{"id":11585,"date":"2024-04-15T07:14:13","date_gmt":"2024-04-15T14:14:13","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=11585"},"modified":"2024-04-15T07:14:13","modified_gmt":"2024-04-15T14:14:13","slug":"laurie-anderson-sergio-godinho-bob-dylan-estados-unidos-da-ficcao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2024\/04\/15\/laurie-anderson-sergio-godinho-bob-dylan-estados-unidos-da-ficcao\/","title":{"rendered":"Laurie Anderson + S\u00e9rgio Godinho + Bob Dylan &#8211; &#8220;Estados Unidos Da Fic\u00e7\u00e3o&#8221;"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 468;\ngoogle_ad_height = 60;\ngoogle_ad_format = \"468x60_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p>pop rock >> quarta-feira, 07.07.1993<br \/>\n<center><br \/>\n<strong>ESTADOS UNIDOS DA FIC\u00c7\u00c3O<\/strong><br \/>\n<\/center><br \/>\n<strong>\u201cA linguagem \u00e9 um v\u00edrus do espa\u00e7o.\u201d A frase, da autoris de William Burroughs, \u00e9 repetida por Laurie Anderson no \u00e1lbum \u201cHome of the Brave\u201d. Faz sentido. Dizer, dizer tudo. Em sons, imagens e fic\u00e7\u00f5es, nos ant\u00edpodas da linguagem convencional. Disse um dia que \u201co portugu\u00eas \u00e9 uma l\u00edngua linda\u201d. Vem a Portugal cantar ao lado de Dylan, sua ant\u00edtese dial\u00e9ctica.<\/strong><\/p>\n<p><center><br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/laurieAnderson.jpg\" alt=\"\" width=\"613\" height=\"585\" class=\"alignnone size-full wp-image-11586\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/laurieAnderson.jpg 613w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/laurieAnderson-300x286.jpg 300w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/laurieAnderson-100x95.jpg 100w\" sizes=\"auto, (max-width: 613px) 100vw, 613px\" \/><br \/>\n<\/center><\/p>\n<p>Comunica\u00e7\u00e3o\/incomunica\u00e7\u00e3o. Entre humanos e humanos, entre humanos e m\u00e1quinas, entre m\u00e1quina e m\u00e1quinas. \u201cBig Science\u201d. Alquimia do verbo aprisionado na Babel dos infinitos sentidos. A linguagem, no centro da ac\u00e7\u00e3o. Opera\u00e7\u00e3o cir\u00fargica tendo por objectivo a cria\u00e7\u00e3o do novo homem, enorme de signos, de ap\u00eandices tecnol\u00f3gicos, de mem\u00f3ria computorizada. O homem arranha-c\u00e9us, multiforme, sint\u00e9tico, virtual. O \u201cempire state human\u201d que os Human League anunciavam no \u00e1lbum \u201cReproduction\u201d. \u201cO superman\u201d, primeiro single de Laurie Anderson, extra\u00eddo de \u201cBig Science\u201d, oito minutos de hipnose sint\u00e9tica, subiu ao segundo lugar do top de singles no Reino Unido.<br \/>\nA tarefa que Laurie Anderson se prop\u00f5e levar a cabo parece \u00e0 partida desmesurada, demasiado grande para poder conter em si uma mensagem minimamente compreens\u00edvel pelo receptor. Robin Denselov escreveu uma vez na \u201cObserver\u201d que na sua obra \u201ch\u00e1 in\u00fameros temas mas nenhuns argumentos\u201d. Percebe-se a confus\u00e3o do articulista e igualmente que n\u00e3o compreendeu a instaura\u00e7\u00e3o de uma nova ordem sem\u00e2ntica que a artista americana empreendeu, nem o significado da frase que encabe\u00e7a este texto: \u201cA linguagem \u00e9 um v\u00edrus.\u201d<br \/>\nRecuemos ao passado, ao fotograma inicial do filme. Laurie Anderson come\u00e7ou por estudar violino, passando rapidamente para as experi\u00eancias interdisciplinares que viriam a caracterizar o seu trabalho futuro. H\u00e1 uma pr\u00e9via intoxica\u00e7\u00e3o de cultura. Laurie escreveu sobre arte nas conceituadas \u201cArt in America\u201d e \u201cArt Form\u201d. Deu aulas no City College de \u201carquitectura eg\u00edpcia\u201d e \u201cescultura ass\u00edria\u201d. Conta ela que, enquanto passava os \u201cslides\u201d para os alunos, se esquecia dos ensinamentos te\u00f3ricos, ficando presa no fasc\u00ednio das imagens e inventando explica\u00e7\u00f5es fict\u00edcias. A linguagem j\u00e1 ent\u00e3o era um v\u00edrus. Foi despedida, claro.<br \/>\nAntes ocorrera outro tipo de intoxica\u00e7\u00e3o \u2013 pelas imagens-paisagens do \u201cmid-west\u201d americano onde viveu e cresceu, entre seus espa\u00e7os amplos que permitiam o livre voo da imagina\u00e7\u00e3o. Laurie imaginava situa\u00e7\u00f5es e possibilidades de novos ajustamentos da realidade. O sonho. Numa instala\u00e7\u00e3o montada em Queens, Nova Iorque, Laurie Anderson ilustrava a tese de que o lugar onde se dorme determina o conte\u00fado dos sonhos com uma s\u00e9rie de cartazes onde era retratada a dormir em diversos locais (um museu, uma praia,,,), juntamente com a descri\u00e7\u00e3o do sonho respectivo.<br \/>\nAs ac\u00e7\u00f5es que empreendeu ao longo dos anos 60 e 70 no campo \u201cmultim\u00e9dia\u201d (como uma mesa que tocava m\u00fasica ao toque de um cotovelo, uma das suas primeiras instala\u00e7\u00f5es) permitiram-lhe o contacto e a experimenta\u00e7\u00e3o com diversos materiais de composi\u00e7\u00e3o: \u201cslides\u201d, escultura, v\u00eddeo, cinema, computador, dan\u00e7a, arte gestual, etc. \u201cThe Life and Times of Joseph Stalin\u201d representou, em 1978, o resultado global desta abordagem \u201ctotalit\u00e1ria\u201d da arte, atrav\u00e9s de uma experi\u00eancia audiovisual com 12 horas de dura\u00e7\u00e3o apresentada na Academia de M\u00fasica de Brooklyn.<br \/>\nSe \u201cBig Science\u201d, lan\u00e7ado em 1982, \u00e9 a primeira obra a obter o reconhecimento internacional, em parte devido ao \u00eaxito alcan\u00e7ado pelo single \u201cO superman\u201d, revelando uma artista madura (Laurie Anderson contava j\u00e1 nessa altura 32 anos), \u00e9 na obra descomunal \u201cUnited States\u201d que se entrecruzam e entrechocam as refer\u00eancias mais importantes do seu trabalho. De excesso em excesso, em cinco \u00e1lbuns (mais tarde reeditados em quatro compactos), divididos em 76 sec\u00e7\u00f5es e subordinados aos t\u00f3picos \u201ctransportes\u201d, \u201cpol\u00edtica\u201d, \u201cdinheiro\u201d e \u201camor\u201d, \u201cUnited States\u201d \u00e9 o retrato pluridimensional, \u201csociol\u00f3gico\u201d, nas palavras da autora, complementar ao posterior \u201cEmpty Spaces\u201d, este \u201cpsicol\u00f3gico\u201d, onde efectivamente nos podemos perder, defendendo-nos com o tal argumento dos \u201cin\u00fameros temas e nenhuns argumentos\u201d. Procure-se aqui a ordem nova atr\u00e1s citada, as pistas, simultaneamente verdadeiras e falsas para uma nova compreens\u00e3o e realinhamento do mundo (vide os Estados Unidos da Am\u00e9rica). Proeza s\u00f3 ao alcance do super-homem \u2013 orednar e sintetizar num discurso coerente tamanha multiplicidade de est\u00edmulos e sinais. Informa\u00e7\u00e3o. Dispon\u00edvel para mil (re)cria\u00e7\u00f5es do real.<br \/>\nDeus (encarado como mero conceito, logo, a uma palavra) \u00e9 reduzido a uma imagem entre outras imagens. O verbo divino, dentro desta nova racionalidade, ao mesmo tempo e paradoxalmente aleat\u00f3ria e ordenada (\u201co computador [o super-homem \u00e9 o homem-m\u00e1quina] permite esta enorme rapidez, possibilitando a cria\u00e7\u00e3o de um \u2018patchwork\u2019 visual dos mais variados. Tudo com rapidez e precis\u00e3o\u201d, disse a artista em entrevista concedida a Katia Canton publicada h\u00e1 tr\u00eas anos no jornal \u201cExpresso\u201d), constitui obviamente apenas uma outra forma de v\u00edrus lingu\u00edstico. O \u201cFiat lux\u201d criativo transfere-se em exclusivo para o dom\u00ednio do humano. Deus ser\u00e1 afinal o super-homem, como dizia Nietzsche. \u00danico capaz de abarcar e percepcionar a globalidade do sistema. Sem asas, mas da altura do \u201cempire state human\u201d, com a perspectiva a\u00e9rea, aquela que permite visionar e controlar os movimentos inferiores. Neste aspecto, Laurie Anderson descreve o mesmo quadro que David Byrne (o mapa dos \u201cStates\u201d fotografado por sat\u00e9lite na capa de \u201cMore Songs about Buildings and Food\u201d) percorre em velocidade e com mais humor.<br \/>\nImplantado o figurino, Laurie Anderson passou a habitar cada novo disco como um jogo de realidade virtual \u2013 manipulando imagens, sons, palavras, conceitos, o pr\u00f3prio corpo (a voz, atrav\u00e9s do \u201cVocoder\u201d, a amplifica\u00e7\u00e3o da percuss\u00e3o nas pernas e nos bra\u00e7os ou dos batimentos card\u00edacos) a seu belo prazer. Em \u201cMr. Heartbreak\u201d, \u201cHome of the Brave\u201d (com produ\u00e7\u00e3o de Nile Rogers e a voz de William Burroughs) e \u201cStrange Angels\u201d, este o \u00e1lbum de inflex\u00e3o pop onde Laurie canta onde antes apenas declamava. Imagem-paradigma deste novo universo simulado por um \u201cdeus ex-maschina\u201d, em que a \u201crealidade\u201d e a \u201cilus\u00e3o\u201d se confundem, \u00e9 aquela dada a \u201cver\u201d num dos seus espect\u00e1culos, na can\u00e7\u00e3o \u201cWhite lillies\u201d, de \u201cHome of the Brave\u201d: o computador cria no espa\u00e7o um l\u00edrio branco, electr\u00f3nico, que fica suspenso no ar. Laurie Anderson debru\u00e7a-se e apanha-o com a m\u00e3o.<br \/>\n<strong>LAURIE ANDERSON<br \/>\n(COM BOB DYLAN E S\u00c9RGIO GODINHO)<br \/>\nDIA 13, EST\u00c1DIO DO RESTELO<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>pop rock >> quarta-feira, 07.07.1993 ESTADOS UNIDOS DA FIC\u00c7\u00c3O \u201cA linguagem \u00e9 um v\u00edrus do espa\u00e7o.\u201d A frase, da autoris de William Burroughs, \u00e9 repetida por Laurie Anderson no \u00e1lbum \u201cHome of the Brave\u201d. Faz sentido. Dizer, dizer tudo. 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