{"id":12170,"date":"2025-03-13T04:22:51","date_gmt":"2025-03-13T11:22:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=12170"},"modified":"2025-03-13T04:22:51","modified_gmt":"2025-03-13T11:22:51","slug":"leonard-cohen-a-beira-de-um-colapso-nervoso-entrevista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2025\/03\/13\/leonard-cohen-a-beira-de-um-colapso-nervoso-entrevista\/","title":{"rendered":"Leonard Cohen &#8211; &#8220;\u00c0 Beira De Um Colapso Nervoso&#8221; (entrevista)"},"content":{"rendered":"<p>pop rock >> quarta-feira >> 29.06.1994<br \/>\n<center><br \/>\n<strong>\u00c0 Beira De Um Colapso Nervoso<\/strong><br \/>\n<\/center><br \/>\n<center><br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/leonardCohen1.jpg\" alt=\"\" width=\"307\" height=\"342\" class=\"alignnone size-full wp-image-12171\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/leonardCohen1.jpg 307w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/leonardCohen1-269x300.jpg 269w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/leonardCohen1-90x100.jpg 90w\" sizes=\"auto, (max-width: 307px) 100vw, 307px\" \/><br \/>\n<\/center><\/p>\n<p><strong>Leonard Cohen acabou de lan\u00e7ar o \u00e1lbum \u201cCohen Live\u201d, o segundo ao vivo da sua carreira. Perfeccionista, praticante de zen, amigo dos amigos e do vinho, o veterano cantor canadiano continua a dizer com a mesma voz suave de sempre: \u201cEstamos \u00e0 beira de um colapso nervoso.\u201d Hoje h\u00e1 menos gente a chamar-lhe \u201clouco\u201d. Das preocupa\u00e7\u00f5es iniciais do jornalista at\u00e9 \u00e0s relacionadas com a forma manifestada no novo disco ao vivo, Leonard Cohen \u00e9 cima de tudo um poeta atento \u00e0s muta\u00e7\u00f5es do mundo e de si pr\u00f3prio. O fim dos tempos aproxima-se, disse ele ao P\u00daBLICO, em Madrid, onde o fomos entrevistar. O diabo anda \u00e0 solta, a cultura perdeu-se, J\u00falio Igl\u00e9sias \u00e9 maravilhoso. N\u00e3o digam que ele n\u00e3o avisou.<\/strong><\/p>\n<p><center><br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/leonardCohen2.jpg\" alt=\"\" width=\"291\" height=\"401\" class=\"alignnone size-full wp-image-12172\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/leonardCohen2.jpg 291w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/leonardCohen2-218x300.jpg 218w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/leonardCohen2-73x100.jpg 73w\" sizes=\"auto, (max-width: 291px) 100vw, 291px\" \/><br \/>\n<\/center><\/p>\n<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 200;\ngoogle_ad_height = 200;\ngoogle_ad_format = \"200x200_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p><strong>P\u00daBLICO \u2013 Antes de se dedicar \u00e0 m\u00fasica fez jornalismo\u2026<\/strong><br \/>\nLEONARD COHEN \u2013 Fiz algumas entrevistas, com pouco sucesso. Procurei ser um entrevistador de televis\u00e3o, por\u00e9m n\u00e3o tinha jeito. Tentei uma vez entrevistar Glenn Gould, mas sem \u00eaxito. Acabei por desistir. Sempre gostei do esp\u00edrito de iniciativa do jornalismo. Ao longo da minha carreira, os jornalistas foram sempre importantes, no sentido em que contribu\u00edram para me manter activo.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Que motivos o levaram a gravar este seu segundo disco ao vivo? Apenas \u201cshow time\u201d ou algo mais essencial?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Queria ter uma ideia exacta do que estava a fazer em termos de \u201cperformances\u201d. H\u00e1, sem d\u00favida, o lado do espect\u00e1culo, mas tamb\u00e9m pretendi verificar de que maneira a minha voz evolu\u00edra.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Mas h\u00e1 um intervalo de cinco anos entre as duas digress\u00f5es, 1988 e 1993, aproveitadas para o disco.<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Quis escolher entre o m\u00e1ximo de material poss\u00edvel. E al\u00e9m disso mostrar novas e diferentes maneiras de abordar can\u00e7\u00f5es antigas. Houve mudan\u00e7as radicais. Por exemplo, come\u00e7o sempre cada concerto com \u201cDance me too the end of love\u201d, por isso iniciei o \u00e1lbum com ela. \u00c9 sempre diferente da vers\u00e3o original de est\u00fadio. N\u00e3o havia \u00e0 partida uma grande estrat\u00e9gia para este disco. Tinha feito duas digress\u00f5es, duas centenas de espect\u00e1culos, bebi muito nessa \u00e9poca. Houve algo nessas digress\u00f5es muito importante para mim: a camaradagem com os outros m\u00fasicos, a sua excel\u00eancia musical. Quis preservar isso.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Mas porqu\u00ea estas can\u00e7\u00f5es e n\u00e3o outras quaisquer? Foi uma escolha aleat\u00f3ria?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Muito instintiva. Primeiro que tudo, elas tinham que atingir um determinado n\u00edvel de qualidade t\u00e9cnica. N\u00e3o gosto de ouvir discos ao vivo porque n\u00e3o t\u00eam, na generalidade, boa qualidade de som. N\u00e3o se trata de querer a perfei\u00e7\u00e3o, mas pelo menos que os outros m\u00fasicos n\u00e3o se queixassem de que n\u00e3o conseguiam ouvir a minha voz\u2026<br \/>\n<strong>P. \u2013 As pessoas, mais do que a m\u00fasica, querem ouvir as suas palavras\u2026<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Sim, mas quando se tem algo de importante para dizer, conv\u00e9m diz\u00ea-lo da forma mais correcta. Preocupo-me muito com a forma. Em termos liter\u00e1rios, mas tamb\u00e9m tecnol\u00f3gicos.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Desde a era \u201chippy\u201d at\u00e9 hoje, continua a cantar o amor. S\u00f3 que antes fazia-o de uma forma positiva, enquanto agora carrega na ironia e nada parece ser t\u00e3o evidente e claro como dantes\u2026<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Tento apenas manifestar a realidade dessa experi\u00eancia.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Mas n\u00e3o acha que houve uma invers\u00e3o, no sentido em que as pessoas, sobretudo os pol\u00edticos, dizem hoje uma coisa querendo significar precisamente o oposto?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 \u00c9 verdade. H\u00e1 uma esp\u00e9cie de conversa com duplo sentido [\u201cdouble-talk\u201d], de fala secreta. As pessoas s\u00e3o manipuladas, mesmo aquelas que pensam ser as manipuladoras. Manipuladas pelo esp\u00edrito da \u00e9poca. Ningu\u00e9m pode escapar a este esp\u00edrito.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Que esp\u00edrito \u00e9 esse?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 \u00c9 diab\u00f3lico. As pessoas est\u00e3o a sofrer bastante com essa manifesta\u00e7\u00e3o do lado escuro. Elas precisam d equil\u00edbrio. Embora pense que devemos estar gratos a esse lado escuro da mesma maneira que devemos agradecer ao lado luminoso, s\u00f3 que hoje tudo pende apenas para o primeiro. Est\u00e1 a ficar um cheiro a enxofre no ar\u2026<\/p>\n<p><strong>\u201cO Dil\u00favio \u00c9 Uma Cat\u00e1strofe Interior\u201d<\/strong><\/p>\n<p><center><br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/leonardCohen3.jpg\" alt=\"\" width=\"617\" height=\"655\" class=\"alignnone size-full wp-image-12173\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/leonardCohen3.jpg 617w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/leonardCohen3-283x300.jpg 283w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/leonardCohen3-94x100.jpg 94w\" sizes=\"auto, (max-width: 617px) 100vw, 617px\" \/><br \/>\n<\/center> <\/p>\n<p><strong>P. \u2013 Quando fala em equil\u00edbrio, recordo-me de j\u00e1 uma vez se referiu \u00e0 santidade. O santo \u00e9 o homem que encontrou, ou reencontrou, o equil\u00edbrio?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 At\u00e9 certo ponto, comparo-o a um esquiador. Ele apenas se adapta e desliza sobre os contornos da paisagem. N\u00e3o se trata de uma reac\u00e7\u00e3o agressiva ou beligerante e certamente n\u00e3o n\u00e3o tem nada a ver com as leis. O santo n\u00e3o p\u00f5e o mundo em ordem. \u00c9 mais uma reconcilia\u00e7\u00e3o com a situa\u00e7\u00e3o presente, com o momento. A capacidade de perdoar, de mudar perdoando. Por outras palavras, compreender o poder do amor e do perd\u00e3o.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Numa can\u00e7\u00e3o como \u201cThe future\u201d, a sua vis\u00e3o \u00e9 bastante mais escura e pessimista\u2026<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Complexa. Se apenas considerarmos a letra, \u00e9 ir\u00f3nica, divertida, escura. A m\u00fasica, por seu lado, \u00e9 bastante ligeira. O casamento entre ambas faz com que se dissolvam reciprocamente, criando uma esp\u00e9cie de ar fresco. Evidentemente que \u00e9 chocante dizer coisas como \u201cd\u00eaem-me \u2018crack\u2019 e sexo anal\u201d, mas s\u00e3o coisas que as pessoas dizem na realidade. \u00c9 o que existe por baixo, quando se retira a \u00faltima faixa protectora \u2013 a cultura. J\u00e1 deixei de brincar. N\u00e3o acredito que haja sequer uma cultura ou que valha a pena salv\u00e1-la. Ela est\u00e1 a desaparecer como as \u00e1rvores e os rios. A polui\u00e7\u00e3o \u00e9 interior. N\u00e3o vale a pena fingir que vale a pena protege-la, porque ela, j\u00e1 n\u00e3o existe de facto.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Trata-se ent\u00e3o do apocalipse?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 J\u00e1 ando a dizer isso h\u00e1 uma quantidade de tempo, mas as pessoas acusam-me de ter uma neurose qualquer. Quando falava no assunto h\u00e1 20 anos, as pessoas diziam-me: \u201cPorqu\u00ea essa melancolia? Tens dinheiro, tens mulheres, tens fama, de que \u00e9 que te est\u00e1s sempre a queixar?\u201d Achavam o meu trabalho neur\u00f3tico e que eu era um burgu\u00eas individualista, dependendo do ponto de vista da cr\u00edtica, por exemplo sob uma perspectiva freudiana. Em suma, a acusa\u00e7\u00e3o principal \u00e9 que eu era doentio. Tudo porque dizia que tinham chegado os dias do dil\u00favio. Mas o dil\u00favio \u00e9 uma cat\u00e1strofe interior. Era o que eu dizia em \u201cAvalanche\u201d. Ou em \u201cThe gipsy\u2019s wife\u201d, onde cantava: \u201cEstes s\u00e3o os dias finais, esta \u00e9 a escurid\u00e3o, este \u00e9 o dil\u00favio.\u201d Evidentemente, toda a gente concordava que a fam\u00edlia estava a desagregar-se, que a estabilidade desparecera, mas ningu\u00e9m previa que isso iria provocar o tal colapso.<br \/>\n<strong>P. Considera-se uma pessoa religiosa?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 N\u00e3o sei. Tenho consci\u00eancia de que \u00e9 importante cultivar o esp\u00edrito. Acredito que, se n\u00e3o cultivarmos uma coisa, ela apodrece. N\u00e3o gosto da religi\u00e3o porque ela apresenta um deus objectivo, concreto. Quando se afirma um deus concreto, surgem os problemas, a desordem.<br \/>\n<strong>P. \u2013 H\u00e1 pouco mencionou o diabo\u2026<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Acredito em ambos mas n\u00e3o que existem no exterior. S\u00e3o aspectos de uma realidade sem desejos. N\u00e3o precisamos de ser governados por um desejo ou uma vontade. Deus \u00e9 espont\u00e2neo: manifesta\u00e7\u00e3o e cria\u00e7\u00e3o.<br \/>\n<strong>P. \u2013 \u00c9 a sua costela zen a falar\u2026<\/strong><br \/>\nR. Vivo num mosteiro zen, na Calif\u00f3rnia. N\u00e3o \u00e9 bem um mosteiro, mais um centro zen. Num mosteiro n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o privado. \u00c9 um velho edif\u00edcio de madeira, a 1800 metros de altitude. Tem um bom Inverno.<br \/>\n<strong>P. \u2013 \u00c9 l\u00e1 que comp\u00f5e?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Sim, escrevi a\u00ed muitas can\u00e7\u00f5es, ao longo dos anos. Antes passava a\u00ed alguns meses do ano, mas agora vivo mesmo l\u00e1, desde a minha \u00faltima digress\u00e3o, no Outono do ano passado. Claro que tenho coisas para fazer no exterior, no entanto isso n\u00e3o constitui problema, uma vez que fica apenas a duas horas de Los Angeles.<br \/>\n<strong>P. \u2013 H\u00e1 uma continuidade entre a atitude \u201chippy\u201d dos anos 60 e o zen?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 H\u00e1 provavelmente uma liga\u00e7\u00e3o. O que aprecio no zen \u00e9 a pr\u00e1tica, o regime. Gosto de me levantar cedo (\u00e0s vezes n\u00e3o tanto\u2026). H\u00e1 em mim um lado profundo que me faz gostar de levantar cedo, vestir as minhas roupas negras, caminhar atrav\u00e9s da neve at\u00e9 \u00e0 sala de medita\u00e7\u00e3o, ao lado de outras pessoas doidas. Sentamo-nos ao frio durante duas horas antes do pequeno-almo\u00e7o. Fa\u00e7o isto todos os dias. H\u00e1 algo nesta disciplina que aprecio. O meu pai havia de compreender. Antes de morrer, queria mandar-me para uma academia militar.<\/p>\n<p><strong>M\u00f3veis Mentais<\/strong><\/p>\n<p><strong>P. \u2013 Na sua obra verifica-se uma quase oposi\u00e7\u00e3o entre a complexidade dos textos e a simplicidade da m\u00fasica. Ser\u00e1 para fazer chegar a mensagem \u00e0s pessoas mais facilmente?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Desenvolvi ao longo dos anos uma estrat\u00e9gia de choque que me pareceu um casamento apropriado entre os textos e a m\u00fasica. A m\u00fasica \u00e9 muito importante, n\u00e3o \u00e9 acidental. Em especial nos meus dois \u00faltimos \u00e1lbuns, penso ter conseguido obter o equil\u00edbrio desejado, nos termos de que falava h\u00e1 pouco.<br \/>\n<strong>P. \u2013 \u201cThe Future\u201d, em particular, \u00e9 muito modernista\u2026<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Penso prosseguir na mesma direc\u00e7\u00e3o no pr\u00f3ximo \u00e1lbum\u2026 \u00c9 do que gosto, fazer can\u00e7\u00f5es como \u201cThe future\u201d, em que a m\u00fasica, como h\u00e1 pouco fez notar, \u00e9 ir\u00f3nica, um pouco mec\u00e2nica, um pouco convulsiva.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Pensa que o p\u00fablico capta com facilidade essa ironia?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Um n\u00famero suficiente de pessoas, sim. N\u00e3o sei at\u00e9 que ponto elas recebem as coisas de forma consciente ou se n\u00e3o s\u00e3o antes tocadas de outra forma. Nem sequer sei at\u00e9 que ponto as pessoas levam hoje a s\u00e9rio seja o que for. Se as pessoas conseguem ter esse luxo. A vida interior \u00e9 actualmente como que uma prova\u00e7\u00e3o. H\u00e1 tanto sofrimento nas pessoas que encontro\u2026 Chega a ser her\u00f3ico tentar penetrar nelas. A maior parte das pessoas vive agarrada a um pequeno peda\u00e7o de mob\u00edlia mental, um fragmento de uma mesa ou de um m\u00f3vel qualquer. \u00c9 esta a imagem que tenho andado a mostrar nos \u00faltimos 20 anos. Devo dizer que \u00e9 hoje bastante melhor aceite do que h\u00e1 20 anos. Estamos a viver o dil\u00favio. Qual ser\u00e1 ent\u00e3o o comportamento mais indicado a adoptar num dil\u00favio? O que devemos fazer quando vemos as pessoas a ser arrastadas, agarradas a um bocado de uma mesa ou de uma porta? Devemos declarar-nos conservadores ou liberais? De esquerda ou de direita? Homem ou mulher? Branco ou negro? Todas estas categorias tornam-se completamente irrelevantes, dada a natureza e a prem\u00eancia da cat\u00e1strofe.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Como \u00e9 o quadro visto de cima, ou seja, da perspectiva do anjo?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 V\u00ea-se ao mesmo tempo que as coisas est\u00e3o OK, exactamente como deveriam estar.<br \/>\n<strong>P. Aceitaria participar em grandes festivais de benefic\u00eancia, em defesa de uma causa?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Nunca fui convidado para nenhum. E, se fosse, n\u00e3o aceitaria. Para mim n\u00e3o significam nada. As pessoas acham importante ter uma forma de exprimir a sua boa vontade. \u00c9 como um cart\u00e3o de Natal que se envia uma vez por ano\u2026<br \/>\n<strong>P. \u2013 Afinal de contas actua para audi\u00eancias ao vivo apenas por quest\u00f5es materiais?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 \u00c9 certamente uma quest\u00e3o que n\u00e3o posso ignorar. Tenho responsabilidades na medida em que muitas pessoas dependem de mim. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a minha fam\u00edlia. Sou feliz por poder ganhar dinheiro de maneira a responder a essas responsabilidades. Mas, para al\u00e9m disso, h\u00e1 algo na vida na estrada de que gosto: a camaradagem entre os m\u00fasicos, os t\u00e9cnicos. E o aspecto da bebedeira. Bebo muito. Gosto de beber e cantar. E de manifestar o esp\u00edrito da embriaguez.<br \/>\n<strong>P. \u2013 N\u00e3o h\u00e1 uma contradi\u00e7\u00e3o entre a disciplina zen que diz professar, e essa pr\u00e1tica dionis\u00edaca do prazer do vinho?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Toda a minha vida tem sido uma contradi\u00e7\u00e3o. Depois de um dia inteiro no centro zen a meditar \u2013 h\u00e1 uma semana por m\u00eas em que se chega a estar por dia 17 horas sentado a meditar \u2013 gosto de beber durante algumas horas: Depois deito-me e durmo mais umas horas, para me levantar e come\u00e7ar tudo de novo.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Os restantes membros da comunidade aceitam bem esse seu comportamento?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 N\u00e3o h\u00e1 nenhum ponto de vista moralista no zen. N\u00e3o \u00e9 propriamente uma religi\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 nenhum deus nem nenhuma adora\u00e7\u00e3o. \u00c9 apenas uma situa\u00e7\u00e3o em que se proporciona \u00e0s pessoas a possibilidade de poderem estar sozinhas consigo mesmas. Se h\u00e1 algu\u00e9m que quer estar sozinho consigo mesmo b\u00eabedo, tudo bem! E, se quiser faz\u00ea-lo s\u00f3brio, na mesma tudo bem. Em geral, ningu\u00e9m gosta de estar s\u00f3 consigo mesmo. Eu gosto. \u00c0s vezes.<br \/>\n<strong>P. \u2013 E drogas?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 N\u00e3o gosto de usar drogas. Passei imenso tempo a recuperar delas. Descobri que as drogas me punham o esp\u00edrito doente. O \u00e1lcool \u00e9 diferente. Nas digress\u00f5es gosto de beber, com os outros m\u00fasicos. N\u00e3o s\u00f3 para aliviar a press\u00e3o \u2013 a vida \u201con the road\u201d \u00e9 dura, fazemos cinco concertos e viajamos durante toda a semana. N\u00e3o actuamos em est\u00e1dios, apenas em audit\u00f3rios de concerto, temos que ser econ\u00f3micos -, mas sobretudo como um sacramento. Juntamo-nos todos para beber, para sentir a luz do sol, a for\u00e7a, o esp\u00edrito das can\u00e7\u00f5es, para celebrar em conjunto com a assist\u00eancia. Para nos rendermos a ela e celebrar o sacrif\u00edcio, num bom, num grande concerto. O vinho ajuda a entregarmo-nos ao momento.<\/p>\n<p><strong>Beber Para A M\u00fasica<\/strong><\/p>\n<p><strong>P. \u2013 Os outros m\u00fasicos tamb\u00e9m pensam que \u00e9 doido?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Sim. Adoro-os e eles adoram-me. Embora haja alturas em que as coisas n\u00e3o correm bem.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Que alturas?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Sou muito exigente nos aspectos t\u00e9cnicos. E penso que toda a gente devia dar o m\u00e1ximo de si em cada concerto.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Como define um bom concerto?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 A um n\u00edvel b\u00e1sico, \u00e9 aquele em que as pessoas deram por bem gasto o seu dinheiro. A outro n\u00edvel, aquele em que as pessoas sentiram que fizeram parte de um acontecimento importante.<br \/>\n<strong>P. \u2013 O seu modo de cantar \u00e9 invariavelmente sereno. Nunca a f\u00faria ou a viol\u00eancia assomam de forma expl\u00edcita no seu estilo, mesmo quando canta as coisas mais terr\u00edveis\u2026<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Eu dizia o mesmo do J\u00falio Igl\u00e9sias. \u00c9 um cantor muito subestimado. As pessoas pensam que \u00e9 um cantor barato. Para mim n\u00e3o \u00e9. Andei a estud\u00e1-lo ultimamente. \u00c9 maravilhoso. Tem um centro. Muito calmo, muito seguro sobre o amor, muita experi\u00eancia do sofrimento. As primeiras vezes que o vi era mais novo, procurava dar a imagem do rom\u00e2ntico, do \u201cgigolo\u201d. Mas agora vi-o na televis\u00e3o e achei-o maravilhoso.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Nunca teve a tenta\u00e7\u00e3o de usar o seu poder em proveito pr\u00f3prio, no sentido de manipula\u00e7\u00e3o, de posse?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 O poder \u00e9 uma carga pesada. Como uma possess\u00e3o, uma grande casa, um iate ou autom\u00f3veis caros. Quando se tem poder, gasta-se o tempo todo com ele. Sou demasiado pregui\u00e7oso para ter poder. Para se ser poderoso \u00e9 preciso seduzir as pessoas. Sou demasiado pregui\u00e7oso para isso\u2026<br \/>\n<strong>P. \u2013 Assume-se como um profeta?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 N\u00e3o sei se sou um profeta, mas escrevi coisas que se desenrolaram depois de as ter escrito. A vis\u00e3o original sobre o tal colapso nervoso \u00e9 a \u00fanica coisa relevante que disse, a minha \u00fanica contribui\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se tratava apenas de dizer que as coisas eram nojentas, horr\u00edveis ou que a vida se estava a destro\u00e7ar. Tudo isto \u00e9 verdade, mas o importante \u00e9 saber quais as consequ\u00eancias. Estamos \u00e0 beira de um colapso nervoso. Vamos confessar-nos uns aos outros.<br \/>\n<strong>P. \u2013 O que pensa fazer no dia seguinte ao dil\u00favio?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Espero beber uma boa ch\u00e1vena de caf\u00e9.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>pop rock >> quarta-feira >> 29.06.1994 \u00c0 Beira De Um Colapso Nervoso Leonard Cohen acabou de lan\u00e7ar o \u00e1lbum \u201cCohen Live\u201d, o segundo ao vivo da sua carreira. 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