{"id":12002,"date":"2024-12-02T09:15:08","date_gmt":"2024-12-02T16:15:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=12002"},"modified":"2024-12-02T09:15:08","modified_gmt":"2024-12-02T16:15:08","slug":"amelia-muge-em-publico-entrevista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2024\/12\/02\/amelia-muge-em-publico-entrevista\/","title":{"rendered":"Am\u00e9lia Muge &#8211; &#8220;Em P\u00fablico&#8221; (entrevista)"},"content":{"rendered":"<p>pop rock >> quarta-feira >> 26.01.1994<br \/>\n<center><br \/>\n<strong>AM\u00c9LIA MUGE *<br \/>\nEM P\u00daBLICO<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/amelia-muge.jpg\" alt=\"\" width=\"559\" height=\"398\" class=\"alignnone size-full wp-image-12003\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/amelia-muge.jpg 559w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/amelia-muge-300x214.jpg 300w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/amelia-muge-100x71.jpg 100w\" sizes=\"auto, (max-width: 559px) 100vw, 559px\" \/><br \/>\n<\/center><br \/>\n<strong>Aguarda-se com grande expectativa o seu pr\u00f3ximo \u00e1lbum. Jos\u00e9 Martins vai, como no anterior, tomar as r\u00e9deas do poder ou haver\u00e1, desta vez, maior controlo da sua parte?<br \/>\nNunca tenho a sensa\u00e7\u00e3o de que estou a dirigir as opera\u00e7\u00f5es. At\u00e9 mesmo quando componho, sinto sempre que h\u00e1 interfer\u00eancias, em concreto dos pr\u00f3prios materiais que est\u00e3o em jogo. S\u00e3o eles que se imp\u00f5em e me arrastam. O novo disco, \u00e9 evidente, reflecte muito mais um di\u00e1logo e a evolu\u00e7\u00e3o natural desse di\u00e1logo. Tenho muitas coisas que come\u00e7aram por ser tocadas de uma certa maneira e que, neste momento, j\u00e1 est\u00e3o a ser tocadas de outra. \u00c9 um disco que reflecte uma caminhada, bastante mais do que o outro.<\/strong><\/p>\n<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 300;\ngoogle_ad_height = 250;\ngoogle_ad_format = \"300x250_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p><strong>Quais s\u00e3o as etapas principais dessa caminhada?<\/strong><br \/>\nO papel individual de cada um no colectivo que representa este disco [Jos\u00e9 Martins, Lu\u00eds S\u00e1-Pessoa] est\u00e1 mais bem definido, sentimo-nos os tr\u00eas melhores na nossa individualidade. O novo disco vai ter coisas compostas h\u00e1 muitos anos, em Mo\u00e7ambique, as coisas novas misturam-se com as antigas. Um dos grandes defeitos, mais do que virtudes, de uma pessoa como eu \u2013 \u00e9 esta de dizer: \u201cSer\u00e1 que vou conseguir meter nesta leva aquela e aquela can\u00e7\u00e3o que ficaram de fora e que eu gostava de aproveitar?\u201d Estou sempre insatisfeita porque tenho imenso material e, muitas vezes, a selec\u00e7\u00e3o continua a n\u00e3o depender de mim. De repente, ponho qualquer coisa c\u00e1 para fora e o interesse das pessoas \u00e9 t\u00e3o grande que a can\u00e7\u00e3o acaba por se impor, sem que haja uma selec\u00e7\u00e3o criteriosa minha. Mas isso \u00e9 bom.<\/p>\n<p><strong>Em que estado se encontra a sua liga\u00e7\u00e3o com a m\u00fasica tradicional? Est\u00e1 j\u00e1 confirmada a sua participa\u00e7\u00e3o no festival Interc\u00e9ltico deste ano\u2026<\/strong><br \/>\nN\u00e3o sei muito bem o que \u00e9 a m\u00fasica tradicional. Sei que n\u00e3o tem a ver com formalismos mas mais com atitudes, com aproxima\u00e7\u00f5es que ultrapassam as pr\u00f3prias morfologias musicais. Para mim, a import\u00e2ncia do Interc\u00e9ltico tem exactamente a ver com isto: por um lado, com esse esp\u00edrito aberto que n\u00f3s, ao longo da hist\u00f3ria, nos habitu\u00e1mos a encontrar nos celtas, embora depois existam certos povos, como a Irlanda, que acabaram por transformar essa m\u00fasica num s\u00edmbolo de resist\u00eancia e, a\u00ed, ela acaba por cristalizar em termos formais. Mas, regra geral, o esp\u00edrito da m\u00fasica tradicional \u00e9 de grande abertura e troca de experi\u00eancias. H\u00e1 muita coisa que as pessoas n\u00e3o se habituaram a ver dentro do tradicional, como sejam novos temas, novas sonoridades, novos m\u00e9todos de se trabalhar, muita coisa que ir\u00e1 fazer parte, no futuro, do patrim\u00f3nio tradicional.<\/p>\n<p><strong>At\u00e9 que ponto o seu estilo vocal incorpora elementos e t\u00e9cnicas do canto tradicional?<\/strong><br \/>\nMais, se calhar, que o canto tradicional, o canto das pessoas que cantam. Por exemplo, nas Janeiras, em que se verifica a pr\u00e1tica de cantar em conjunto, de estarmos ao lado a ouvir a voz do outro, sem ser atrav\u00e9s do disco nem da r\u00e1dio. A ideia de coro \u00e9 fundamental para o canto individual. Quando ou\u00e7o a voz de um homem ou de uma mulher a cantar nas Janeiras, n\u00e3o poso deixar de ver, por tr\u00e1s, um av\u00f4 que ensinou aquilo \u00e0quela pessoa, um passado que \u00e9 familiar antes de ser social, do testemunho de estar vivo que passa pela can\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 essa sua sensibilidade ao canto comunit\u00e1rio que est\u00e1 na base da forma\u00e7\u00e3o do projecto de vozes femininas Agrupa?<\/strong><br \/>\nPois, que eu n\u00e3o queria que fosse o \u201cmeu\u201d projecto. Acho que s\u00f3 pode haver um projecto quando h\u00e1 materiais, coisas concretas a partir das quais se pode trabalhar. Isso \u00e9 uma coisa que eu j\u00e1 tinha. Tenho certas coisas que nunca cantarei sozinha, que t\u00eam a ver com um colectivo de vozes. Por outro lado, n\u00e3o sei se por estar h\u00e1 demasiado tempo deligada disso que \u00e9 ouvir outras vozes a cantarem em conjunto, vozes atr\u00e1s da porta como se ouvia em Mo\u00e7ambique, sinto muita falta desse lado. A primeira vez que voltei a sentir de novo isso foi quando estava em casa de uma amiga, na Gra\u00e7a, e ouvi pessoas a ensaiarem as marchas populares de Lisboa. Afinal, h\u00e1 gente que canta! Isto para mim \u00e9 fundamental. Por outro lado, a pr\u00f3pria pr\u00e1tica de cantar a v\u00e1rias vozes, talvez porque componho muito com a voz, \u00e9 que me permite chegar aos instrumentos de uma outra maneira. H\u00e1, pois, tamb\u00e9m quest\u00f5es de aprendizagem. Se os processos s\u00e3o ricos, d\u00e3o produtos ricos.<\/p>\n<p><strong>V\u00e3o ser s\u00f3 a Am\u00e9lia Muge, a Margarida Antunes e a Cristina Antunes?<\/strong><br \/>\nPara j\u00e1, somos o n\u00facleo duro. Gostar\u00edamos muito de encontrar outras pessoas na mesma onda. Por exemplo, pessoas como a Filipa Pais, a Minela, a Teresa Salgueiro ou a Maria Jo\u00e3o. Inclusive, j\u00e1 fal\u00e1mos. Na teoria, tanto a Jo\u00e3o como a Filipa disseram que sim. S\u00f3 que t\u00eam surgido problemas de ordem pr\u00e1tica\u2026 Enquanto eu, a Cristina e a Guida nos encontramos uma vez por semana, n\u00e3o s\u00f3 para cantarmos como para fazermos exerc\u00edcios respirat\u00f3rios, vocais\u2026 Para j\u00e1, estamos as tr\u00eas a pensar propor um trabalho de conjunto para Lisboa, Capital da Cultura, que seria um espect\u00e1culo ao vivo. J\u00e1 temos um report\u00f3rio de seis can\u00e7\u00f5es, compostas por mim, com letras minhas e duas da H\u00e9lia Correia. Tencionamos tamb\u00e9m ir buscar coisas do Lopes Gra\u00e7a, do Zeca, n\u00e3o ser\u00e3o s\u00f3 originais.<\/p>\n<p><strong>Passemos a uma quest\u00e3o delicada, relativa \u00e0 UPAV e ao modo como foi distribu\u00eddo e promovido o seu \u00e1lbum de estreia, \u201cM\u00fagica\u201d, que desapareceu do mercado depois de uma primeira edi\u00e7\u00e3o esgotada em poucos dias\u2026<\/strong><br \/>\nO disco, de que foi feita apenas uma primeira edi\u00e7\u00e3o de 2000 exemplares, est\u00e1 esgotad\u00edssimo, \u00e9 verdade. Na altura em que se estava a pensar fazer uma segunda edi\u00e7\u00e3o, surgiram os problemas da suspens\u00e3o de toda a actividade editorial da UPAV. Os dois mil exemplares editados s\u00e3o, de facto, um n\u00famero muito baixo, que teve a ver com conten\u00e7\u00e3o de despesas e com uma sondagem de mercado. Mas, a partir do momento em que o disco esgotou\u2026 E quem vendeu mais foram os armaz\u00e9ns, o Serafim, da Movieplay (ver p\u00e1gina 4 deste suplemento); e, se vendeu, foi porque as discotecas o procuraram\u2026<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o se sente frustrada por o disco ter chegado a t\u00e3o poucas pessoas?<\/strong><br \/>\nH\u00e1 sempre a hip\u00f3tese de nos tornarmos profissionais da frustra\u00e7\u00e3o, o que, neste pa\u00eds, \u00e9 muito comum. \u00c0s vezes penso at\u00e9 que as pessoas t\u00eam um certo gosto em estar frustradas, por acharem que ficam mais interessantes. Tudo aquilo que possa ter corrido menos bem em rela\u00e7\u00e3o ao disco n\u00e3o elimina o facto de a UPAV ter apostado na grava\u00e7\u00e3o quando nenhuma editora quis pegar no disco; como n\u00e3o elimina a import\u00e2ncia que tudo isso teve para mim no determinar de um certo tipo de op\u00e7\u00f5es que eu fui tomando, que me permitiram, no fundo, fazer aquilo que quero que \u00e9 estar a trabalhar mais na m\u00fasica. Considero que o processo em si, da feitura do disco, foi extremamente positivo. Sobre o lado que tem mais a ver com a venda, fica, apesar de tudo, em aberto a hip\u00f3tese, no caso de o pr\u00f3ximo disco vender bem, de ser feita a reedi\u00e7\u00e3o do primeiro. Vamos at\u00e9 imaginar que tinha sido feita uma edi\u00e7\u00e3o de 10 mil exemplares e tivesse apenas vendido mil. Nesse caso, estaria muito pior do que estou neste momento, em que sei que n\u00e3o h\u00e1 um \u00fanico disco c\u00e1 fora.<\/p>\n<p><strong>Hoje, que o seu nome se tornou j\u00e1 mais conhecido, mudou alguma coisa na atitude das editoras em rela\u00e7\u00e3o a si? O pr\u00f3ximo disco j\u00e1 tem editora?<\/strong><br \/>\nEm rela\u00e7\u00e3o ao novo \u00e1lbum, estou ainda na fase de selec\u00e7\u00e3o dos temas. Tenho um bocado de dificuldade em me situar em rela\u00e7\u00e3o a isso. Para mim, as editoras n\u00e3o s\u00e3o um todo homog\u00e9neo. Estou a seguir com o maior interesse o actual movimento das pequenas editoras independentes. Gosto pouco da palavra coer\u00eancia, se coer\u00eancia tem a ver com qualquer coisa de muito certinho, isto assim porque liga com aquilo. Uma das coisas que me d\u00e1 enorme gozo \u00e9 encontrar liga\u00e7\u00f5es insuspeitadas. E at\u00e9 sou capaz de chegar \u00e0 conclus\u00e3o de que tenho muito a ver com uma multinacional\u2026<\/p>\n<p><strong>Ser\u00e1 que certas resist\u00eancias postas pela ind\u00fastria \u00e0 sua m\u00fasica se prendem com a sua intransig\u00eancia, com a exig\u00eancia de imposi\u00e7\u00e3o de regras pr\u00f3prias?<\/strong><br \/>\nMas se tamb\u00e9m a ind\u00fastria \u00e9 dif\u00edcil para as pessoas! A\u00ed estamos iguais! \u00c9 preciso ter muita for\u00e7a para encontrar a voz interior que toda a gente deve ter. E se n\u00e3o tem \u00e9 porque estamos numa \u00e9poca onde se entende a comunica\u00e7\u00e3o apenas pelo lado de fora. Temos de comunicar e de pactuar com tanta coisa que, a certa altura, fica pouco espa\u00e7o para comunicar connosco mesmos. E isso eu considero essencial. Mas n\u00e3o acho que seja uma pessoa intransigente, pelo contr\u00e1rio. Considero sempre qualquer proposta, seja ela qual for, a mais maluca ou que aparentemente n\u00e3o tenha nada a ver comigo, como um desafio,<\/p>\n<p><strong>* Cantora e compositora. Prepara o lan\u00e7amento do projecto de vozes femininas Agrupa e de um novo \u00e1lbum a solo, cujo report\u00f3rio ser\u00e1 apresentado parcialmente nos tr\u00eas espect\u00e1culos ao vivo de amanh\u00e3, sexta e s\u00e1bado no Instituto Franco-Portugu\u00eas<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>pop rock >> quarta-feira >> 26.01.1994 AM\u00c9LIA MUGE * EM P\u00daBLICO Aguarda-se com grande expectativa o seu pr\u00f3ximo \u00e1lbum. Jos\u00e9 Martins vai, como no anterior, tomar as r\u00e9deas do poder ou haver\u00e1, desta vez, maior controlo da sua parte? Nunca tenho a sensa\u00e7\u00e3o de que estou a dirigir as opera\u00e7\u00f5es. 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