{"id":11915,"date":"2024-10-09T03:54:38","date_gmt":"2024-10-09T10:54:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=11915"},"modified":"2024-10-09T03:54:38","modified_gmt":"2024-10-09T10:54:38","slug":"luis-cilia-em-publico-dossier","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2024\/10\/09\/luis-cilia-em-publico-dossier\/","title":{"rendered":"Lu\u00eds C\u00edlia &#8211; &#8220;Em P\u00fablico&#8221; (dossier)"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 250;\ngoogle_ad_height = 250;\ngoogle_ad_format = \"250x250_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p>pop rock >> quarta-feira, 22.12.1993<br \/>\n<center><br \/>\n<strong>LU\u00cdS C\u00cdLIA *<br \/>\nEM P\u00daBLICO<\/strong><br \/>\n<\/center><\/p>\n<p><center><br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/LUIScILIA1.jpg\" alt=\"\" width=\"613\" height=\"444\" class=\"alignnone size-full wp-image-11916\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/LUIScILIA1.jpg 613w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/LUIScILIA1-300x217.jpg 300w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/LUIScILIA1-100x72.jpg 100w\" sizes=\"auto, (max-width: 613px) 100vw, 613px\" \/><br \/>\n<\/center> <\/p>\n<p>J\u00e1 por diversas ocasi\u00f5es referiu o medo que sentia em tocar ao vivo. Nunca conseguiu libertar-se dele?<br \/>\n&#8211; \u00c9 uma coisa que nasce com as pessoas. H\u00e1 aqueles, como eu, que h\u00e3o-de ter medo sempre. Os franceses chamam-lhe \u201ctrac\u201d. O Ferr\u00e9 tinha. No meu caso, \u00e9 daquelas coisas um bocado inexplic\u00e1veis porque, apesar do pavor que tinha do palco \u2013 tinha que ir para as salas duas horas antes e n\u00e3o largava a guitarra, a rememorar as can\u00e7\u00f5es e a fazer escalas, um estado de nervos enorme -, quando estava no palco e o espect\u00e1culo corria bem, claro que sentia um grande prazer. E n\u00e3o era s\u00f3 no palco. Dois dias antes j\u00e1 estava nervoso. Voltei a tocar h\u00e1 pouco tempo, excepcionalmente, para uma homenagem ao cantor catal\u00e3o Raimon, e andei um m\u00eas s\u00f3 a tocar duas coisas. Foi para um espect\u00e1culo directo na televis\u00e3o, num s\u00edtio com 19 mil pessoas, em Barcelona, andei em p\u00e2nico. Entraram o Paco Ibanez, o Pete Seeger, o Ferrat, o Pi de la Serra, o Daniel Viglietti\u2026<\/p>\n<p>N\u00e3o encara a hip\u00f3tese de voltar a actuar ao vivo?<br \/>\n&#8211; No estado em que est\u00e1 actualmente o aspecto cultural e, sobretudo, dos espect\u00e1culos em Portugal, n\u00e3o me d\u00e1 grande vontade de voltar. Quando regressei de Fran\u00e7a tentei instituir, em vez de fazer um grande espect\u00e1culo por ano, alugar uma sala por dez, quinze dias, como fiz h\u00e1 alguns anos na Comuna e no Teatro Aberto, e no porto, no TEP. O problema \u00e9 que em Portugal se prepara um espect\u00e1culo e depois fazemos em Lisboa, no Porto, talvez em Coimbra, e depois ficamos \u00e0 espera\u2026 \u00c9 pouco gratificante. Ainda agora, por exemplo, vi os espect\u00e1culos do S\u00e9rgio no S\u00e3o Luiz, de que gostei muito, e pronto, depois fica-se \u00e0 espera que algu\u00e9m convide para um, depois para outro, n\u00e3o h\u00e1 uma continuidade que permita fazer uma \u201ctourn\u00e9e\u201d durante seis meses seguidos, em pequenas cidades. Quando vivia em Fran\u00e7a, ia por exemplo \u00e0 Bretanha e fazia quinze espect\u00e1culos em salas pequenas. Era o que eu gostaria de fazer c\u00e1, nem que fosse para tocar para 30 ou 40 pessoas, mas com continuidade.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dessa, houve outras raz\u00f5es que o tenham levado a abandonar os espect\u00e1culos ao vivo?<br \/>\n&#8211; N\u00e3o foi uma decis\u00e3o que tivesse tomado de repente. De facto, de cada vez em que preparava espect\u00e1culos, havia m\u00fasicos que colaboravam e ensaiavam comigo em minha casa durante uns dois meses, os \u00faltimos dos quais foram o Ant\u00f3nio Ferro e, se n\u00e3o me engano, o Jos\u00e9 Peixoto. Claro, n\u00e3o podia pagar-lhes os ensaios. Cada vez era mais angustiante n\u00e3o haver a tal continuidade. Por outro lado, comecei a ter convites para compor, na \u00e1rea do bailado, o que me tomava bastante tempo. Comecei tamb\u00e9m a dedicar-me \u00e0 inform\u00e1tica. Tive que fazer uma escolha.<\/p>\n<p>Ainda h\u00e1 muita gente que associa o seu nome ao m\u00fasico de interven\u00e7\u00e3o, sem referir o compositor. Ter-se-\u00e1 dado o caso de um excessivo envolvimento ao n\u00edvel partid\u00e1rio, em concreto com o PCP, para quem comp\u00f4s, ali\u00e1s, o hino do partido.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o posso fazer nada quanto a isso. Em Portugal h\u00e1 uma certa in\u00e9rciamental demuita gente em tentar conhcer as v\u00e1rias facetas de um compositor. As pessoas ficam \u00e0 espera que lhes tragam a papinha toda feita e n\u00e3o querm saber o trajecto de um determinado m\u00fasico. O que eu fa\u00e7o actualmente \u00e9 composi\u00e7\u00e3o. Agora se isso chega ou n\u00e3o ao conhecimento das pessoas, ou se leas continuam com a imagem do baladeiro de metralhadora em punho\u2026 Sobre o tema do \u201cAvante\u201d, \u00e9 muito simples: um dia estava em casa e o Carlos Antunes, um funcion\u00e1rio do PC, chegou ao p\u00e9 de mim e pediu-me para fazer uma m\u00fasica para passar na r\u00e1dio clandestina, que tivesse um certo impacto. Fiz aquilo em quatro ou cinco dias, acho que n\u00e3o tem valor nenhum, era uma coisa imediatista, entreguei a pauta ao Carlos Antunes e nunca mais pensei nisso, nem sequer sei a letra. N\u00e3o \u00e9 que renegue o que fa\u00e7o. Mas o trajecto que essa can\u00e7\u00e3o teve depois disso j\u00e1 me ultrapassou.<\/p>\n<p><center><br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/LUIScILIA2.jpg\" alt=\"\" width=\"178\" height=\"227\" class=\"alignnone size-full wp-image-11917\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/LUIScILIA2.jpg 178w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/LUIScILIA2-78x100.jpg 78w\" sizes=\"auto, (max-width: 178px) 100vw, 178px\" \/><br \/>\n<\/center> <\/p>\n<p>Consegue situar o ponto de viragem na sua carreira?<br \/>\nQuando estudei composi\u00e7\u00e3o, estudei os cl\u00e1ssicos. Como comecei tarde, utilizei um m\u00e9todo um bocado r\u00e1pido de estudar harmonia e contraponto, o m\u00e9todo de Schoenberg. Sempre me interessei pela m\u00fasica cl\u00e1ssica. Dos cerca de 4000 discos que possuo, metade s\u00e3o de m\u00fasica cl\u00e1ssica. E tive li\u00e7\u00f5es de guitarra de jazz com o Carlos Menezes. A can\u00e7\u00e3o foi, em Fran\u00e7a, o meio que tinha para me exprimir naquela altura, de uma forma pol\u00edtica e directa.<\/p>\n<p>N\u00e3o gostaria de retomar o formato de can\u00e7\u00e3o? Abandonou de todo a faceta intervencionista, mesmo fazendo-o por outras vias musicais?<br \/>\n&#8211; A minha interven\u00e7\u00e3o agora \u00e9 mais emotiva. Politicamente, neste momento, n\u00e3o tenho nenhuma interven\u00e7\u00e3o. Porque n\u00e3o sou solicitado nesse sentido e porque o quadro pol\u00edtico portugu\u00eas neste momento deixa-me um bocado indiferente. O que n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o me continue a sentir uma pessoa de esquerda.<\/p>\n<p>Essa indiferen\u00e7a n\u00e3o pressup\u00f5e um certo comodismo?<br \/>\n&#8211; Como dizia o J\u00f4 Soares: amancebei-me [risos]. N\u00e3o, penso que n\u00e3o. Estou desperto para o que se passa e folgo com as vit\u00f3rias das for\u00e7as progressistas, sejam elas quais forem. Mas n\u00e3o sou interveniente, n\u00e3o vou cantar a campanhas\u2026 Tamb\u00e9m ningu\u00e9m me pede!&#8230;<\/p>\n<p>Se pedissem, intervinha?<br \/>\n&#8211; Depende\u2026 Se fosse absolutamente necess\u00e1rio, era capaz de intervir. Por exemplo, achei que era interessante e importante, porque era uma tomada de posi\u00e7\u00e3o, participar no tal espect\u00e1culo de homenagem ao Raimon. Quis mostrar que estava ali e que ainda estou, se for preciso. Mas tamb\u00e9m acho que em Portugal aquele grande movimento da can\u00e7\u00e3o que houve depois do 25 de Abril \u2013 um movimento fort\u00edssimo \u2013 se diluiu. Cada um foi para o seu lado. \u00c9 pena.<\/p>\n<p>O seu trabalho actual de composi\u00e7\u00e3o para bailados n\u00e3o ser\u00e1 em parte um ref\u00fagio? Por que motivo n\u00e3o voltou a editar discos que n\u00e3o fossem trabalhos de encomenda?<br \/>\n&#8211; Talvez haja um bocado de in\u00e9rcia da minha parte. Eu estava habituado a trabalhar com editoras, at\u00e9 um certo momento, em que havia uma rela\u00e7\u00e3o de absoluta confian\u00e7a entre o artista e a casa editora. Em Fran\u00e7a tive um editor, o Moshe Naim, a quem eu pedia para marcar o est\u00fadio e ele s\u00f3 ouvia o disco no fim. Por c\u00e1, com a Sassetti, foi o mesmo tipo de rela\u00e7\u00e3o. Hoje tem que se fazer cassetes e andar a mostr\u00e1-las, eu recuso-me a entrar nesse esquema. Tenho material suficiente para gravar um disco e estou a pensar edit\u00e1-lo, mas sou um bocado pregui\u00e7oso nesse aspecto, ter de procurar uma editora.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m das tais composi\u00e7\u00f5es por encomenda, n\u00e3o tem outros objectivos musicais?<br \/>\n&#8211; Sinto um especial prazer em fazer esses trabalhos que n\u00e3o implicam qualquer tipo de sacrif\u00edcio da minha parte. Mas tamb\u00e9m gostaria de produzir discos, mas l\u00e1 est\u00e1 outra vez a minha in\u00e9rcia. Fiz a produ\u00e7\u00e3o do disco da N\u00e9 Ladeiras, \u201cCors\u00e1ria\u201d, que depois n\u00e3o tece seguimento. Talvez n\u00e3o ande \u00e0 procura. E as pessoas talvez continuem com a tal imagem que referia h\u00e1 pouco.<br \/>\nQuando lagu\u00e9m quer fazer um disco, n\u00e3o selembra de mim como produtor, que \u00e9 uma coisa que eu penso que poderia fazer bem, sem falsas mod\u00e9stias. Em termos gerais, n\u00e3o vou dizer como o Picasso: \u201cO que procuro, encontro.\u201d Mas enfim, todos os dias trabalho no meu est\u00fadio. Se n\u00e3o s\u00e3o encomendas, \u00e9 o estudo. Depois, em Portugal, uma pessoa n\u00e3o pode ter grandes ambi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Em Fran\u00e7a tinha outro tipo de oportunidades, mas apesar disso voltou\u2026<br \/>\n&#8211; Era um exilado, as condi\u00e7\u00f5es que me obrigaram a esse ex\u00edlio acabaram, portanto voltei. E quando voltei vi que as coisas, mentalmente, n\u00e3o tinham evolu\u00eddo muito. Mesmo hoje n\u00e3o creio que haja condi\u00e7\u00f5es em Portugal para que se possa fazer uma carreira aqyui.<\/p>\n<p>Disse uma vez que foi \u201ca febre dos tops que acabou por dar cabo disto tudo\u201d\u2026<br \/>\n&#8211; Havia em Portugal um movimento de can\u00e7\u00e3o de textos que era muito respeitado. Mas num determinado momento come\u00e7ou-se a querer entrar nos tops \u00e0 for\u00e7a. Passou a haver uma concorr\u00eancia mesmo entre os cantores daquela \u00e1rea. Isso acabou por desvalorizar opr\u00f3prio movimento. Por mim, sempre tive a consci\u00eancia de que a m\u00fasica que fazia era minorit\u00e1ria. Nunca pretendi com osmeus discos, ser um rei de vendas. Creio que o grande erro foi as pessoas que estavam na minha situa\u00e7\u00e3o tentarem entrar naquele esquema. Sei que com a m\u00fasica que fazia nunca poderia ir ao Coliseu. O meu trajecto era outro: tocar em pequenas salas, durante mais tempo. Tentar encontrar um p\u00fablico que me seguisse ao longo dos anos.<\/p>\n<p>* Cantor e compositor, de m\u00fasica de interven\u00e7\u00e3o nos anos 60, \u00e0s actuais pe\u00e7as electr\u00f3nicas feitas em computador. Autor do hino do PCP, \u201cAvante camarada\u201d, tem gravados e editados, em Portugal e em Fran\u00e7a, 18 \u00e1lbuns, entre os quais \u201cPortugal, Angola \u2013 Chants de Lutte\u201d, tr\u00eas volumes de gen\u00e9rico \u201cLa Po\u00e9sie Portugaise\u201d, \u201cContra a Ideia de Viol\u00eancia, a Viol\u00eancia da Ideia\u201d, \u201cMem\u00f3ria\u201d, \u201cTranspar\u00eancias\u201d, \u201cO Peso da Sombra\u201d (sobre poemas de Eug\u00e9nio de Andrrade), \u201cCancioneiro\u201d (com temas tradicionais), \u201cSinais de Sena\u201d (sobre poemas de Jorge de Sena), \u201cPenumbra\u201d (idem, de David Mour\u00e3o Ferreira) e \u201cA Regra do Fogo\u201d. Entre as encomendas contam-se m\u00fasica para pe\u00e7as de Strindberg, Pasolini, Agustina Bessa-Lu\u00eds e Marguerite Yourcenar, e coreografias de bailado de Jos\u00e9 Seabra, Rui Nunes, Paulo Ribeiro, Rui Horta e Clara Andermat. Trabalha actualmente numa pe\u00e7a a levar \u00e0 cena pelo Centro Dram\u00e1tico de \u00c9vora, da autoria de Valle Inclam, com encena\u00e7\u00e3o do espanhol Pedro Alvarez Ossorio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>pop rock >> quarta-feira, 22.12.1993 LU\u00cdS C\u00cdLIA * EM P\u00daBLICO J\u00e1 por diversas ocasi\u00f5es referiu o medo que sentia em tocar ao vivo. Nunca conseguiu libertar-se dele? &#8211; \u00c9 uma coisa que nasce com as pessoas. H\u00e1 aqueles, como eu, que h\u00e3o-de ter medo sempre. Os franceses chamam-lhe \u201ctrac\u201d. O Ferr\u00e9 tinha. 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