{"id":12144,"date":"2025-03-03T03:39:56","date_gmt":"2025-03-03T10:39:56","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=12144"},"modified":"2025-03-03T03:39:56","modified_gmt":"2025-03-03T10:39:56","slug":"manuel-rocha-em-publico-entrevista-artigo-de-fundo-dossier-portugal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2025\/03\/03\/manuel-rocha-em-publico-entrevista-artigo-de-fundo-dossier-portugal\/","title":{"rendered":"Manuel Rocha &#8211; &#8220;EM P\u00daBLICO&#8221; (entrevista | artigo de fundo | dossier | portugal)"},"content":{"rendered":"<p>pop rock >> quarta-feira >> 22.06.1994<br \/>\n<strong>EM P\u00daBLICO<\/strong><br \/>\n<center><br \/>\n<strong>MANUEL ROCHA *<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/manuelRocha.gif\" alt=\"\" width=\"681\" height=\"761\" class=\"alignnone size-full wp-image-12145\" \/><br \/>\n<\/center> <\/p>\n<p><strong>Qual foi o seu percurso como m\u00fasico?<\/strong><br \/>\nComecei a estudar violino em Coimbra, como todos os mi\u00fados, em escolas particulares. Mais tarde, entrei na Brigada, era ainda pequenito, tinha 14 anos. Estive a\u00ed at\u00e9 aos 20 anos, altura em que consegui uma bolsa na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica para uma escola de ensino de violino. Estive em Moscovo seis anos, entre 1982 e 1988, a estudar pedagogia do violino. Ap\u00f3s esse per\u00edodo, ainda tentei entrar numa orquestra mas acabei por ficar em Coimbra, no Conservat\u00f3rio de M\u00fasica. Entretanto, reencontrei-me com a malta da Brigada e fiquei por l\u00e1, onde estou h\u00e1 18 anos.<\/p>\n<p><strong>Enquanto violinista de forma\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica, como se processou a sua aproxima\u00e7\u00e3o \u00e0s t\u00e9cnicas de execu\u00e7\u00e3o tradicionais?<\/strong><br \/>\nDe in\u00edcio, tocava violino de ouvido, na Brigada. Mas n\u00e3o existe um grande report\u00f3rio de m\u00fasica para violino em Portugal. N\u00e3o \u00e9 como na Irlanda ou na Inglaterra. As coisas v\u00e3o-se apanhando. Aconteceu-me um epis\u00f3dio engra\u00e7ado: na Brigada, como na m\u00fasica tradicional portuguesa em geral, n\u00e3o existe uma grande exig\u00eancia ao n\u00edvel da t\u00e9cnica e da sonoridade. A tradi\u00e7\u00e3o oral \u00e9, em si mesma, especializada. Um homem que \u00e9 um bom ponto num cantar alentejano nunca ser\u00e1 capaz de cantar provavelmente uma daquelas cantigas de ritmos arrevezados de Tr\u00e1s-os-Montes. Em Portugal, existe sobretudo uma tradi\u00e7\u00e3o do canto. E de gaiteiros. H\u00e1 tocadores de gaita-de-foles que t\u00eam a chamada \u201conda\u201d no seu instrumento. No \u00faltimo disco que saiu de recolhas de Giacometti, h\u00e1 uma m\u00fasica em violino que eu ando a tirar, mas \u00e9 dif\u00edcil, porque o homem consegue, de facto, ao n\u00edvel da frase musical, certos artif\u00edcios que eu n\u00e3o consigo tirar. Tenho uma escola muito mais cl\u00e1ssica, enquanto a t\u00e9cnica popular \u00e9 emp\u00edrica e muito mais ornamentada. Aquilo que ele n\u00e3o consegue ir buscar \u00e0 riqueza do timbre vai buscar ao ornamento.<\/p>\n<p><strong>Ainda faz sentido falar, hoje, no chamado trabalho de recolha?<\/strong><br \/>\nEsta hist\u00f3ria dos grupos de recolha \u00e9 uma mentirinha. Mesmo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Brigada, alguns elementos do grupo fizeram realmente algum trabalho de recolha no in\u00edcio da forma\u00e7\u00e3o \u2013 integrados, muitas vezes, em jornadas de trabalho com o Giacometti. O que se fez da\u00ed para a frente foi, sobretudo, ir buscar aos arquivos do Giacometti esp\u00e9cimes que nos pareciam interessantes. Hoje, vai-se buscar material aos cancioneiros, a pautas escritas, o que retira alguma autenticidade \u00e0 recolha. Por exemplo, o caso do violino que referi h\u00e1 pouco: um tipo ler aquilo na pauta deve ser diab\u00f3lico. E n\u00e3o lhe agarra a onda.<\/p>\n<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 468;\ngoogle_ad_height = 60;\ngoogle_ad_format = \"468x60_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p><strong>Em termos gerais, como se processa a sua rela\u00e7\u00e3o com a m\u00fasica tradicional?<\/strong><br \/>\nTenho sobretudo interesse pela m\u00fasica tradicional, naquilo que esta \u00e9 em termos de base de um universo sonoro a que n\u00f3s pertencemos. Sou tamb\u00e9m um curioso em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00fasica tradicional de outros pa\u00edses. H\u00e1 outra quest\u00e3o: um m\u00fasico de escola, normalmente, tem alguma dificuldade em improvisar. Na m\u00fasica tradicional, uma pessoa aprende a funcionar com os tons, a improvisar. Embora um improviso nunca muito arrojado do ponto de vista tem\u00e1tico ou harm\u00f3nico. Isso j\u00e1 vem depois com os m\u00fasicos de jazz. \u00c9 interessante verificar como um m\u00fasico de outra \u00e1rea, como o J\u00falio Pereira, \u00e9 dos melhores executantes de instrumentos tradicionais em Portugal. No nosso pa\u00eds, falta sobretudo escola \u2013 um problema que nunca foi equacionado em Portugal. Vemos os chamados grupos de raiz tradicional a utilizarem todos os instrumentos poss\u00edveis, acabando por agregar bateristas e baixistas, mas o que eles n\u00e3o fazem, de facto \u2013 e deveriam fazer -, era pegar em m\u00fasicos que fossem capazes de dominar os instrumentos tradicionais. Quando n\u00f3s, Brigada, vamos a Inglaterra tocar nos festivais de m\u00fasica tradicional, as pessoas gostam sobretudo \u00e9 das m\u00fasicas que est\u00e3o mais agarradas \u00e0 nossa raiz, n\u00e3o daquelas em que n\u00f3s mostramos algum arrojo no dom\u00ednio, por exemplo, de uma guitarra. Eles querem ouvir \u00e9 uma braguesa bem tocada, guitarras t\u00eam eles l\u00e1 com fartura.<\/p>\n<p><strong>O que falta, nesta \u00e1rea, aos m\u00fasicos portugueses?<\/strong><br \/>\nExiste pouco profissionalismo no desempenho do m\u00fasico: falta de ensaios mas tamb\u00e9m falta de escola. Pode encontrar-se, em Portugal, bons guitarristas, bons baixistas, bons bateristas, mas n\u00e3o se encontra bons braguesistas, grandes tocadores de gaita-de-foles, a sanfona s\u00f3 agora reapareceu. Deveria ser feita uma aposta na forma\u00e7\u00e3o em escola, em que se integrasse o m\u00fasico na t\u00e9cnica do instrumento e numa no\u00e7\u00e3o da m\u00fasica em geral, para que pudesse evoluir. J\u00e1 l\u00e1 vai o tempo em que funcion\u00e1vamos na base da rela\u00e7\u00e3o t\u00f3nica\/dominante. Considerava-se a m\u00fasica portuguesa aquilo da concertina para dentro e para fora. N\u00e3o \u00e9. A m\u00fasica portuguesa \u00e9 predominantemente modal. \u00c9 muito dif\u00edcil, hoje, abordar-se a m\u00fasica tradicional portuguesa sem essa parte do modalismo. E, para isso, \u00e9 preciso conhecer harmonia. Ali\u00e1s, estou agora a participar na grava\u00e7\u00e3o de um novo disco da N\u00e9 Ladeiras, sobre m\u00fasica de Tr\u00e1s-os-Montes, em que a maior parte dos m\u00fasicos \u00e9 de jazz. \u00c9 not\u00e1vel, ao n\u00edvel das solu\u00e7\u00f5es harm\u00f3nicas, aquilo que se tem arranjado. M\u00fasicos que nunca tiveram qualquer rela\u00e7\u00e3o com a m\u00fasica tradicional acabam por achar nela um campo de trabalho onde \u00e9 poss\u00edvel ir mais ao fundo.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o havendo escolas, no meio de tantas limita\u00e7\u00f5es, como consegue evoluir como m\u00fasico?<\/strong><br \/>\nO facto de dar aulas acaba por ensinar muito. Ter que resolver problemas t\u00e9cnicos e musicais, e debru\u00e7ar-se sobre obras de diversas maneiras faz desenvolver a pr\u00f3pria escola pessoal. Por outro lado, o report\u00f3rio cl\u00e1ssico oferece pistas brutais no campo da m\u00fasica tradicional. O Villa-Lobos era, se n\u00e3o me engano, quem dizia que o Bach era o m\u00fasico que acabou por centrar na sua m\u00fasica a m\u00fasica dos povos do mundo. E vou tamb\u00e9m evoluindo atrav\u00e9s daquilo que vou ouvindo.<\/p>\n<p><strong>Ouvindo o qu\u00ea?<\/strong><br \/>\nPor exemplo, um cat\u00e1logo interessant\u00edssimo, que \u00e9 o da ECM, os discos da Silex; muita chamada m\u00fasica cl\u00e1ssica, por causa da minha profiss\u00e3o; e, claro, m\u00fasica \u00e9tnica, que hoje est\u00e1 na moda. Em Moscovo, habituei-me a ouvir coisas de muitos lados, sobretudo da Am\u00e9rica Latina e da \u00c1sia, m\u00fasica vietnamita, coreana, chinesa. Havia coisas curiosas. Por exemplo, os vietnamitas eram tipos com uma dificuldade tremenda para perceber a tal quest\u00e3o da dominante\/t\u00f3nica, por que \u00e9 que uma dominante ia para a t\u00f3nica. O que se explica, porque o sistema musical deles n\u00e3o tem nada a ver com o sistema ocidental. Isto abriu-me uma janela. A nossa m\u00fasica n\u00e3o \u00e9 \u201ca verdade\u201d mas apenas um caminho sonoro.<\/p>\n<p><strong>Em rela\u00e7\u00e3o aos violinistas, a escola irlandesa poder\u00e1 ensinar alguma coisa aos m\u00fasicos portugueses?<\/strong><br \/>\nPenso que se pode aprender. Se n\u00f3s copiarmos os \u201cstandards\u201d dos irlandeses, acabamos por ganhar muito em rapidez, por exemplo. Em termos de desenvencilhamento mel\u00f3dico, eles arranjam solu\u00e7\u00f5es extremamente interessantes, em termos inclusivamente de manejo das escalas.<\/p>\n<p><strong>Ser\u00e1, ent\u00e3o, mais uma quest\u00e3o de \u201cgin\u00e1stica\u201d, n\u00e3o \u00e9 assim, e nunca uma c\u00f3pia da m\u00fasica em si?<\/strong><br \/>\nSim, todos os grupos da m\u00fasica portuguesa, incluindo a Brigada, passaram pela fase da celtiza\u00e7\u00e3o. Penso que a celtiza\u00e7\u00e3o \u00e9 uma coisa t\u00e3o m\u00e1 como a moda dos ranchos folcl\u00f3ricos, do sol-e-d\u00f3. Ao fim e ao cabo, \u00e9 importar algo que exerce sobre n\u00f3s um certo fasc\u00ednio e transport\u00e1-lo mecanicamente para a nossa m\u00fasica. Isto decorre de uma certa falta de ideias dos m\u00fasicos portugueses \u2013 falta de ideias que, por sua vez, decorre de um baixo profissionalismo do seu desempenho. Um homem, um m\u00fasico, s\u00f3 pode criar quando tem a cabe\u00e7a cheia de informa\u00e7\u00e3o. H\u00e1 m\u00fasicos extremamente mal formados na m\u00fasica portuguesa, alguns deles, inclusivamente, n\u00e3o sabem ler m\u00fasica, o que, \u00e0s vezes, chega a ser dito com certo orgulho. Um m\u00fasico popular pode n\u00e3o saber ler mas um m\u00fasico da cidade e da sua arena musical tem que saber ler \u2013 ler e estudar. J\u00e1 n\u00e3o se compreende que haja m\u00fasicos \u00e0 molhada a fazerem todos a mesma coisa. E isso faz-se. Na Brigada, tamb\u00e9m se faz. Quando se fica amarrado a fazer algo cinzentinho, para sair limpinho, isso n\u00e3o aponta caminho nenhum. \u00c9 por isso que, nos discos de m\u00fasica tradicional que chagam dos pa\u00edses em que est\u00e1 mais desenvolvida, se encontra m\u00fasicos com recursos brutais. O que encanta nesses discos \u00e9 a manipula\u00e7\u00e3o, o desempenho.<\/p>\n<p><strong>Enquanto professor de violino, procura despertar nos seus alunos o interesse pela m\u00fasica tradicional?<\/strong><br \/>\nUtilizo, nas aulas, alguns temas tradicionais portugueses, infantis, por exemplo. Os alunos mais novos, que movimentam ainda muito debilmente os dedos, podem tocar essas m\u00fasicas. Utilizo tamb\u00e9m algum report\u00f3rio estrangeiro. Trouxe, h\u00e1 pouco tempo, livros de Inglaterra, com escalas e harpejos, formas simples de tocar que s\u00e3o para os alunos extremamente estimulantes. Eles sentem-se logo a fazer m\u00fasica, at\u00e9 porque o seu universo sonoro inclui esses tipos de m\u00fasica, a irlandesa e a portuguesa. Toda a escola devia fazer isso e n\u00e3o faz.<\/p>\n<p><strong>* Violinista da Brigada Victor Jara e m\u00fasico convidado dos Realejo. Professor de violino no Conservat\u00f3rio de M\u00fasica de Coimbra. Encontra actualmente a gravar, com N\u00e9 Ladeiras, um \u00e1lbum desta cantora centrado na m\u00fasica tradicional de Tr\u00e1s-os-Montes.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>pop rock >> quarta-feira >> 22.06.1994 EM P\u00daBLICO MANUEL ROCHA * Qual foi o seu percurso como m\u00fasico? Comecei a estudar violino em Coimbra, como todos os mi\u00fados, em escolas particulares. Mais tarde, entrei na Brigada, era ainda pequenito, tinha 14 anos. 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