{"id":12523,"date":"2025-07-30T03:56:17","date_gmt":"2025-07-30T10:56:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=12523"},"modified":"2025-07-30T03:56:17","modified_gmt":"2025-07-30T10:56:17","slug":"fausto-cronica-do-espirito-da-terra-ardente-e-de-um-papagaio-filosofo-do-nosso-enviado-especial-fernando-magalhaes-em-s-miguel-reportagem-fausto-por-toda-aquela-terra-adentro-c","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2025\/07\/30\/fausto-cronica-do-espirito-da-terra-ardente-e-de-um-papagaio-filosofo-do-nosso-enviado-especial-fernando-magalhaes-em-s-miguel-reportagem-fausto-por-toda-aquela-terra-adentro-c\/","title":{"rendered":"Fausto &#8211; &#8220;Cr\u00f3nica Do Esp\u00edrito, Da Terra Ardente E De Um Papagaio Fil\u00f3sofo &#8211; (Do nosso enviado especial Fernando Magalh\u00e3es, Em S. Miguel)&#8221; (reportagem) + Fausto &#8211; &#8220;Por Toda Aquela Terra Adentro&#8221; (cr\u00edtica de discos)"},"content":{"rendered":"<p>pop rock >> quarta-feira >> 30.11.1994<br \/>\n<center><br \/>\n<strong>Cr\u00f3nica Do Esp\u00edrito, Da Terra Ardente E De Um Papagaio Fil\u00f3sofo<br \/>\n(Do nosso enviado especial Fernando Magalh\u00e3es, Em S. Miguel)<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/fausto1.jpg\" alt=\"\" width=\"741\" height=\"507\" class=\"alignnone size-full wp-image-12527\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/fausto1.jpg 741w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/fausto1-300x205.jpg 300w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/fausto1-624x427.jpg 624w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/fausto1-100x68.jpg 100w\" sizes=\"auto, (max-width: 741px) 100vw, 741px\" \/><br \/>\n<\/center><br \/>\nA\u00e7ores. Ilha do Esp\u00edrito Santo. De fogo e abandono. Local escolhido por Fausto para o lan\u00e7amento da segunda parte de uma trilogia sobre a di\u00e1spora e a coloniza\u00e7\u00e3o portuguesa nos s\u00e9culos XV, XVI e XVII, iniciada h\u00e1 doze anos com \u201cPor Este Rio Acima\u201d e que agora se prolonga em \u201cCr\u00f3nicas da Terra Ardente\u201d \u2013 uma obra de f\u00f4lego, com ra\u00edzes fundas na m\u00fasica tradicional portuguesa. Depois de uma vis\u00e3o, \u201cdo mar para a terra\u201d, em \u201cPor Este Rio Acima\u201d, um rosto que \u201colha da terra para o mar\u201d. Viagem inici\u00e1tica de ida e, quem abe, sem volta. Pelos quatro elementos, pelo continente africano, pelo sonho e sofrimento das gentes an\u00f3nimas que edificaram o Imp\u00e9rio. Pela mem\u00f3ria de um Portugal que, \u00e0 dist\u00e2ncia de quatro s\u00e9culos, se confunde com as chagas de um pa\u00eds adiado no presente. E do Portugal do Quinto Imp\u00e9rio, de Vieira e de Pessoa. Com Fausto, circund\u00e1mos as \u00e1guas, santas ou ardentes, calcorre\u00e1mos o verde dos montes e dos pastos, sentimos a pulsa\u00e7\u00e3o, misto de proximidade e dist\u00e2ncia, das gentes e prov\u00e1mos as comidas. Sonh\u00e1mos os sete c\u00e9us sobre uma povoa\u00e7\u00e3o m\u00faltipla e rece\u00e1mos os segredos subterr\u00e2neos que, a cada segundo, amea\u00e7am a revela\u00e7\u00e3o do dil\u00favio. Na Ilha de S. Miguel, ber\u00e7o apropriado para uma m\u00fasica que, ancorada com for\u00e7a no tempo, do tempo se procura libertar. Onde as coisas simples e a gesta \u00e9pica, a solid\u00e3o e a descoberta colectiva se erguem a desafiar o (ainda) desconhecido mar.<\/p>\n<p><strong>Ter\u00e7a-feira, dia 22<\/strong><br \/>\nPartimos de Lisboa ao fim do dia, no \u00fanico voo di\u00e1rio para os A\u00e7ores. Quase sem hist\u00f3ria, n\u00e3o fossem alguns receios provocados por uma aterragem na Terceira \u2013 onde o avi\u00e3o fez escala antes de seguir para S. Miguel -, algo agitada pelos ventos fortes a chuva que se faziam sentir nessa altura na ilha. Depois do susto, os trinta minutos em marcha atr\u00e1s at\u00e9 S. Miguel foram uma brincadeira. \u00c0 chegada a Ponta Delgada, esperav-nos \u00e2ngela de Almeida, directora e propriet\u00e1ria da editora a\u00e7oriana Jornal de Cultura, fant\u00e1stica anfitri\u00e3 e guia de viagem ao longo de toda a estada. Repousados os corpos e as bagaens no simp\u00e1tico e acolhedor Hotel A\u00e7ores Atl\u00e2ntico, situado em frente ao porto da cidade, partimos para casa de amigos. Ao passarmos pelo jardim onde um dos naturais mais ilustres de Ponta Delgada, Antero de Quental \u2013 o poeta e fil\u00f3sofo que de si mesmo dizia \u201cDe plano em plano e de desejo em desejo vou descendo lentamente a espiral dos desenganos\u201d e, j\u00e1 perto do fim, exclamava: \u201cIsto ainda acaba com uma corda na garganta ou uma bala na cabe\u00e7a!\u201d -, se suicidou (no dia 11 de Setembro de 1891), Fausto referiu a impress\u00e3o que sempre lhe causaram os pormenores finais daquela data fat\u00eddica. Contou ele que algu\u00e9m, observando uma vez as dimens\u00f5es m\u00ednimas da arma com que o poeta tencionava j\u00e1 p\u00f4r termo \u00e0 vida, comentara: \u201c\u00c9 uma pistola de matar pardais\u201d \u2013 ao que o escritor, com impressionate humildade, lhe respondera: \u201c\u00c9 isso mesmo!\u201d Sobre o banco onde Quental disparou contra si pr\u00f3prio, conta ainda Fausto, entre tantas outras, uma inscri\u00e7\u00e3o apenas se erguia, em suprema ironia: \u201cEsperan\u00e7a\u201d.<br \/>\nJ\u00e1 no conforto lo lar da Marina e do Mariano, onde o jantar foi de comer e chorar por mais, a conversa prosseguiu em tom menos dram\u00e1tico. Em discuss\u00e3o esteve a actualidade conturbada do Sporting (clube da simpatia do cantor, do anfitri\u00e3o e do rep\u00f3rter, o que deixou desamaprado o \u00fanico \u201clampi\u00e3o\u201d presente, Jo\u00e3o Afonso, da Sony, de quem n\u00e3o sabemos se \u00e9 mais fan\u00e1tico do Benfica ou das maravilhas do arquip\u00e9lado) e pormenores da vida do intelectual do papagaio fil\u00f3sofo de Fausto, chamado Z\u00e9, que gosta de proferir m\u00e1ximas como \u201cS\u00f3 sei que nada sei\u201d, \u201cPenso, logo existo\u201d e \u201cSer ou n\u00e3o ser, eis a quest\u00e3o\u201d, conclu\u00eddas ocasionalmente com a n\u00e3o menos s\u00e1bia e avisada \u201cAi, ai, ai, ainda vou para \u00e0 panela!\u201d<\/p>\n<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 200;\ngoogle_ad_height = 200;\ngoogle_ad_format = \"200x200_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p><strong>Quarta-feira, 23<\/strong><br \/>\nDe manh\u00e3, tempo de entrevistas para as r\u00e1dios locais. Por n\u00f3s, quisemos saber a raz\u00e3o, ou raz\u00f5es, que levaram ao lan\u00e7amento de \u201cCr\u00f3nicas da Terra Ardente\u201d, nos A\u00e7ores. Al\u00e9m do convite da Jornal de Cultura, tamb\u00e9m porque os A\u00e7ores s\u00e3o, segundo Fausto, \u201cilhas de m\u00fasicos\u201d, de pessoas que tocam, uma escola onde t\u00eam sido feitos bel\u00edssimos trabalhos, n\u00e3o s\u00f3 de m\u00fasica tradicional\u201d \u2013 em suma, \u201cuma alternativa ideal\u201d a Lisboa. Por outro lado, a pr\u00f3pria tem\u00e1tica do \u00e1lbum harmoniza-se bastante bem com o arquip\u00e9lago. \u201cH\u00e1, de facto, uma coincid\u00eancia feliz\u201d, embora Fausto reconhe\u00e7a n\u00e3o ter \u201cpensado deliberadamente\u201d nisso. \u201cNa primeira parte do disco, o barcmuito perto dos A\u00e7ores. Os marinheiros, inclusive, dizem que n\u00e3o tinham conseguido abordar as ilhas Terceiras, como naquela altura se chamavam.\u201d<\/p>\n<p><center><br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/fausto2.jpg\" alt=\"\" width=\"672\" height=\"491\" class=\"alignnone size-full wp-image-12526\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/fausto2.jpg 672w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/fausto2-300x219.jpg 300w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/fausto2-624x456.jpg 624w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/fausto2-100x73.jpg 100w\" sizes=\"auto, (max-width: 672px) 100vw, 672px\" \/><br \/>\n<\/center><\/p>\n<p>Almo\u00e7o no restaurante Rem\u00e9dio d\u2019Alma \u2013 designa\u00e7\u00e3o perfeita para um local de repasto mas que, para falar verdade, fez menos sentido quando se chegou a vias de facto. Sobre o novo \u00e1lbum, a explica\u00e7\u00e3o, dada pelo pr\u00f3prio, de um ciclo ideal. Doze anos separam \u201cPor Este Rio Acima\u201d de \u201cCr\u00f3nicas da Terra Ardente\u201d. \u201cDez anos s\u00e3o a marca\u00e7\u00e3o de um tempo suficientemente distante e, ao mesmo tempo, acess\u00edvel para elaborar a trilogia, uma ideia que expus pela primeira vez \u00e0 editora em 1985. Se eu a fizesse de seguida, correria o perigo de parecer que estava a falar sempre da mesma coisa.\u201d Acabaram por ser doze em vez de dez anos de intervalo, \u201cdevido a este \u00e1lbum ter sido pensado para ser um triplo, cerca de trinta e tal can\u00e7\u00f5es\u201d e, por fim, Fausto ter chegado \u00e0 conclus\u00e3o de \u201cque era longo demais\u201d. Punha-se um problema: \u201cOnde suspender a viagem? Suspendi-a precisamente no tema \u2018Ao longo de um claro rio de \u00e1gua doce\u2019, para que n\u00e3o terminasse com a trag\u00e9dia dos Sep\u00falvedas, um epis\u00f3dio pesad\u00edssimo. Deste modo, h\u00e1 uma retoma da esperan\u00e7a. Nas suas dimens\u00f5es on\u00edricas de fant\u00e1stico. O texto fala em alecrim, que \u00e9 a flor da esperan\u00e7a\u201d.<br \/>\n\u201cMas ao proceder deste modo\u201d, continua o m\u00fasico, \u201cverifiquei ao mesmo tempo que tinha deixado espa\u00e7os em aberto, que a viagem deixara de ter alguma l\u00f3gica, quando os temas subsequentes deixaram de existir. Por isso, tive que repensar certos temas e refazer outros, e da\u00ed o atraso de dois anos\u201d. \u201cAo contr\u00e1rio do que acontece em \u201cPor Este Rio Acima\u201d, onde h\u00e1 um regresso ao Continente, neste novo disco h\u00e1 uma viagem suspensa, uma nova partida, no fundo, o sentido da di\u00b4spora, de ir e vir, o mesmo movimento da saudade.\u201d \u201cCom hipot\u00e9tica chevista, daqui a dez anos, na terceira e \u00faltima parte da trilogia, \u00e0 casa de Silva Porto,\u201d\u2019o homem das barbas\u201d, em Bi\u00e9 (Angola), de onde Fausto \u00e9 natural e onde passou a inf\u00e2ncia e a adolesc\u00eancia.<br \/>\nE de viagem em viagem se passou pela poesia. De Nat\u00e1lia Correia, profetiza do Esp\u00edrito Santo, \u00c0 veia popular, fruto da emotividade do momento. Um exemplo, contou Fausto, que o leu com os pr\u00f3prios olhos, algures numa dessas academias da arte de versejar que s\u00e3o os sanit\u00e1rios dos caf\u00e9s e resraurantes. Aconteceu que, no lado de dentro de uma porta de um restaurante, garatujada at\u00e9 \u00e0 exaust\u00e3o com aquel g\u00e9nero de \u201cgrafitti\u201d liter\u00e1rios onde o dichote obsceno e as alus\u00f5es sexuais constituem a tem\u00e1tica dominante, algu\u00e9m, num lampejo de g\u00e9nio, redigiu, no derradeiro espa\u00e7o deixado livre, a seguinte p\u00e9rola: \u201cEstes grandes filhos da puta \/ que de tes\u00e3o se consomem \/ n\u00e3o tendo com quem foder \/ foderam a porta ao homem\u201d (repare-se na m\u00e9trica da quadra e, em particular, na musicalidade e subtileza do segundo verso) \u2013 o g\u00e9nio po\u00e9tico portugu\u00eas, na sua express\u00e3o mais moralista.<br \/>\nDe tarde, as \u00e1guas. Lagoa das Sete Cidades, antes do poente. A RTP dos A\u00e7ores deslocou-se ao local para captar imagens do cantor, transmitidas nessa mesma noite no notici\u00e1rio da hora do jantar. Impressionante o sil\u00eancio. Um sil\u00eancio que, aliado \u00e1 beleza grandiosa esculpida pela natureza numa cratera de vulc\u00e3o, levou certa vez uma crian\u00e7a a perguntar aos pais: \u201cFoi aqu que Deus nasceu?\u201d Um sil\u00eancio musical, murm\u00fario das \u00e1guas que o vento empurra suavemente contra as margens, cantando pela eternidade o princ\u00edpio e o fim dos dias. O poeta Eug\u00e9nio de Andrade costuma sentar-se na beira da lagoa, cadinho do alto pensamento, \u00e0 conversa com as \u00e1guas.<br \/>\nSubitamente, acord\u00e1mos das Sete Cidades \u2013 sete n\u00edveis, um f\u00edsico mais seis sobrepostos e ocultos \u2013 como de um sonho. Ap\u00f3s um jnatar onde o est\u00f4mago sofreu mais do que rejubilou, seguimos para o lan\u00e7amento oficial de \u201cCr\u00f3nicas da Terra Ardente\u201d, no John\u2019s Pub, situado na zona mundana de Ponta Delgada. \u201cUma leitura actual\u201d, sintetizara j\u00e1 antes o seu autor, \u201conde, indo ao fundo da hist\u00f3ria, se procura provar que os problemas do homem permanecem praticamente os mesmos em termos de atitude, comportamentos e valores. Problemas como o racismo e a xenofobia, encarados na sua plenitude \u2013 como agress\u00e3o m\u00fatua resultante de um etnocentrismo excessivo \u2013 ou a guerra e a viol\u00eancia, a droga e a toxicodepend\u00eancia, como no tema \u2018\u00c0 deriva Porto Rico\u2019.\u201d<br \/>\nJos\u00e9 Medeiros \u2013 \u201cZeca\u201d para os amigos, realizador da j\u00e1 lend\u00e1ria s\u00e9rie televisiva sobre os A\u00e7ores, \u201cXailes Negros\u201d \u2013 teceu alguns coment\u00e1rios sobre o autor e a sua obra, recordando, a prop\u00f3sito, o impacto que a m\u00fasica de Fausto tivera, durante um concerto, sobre um m\u00fasico de \u201cblues\u201d norte-americano, positivamente siderado com o \u201cbeat\u201d dos ritmos tradicionais portugueses, no modo como o cantor portugu\u00eas os trabalha. Algo que pode ser apreciado em profundidade tanto em \u201cPor Este Rio Acima\u201d como em \u201cCr\u00f3nicas da Terra Ardente\u201d, residindo as diferen\u00e7as entre ambos, em termos de perspectiva, no facto de, no primeiro, \u201co cen\u00e1rio ser, de facto, o mar: o ponto de vista \u00e9 do mar para a terra\u201d, enquanto, no segundo, \u201co cen\u00e1rio muda, representando sobretudo a entrada dos portugueses pelo continente dentro e a sua dramatiza\u00e7\u00e3o, em particular na trag\u00e9dia dos Sep\u00falvedas. O ponto de observa\u00e7\u00e3o alterou-se, passando a ser da terra para o mar\u201d.<br \/>\nA capa do V\u00edtor Bel\u00e9m \u00e9, neste aspecto, para Fausto, \u201cmuito sugestiva\u201d. \u201cO disco avan\u00e7a at\u00e9 um tema chamado \u2018O mar\u2019 e, a partir da\u00ed, o mar come\u00e7a a funcionar como uma mem\u00f3ria, desaparecendo como elemento da Natureza, iniciando-se a caminhada.\u201d<\/p>\n<p><strong>Quinta-feira, 24<\/strong><br \/>\nChuva. A cair pela primeira vez desde que cheg\u00e1ramos. Ap\u00f3so almo\u00e7o, no restaurante do hotel das furnas \u2013 one o c\u00e9lebre cozido, cuja cozedura \u00e9 feita no forno natural proporcionado pela pr\u00f3pria terra desta zona vulc\u00e2nica, deixou mais uma vez o est\u00f4mago em trabalhos de parto \u2013 um arco-\u00edris formou-se entre o azul e as nuvens, como que a confirmar a alian\u00e7a do c\u00e9u com a natureza. O destino da viagem apontava obviamente para as caldeiras. Impressionante o primeiro contacto com a voz da terra e da \u00e1gua ferventes, na maneira brutal como abrem caminho a golpes de lava e vapor para a superf\u00edcie, por onde menos se espera, furando muros, escavando po\u00e7os para o inferno ou dando-se em b\u00ean\u00e7\u00e3o curativa nas dezenas de bicas que jorram da pedra.<\/p>\n<p><center><br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/fausto3.jpg\" alt=\"\" width=\"309\" height=\"301\" class=\"alignnone size-full wp-image-12525\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/fausto3.jpg 309w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/fausto3-300x292.jpg 300w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/fausto3-100x97.jpg 100w\" sizes=\"auto, (max-width: 309px) 100vw, 309px\" \/><br \/>\n<\/center><\/p>\n<p>Uma for\u00e7a tel\u00farica que encontra parceiro \u00e0 altura na m\u00fasica de \u201cCr\u00f3nicas da Terra Ardente\u201d, cujo t\u00edtulo bem se poderia aplicar a este local que alguns autores julgam ser a parte emersa da Atl\u00e2ntida. J\u00e1 no percurso de regresso ao aeroporto (Fausto permaneceu na ilha por mais um dia), despedimo-nos da lagoa crepuscular, invadidos pela sensa\u00e7\u00e3o de termos pisado um lugar onde a terra faz fronteira com o C\u00e9u e o Inferno.<br \/>\n<center><br \/>\n<strong>CAIXA<\/p>\n<p>Por Toda Aquela Terra Adentro<br \/>\nFausto<br \/>\nCr\u00f3nicas Da Terra Ardente<br \/>\n2xCD Columbia, distri. Sony Music<\/strong><\/p>\n<p><strong><\/strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/fausto4.jpg\" alt=\"\" width=\"477\" height=\"472\" class=\"alignnone size-full wp-image-12524\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/fausto4.jpg 477w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/fausto4-300x297.jpg 300w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/fausto4-100x100.jpg 100w\" sizes=\"auto, (max-width: 477px) 100vw, 477px\" \/><br \/>\n<\/center><br \/>\nMais de uma d\u00e9cada volvida sobre o m\u00edtico \u201cPor Este Rio Acima\u201d, Fausto abre o jogo e prop\u00f5e um per\u00edodo de vinte anos para a constru\u00e7\u00e3o de um trabalho desmesurado sobre a di\u00e1spora portuguesa no Renascimento, com implica\u00e7\u00f5es e leituras que se prolongam pela sociedade actual. Segunda etapa de uma viagem que, segundo o seu autor, come\u00e7ou por ser, em \u201cPor Este Rio Acima\u201d, uma vis\u00e3o do mar para a terra, \u201cCr\u00f3nicas da Terra Ardente\u201d espraia-se por \u201ccontos dos matagais, dos rios e das serras, de vales e quebradas, lugares e caminhos por toda aquela terra adentro\u2026\u201d, ou seja, uma vis\u00e3o essencialmente terrena pelo interior do continente africano.<br \/>\nDepois da \u201cPeregrina\u00e7\u00e3o\u201d de Fern\u00e3o Mendes Pinto, s\u00e3o agora os relatos da \u201cHist\u00f3ria Tr\u00e1gico-Mar\u00edtima\u201d, reunidos por Bernardo Gomes de Brito que servem de material de inspira\u00e7\u00e3o para as letras e m\u00fasica de \u201cCr\u00f3nicas da Terra Ardente\u201d. Este novo disco de Fausto revela em primeiro lugar um trabalho excepcional ao n\u00edvel da escrita dos textos. Mas esta riqueza po\u00e9tica acaba por ter efeitos nefastos sobre a m\u00fasica. De tal forma as palavras possuem as suas melodias, ritmo e harmonia pr\u00f3prios que a m\u00fasica se deixa ir atr\u00e1s delas, incapaz de se libertar do seu fasc\u00ednio. De resto constitui um exerc\u00edcio curioso ler a totalidade dos textos sem o apoio musical. \u00c9 todo um mundo de sons e imagens, de sensa\u00e7\u00f5es quase sinest\u00e9sicas, que se desvela numa sinfonia de sentimentos e significados que dispensam o acompanhamento das notas! Por outro lado, se a genu\u00edna e profunda liga\u00e7\u00e3o da m\u00fasica de Fausto com os ritmos tradicionais portugueses confere a \u201cCr\u00f3nicas da Terra Ardente\u201d uma unidade formal forte, essa mesma liga\u00e7\u00e3o acaba por ter igualmente um efeito perverso, ao condicionar grande parte dos temas ao espartilho das chulas ou dos corridinhos (e tamb\u00e9m das batidas africanas), por mais voltas que as vozes e os arranjos lhes d\u00eaem.<br \/>\nFausto criou um universo musical \u00fanico e original onde tudo se movimenta dentro de par\u00e2metros e regras determinados. \u00c9 evidente que as diferen\u00e7as em rela\u00e7\u00e3o a \u201cPor Este Rio Acima\u201d s\u00e3o percept\u00edveis, na utiliza\u00e7\u00e3o da bateria e das percuss\u00f5es, na maior insist\u00eancia nos coros ou na preocupa\u00e7\u00e3o com a din\u00e2mica intr\u00ednseca e extr\u00ednseca dos sons. Mas no essencial os contornos que delimitam a composi\u00e7\u00e3o permanecem id\u00eanticos. Assim acabam por ser os temas onde a fuga ao imp\u00e9rio institu\u00eddo \u00e9 mais evidente aquelas onde o prazer da descoberta \u00e9 maior, fazendo passar para segundo plano a euforia r\u00edtmica da maior parte deles e, inclusive, estabelecendo outras e estimulantes pontes com as palavras. Exemplo disto \u00e9 logo o tema de abertura, \u201cTravessia\u201d, com um arranjo fora de s\u00e9rie onde, por esta ordem, a percuss\u00e3o (por Fernando Molina, dos Roman\u00e7as), a gaita-de-foles (por Ricardo Dias, da Brigada Victor Jara, tamb\u00e9m o autor do arranjo), a sanfona (por Fernando Meireles, dos Realejo) e o piano (ainda por Ricardo Dias) projectam com enorme viol\u00eancia expressiva a m\u00fasica tradicional do futuro. A chula \u00e9 vencida em \u201cAo som do mar e do vento\u201d e impressiva \u00e9 a utiliza\u00e7\u00e3o do coro e dos efeitos de est\u00fadio em \u201cNa ponta do cabo\u201d, um dos momentos de carga emotiva \u2013 quase sens\u00edvel, no modo como \u00e9 descrita a luta do homem contra a f\u00faria dos elementos \u2013 mais forte de todo o \u00e1lbum. No segundo disco sobressaem \u201cDilu\u00eddos numa luz\u201d, ondulante sobre sintetizadores, vozes que se entrela\u00e7am em eco e o tom espectral das palavras e \u201cPela fome comidos\u201d, onde de novo Fausto explora as possibilidades de est\u00fadio numa singular manipula\u00e7\u00e3o dos registos corais. Por fim, o libelo acusat\u00f3rio \u201cManuel de Sousa Sep\u00falveda\u201d surge desde j\u00e1 como uma das can\u00e7\u00f5es da m\u00fasica popular portuguesa onde de forma mais crua \u00e9 exposta a mis\u00e9ria, a trag\u00e9dia e a dimens\u00e3o humana das gentes que edificaram o imp\u00e9rio. Depois dele, a terminar o disco, \u00e9 de descompress\u00e3o a subida \u201cAo longo de um claro rio de \u00e1gua doce\u201d. Em direc\u00e7\u00e3o a uma eterna nascente.<strong> (7)<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>pop rock >> quarta-feira >> 30.11.1994 Cr\u00f3nica Do Esp\u00edrito, Da Terra Ardente E De Um Papagaio Fil\u00f3sofo (Do nosso enviado especial Fernando Magalh\u00e3es, Em S. Miguel) A\u00e7ores. Ilha do Esp\u00edrito Santo. De fogo e abandono. 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