{"id":12244,"date":"2025-04-19T05:26:58","date_gmt":"2025-04-19T12:26:58","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=12244"},"modified":"2025-04-19T05:26:58","modified_gmt":"2025-04-19T12:26:58","slug":"anabela-duarte-em-publico-dossier-grande-entrevista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2025\/04\/19\/anabela-duarte-em-publico-dossier-grande-entrevista\/","title":{"rendered":"Anabela Duarte &#8211; &#8220;Em P\u00fablico&#8221; (dossier | grande entrevista)"},"content":{"rendered":"<p>pop rock >> quarta-feira >> 20.07.1994<br \/>\n<strong>EM P\u00daBLICO<\/strong><br \/>\n<center><br \/>\n<strong>ANABELA DUARTE *<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/anabelDuarte.jpg\" alt=\"\" width=\"679\" height=\"806\" class=\"alignnone size-full wp-image-12245\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/anabelDuarte.jpg 679w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/anabelDuarte-253x300.jpg 253w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/anabelDuarte-624x741.jpg 624w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/anabelDuarte-84x100.jpg 84w\" sizes=\"auto, (max-width: 679px) 100vw, 679px\" \/><br \/>\n<\/center> <\/p>\n<p><strong>Como e quando surgiu o canto l\u00edrico na sua carreira?<\/strong><br \/>\nDesde h\u00e1 quatro anos que ando a trabalhar nesta t\u00e9cnica. H\u00e1 cerca de um m\u00eas, fiz a voz soprano no \u201cRequiem\u201d de Verdi. Tenho evolu\u00eddo musicalmente e procurado desenvolver o meu instrumento, que \u00e9 a voz. \u00c0 medida que fui estudando e afinando este instrumento, cheguei imediatamente \u00e0 conclus\u00e3o que o campo onde me posso exprimir melhor em termos vocais \u00e9 o canto l\u00edrico. Podia ser o fado, mas em termos de precis\u00e3o, o canto l\u00edrico \u00e9 entre todos os g\u00e9neros aquele que tem uma t\u00e9cnica mais sofisticada.<\/p>\n<p><strong>Trata-se ent\u00e3o mais de uma gin\u00e1stica e menos uma voca\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\n\u00c9 uma voca\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o se deve ver as coisas dessa maneira. Canto pop, canto fado, canto l\u00edrico, canto \u00e1rabe, canto n\u00e3o sei qu\u00ea\u2026 O canto \u00e9 s\u00f3 um e eu tenho essa possibilidade de fazer a diversifica\u00e7\u00e3o. O meu instrumento \u00e9 suficientemente male\u00e1vel e h\u00edbrido para poder aplic\u00e1-lo a outros cantos sem ficar preso a nenhum em particular.<\/p>\n<p><strong>A sua presen\u00e7a na pop \u00e9 um assunto definitivamente encerrado?<\/strong><br \/>\nO que eu fa\u00e7o hoje tem muito a ver com o que fazia nessa altura. Os Mler Ife Dada sempre foram um grupo que no in\u00edcio come\u00e7ou por ser muito ligado a gente que frequentava as Belas-Artes. Era um grupo muito \u201cart\u00edstico\u201d, no sentido em que a sua m\u00fasica era insepar\u00e1vel do aspecto c\u00e9nico. Era arte total. N\u00e3o no sentido wagneriano, mas pronto, era uma aproxima\u00e7\u00e3o. No campo l\u00edrico \u00e9 exactamente isso. Se aplicarmos o l\u00edrico em termos oper\u00e1ticos.<\/p>\n<p><strong>O contexto n\u00e3o \u00e9 bem o mesmo\u2026<\/strong><br \/>\nH\u00e1 no rock e na pop talvez um lado mais improvisado. Um lado mais rebelde. Na m\u00fasica l\u00edrica, tudo isso tem que ser em doses mais restritas. Para j\u00e1, estamos ligados a uma partitura. N\u00e3o podemos chegar ali, est\u00e1 l\u00e1 um sol, e fazemos um l\u00e1 sustenido.<\/p>\n<p><strong>Quer dizer que hoje privilegia o rigor e a disciplina, em detrimento desse tal outro lado mais rebelde?<\/strong><br \/>\nSim, \u00e9 um processo de disciplina. Mas isso tem o seu lado subversivo. Utilizar essa disciplina para subverter.<\/p>\n<p><strong>O mesmo tipo de subvers\u00e3o que utilizou no fado, em \u201cLishbuneh\u201d?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o sei se nesse caso foi bem subverter. O fado, encarei-o de uma maneira diferente. Mas em termos vocais acho que at\u00e9 cantei o fado de forma bastante tradicional. O tradicional \u00e9 que nessa altura estava fora de moda.<\/p>\n<p><strong>Nos Mler Ife Dada havia tamb\u00e9m o lado do gozo, de um certo gosto iconoclasta. Ficou-lhe essa faceta de \u201cdestruir\u201d o institu\u00eddo?<\/strong><br \/>\nA mim o que me d\u00e1 gozo \u00e9 surpreender. N\u00e3o s\u00f3 os outros como a mim pr\u00f3pria. Da\u00ed come\u00e7ar a experimentar coisas diferentes. O disco de fado foi uma dessas coisas.<\/p>\n<p><strong>O canto l\u00edrico \u00e9 para si ponto final ou ponto de passagem?<\/strong><br \/>\nAfinar o instrumento desta maneira \u00e9 como por exemplo um violoncelista que, desde que tenha o instrumento bem aprendido e dominado tecnicamente, tanto pode tocar m\u00fasica cl\u00e1ssica como jazz, fado ou seja o que for. O canto l\u00edrico em si j\u00e1 tem muita coisa. Por exemplo, \u201cSalom\u00e9\u201d \u2013 que eu gostaria de fazer \u2013 \u00e9 uma \u00f3pera cl\u00e1ssica no sentido tradicional do termo. Mas \u00e9 uma \u00f3pera t\u00e3o empolgante que mesmo dentro do cl\u00e1ssico ultrapassa barreiras. O personagem em si, muito ligado \u00e0 voz. O que vai criar dinamismo, cores e tessituras vocais entusiasmantes.<\/p>\n<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 336;\ngoogle_ad_height = 280;\ngoogle_ad_format = \"336x280_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p><strong>A sua voz serve melhor certos personagens do que outros?<\/strong><br \/>\nSim, sou soprano \u201cstinto\u201d, mais pr\u00f3ximo do dram\u00e1tico. O que me d\u00e1 a possibilidade de fazer os pap\u00e9is mais de \u201cprima dona\u201d, que exigem uma presen\u00e7a forte em termos vocais e teatrais.<\/p>\n<p><strong>Os Mler Ife Dada, pela sua est\u00e9tica e atitude, davam espect\u00e1culo, no sentido em que enfatizavam o lado c\u00e9nico e visual. Isso acontecia consigo e na maneira como se apresentava ao vivo. Consegue transpor essa caracter\u00edstica, de algum exibicionismo, para o canto l\u00edrico?<\/strong><br \/>\nNunca tinha pensado nisso antes. Cada vez estou mais afastada disso. As entrevistas e as fotografias ent\u00e3o eram uma chatice completa. N\u00e3o sou uma pessoa extrovertida.<\/p>\n<p><strong>Nos Mler Ife Dada exibia-se bastante\u2026<\/strong><br \/>\nNormalmente \u00e9 sempre assim [risos]. \u00c9 o prot\u00f3tipo do artista. Uma faceta a que eu infelizmente n\u00e3o posso escapar. Agora, o canto l\u00edrico \u00e9 muito exibicionista. Qualquer arte \u00e9 exibicionista, sen\u00e3o n\u00e3o se fazia. Ficava-se em casa a coser meias ou a lavar pratos, ou ia-se para o escrit\u00f3rio\u2026<\/p>\n<p><strong>E narcisismo, o desejo de reconhecimento p\u00fablico?<\/strong><br \/>\nIsso nunca me passou pela cabe\u00e7a. Ali\u00e1s nunca fiz bem a distin\u00e7\u00e3o entre o ser eu e ser no palco.<\/p>\n<p><strong>Gostaria de fazer teatro?<\/strong><br \/>\nNunca fiz, mas j\u00e1 me propuseram umas coisas. Sempre achei que n\u00e3o tinha jeito. O teatro implica uma rela\u00e7\u00e3o com a palavra dita, discursiva, enquanto a minha rela\u00e7\u00e3o \u00e9 cada vez mais com a palavra cantada. Embora haja muitos discursos de teatro que n\u00e3o passam pela palavra. Esses s\u00e3o muito mais interessantes e muito mais pr\u00f3ximos do canto l\u00edrico.<\/p>\n<p><strong>Sente-se \u00e0 margem das cantoras ligeiras ou doutras \u00e1reas da m\u00fasica portuguesa? Nunca se ouviu falar em qualquer colabora\u00e7\u00e3o com algumas delas\u2026<\/strong><br \/>\nSou muito individualista. A \u00fanica com quem poderia fazer coisas interessantes seria a Maria Jo\u00e3o e s\u00f3 ela. Fazer com mais gente\u2026 Isto agora \u00e9 um bocado chato\u2026 Mas o que \u00e9 que me interessa a mim fazer duetos, que projecto \u00e9 que eu posso ter com outras cantoras al\u00e9m da Maria Jo\u00e3o? N\u00e3o estou a ver\u2026 Porque a Maria Jo\u00e3o \u00e9 a \u00fanica que explora a voz de um ponto de vista mesmo vocal. A mesma coisa que eu fa\u00e7o, embora em moldes diferentes. Ela em moldes mais jazz\u00edsticos, pr\u00f3ximos quase da m\u00fasica contempor\u00e2nea. Mais ou menos o meu campo\u2026 O mesmo n\u00e3o se passa em termos de can\u00e7\u00e3o, com a Teresa Salgueiro, ou a Lena d\u2019\u00c1gua, ou\u2026<\/p>\n<p><strong>Afastou-se ent\u00e3o em definitivo da m\u00fasica dita \u201cligeira\u201d?<\/strong><br \/>\nClaro. N\u00e3o me apetece. Mas n\u00e3o tenho nada contra.<\/p>\n<p><strong>At\u00e9 onde pretende chegar no canto l\u00edrico?<\/strong><br \/>\nO meu interesse \u00e9 apenas ser cantora. \u00c9 nisso que estou a apostar. No canto l\u00edrico quero ser uma cantora ilimitada. E, nesse sentido, apurar uma t\u00e9cnica que depois se possa aplicar a muitas outras coisas.<\/p>\n<p><strong>Eis o que se pode chamar uma autoconfian\u00e7a total\u2026<\/strong><br \/>\nMas eu sou assim em tudo. Quando h\u00e1 uma coisa que me chateia, abro logo a boca. Sai-me logo o cora\u00e7\u00e3o pela boca. Qualquer epis\u00f3dio do dia-a-dia, sei l\u00e1, um problema qualquer com um taxista ou um padeiro, tenho sempre conseguido resolv\u00ea-lo da melhor maneira. Em termos art\u00edsticos, \u00e9 exactamente a mesma coisa. Sou uma pessoa arrojada.<\/p>\n<p><strong>De que modo foi recebida no meio do canto l\u00edrico? As outras \u201cdivas\u201d aceitaram a sua entrada?<\/strong><br \/>\nPara j\u00e1 em Portugal, divas n\u00e3o estou a ver nenhuma\u2026 N\u00e3o sei, n\u00e3o as conhe\u00e7o pessoalmente. A partir de agora \u00e9 que vou saber. Uma coisa \u00e9 certa: posso perfeitamente fazer carreira no canto l\u00edrico. N\u00e3o \u00e9 for\u00e7oso que o canto l\u00edrico seja cl\u00e1ssico. \u00c9 tudo um problema de estruturas. Dos conservat\u00f3rios, das academias de m\u00fasica. O que cria muito medo nas pessoas. J\u00e1 percebi isso. Ao n\u00edvel do canto, ao n\u00edvel dos instrumentistas, ao n\u00edvel da m\u00fasica em geral, h\u00e1 um medo das pessoas em se afirmarem. O facto de eu vir de um canto diferente e de me atrever a fazer coisas que elas n\u00e3o fazem cria atritos. J\u00e1 fiz audi\u00e7\u00f5es, falei com pessoas, inclusive da Gulbenkian, e h\u00e1 umas certas retic\u00eancias nas pessoas. Por exemplo, algu\u00e9m atrever-se a fazer uma \u201cLady MacBeth\u201d neste pa\u00eds \u00e9 uma heresia.<\/p>\n<p><strong>Tenciona for\u00e7ar a entrada nesse meio ou, pelo contr\u00e1rio, manter-se \u00e0 margem dele?<\/strong><br \/>\nUma coisa \u00e9 a gente querer fazer as coisas, outra \u00e9 na realidade n\u00e3o as conseguir fazer. Ou porque n\u00e3o temos o instrumento suficiente para isso, ou porque \u00e0 \u00faltima hora ficamos a tremer e n\u00e3o conseguimos, ou porque algu\u00e9m nos faz a cabe\u00e7a e n\u00e3o se consegue, ou porque temos um acidente e morremos\u2026 Se conseguirmos ultrapassar tudo isto, as pessoas ter\u00e3o que reconhecer-nos. As pessoas, quando me v\u00eaem, sabem reconhecer as minhas capacidades. Mas antes disso dizem tanto mal que quase nos levam a desistir. Em rela\u00e7\u00e3o a entrar ou n\u00e3o no meio, o que \u00e9 que me interessava? S\u00f3 se fosse para mudar aquilo tudo! Ganhar 300, 400 ou 500 contos, para depois ouvir \u201cvoc\u00ea tem de fazer o que a gente quer\u201d?<\/p>\n<p><strong>Que estrat\u00e9gias utiliza ent\u00e3o para levar \u00e0 pr\u00e1tica os seus projectos?<\/strong><br \/>\nRecorro a meios alternativos. Tenho encontrado imensos mecanismos de resist\u00eancia. Sobretudo porque as pessoas n\u00e3o t~em refer\u00eancias de mim como cantora na \u00e1rea delas. A minha luta \u00e9 contra o academismo e contra as mentalidades tacanhas. H\u00e1 em Portugal um provincianismo que corta as pernas \u00e0s pessoas.<\/p>\n<p><strong>* Ex-vocalista dos Mler Ife Dada. Autora-int\u00e9rprete de pois a solo. Dedica-se actualmente ao canto l\u00edrico e est\u00e1 a preparar um recital de voz e piano (com Jos\u00e9 Colorado), a apresentar no final do Ver\u00e3o, em que interpretar\u00e1 \u201cLieder\u201d e excertos de operetas de compositores como Richard Strauss, Offenbach e Lecocq, e pe\u00e7as oper\u00e1ticas de Puccini, Wagner, Verdi e Catalani.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>pop rock >> quarta-feira >> 20.07.1994 EM P\u00daBLICO ANABELA DUARTE * Como e quando surgiu o canto l\u00edrico na sua carreira? Desde h\u00e1 quatro anos que ando a trabalhar nesta t\u00e9cnica. H\u00e1 cerca de um m\u00eas, fiz a voz soprano no \u201cRequiem\u201d de Verdi. 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