{"id":12073,"date":"2025-01-17T11:57:15","date_gmt":"2025-01-17T18:57:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=12073"},"modified":"2025-01-17T11:57:15","modified_gmt":"2025-01-17T18:57:15","slug":"julio-pereira-em-publico-entrevista-biografia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2025\/01\/17\/julio-pereira-em-publico-entrevista-biografia\/","title":{"rendered":"J\u00falio Pereira &#8211; &#8220;Em P\u00fablico&#8221; (entrevista | biografia)"},"content":{"rendered":"<p>pop rock >> quarta-feira >> 01.06.1994<\/p>\n<p><strong>EM P\u00daBLICO<\/strong><br \/>\n<center><br \/>\n<strong>J\u00daLIO PEREIRA<\/strong><br \/>\n<\/center><br \/>\n<center><br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/julioPereira.gif\" alt=\"\" width=\"681\" height=\"623\" class=\"alignnone size-full wp-image-12074\" \/><br \/>\n<\/center> <\/p>\n<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 250;\ngoogle_ad_height = 250;\ngoogle_ad_format = \"250x250_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p><strong>Nos seus discos, est\u00e1 sobretudo patente a sua faceta de compositor e arranjador, enquanto os espect\u00e1culos ao vivo o mostram, acima de tudo, como int\u00e9rprete. Por que raz\u00e3o nunca gravou um disco ao vivo?<\/strong><br \/>\nImaginemos que fa\u00e7o um disco baseado num instrumento, como o cavaquinho, que \u00e9 acompanhado por v\u00e1rios instrumentos. Isso representa que, se eu quisesse tocar este ou aquele tema ao vivo, teria, ou quereria ter, esses instrumentos que achei por bem, por motivos est\u00e9ticos, no palco. Mas, depois, p\u00f5e-se a velha interroga\u00e7\u00e3o: quem \u00e9 que tem escola de m\u00fasica popular, sendo profissional, que me acompanhe neste ou naquele tema? Ao longo destes anos, vivi sempre uma dificuldade. Baseio-me num determinado tipo de m\u00fasica que parte de refer\u00eancias \u00e9tnicas; depois, vou aprender a tocar este ou aquele instrumento, fa\u00e7o as combina\u00e7\u00f5es entre eles, os arranjos, etc. Quando chega a altura de concretizar isto em termos reais, ou seja, em termos humanos, chego \u00e0 conclus\u00e3o de que n\u00e3o h\u00e1 pessoas que fa\u00e7am, que toquem com aquela ironia com que eu toquei determinado instrumento em determinado disco.<\/p>\n<p><strong>Mas por que \u00e9 que os espect\u00e1culos t\u00eam que ser uma reprodu\u00e7\u00e3o dos discos? N\u00e3o consegue separar as duas coisas?<\/strong><br \/>\nAcabam por ser vers\u00f5es dos temas que utilizo em disco, vamos sempre dar ao mesmo ponto. Eu s\u00f3 posso tocar bem se estiver acompanhado da mesma maneira que foi composta e arranjada no disco.<\/p>\n<p><strong>Quer dizer que tocaria ainda melhor ao vivo se tivesse acompanhantes \u00e0 altura?<\/strong><br \/>\n\u00c9 evidente. Ao longo dos anos, tenho tentado isso. Por exemplo, neste momento, a parelha que fa\u00e7o nas cordas com o Z\u00e9 Carrapa \u00e9 algo que eu sei que vai resultar em outras coisas no futuro. \u00c9 um fulano que, por acaso, at\u00e9 \u00e9 da minha gera\u00e7\u00e3o, que toca muito bem cordas e que se est\u00e1 a colar cada vez mais \u00c0 maneira como eu fa\u00e7o m\u00fasica.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o haver\u00e1, nessa posi\u00e7\u00e3o, em que s\u00e3o sempre os outros m\u00fasicos a terem de ir ter consigo, uma certa dose de egocentrismo?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o acredito em solu\u00e7\u00f5es de compromisso. J\u00e1 fui acompanhante de muitos m\u00fasicos \u2013 uma coisa que eu gosto sempre de ser \u2013 e, quando vou acompanhar algu\u00e9m, tenho que compreender a maneira como \u00e9 o outro e a sua m\u00fasica. Quem quiser tocar comigo tem que entender a minha.<\/p>\n<p><strong>Um dos aspectos j\u00e1 conhecidos do seu pr\u00f3ximo \u00e1lbum \u00e9 que, pela primeira vez na sua discografia, ser\u00e1 totalmente ac\u00fastico. Que motivos levaram a esta mudan\u00e7a?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o sei. O prazer, talvez\u2026 Mas \u00e9 \u00f3bvio que o espect\u00e1culo do S. Luiz, no ano passado, era j\u00e1 um passo que prenunciava esta mudan\u00e7a\u2026<\/p>\n<p><strong>Em \u00e1lbuns anteriores, deu \u00eanfase a determinados instrumentos: o cavaquinho, a braguesa, o bandolim. Vai continuar a ser assim?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o, isso n\u00e3o acontece neste disco. N\u00e3o quis estar ligado a instrumento nenhum. Foram os instrumentos que me apeteceu tocar e ponto final.<\/p>\n<p><strong>Esse seu interesse, em \u00e1lbuns anteriores, em valorizar determinados instrumentos prende-se com alguma inten\u00e7\u00e3o did\u00e1ctica?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o exactamente. No \u201cCavaquinho\u201d, foi por causa de um arranjo para o Zeca, num tema, segundo creio, chamado \u201cO Cabral fugiu para Espanha\u201d. Era necess\u00e1ria a sonoridade de um cavaquinho e aprendi com o Pedro Caldeira Cabral; mais tarde, com os tocadores populares do Minho. Com \u201cBraguesa\u201d, foi que, quando estava a fazer o pr\u00f3prio \u201cCavaquinho\u201d, ao ir l\u00e1 acima, a Braga, conheci um construtor, tomei contacto com as braguesas e comecei a achar piada a este instrumento. Mal acabei o \u201cCavaquinho\u201d, peguei na braguesa. A hist\u00f3ria do bandolim \u00e9 mais conhecida, pois toco-o desde mi\u00fado, bem como a guitarra, nos tempos em que fui m\u00fasico de rock.<\/p>\n<p><strong>Curiosamente a guitarra nunca foi muito utilizada nos seus discos\u2026<\/strong><br \/>\nNo novo disco, h\u00e1 uma s\u00e9rie de temas com guitarra \u2013 um pouco por mero acaso. O dono de uma loja de m\u00fasica teve a gentileza de me oferecer uma guitarra, daquelas hiperboas. Achei piada a ter uma guitarra nova e acabei por compor nela alguns temas.<\/p>\n<p><strong>Normalmente todos os seus discos obedecem a um conceito. O novo disco tamb\u00e9m?<\/strong><br \/>\nA ideia do novo disco \u00e9 o som. O som inerente a cada instrumento que toco. N\u00e3o o som de uma t\u00e9cnica espec\u00edfica, mas o som que cada um deles pode oferecer. Por exemplo, h\u00e1 um tema que fiz na guitarra onde senti a necessidade de um ritmo. Experimentei primeiro com duas folhas de papel esfregadas na m\u00e3o, mas n\u00e3o gostei. De repente, lembrei-me de fazer esse ritmo esfregando longitudinalmente nas cordas. Saiu um som como nunca tinha ouvido. Este disco resulta muito deste tipo de procura.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o existe o perigo de ficar demasiado dependente dos instrumentos? D\u00e1 ideia que \u00e9 sempre o instrumento a ditar leis ao int\u00e9rprete e n\u00e3o o contr\u00e1rio\u2026<\/strong><br \/>\nEis uma maneira de explicar por que \u00e9 que este disco \u00e9 diferente dos anteriores. \u201cCavaquinho\u201d, \u201cBraguesa\u201d e \u201cO Meu Bandolim\u201d foram feitos, de facto, dessa maneira, ou seja, fui \u00e0 procura do som deles atrav\u00e9s das t\u00e9cnicas tradicionais ou do que quer que seja \u2013 e, neste disco, fiz ao contr\u00e1rio. N\u00e3o vai haver refer\u00eancias directas \u00e0 m\u00fasica tradicional daqui ou dali, dadas por este ou por aquele instrumento. Um afastamento que julgo ser importante. \u00c9 como em alguns pintores: todos aqueles que come\u00e7am baseados numa refer\u00eancia directa a algo, \u00e0 medida que o tempo passa, v\u00e3o-se inevitavelmente afastando do ponto de origem, ou seja, naquilo em que se basearam para come\u00e7ar a pintar. Enquanto, nos meus discos anteriores, h\u00e1 uma teimosia minha, com um certo ar did\u00e1ctico, assumo, neste disco estive-me marimbando para isso.<\/p>\n<p><strong>Pode particularizar os termos desse lado did\u00e1ctico?<\/strong><br \/>\nA curiosidade em rela\u00e7\u00e3o aos instrumentos que toco levou-me a ler livros que nunca tinha lido, a ir a bibliotecas onde nunca tinha entrado, a falar com music\u00f3logos e etn\u00f3logos com quem nunca tinha falado. Foram experi\u00eancias. Ao gravar um disco com um determinado instrumento, \u00e9 evidente que quero l\u00e1 meter estas experi\u00eancias. N\u00e3o quero, com isto, dizer que sou music\u00f3logo\u2026 Sou simplesmente um m\u00fasico curioso.<\/p>\n<p><strong>Como encara a utiliza\u00e7\u00e3o do cavaquinho na quase totalidade dos grupos de m\u00fasica de raiz tradicional?<\/strong><br \/>\nVivemos no pa\u00eds em que vivemos. As pessoas tocam da maneira que sabem e aprendem. Chega-se a uma aldeia qualquer e est\u00e1 um fulano a tocar mal um instrumento. O que \u00e9 que se lhe vai dizer? Ele toca aquilo que lhe ensinaram. Temos que criticar o sistema todo, um pa\u00eds que ainda n\u00e3o tem uma escola metodol\u00f3gica ligada \u00e0 educa\u00e7\u00e3o no que toca \u00e0 aprendizagem da m\u00fasica. Todos n\u00f3s aprendemos e, de repente, temos vinte e um anos, somos maiores e vacinados, e ainda desconhecemos o pa\u00eds, a nossa m\u00fasica, os instrumentos, desconhecemos, em suma, toda a interliga\u00e7\u00e3o poss\u00edvel entre todas estas coisas.<\/p>\n<p><strong>O seu estatuto de multi-instrumentista aliado a alguma da sua m\u00fasica fazem de si uma esp\u00e9cie de Mike Oldfield portugu\u00eas\u2026<\/strong><br \/>\nJ\u00e1 me chamaram isso, em tempos. Hoje, \u00e9 rid\u00edculo, at\u00e9 porque o Mike Oldfield se perdeu em termos musicais. Mas somos da mesma gera\u00e7\u00e3o e o Mike Oldfield tem uma coisa id\u00eantica a mim, ou vice-versa, que \u00e9 termos come\u00e7ado no rock e termos afinidades com a m\u00fasica tradicional dos nossos pa\u00edses. A verdade \u00e9 que el, como o Alan Stivell, est\u00e1 a seguir por um caminho que j\u00e1 n\u00e3o se sabe muito bem qual \u00e9 e eu n\u00e3o quero seguir por esse caminho.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 alguma continuidade, um fio condutor, na sua obra?<\/strong><br \/>\nH\u00e1 uma coisa em comum e de terrivelmente teimosa: a procura de coisas que est\u00e3o inequivocamente ligadas a refer\u00eancias que t\u00eam a ver com o nosso passado e, a partir delas, tentar criar atmosferas. Com ou sem electr\u00f3nica.<\/p>\n<p><strong>Mant\u00e9m alguma liga\u00e7\u00e3o com o campo?<\/strong><br \/>\nSou terrivelmente urbano mas tenho necessidade do campo. Saio constantemente de Lisboa, n\u00e3o suporto viver o ano inteiro em Lisboa. De h\u00e1 doze anos a esta parte, vou com frequ\u00eancia a Braga.<\/p>\n<p><strong>A Galiza tem influ\u00eancia na sua m\u00fasica?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o sinto influ\u00eancia em termos musicais, mas sinto uma grande influ\u00eancia em termos humanos.<\/p>\n<p><strong>Consideram-no l\u00e1 quase um her\u00f3i\u2026<\/strong><br \/>\n\u00c9\u2026 e h\u00e1 programas de r\u00e1dio com indicativos meus. N\u00e3o sei explicar mas a Galiza, deixemo-nos de coisas, \u00e9 uma regi\u00e3o espec\u00edfica; para mim, j\u00e1 nem sequer \u00e9 Espanha e tem sempre mostrado uma grande e impressionante afinidade connosco. Houve, inclusive, um grande n\u00famero de espect\u00e1culos que fiz l\u00e1 com o Fausto e com o Zeca \u2013 a quem fizeram, de resto, posteriormente, uma s\u00e9rie de homenagens.<\/p>\n<p><strong>Por falar em Jos\u00e9 Afonso, com quem privou e tocou durante muito tempo: n\u00e3o acha estranho n\u00e3o o terem convidado para participar no disco \u201cFilhos da Madrugada\u201d?<\/strong><br \/>\nAchei estranho, de facto. Foi-me explicado, n\u00e3o por Manuel Faria, que j\u00e1 n\u00e3o vejo h\u00e1 anos, que era um disco s\u00f3 de grupos\u2026 \u00c9 um crit\u00e9rio que n\u00e3o faz nenhum sentido.<\/p>\n<p><strong>* Compositor, arranjador e multi-instrumentista. Recuperou e divulgou instrumentos de corda portugueses, como o cavaquinho e a viola braguesa, em \u00e1lbuns que lhes foram dedicados. Acabou de realizar uma digress\u00e3o pela \u00c1ustria e prepara o lan\u00e7amento, em Setembro ou Outubro, de um novo \u00e1lbum de m\u00fasica exclusivamente ac\u00fastica, com as colabora\u00e7\u00f5es das cantoras Maria Jo\u00e3o e Filipa Pais.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>pop rock >> quarta-feira >> 01.06.1994 EM P\u00daBLICO J\u00daLIO PEREIRA Nos seus discos, est\u00e1 sobretudo patente a sua faceta de compositor e arranjador, enquanto os espect\u00e1culos ao vivo o mostram, acima de tudo, como int\u00e9rprete. Por que raz\u00e3o nunca gravou um disco ao vivo? Imaginemos que fa\u00e7o um disco baseado num instrumento, como o cavaquinho, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2643,1069,138,3124,1070,179,14,28,379,1235,50,229,24,68],"tags":[1101],"class_list":["post-12073","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-fotobiografia","category-artigos-1994","category-cantautor","category-em-publico","category-entrevistas-1994","category-etno","category-experimental","category-folk","category-folk-rock","category-fusao","category-instrumental","category-mpp","category-portugueses","category-world","tag-julio-pereira"],"views":725,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12073","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12073"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12073\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12075,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12073\/revisions\/12075"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12073"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12073"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12073"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}