{"id":12150,"date":"2025-03-05T05:39:17","date_gmt":"2025-03-05T12:39:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=12150"},"modified":"2025-03-05T05:39:59","modified_gmt":"2025-03-05T12:39:59","slug":"varios-amandio-bastos-manuel-faria-jose-mario-branco-carlos-maria-trindade-mario-martins-produtores-musicais-uma-profissao-portuguesa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2025\/03\/05\/varios-amandio-bastos-manuel-faria-jose-mario-branco-carlos-maria-trindade-mario-martins-produtores-musicais-uma-profissao-portuguesa\/","title":{"rendered":"V\u00e1rios (Am\u00e2ndio Bastos + Manuel Faria + Jos\u00e9 M\u00e1rio Branco + Carlos Maria Trindade + M\u00e1rio Martins) &#8211; &#8220;Produtores Musicais \u2013 Uma Profiss\u00e3o Portuguesa&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>pop rock >> quarta-feira >> 22.06.1994<br \/>\n<strong>DOSSIER<\/strong><br \/>\n<center><br \/>\n<strong>Produtores Musicais \u2013 Uma Profiss\u00e3o Portuguesa<\/strong><br \/>\n<\/center><br \/>\n<strong>\u201cN\u00e3o h\u00e1 em Portugal produtores capazes\u201d foi o lugar-comum utilizado durante muitos anos pelos m\u00fasicos portugueses, dentro daquele outro lugar-comum mais vasto que era a \u201cfalta de condi\u00e7\u00f5es\u201d, para justificarem todo o tipo de defici\u00eancias. Os que podiam rumavam ent\u00e3o para o estrangeiro, em busca da varinha m\u00e1gica do produtor milagroso que transformaria o esbo\u00e7o tosco ou a ideia difusa no \u00eaxito estrondoso capaz de espantar o mundo. Claro que nem mesmo os produtores l\u00e1 de fora fazem milagres. Seguia-se inevitavelmente o desencanto e o regresso a casa com mais umas d\u00fazias de pistas e enfeites de est\u00fadio desnecess\u00e1rios debaixo do bra\u00e7o e a frustra\u00e7\u00e3o de se ter despendido dinheiro inutilmente. Enquanto isso, por c\u00e1, os produtores \u2013 que, embora poucos, existiam \u2013 lutavam contra a incompreens\u00e3o e a falta de trabalho. Hoje, a situa\u00e7\u00e3o alterou-se de forma significativa, com os m\u00fasicos portugueses a solicitarem sem preconceitos os servi\u00e7os dos produtores nacionais. O sucesso recente, em termos de vendas e aceita\u00e7\u00e3o, do projecto Filhos da Madrugada veio definitivamente romper as ideias feitas do passado e confirmar que h\u00e1 em Portugal produtores t\u00e3o bons ou melhores do que os estrangeiros. Convid\u00e1mos e coloc\u00e1mos cinco quest\u00f5es a outros tantos produtores, da velha e da nova guarda, no sentido de definirem as suas concep\u00e7\u00f5es e estrat\u00e9gias. Eles explicaram como se educa os m\u00fasicos e a m\u00fasica \u2013 como se constr\u00f3i o som.<\/strong><\/p>\n<p><center><br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/AmandioBastos.jpg\" alt=\"\" width=\"353\" height=\"531\" class=\"alignnone size-full wp-image-12151\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/AmandioBastos.jpg 353w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/AmandioBastos-199x300.jpg 199w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/AmandioBastos-66x100.jpg 66w\" sizes=\"auto, (max-width: 353px) 100vw, 353px\" \/><br \/>\n<\/center><\/p>\n<p><strong>1.<\/strong> O produtor \u00e9 algu\u00e9m que, desligado do artista, p\u00f5e em pr\u00e1tica as ideias deste ou, pelo contr\u00e1rio, \u00e9, em est\u00fadio, um representante dos gostos do p\u00fablico?<br \/>\n<strong>AM\u00c2NADIO BASTOS<\/strong> \u2013 N\u00e3o acho que as duas componentes da pergunta sejam incompat\u00edveis. Um produtor, ao liderar um processo de grava\u00e7\u00e3o, \u00e9 obrigado a avaliar o trabalho segundo v\u00e1rios prismas e a \u201cmeter-se na pele\u201d do p\u00fablico consumidor, do artista, do editor, dos \u201cmedia\u201d, etc. N\u00e3o creio que haja uma f\u00f3rmula que, aplicada, resulte sempre da mesma amaneira. Parece-me mais correcto pensar nos produtores como pessoas que lideram os processos de grava\u00e7\u00e3o de m\u00fasica utilizando formas e t\u00e9cnicas variadas em fun\u00e7\u00e3o das caracter\u00edsticas de cada trabalho.<\/p>\n<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 250;\ngoogle_ad_height = 250;\ngoogle_ad_format = \"250x250_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p><strong>MANUEL FARIA<\/strong> \u00e9 m\u00fasico dos Trovante e produtor de, entre outros, Trovante, Mafalda Veiga, S\u00e9rgio Godinho, Vitorino, Piratas do Sil\u00eancio, Essa Entente, Carlos Zel e, em colabora\u00e7\u00e3o com Tim e Jo\u00e3o Gil, do projecto \u201cFilhos da Madrugada\u201d. Actualmente, prepara os espect\u00e1culos \u201cFados\u201d de Ricardo Pais e \u201cFilhos da Madrugada\u201d. Dirige um est\u00fadio de som, Play It Again, juntamente com Ricardo Galera.<\/p>\n<p><strong>MANUEL FARIA<\/strong> \u2013 H\u00e1 dois tipos de produtores e de produ\u00e7\u00f5es. De uma forma geral, o produtor tem como principal objectivo ajudar o artista a desenvolver todo o seu potencial e a passa-lo para o disco. Claro que, ao p\u00f4r em pr\u00e1tica as ideias dos artistas, simultaneamente acompanha o trabalho de uma forma mais fria e desapaixonada, aproximando-se mais do sentimento do p\u00fablico.<br \/>\n<strong>CARLOS MARIA TRINDADE<\/strong> \u2013 Existem basicamente tr\u00eas tipos de produtor: o musical, o t\u00e9cnico e o auto-suficiente. O primeiro pode arranjar, compor ou dirigir o int\u00e9rprete a n\u00edvel musical. O segundo pode gravar, misturar e desenvolver toda a parte de engenharia envolvida num processo de est\u00fadio. O terceiro acumula as duas fun\u00e7\u00f5es. Em qualquer dos casos, o produtor deve ter a no\u00e7\u00e3o de que est\u00e1 ao servi\u00e7o de um artista e de que a sua fun\u00e7\u00e3o \u00e9 basicamente a de maximizar as suas ideias e potencialidades. No caso de o produtor ser delegado por uma companhia editora, pode ter tamb\u00e9m de escolher report\u00f3rio e assegurar um m\u00ednimo de \u201cviabiliza\u00e7\u00e3o comercial\u201d (ao encontro dos gostos dos v\u00e1rios p\u00fablicos), a par da gest\u00e3o de um or\u00e7amento.<br \/>\n<strong>JOS\u00c9 M\u00c1RIO BRANCO<\/strong> \u2013 Se, como diz a pergunta, o produtor est\u00e1 \u201cdesligado do artista\u201d, ele n\u00e3o poder\u00e1 , evidentemente, ser o executor dos gostos ou do projecto est\u00e9tico do artista que prop\u00f5e; ser\u00e1 ent\u00e3o um representante dos gostos que a editora pretende promover, que nem sempre ser\u00e3o os gostos do p\u00fablico, mas sim os gostos que a editora quer promover junto do p\u00fablico (como escreveu B\u00e9nard da Costa, \u201cos gostos n\u00e3o se discutem, mas educam-se\u2026\u201d).<br \/>\n<strong>M\u00c1RIO MARTINS<\/strong> \u2013 Pode ser as duas coisas. Exemplo: \u201cO Nazareno\u201d \u2013 dei a ideia ao autor Frei Hermano da C\u00e2mara, que comp\u00f4s a m\u00fasica, os textos foram escolhidos por ambos e depois, com o maestro Jorge Machado, trabalh\u00e1mos laboriosamente na produ\u00e7\u00e3o continuada em est\u00fadio. Foi a mais complexa produ\u00e7\u00e3o que fiz. Outro exemplo: um disco de Marco Paulo \u2013 escolhi sempre todos os sucessos, ultimamente fazia as vers\u00f5es, trabalhava depois com o m\u00fasico que orquestrava e com o cantor. Em qualquer dos casos, como produtor ao servi\u00e7o de uma editora tinha de pensar obviamente no gosto do p\u00fablico a quem os discos s\u00e3o dirigidos.<\/p>\n<p><strong>2. Em que medida os produtores s\u00e3o criadores?<\/strong><br \/>\nA.B. \u2013 Os produtores s\u00e3o criadores na medida em que s\u00e3o os respons\u00e1veis pelo elo final da cadeia criativa, ou seja, interv\u00eam na cria\u00e7\u00e3o do produto final, o fonograma. E se, nalguns casos, essa interven\u00e7\u00e3o se limita \u00e0 adapta\u00e7\u00e3o da obra do artista<\/p>\n<p><center><br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/JoseMarioBranco.jpg\" alt=\"\" width=\"391\" height=\"580\" class=\"alignnone size-full wp-image-12152\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/JoseMarioBranco.jpg 391w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/JoseMarioBranco-202x300.jpg 202w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/JoseMarioBranco-67x100.jpg 67w\" sizes=\"auto, (max-width: 391px) 100vw, 391px\" \/><br \/>\n<\/center><\/p>\n<p><strong>JOS\u00c9 M\u00c1RIO BRANCO<\/strong> \u00e9 o compositor e arranjador de \u00e1lbuns como \u201cSer Solid\u00e1rio\u201d, \u201cMargem de Certa Maneira\u201d, \u201cMudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades\u201d e \u201cA Noite\u201d. Membro fundador das cooperativas GAC e, anos mais tarde, da UPAV e do Teatro do Mundo. Recentemente entrou para a forma\u00e7\u00e3o do Grupo de Gaiteiros de Lisboa<\/p>\n<p>A padr\u00f5es de consumo, noutros a ac\u00e7\u00e3o do produtor \u00e9 bem mais profunda e decisiva. O produtor pode ser chamado a intervir em todos os est\u00e1dios do processo criativo, corrigindo ou propondo alternativas \u00e0 composi\u00e7\u00e3o original ou mesmo criando solu\u00e7\u00f5es para colmatar eventuais defici\u00eancias.<br \/>\nM.F. \u2013 Os bons produtores s\u00e3o sempre criadores. Devem ser criativos no acompanhamento aos artistas, na escolha de todas as solu\u00e7\u00f5es log\u00edsticas, de todas as solu\u00e7\u00f5es musicais ainda n\u00e3o resolvidas pelos m\u00fasicos. T\u00eam, acima de tudo, de saber onde devem para de criar. Nos discos de artistas, ao contr\u00e1rio dos de bandas, o produtor tem muito mais influ\u00eancia no resultado musical.<\/p>\n<p><strong>AM\u00c2NDIO BASTOS<\/strong> \u00e9. Desde h\u00e1 dez anos, t\u00e9cnico de est\u00fadio da Valentim de Carvalho, com um ano de interregno em que trabalhou como \u201cfree lancer\u201d. T\u00e9cnico de som e de ilumina\u00e7\u00e3o. Produtor de, entre outros, Pop Dell\u2019Arte, R\u00e1dio Macau, Rui Veloso, Tubar\u00f5es, Trovante, Waldemar Bastos e S\u00e9tima Legi\u00e3o. A sua produ\u00e7\u00e3o mais recente \u00e9 a do novo disco dos Pop Dell\u2019Arte, \u201cSex Symbol\u201d.<\/p>\n<p><center><br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/AmandioBastos2.jpg\" alt=\"\" width=\"327\" height=\"815\" class=\"alignnone size-full wp-image-12153\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/AmandioBastos2.jpg 327w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/AmandioBastos2-120x300.jpg 120w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/AmandioBastos2-40x100.jpg 40w\" sizes=\"auto, (max-width: 327px) 100vw, 327px\" \/><br \/>\n<\/center><\/p>\n<p>C.M.T. \u2013 Os produtores s\u00e3o, m\u00e9dia geral, criadores, mas quantas vezes isso n\u00e3o sai para o dom\u00ednio p\u00fablico\u2026 Nalguns casos, essa criatividade \u00e9 defendida por um \u201croyaltie\u201d de produ\u00e7\u00e3o.<br \/>\nJ.M.B. \u2013 Tal como nas outras artes que implicam processos de cria\u00e7\u00e3o colectivos e complexos \u2013 a arquitectura, o cinema, a \u00f3pera, etc. -, os \u201cproducers\u201d (entendidos como produtores aut\u00eanticos) t\u00eam um papel decisivo na configura\u00e7\u00e3o do produto final que veicula para  p\u00fablico o impulso criador do artista titular. Neste sentido, h\u00e1 in\u00fameros exemplos que demonstram que o verdadeiro autor da obra, aquele que lhe d\u00e1 o cunho intr\u00ednseco e distintivo, \u00e9 o produtor \u2013 vide os casos de Quincy Jones nos princ\u00edpios da \u201csoul music\u201d ou George Martin nos primeiros discos dos Beatles.<br \/>\nM.M. \u2013 De v\u00e1rias maneiras. Se descobrir, como eu, v\u00e1rios artistas, h\u00e1 que lhes encontrar a \u201cmedida\u201d atrav\u00e9s da escolha doo report\u00f3rio adequado \u00e0 voz, \u00e0s caracter\u00edsticas e \u00e0 imagem. Esse trabalho, da escolha do report\u00f3rio, quer seja da autoria do artista em causa, que r de outros autores, \u00e9 de criatividade. H\u00e1 casos em que essa escolha marca, define, o estilo futuro e interfere na personalidade interpretativa do cantor. O report\u00f3rio hoje em dia \u00e9 fundamental.<\/p>\n<p><strong>3. O que \u00e9 um disco de produtor? Considera que existe em Portugal algum disco de produtor?<\/strong><br \/>\nA.B. \u2013 Quando o trabalho de produ\u00e7\u00e3o se torna o aspecto mais marcante da est\u00e9tica de um disco, podemos estar eventualmente perante um disco de produtor. Em Portugal, estou a lembrar-me do primeiro disco dos Diva, chamado \u201cEcos de Outono\u201d, produzido por Ricardo Camacho, um dos melhores produtores portugueses, com a ajuda do Francis.<br \/>\nM.F. \u2013 Pessoalmente, acho que os discos s\u00e3o dos artistas e que o chamado \u201cdisco de produtor\u201d \u00e9 um erro. Neste caso, o produtor sente-se como um realizador de cinema e toma para si a parte do espa\u00e7o do artista, muitas vezes motivado pela falta de criatividade deste. Quando o artista n\u00e3o tem interesse ou potencial suficiente, o produtor deve declinar o convite. Acho que existir\u00e3o em Portugal v\u00e1rios exemplos e espero nunca ter feito nenhum.<br \/>\nC.M.T. \u2013 Disco de produtor \u00e9 todo aquele em que a personalidade musical do produtor se sobrep\u00f5e \u00e0 do artista. Em Portugal existem \u201cn\u201d, mas l\u00e1 fora s\u00e3o mais evidentes. A ZTT imp\u00f4s-se nesse campo (Frankie Goes To Hollywood, Propaganda, Seal\u2026).<br \/>\nJ.M.B. \u2013 Um \u201cdisco de produtor\u201d \u00e9 aquele em que a organiza\u00e7\u00e3o log\u00edstica e est\u00e9tica da obra \u00e9 fruto de um projecto art\u00edstico do pr\u00f3prio produtor, sendo cada uma das suas componentes n\u00e3o-significante por si s\u00f3. Em Portugal posso citar dois casos: uma obra de Jos\u00e9 Lu\u00eds Tinoco publicada em Novembro de 1971, com as vozes de Tonicha, Carlos Mendes e Samuel sobre a poesia de Ant\u00f3nio Gede\u00e3o; e a recente colect\u00e2nea \u201cFilhos da Madrugada\u201d com vers\u00f5es de can\u00e7\u00f5es de Jos\u00e9 Afonso.<br \/>\nM.M. \u2013 \u00c9 um disco em que o produtor escolhe o report\u00f3rio, trabalha com o m\u00fasico, dirige as vozes, colabora na mistura. Claro que h\u00e1, no meu caso citaria o disco de Faf\u00e1 de Bel\u00e9m, que nunca tinha cantado fado. Foi preciso faz\u00ea-la entender o tipo de m\u00fasica e a interpreta\u00e7\u00e3o adequada.<\/p>\n<p><center><br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/CarlosMariaTrindade.jpg\" alt=\"\" width=\"413\" height=\"623\" class=\"alignnone size-full wp-image-12154\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/CarlosMariaTrindade.jpg 413w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/CarlosMariaTrindade-199x300.jpg 199w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/CarlosMariaTrindade-66x100.jpg 66w\" sizes=\"auto, (max-width: 413px) 100vw, 413px\" \/><br \/>\n<\/center><\/p>\n<p><strong>CARLOS MARIA TRINDADE<\/strong> \u00e9 antigo teclista dos Her\u00f3is do Mar, Co-autor, com Nuno Canavarro, do \u00e1lbum \u201cMr. Wollogallu\u201d. Produtor de discos dos Her\u00f3is do Mar, Delfins, Golpe de Estado, Xutos &#038; Pontap\u00e9s, Ant\u00f3nio Varia\u00e7\u00f5es, R\u00e1dio Macau e Paulo Bragan\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>4. Como funciona o trabalho de produtor a) quando tem que congregar v\u00e1rios artistas para gravar um disco (p. ex,. \u201cFilhos da Madrugada\u201d e b) quando lhe cabe fazer os arranjos e as orquestra\u00e7\u00f5es a partir de vagas linhas mel\u00f3dicas, letras alinhavadas e uma ideia de ritmo apresentada pelos m\u00fasicos \u00c0 entrada do est\u00fadio?<\/strong><br \/>\nA.B. \u2013 a) No caso concreto do projecto \u201cFilhos da Madrugada\u201d, existem dois aspectos distintos no plano da produ\u00e7\u00e3o a considerar; por um lado, o trabalho de conceber, planear e executar as grandes linhas do projecto, tarefa que coube ao trio Manuel Faria, Tim e Jo\u00e3o Gil. Por outro lado, a produ\u00e7\u00e3o musical propriamente dita de cada tema, confiada a diferentes produtores indicados pelos grupos [Am\u00e2ndio Bastos produziu o tema dos S\u00e9tima Legi\u00e3o]. O primeiro aspecto passa pela defini\u00e7\u00e3o, em conjunto com a editora, das grandes linhas do projecto, o que implica a tomada de decis\u00f5es por vezes pol\u00e9micas, passa pelo planeamento e acerto do calend\u00e1rio das grava\u00e7\u00f5es; escolha, em acordo com os grupos, do tema a ser trabalhado; coordena\u00e7\u00e3o de todas as datas e aspectos log\u00edsticos para as grava\u00e7\u00f5es; masteriza\u00e7\u00e3o e finaliza\u00e7\u00e3o do fonograma\u2026 Trata-se, como se pode ver, de tarefas que n\u00e3o passam directamente por aspectos de produ\u00e7\u00e3o musical, mas que se revelam, em especial neste tipo de discos, de import\u00e2ncia capital para o sucesso do projecto.<br \/>\nb) Apesar de existirem v\u00e1rios produtores portugueses com capacidade para lidar com esta situa\u00e7\u00e3o, s\u00e3o bem conhecidas as vantagens do trabalho de pr\u00e9-produ\u00e7\u00e3o. S\u00f3 intencionalmente e com objectivos bem definidos se abdica dessa fase da produ\u00e7\u00e3o de um disco.<br \/>\nM.F. \u2013 a) No caso de \u201cFilhos da Madrugada\u201d, escolhemos os grupos e as can\u00e7\u00f5es e, a partir da\u00ed, tent\u00e1mos interferir o m\u00ednimo no trabalho dos artistas. Apenas os espica\u00e7\u00e1mos para serem ousados.<br \/>\nb) Se um produtor esperar at\u00e9 \u00e0 entrada do est\u00fadio para conhecer as ideias dos m\u00fasicos, est\u00e1 liquidado. A pr\u00e9-produ\u00e7\u00e3o, embora escassa em Portugal, \u00e9 fundamental para o sucesso do trabalho. Acho muito importante o conhecimento das atmosferas que o m\u00fasico pretende. De uma forma geral prefiro sempre ajudar os artistas a fazerem os pr\u00f3prios arranjos.<br \/>\nC.M.T. \u2013 O produtor, em qualquer dos casos, prepara a entrada em est\u00fadio, num processo que se chama pr\u00e9-produ\u00e7\u00e3o. Pode revestir-se de v\u00e1rios aspectos: reuni\u00f5es executivas para or\u00e7amenta\u00e7\u00e3o do projecto, ensaios de grupo, escolha de report\u00f3rio, harmoniza\u00e7\u00e3o de melodias, direc\u00e7\u00e3o de interpreta\u00e7\u00e3o, programa\u00e7\u00e3o em computador ou sequenciador, etc.<br \/>\nJ.M.B. \u2013 No trabalho do produtor, as duas fun\u00e7\u00f5es \u2013 organiza\u00e7\u00e3o log\u00edstica e globaliza\u00e7\u00e3o do projecto art\u00edstico \u2013 est\u00e3o, sendo distintas, intimamente relacionadas por via das caracter\u00edsticas do processo produtivo. O maior pendor do produtor para uma ou outra destas vertentes depender\u00e1 das pr\u00f3pria caracter\u00edsticas iniciais do artista e do seu projecto, ou seja, da \u201cmat\u00e9ria-prima\u201d original do disco. O produtor poder\u00e1 quase limitar-se a ser um organizador de situa\u00e7\u00f5es complexas a partir de uma ideia inicial (que at\u00e9 pode n\u00e3o ser sua), caso de \u201cFilhos da Madrugada\u201d; ou poder\u00e1, perante a fragilidade da mat\u00e9ria-prima ou do artista a produzir, tornar-se totalmente protag\u00f3nico na cria\u00e7\u00e3o musical propriamente dita. Uma coisa \u00e9 certa: se \u00e9 verdade que \u201choje j\u00e1 n\u00e3o se faz m\u00fasica, faz-se som\u201d, a influ\u00eancia do produtor na mat\u00e9ria est\u00e9tica transmitida ao p\u00fablico configura-o cada vez mais como autor da obra ou, pelo menos, co-autor. E aten\u00e7\u00e3o: produ\u00e7\u00e3o, arranjos, orquestra\u00e7\u00f5es, direc\u00e7\u00e3o art\u00edstica, tudo isto s\u00e3o fun\u00e7\u00f5es diferentes que podem, ou n\u00e3o, estar centralizadas num produtor.<br \/>\nM.M. \u2013 a) Desse tipo produzi \u201cO Nazareno\u201d, que \u00e9 uma obra em que cantores, como numa \u00f3pera, faziam solos, duetos, tercetos, etc. e tinha al\u00e9m disso actores que diziam as suas partes do texto.<br \/>\nb) Nunca foi o meu caso. Mas, observando esse fen\u00f3meno, o que acontece em regra \u00e9 que os m\u00fasicos se preocupam com a parte em que s\u00e3o \u201cmestres\u201d e esquecem uma \u00e1rea muito importante que \u00e9 a da direc\u00e7\u00e3o de vozes. Outra tend\u00eancia dos m\u00fasicos \u00e9 a de valorizarem o seu trabalho em detrimento da voz solista. Eu, quando em est\u00fadio, nas misturas, tenho sempre que, diplomaticamente, conciliar as duas vertentes.<\/p>\n<p><strong>5. Quais as vantagens e desvantagens de um produtor ser ou n\u00e3o igualmente m\u00fasico?<\/strong><br \/>\nA.B. \u2013 Qualquer produtor tem vantagens em dominar a linguagem musical, desde que mantenha o distanciamento necess\u00e1rio e que esse dom\u00ednio n\u00e3o seja um fim em si, afastando-o da realidade e dos anseios dos criadores e consumidores. Por outro lado, \u00e9 indispens\u00e1vel a um produtor ter capacidade de organizar, manipular e criar sons musicais, de modo a poder acompanhar o avan\u00e7o das novas atitudes e formas de express\u00e3o musical que est\u00e3o a marcar este fim de s\u00e9culo.<br \/>\nM.F. \u2013 Se um produtor for m\u00fasico, tem a vantagem de poder estabelecer um di\u00e1logo mais musical com os artistas. Mas, se se der o caso de ser um \u201cm\u00fasico falhado\u201d, poder\u00e1 tentar passar, \u00e1 custa do artista, ideias que nunca conseguiu gravar. Se for um t\u00e9cnico, por outro lado, poder\u00e1 querer apenas que o grupo tenha um \u201cbom som\u201d. Pessoalmente, penso que o produtor deve ser algu\u00e9m tranquilo e consciente de que o disco em que est\u00e1 a trabalhar n\u00e3o \u00e9 seu.<br \/>\nC.M.T. \u2013 A vantagem de um produtor m\u00fasico \u00e9 que pode aconselhar e valorizar toda a est\u00e9tica musical inerente ao projecto de grava\u00e7\u00e3o. A desvantagem \u00e9 que se, por exemplo, o produtor for simultaneamente o guitarrista do grupo, ele, por imaturidade, poder\u00e1, consciente ou inconscientemente, prejudicar o trabalho de misturas, subindo as suas pr\u00f3prias pistas em detrimento do cantor ou de qualquer outro elemento ( a inevit\u00e1vel \u201cego trip\u201d\u2026).<br \/>\nJ.M.B. \u2013 Defendo que \u201ca cada produ\u00e7\u00e3o, o produtor certo\u201d. Os aspectos determinantes s\u00e3o a compet\u00eancia profissional do produtor \u2013 capacidade de (ante)vis\u00e3o global de uma obra e de gest\u00e3o log\u00edstica do projecto art\u00edstico, e a adequa\u00e7\u00e3o do seu gosto art\u00edstico; e a adequa\u00e7\u00e3o do seu gosto art\u00edstico pessoal e da sua idoneidade \u00e9tico-est\u00e9tica \u00e0s caracter\u00edsticas premissiais do projecto art\u00edstico. De um modo geral, \u00e9 evidente que o gosto musical do produtor \u00e9 determinante, para bem ou para mal do resultado.<br \/>\nM.M. \u2013 A resposta est\u00e1 impl\u00edcita na que dei \u00e0 pergunta anterior.<\/p>\n<p><center><br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/marioMartins.jpg\" alt=\"\" width=\"552\" height=\"357\" class=\"alignnone size-full wp-image-12155\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/marioMartins.jpg 552w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/marioMartins-300x194.jpg 300w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/marioMartins-100x65.jpg 100w\" sizes=\"auto, (max-width: 552px) 100vw, 552px\" \/><br \/>\n<\/center><\/p>\n<p><strong>M\u00c1RIO MARTINS<\/strong> \u201cdescobriu, entre outros, Marco Paulo, Ant\u00f3nio Varia\u00e7\u00f5es, Paco Bandeira, Lara Li e Jos\u00e9 da C\u00e2mara. Entre in\u00fameras produ\u00e7\u00f5es, destaque para o trabalho \u201cO Nazareno\u201d, de Frei Hermano da C\u00e2mara, e \u00e1lbuns de Lu\u00eds Goes, Faf\u00e1 de Bel\u00e9m, Nuno da C\u00e2mara Pereira, Carlos Pai\u00e3o, Paco Bandeira, Jos\u00e9 Cid, J\u00falio Pereira, Jorge Palma, Grupo de Cantares de Manhouce, Alexandra, Jos\u00e9 da C\u00e2mara, Maria Teresa de Noronha e Luc\u00edlia do Carmo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>pop rock >> quarta-feira >> 22.06.1994 DOSSIER Produtores Musicais \u2013 Uma Profiss\u00e3o Portuguesa \u201cN\u00e3o h\u00e1 em Portugal produtores capazes\u201d foi o lugar-comum utilizado durante muitos anos pelos m\u00fasicos portugueses, dentro daquele outro lugar-comum mais vasto que era a \u201cfalta de condi\u00e7\u00f5es\u201d, para justificarem todo o tipo de defici\u00eancias. 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