23","modified_gmt":"2025-11-17T12:47:23","slug":"ne-ladeiras-amelia-muge-a-tradicao-ja-nao-e-o-que-era-entrevista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2025\/11\/17\/ne-ladeiras-amelia-muge-a-tradicao-ja-nao-e-o-que-era-entrevista\/","title":{"rendered":"N\u00e9 Ladeiras + Am\u00e9lia Muge &#8211; &#8220;A Tradi\u00e7\u00e3o J\u00e1 N\u00e3o \u00c9 O Que Era&#8221; (entrevista)"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 234;\ngoogle_ad_height = 60;\ngoogle_ad_format = \"234x60_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p>pop rock >> quarta-feira >> 26.04.1995<br \/>\n<center><br \/>\n<strong>A TRADI\u00c7\u00c3O J\u00c1 N\u00c3O \u00c9 O QUE ERA<\/strong><br \/>\n<\/center><\/p>\n<p><center><br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/neLadeiras.jpg\" alt=\"\" width=\"681\" height=\"869\" class=\"alignnone size-full wp-image-12688\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/neLadeiras.jpg 681w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/neLadeiras-235x300.jpg 235w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/neLadeiras-624x796.jpg 624w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/neLadeiras-78x100.jpg 78w\" sizes=\"auto, (max-width: 681px) 100vw, 681px\" \/><br \/>\n<\/center> <\/p>\n<p>Am\u00e9lia Muge, N\u00e9 Ladeiras. Duas vozes, dois projectos singulares com alguns pontos em comum. \u201cTodos os Dias\u201d e \u201cTraz os Montes\u201d ganharam os favores da cr\u00edtica, nas listas dos melhores do ano passado, mas, para as suas autoras, isso n\u00e3o chega. Acham que os respectivos \u00e1lbuns deveriam chegar mais longe do que onde est\u00e3o a chegar. Idealistas por natureza, n\u00e3o abdicam da integridade art\u00edstica, mesmo que isso lhes custe amargos de boca em termos de mercado. Procuram, cada uma \u00e0 sua maneira, a felicidade. Uma felicidade que passa pela m\u00fasica e por levar essa m\u00fasica \u00e0s pessoas. Tecem cr\u00edticas, soltam esperan\u00e7as e queixumes e est\u00e3o de acordo que o estado cultural do chamado pa\u00eds real n\u00e3o ajuda. Falam em projectos e suspiram por alternativas. Assustam e encantam. D\u00e3o ambas mostras de uma energia que n\u00e3o se esgota nos sons e nas palavras mas se prolonga pela vida. Mulheres tradicionais, no sentido em que assumem arqu\u00e9tipos femininos que remontam \u00e0 origem das comunidades, n\u00e3o se acomodam ao ritmo desenfreado dos tempos modernos nem aos gostos esterotipados das maiorias. T\u00eam voz pr\u00f3pria, uma voz que por tocar t\u00e3o fundo pode n\u00e3o chegar a todos. N\u00e9, a \u00e1gua, e Am\u00e9lia, o fogo, explicaram porque ocupam um lugar \u00e0 parte na m\u00fasica popular feita em Portugal.<\/p>\n<p><strong>P\u00daBLICO \u2013 Agora que j\u00e1 passaram alguns meses sobre a edi\u00e7\u00e3o dos vossos discos, querem fazer o ponto da situa\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nN\u00c9 LADEIRAS \u2013 No meu caso, foi muito bem recebido pela cr\u00edtica. Agora, em termos de trabalho, est\u00e1 p\u00e9ssimo. Estou extremamente triste porque vejo um grupo de pessoas \u2013 somos oito \u2013 sem grandes esperan\u00e7as de at\u00e9 ao final deste ano podermos levar \u201cTraz os Montes\u201d at\u00e9 onde eu imaginava que podia ser levado. Estou desiludida com este sistema de monop\u00f3lio emque h\u00e1 duas ou tr\u00eas pessoas que comem tudo e os outros n\u00e3o comem nada. N\u00e3o tem havido espa\u00e7o para o meu projecto.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Ser\u00e1 por, como j\u00e1 ouvimos dizer, o seu trabalho ser demasiado dif\u00edcil?<\/strong><br \/>\nN.L. \u2013 Se calhar tem a ver com a regi\u00e3o, Tr\u00e1s-os-Montes, que n\u00e3o \u00e9 uma regi\u00e3o f\u00e1cil, mas indecifr\u00e1vel. Se n\u00e3o pusermos o cora\u00e7\u00e3o e a raz\u00e3o juntas a trabalhar para entender aquela forma de vida. Talvez fosse mais f\u00e1cil pegar numa chula ou numa can\u00e7\u00e3o alentejana\u2026 Mas jamais prescindiria da minha integridade em nome do sucesso. Se nasci com algum dom, foi com o dom da m\u00fasica e da voz e sensibilidade que tenho. Al\u00e9m de ser uma boa m\u00e3e. Agora, vulgarizar aquilo que Deus me deu, ou que o c\u00e9u me deu, nunca! Assim sofre-se muito mais, sabe? Entra-se em depress\u00e3o, parece que estamos numa estrada florida com um piso fant\u00e1stico mas de repente aparece um abismo, uma cova enorme e \u2013 pimba! \u2013 estamos no ch\u00e3o. Para nos levantarmos \u00e9 tem\u00edvel. \u00c9 o que se est\u00e1 a passar neste momento. Estou a sofrer muito. Larguei as outras coisas todas, mas estou seriamente a pensar em arranjar uma alternativa porque pelos vistos, em Portugal, n\u00e3o somos amados. Talvez me dedique definitivamente ao campo, ao cultivo das batatas, do centeio, do trigo\u2026 \u00c9 uma vida dura mas prefiro isso, porque a terra nunca nos nega. \u00c9 uma coisa que sei quen\u00e3o vou falhar, n\u00e3o me vai trair. E eu neste momento sinto-me atrai\u00e7oada, talvez pelo sistema em si.<br \/>\n<strong>P. \u2013 A Am\u00e9lia sente o mesmo tipo de dificuldades?<\/strong><br \/>\nAM\u00c9LIA MUGE \u2013 Em rela\u00e7\u00e3o ao disco, \u00e9 importante manter uma postura de certo modo independente. Realmente n\u00e3o estou nisto para fazer discos. Eles acontecem. N\u00e3o estive dependente de um disco para compor o que compus, cantar o que cantei, andar por onde andei. N\u00e3o vou ficar dependente do que ser\u00e1 o percurso deste disco, o \u201cTodos os Dias\u201d, ou outros que fa\u00e7a, para encetar os meus pr\u00f3prios caminhos. E este percurso, deste objecto, n\u00e3o depende s\u00f3 de mim, a come\u00e7ar pela promo\u00e7\u00e3o, da forma como \u00e9 promovido ou n\u00e3o \u00e9. Por exemplo, h\u00e1 queixas regulares de pessoas que v\u00e3o \u00e0s lojas e n\u00e3o encontram o disco, embora este n\u00e3o esteja esgotado\u2026<\/p>\n<p><strong>Um Espa\u00e7o, Entre Trili\u00f5es De Pop e Quatrili\u00f5es De Rock<\/strong><\/p>\n<p><strong>P. \u2013 A quest\u00e3o \u00e9 que ambas est\u00e3o, em termos de atitude, fora do sistema, mas na pr\u00e1tica, a partir do momento em que assinaram contratos com as respectivas editoras, passaram a estar automaticamente dentro desse mesmo sistema. A dificuldade n\u00e3o residir\u00e1 na concilia\u00e7\u00e3o entre estes dois aspectos?<\/strong><br \/>\nN. L. \u2013 Tenho os meus c\u00f3digos de honra e as minhas leis interiores. Faz-me um bocado de confus\u00e3o saber que somos utilizados, n\u00e3o como carne para canh\u00e3o, mas quase. Fazemos parte de um cat\u00e1logo, para se poder dizer que se est\u00e1 a fazer algo com a m\u00fasica portuguesa, mas o que acho, desde que estou neste cen\u00e1rio da m\u00fasica, desde 1977, \u00e9 que a partir de uma certa altura, quando as multinacionais come\u00e7aram a estender os seus tent\u00e1culos e c\u00e1 se alaparam, o que lhes interessa \u00e9 vender o Bruce Springsteen, os Cranberries e por a\u00ed fora. N\u00e3o se cria um espa\u00e7o para os artistas portugueses. Para estes escrit\u00f3rios, ou subescrit\u00f3rios, dos presum\u00edveis fazedores de artistas, que at\u00e9 nem o s\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 uma participa\u00e7\u00e3o activa dos m\u00fasicos portugueses. Vendem-se milh\u00f5es de \u201cheavy-metal\u201d, trili\u00f5es de pop e quadrili\u00f5es de rock fant\u00e1sticos mas pelo menos d\u00eaem-nos um bocado de espa\u00e7o para respirar. As multinacionais pisam um bocado a nossa diginidade. Tive muita pena que a Alma Lusa n\u00e3o tivesse ido para a frente, como editora, embora n\u00e3o possa dizer que neste momento a EMI-VC esteja a ser m\u00e1 comigo. As \u00fanicas raz\u00f5es de queixa que tenho s\u00e3o ao n\u00edvel da distribui\u00e7\u00e3o. Uma vez fui ao Norte e nas pr\u00f3prias lojas da Valentim de Carvalho n\u00e3o havia discos do \u201cTraz os Montes\u201d. O editor tem que ter c\u00f3digos e identificar-se minimamente com os artistas que contrata.<br \/>\nA.M. \u2013 \u00c9 verdade que as multinacionais t\u00eam um determinado tipo de funcionamento em que as pr\u00f3prias pessoas que l\u00e1 est\u00e3o s\u00e3o um bocado escravas dele. N\u00e3o acontece s\u00f3 com os discos, mas em todo o lado. Quando se fala nas quest\u00f5es do sistema, temos que ter em conta tamb\u00e9m que o ensino est\u00e1 p\u00e9ssimo e os pr\u00f3prios professores sentem-se impotentes para mudar a situa\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma rede que nos ultrapassa\u2026<br \/>\nN.L. \u2013 A\u00ed n\u00e3o comparo muito os professores a quem puxa os cord\u00e9is nas multinacionais. Tenho tr\u00eas mi\u00fados, todos eles est\u00e3o na escola, e as conversas que temos \u00e9 \u201cai meu Deus, o que \u00e9 que vamos fazer destas crian\u00e7as?\u201d. Cada vez h\u00e1 mais acompanhamento ao n\u00edvel de psic\u00f3logos, os mi\u00fados est\u00e3o perfeitamente descontrolados. H\u00e1 crian\u00e7as, mesmo com excelente ambiente familiar, que, chegadas \u00e0 escola, v\u00eaem o mundo delas desmoronar-se.<br \/>\nA.M. \u2013 \u00c9 uma quest\u00e3o de adapta\u00e7\u00e3o de pessoas, ou de grupos, dentro ou fora do sistema. As dificuldades das editoras independentes s\u00e3o de outro g\u00e9nero.<br \/>\nN.L. &#8211; \u2026 Financeiras!<\/p>\n<p><strong>Dar O Couro E O Cabelo Para Ser Feliz<\/strong><\/p>\n<p><strong>P. \u2013 Mas n\u00e3o se podem esquecer de que a vertente art\u00edstica passou a estar directamente ligada \u00e0 da ind\u00fastria. Ora, a ind\u00fatria trabalha sobretudo com imagens. N\u00e3o se dar\u00e1 o caso de haver uma dificuldade vossa em juntar uma atitude idealista com os imperativos do mercado?<\/strong><br \/>\nN.L. \u2013 A\u00ed, fecho-me completamente. J\u00e1 me chamaram virgem e feiticeira! Sou uma alma antiga.<br \/>\nA.M. \u2013 Podia falar, por exemplo, nas dificuldades que tenho em ir a uma televis\u00e3o, onde me sinto completamente desconfort\u00e1vel, num ambiente frio que n\u00e3o tem nada a ver comigo, como se houvesse uma c\u00e2mara indiscreta em todo o lado, a passarinhar n\u00e3o sei por onde\u2026 Vivemos numa sociedade completamente mediatizada. Tenho que assumir, at\u00e9 num palco, que aquilo que as pessoas est\u00e3o a ouvir n\u00e3o \u00e9 o que eu estou a cantar, mas qualquer coisa que uma aparelhagem est\u00e1 a fazer passar. Se agisse em termos de coer\u00eancia comigo pr\u00f3pria, se calhar n\u00e3o cantava em lado nenhum. S\u00f3 para os amigos, que ouviam a minha voz natural. De mim para eles. Mas a partir do momento em que a gente sabe que vive num mundo medi\u00e1tico, temos que perceber que h\u00e1 uma din\u00e2mica entre aquilo que \u00e9, por um lado, viver da m\u00fasica e aquilo que \u00e9 dar o couro e o cabelo, para servir a m\u00fasica.<br \/>\nN.L. \u2013 Tamb\u00e9m \u00e9 uma quest\u00e3o de felicidade. J\u00e1 fiz trabalhos precisamente para evitar que me sujassem o gosto, o amor que tenho pela m\u00fasica, mas nunca fui feliz nesses trabalhos. Este \u00e9 de facto o meu mundo. Se me querem ver feliz, sossegada e em paz, comigo e com os outros, \u00e9 deixarem-me cantar e criar. S\u00f3 pe\u00e7o isso. Mas como n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, tinha que ir para as r\u00e1dios \u2013 os consult\u00f3rios \u2013 para fazer \u201cn\u201d coisas, andava extremamente amargurada. N\u00e3o faz sentido, pois n\u00e3o?<br \/>\n<strong>P. \u2013 \u00c9 para isso que existem os agentes, n\u00e3o \u00e9?<\/strong><br \/>\nN.L. \u2013 Sim, tivemos imensas reuni\u00f5es. Primeiro o espect\u00e1culo era demasiado caro, baix\u00e1mos os \u201ccahets\u201d vertiginosamente mas mesmo assim n\u00e3o h\u00e1 concertos. O que me disseram foi que no ano passado foi pior e que este ano estamos a pagar o que se passou em 1994. Consegui ultrapassar tudo isto naqueles dias de ensaios que tivemos em Alfama, na sala da Encore, duas semanas de extrema felicidade em que senti umcansa\u00e7o de cair para o lado, do g\u00e9nero chegar a casa e \u201cpof\u201d, mas um cansa\u00e7o que eu comparo ao do campo, em que se anda a sachar o dia inteiro mas se chega a casa feliz da vida, porque s\u00f3 o corpo \u00e9 que d\u00f3i. Est\u00e1 a faltar-me isso. Estou a detestar estar em casa, n\u00e3o ter ensaios, n\u00e3o estar a levar \u201cTraz os Montes\u201d para fora. J\u00e1 tenho ideias para um pr\u00f3ximo trabalho mas isso s\u00f3 n\u00e3o me alimenta.<br \/>\nA.M. \u2013 Tamb\u00e9m acho que uma das caracter\u00edsticas do nosso tempo \u00e9 a rapidez. Tudo tem que ser muito r\u00e1pido. Se n\u00e3o se chega aos tops num ano, como \u00e9 que \u00e9? As pessoas esquecem-se que se a gente n\u00e3o est\u00e1 nestas coisas para um ano ou para dois, para fazer a tal m\u00fasica dentro dos padr\u00f5es de consumo, as coisas levam um certo tempo. Fiz o \u201cM\u00fagica\u201d em 1992 e sinto, em termos do que se convenciona chamar uma carreira, que n\u00e3o quero andar em passo de caracol mas tamb\u00e9m n\u00e3o quero pensar nela com a velocidade do foguet\u00e3o que vai para a Lua. N\u00e3o quero entrar em corrida nenhuma, nem sei correr dessa maneira. O grande problema n\u00e3o \u00e9 gravar o disco mas de o passar \u00e0s pessoas. A solu\u00e7\u00e3o est\u00e1 em encontrar alternativas. No fundo estamos a tentar resolver uma coisa que n\u00e3o tem s\u00f3 a ver connosco. N\u00e3o quero entrar naquele discurso de que h\u00e1 uns que est\u00e3o numa facilidade e outros, os que n\u00e3o s\u00e3o vendidos.<br \/>\nN. L. \u2013 Mas \u00e9 um bocado o que se passa, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p><strong>\u201cHomo Erectus\u201d, Um Homem Assustado<\/strong><\/p>\n<p><strong>P. \u2013 Mudando de assunto. Identificam-se de algum modo com a imagem da mulher tradicional, no sentido da assun\u00e7\u00e3o de valores arquet\u00edpicos que transcendem a mera dimens\u00e3o temporal e sociol\u00f3gica?<\/strong><br \/>\nN. L. \u2013 Se se refere \u00e0 \u00e9poca matriarcal, sim, estou l\u00e1, cem por cento. Porque n\u00f3s geramos, porque temos imensas capacidades, porque somos diferentes. N\u00e3o tenho nada o tipo de discurso feminista. Detesto feministas. Acho que s\u00e3o todas anti-homens. Eu gosto de homens. E de crian\u00e7as.<br \/>\n<strong>P. \u2013 H\u00e1 pouco disse que j\u00e1 lhe tinham chamado virgem e feiticeira\u2026<\/strong><br \/>\nN. L. \u2013 Estou muito ligada a um trabalho interior, j\u00e1 h\u00e1 muitos anos, que nunca mais vai acabar. H\u00e1-de continuar do lado de l\u00e1. Quando me referia \u00e0 tal sociedade matriarcal, foi o que encontrei em Tr\u00e1s-os-Montes, muitas afinidades com o meu feitio. Tive quatro casamentos, imensas rela\u00e7\u00f5es na minha vida, mas nunca fui dominada nem orientada por ningu\u00e9m. N\u00e3o \u00e9 por ser selvagem mas por ter ideias, os tais c\u00f3digos de honra e lealdade. Detesto que me prendam, como um passarito numa gaiola.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Essa postura n\u00e3o lhe provoca dificuldades na rela\u00e7\u00e3o com a ind\u00fastria, um meio patriarcal?<\/strong><br \/>\nN. L. \u2013 Os homens, de uma maneira geral, t\u00eam um problema de inferioridade, n\u00e3o sei bem porqu\u00ea. Por qualquer motivo, t\u00eam uns temores dentro deles. Talvez o meu infort\u00fanio desta rela\u00e7\u00e3o tempestuosa com eles seja devido a isso. De facto j\u00e1 me disseram que eu era um bocado capz de assustar. Por ter alguns poderes\u2026<br \/>\n<strong>P. \u2013 A Am\u00e9lia, pelo contr\u00e1rio, talvez assuste por outros motivos, dada a sua impetuosidade natural\u2026<\/strong><br \/>\nA. M. \u2013 Para j\u00e1, as pessoas ligam um bocado a tradi\u00e7\u00e3o a qualquer coisa de passivo. Eu n\u00e3o entendo nada a tradi\u00e7\u00e3o assim. Que eu saiba continuamos a ser o Pitecantropus, ou \u201chomo erectus\u201d, como se costuma dizer. O homem moderno \u00e9 o mais tradicional que existe, \u00e0s vezes com um \u201ct\u201d muito pequenininho. A tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 isto, n\u00f3s sabemos que somos algu\u00e9m que vem na continuidade de qualquer coisa. A nossa modernidade est\u00e1 a\u00ed. O nosso tempo \u00e9 enquanto estamos vivos. Acho uma estupidez ligar tradi\u00e7\u00e3o a qualquer coisa que j\u00e1 passou e n\u00e3o a qualquer coisa que est\u00e1 a acontecer.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Refer\u00edamo-nos a arqu\u00e9tipos, os quais, por ess\u00eancia, n\u00e3o podem ser modificados, embora possam ser actualizados de diferentes formas. Atrav\u00e9s da m\u00fasica por exemplo, o que tanto uma como outra fizeram nos respectivos discos\u2026<\/strong><br \/>\nA. M. \u2013 Se calhar estou a ser ut\u00f3pica quando fa\u00e7o a m\u00fasica que fa\u00e7o. Vivemos na tal sociedade mediatizada. Cada vez mais as conversas particulares que tenho com as pessoas n\u00e3o correspondem \u00e0 imagem que tenho da sociedade, em termos abstractos. H\u00e1 um desfasamento cada vez maior. As pessoas habituaram-se a ter tudo \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o, aos passevites. Tudo tem que estar em papa para n\u00e3o ser preciso mastigar.<br \/>\nN. L. \u2013 Como sabe, vou muitas vezes ao Norte, passo l\u00e1 a minha vida. Noutro dia engoli em seco. Estavam a falar de uma festa, em Agosto, e algu\u00e9m disse: \u201cAqui esta menina tem agora umas coisas aqui da terra, tem ssim uma banda.\u201d Responde o mestre de cerim\u00f3nias: \u201cMas o qu\u00ea? Ela vir c\u00e1 com aquela gente toda? Bota-se a\u00ed um \u00f3rg\u00e3o que faz tudo s\u00f3 com uma pessoa e j\u00e1 est\u00e11\u201d Ah, meu Deus, ent\u00e3o percebi o nome de um cantor qualquer que faz aquilo e percebi que \u00e9 disso que eles gostam! Tenho ido a quase todas as feiras do Norte, por curiosidade tenho andado \u00e0 procura. N\u00e3o encontrei nem os Madredeus, nem tu, nem eu, nem a Filipa Pais\u2026 \u00c9 s\u00f3 Laura Pausini, que \u00e9 o que est\u00e1 a dar. A sensa\u00e7\u00e3o que me d\u00e1 \u00e9 que estou a tentar que n\u00e3o se mate, que n\u00e3o desapare\u00e7a uma cultura e n\u00e3o estou a sentir o retorno das pessoas que est\u00e3o directamente ligadas a essa cultura moribunda. T\u00eam vergonha. Uma vez, em Duas Igrejas, disse-me assim um rapaz: \u201cEnt\u00e3o mas voc\u00ea gosta disto? O que \u00e9 que isto tem que as outras cidades n\u00e3o t\u00eam? Isto \u00e9 um atraso de vida!\u201d Era um rapaz novo, do ensino secund\u00e1rio, que odiava a m\u00fasica e queria era vir para Lisboa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>pop rock >> quarta-feira >> 26.04.1995 A TRADI\u00c7\u00c3O J\u00c1 N\u00c3O \u00c9 O QUE ERA Am\u00e9lia Muge, N\u00e9 Ladeiras. Duas vozes, dois projectos singulares com alguns pontos em comum. \u201cTodos os Dias\u201d e \u201cTraz os Montes\u201d ganharam os favores da cr\u00edtica, nas listas dos melhores do ano passado, mas, para as suas autoras, isso n\u00e3o chega. 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