{"id":11233,"date":"2023-10-02T08:05:09","date_gmt":"2023-10-02T15:05:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=11233"},"modified":"2023-10-02T08:05:09","modified_gmt":"2023-10-02T15:05:09","slug":"june-tabor-o-silencio-e-tao-importante-como-as-notas-entrevista-discografia-seleccionada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2023\/10\/02\/june-tabor-o-silencio-e-tao-importante-como-as-notas-entrevista-discografia-seleccionada\/","title":{"rendered":"June Tabor &#8211; &#8220;O Sil\u00eancio \u00c9 T\u00e3o Importante Como As Notas&#8221; (entrevista | discografia seleccionada)"},"content":{"rendered":"<p>pop rock >> quarta-feira, 24.02.1993<br \/>\n<center><br \/>\n<strong>\u201cO SIL\u00caNCIO \u00c9 T\u00c3O IMPORTANTE COMO AS NOTAS\u201d<\/strong><br \/>\n<\/center><br \/>\n<strong>June Tabor tem um ritmo pr\u00f3prio. De falar e de cantar. Misto de solenidade e alegria. Come\u00e7ou nas baladas da tradi\u00e7\u00e3o inglesa \u201ca capella\u201d, passeou pelo jazz e divertiu-se a vestir blus\u00f5es de cabedal e a cantar can\u00e7\u00f5es dos Velvet Underground e Oyster Band. Hoje canta as can\u00e7\u00f5es que lhe falam directamente ao cora\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p><center><br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/1.jpg\" alt=\"\" width=\"297\" height=\"265\" class=\"alignnone size-full wp-image-11235\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/1.jpg 297w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/1-100x89.jpg 100w\" sizes=\"auto, (max-width: 297px) 100vw, 297px\" \/><br \/>\n<\/center><\/p>\n<p>June Tabor vem cantar a Portugal pela terceira vez. Nas suas anteriores passagens pelo nosso pa\u00eds, ambas em Lisboa, no mesmo ano de 1991 \u2013 primeiro em Junho, no Coliseu dos Recreios, em espect\u00e1culo integrado na edi\u00e7\u00e3o inaugural do Folk Tejo, depois em Setembro, no relvado do Jamor, na Festa do Avante! -, a cantora n\u00e3o ter\u00e1 encontrado as melhores condi\u00e7\u00f5es para fazer ouvir o registo intimista da sua m\u00fasica. O som e o ambiente n\u00e3o ajudaram. Desta vez, espera-se, tudo ser\u00e1 diferente, para melhor. Considerada uma das maiores \u201cfolk singers\u201d brit\u00e2nicas de sempre, a sua voz, de timbre puro e austero, projecta-se como luz \u2013 umas vezes velada, outras radiante \u2013 numa catedral. Especialista no canto tradicional \u201ca capella\u201d, foi alargando, ao longo dos anos, o seu campo de ac\u00e7\u00e3o. Hoje canta com o mesmo \u00e0 vontade as baladas ancestrais da velha Albion, \u201cstandards\u201d de Cole Porter, Gershwin, Ellington, Charles Mingus e Thelonius Monk, ou uma descarga el\u00e9ctrica dos Velvet Underground. Gosta sobretudo de can\u00e7\u00f5es que contem uma hist\u00f3ria. Em cerca de 20 anos de carreira n\u00e3o gravou muitos discos. Mas os que gravou (seis a solo, um de parceria com Martin Simpson, dois com Maddy Prior, outro com os Oyster Band, mais a participa\u00e7\u00e3o no m\u00edtico \u201cThe Transports\u201d, de Peter Bellamy) tornaram-se, quase todos, cl\u00e1ssicos. \u201cAngel Tiger\u201d, o mais recente, revela June Tabor no auge da criatividade. Uma grande cantora, perto da perfei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 234;\ngoogle_ad_height = 60;\ngoogle_ad_format = \"234x60_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p><strong>P\u00daBLICO \u2013 Comecemos pelo est\u00f4mago. Esteve at\u00e9 1988 \u00e0 frente de um restaurante. Considera o alimentopara o corpo t\u00e3o importante como o alimento para o esp\u00edrito?<\/strong><br \/>\nJUNE TABOR \u2013 O restaurante foi uma coisa boa, que me mantinha muito ocupada. N\u00e3o me deixava tempo para cantar. Quando foi vendido, pensei que finalmente era chegada a altura de me dedicar \u00e0 m\u00fasica em tempo inteiro.<br \/>\nP. \u2013 Por que demorou tanto at\u00e9 tomar essa decis\u00e3o?<br \/>\nR. \u2013 Bem, quando comecei a minha carreira, h\u00e1 cerca de 20 anos, n\u00e3o queria ficar dependente da m\u00fasica. N\u00e3o me queria sentir comprometida. Tinha medo que, se essa fosse a minha \u00fanica ocupa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o pudesse ser aquilo que queria. Nessa altura tinha uma profiss\u00e3o \u2013 bibliotec\u00e1ria \u2013 e n\u00e3o queria abdicar dela. Podia ao mesmo tempo cantar a m\u00fasica de que gostava e, como bibliotec\u00e1ria, ganhar o dinheiro que precisava para viver. Sentia-me bem assim.<\/p>\n<p><strong>Segredos Do Canto<\/strong><\/p>\n<p><strong>P. \u2013 Que rela\u00e7\u00e3o mant\u00e9m hoje com a cultura tradicional inglesa?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Ainda canto algumas can\u00e7\u00f5es dessa tradi\u00e7\u00e3o. Aquelas em que sinto as palavras. Sempre escolhi as can\u00e7\u00f5es em fun\u00e7\u00e3o das palavras. As melhores can\u00e7\u00f5es tradicionais s\u00e3o intemporais. Pode haver uma balada com 200 anos mas que continua a ser actual. Recuso-me a cantar pe\u00e7as de museu. A m\u00fasica tradicional n\u00e3o pode continuar uma coisa viva se n\u00e3o sofrer mudan\u00e7as. Porque as circunst\u00e2ncias actuais s\u00e3o outras.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Houve uma \u00e9poca em que foi considerada uma purista. Estou a lembrar-me do esc\u00e2ndalo que causou quando decidiu utilizar um sintetizador no \u00e1lbum \u201cAshes and Diamonds\u201d\u2026<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Ainda hoje muitas pessoas pensam que, se eu n\u00e3o cantar s\u00f3 sem acompanhamento, \u00e9 uma heresia (risos). Ent\u00e3o um sintetizador, \u201coh my God!\u201d.<br \/>\n<strong>P. \u2013 O mais curioso \u00e9 que o novo \u00e1lbum, \u201cAngel Tiger\u201d, est\u00e1 bastante pr\u00f3ximo, em termos de sonoridade, de arranjos e de ambi\u00eancia, dessa obra de 1977, n\u00e3o concorda?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Sim, de facto, o ambiente e os arranjos, que s\u00e3o bastante austeros. \u00c9 uma aproxima\u00e7\u00e3o [\u201capproach\u201d] \u00e0s can\u00e7\u00f5es que procura eixar as palavras e a melodia falarem por si pr\u00f3prias. O acompanhamento deve suportar as palavras e n\u00e3o escond\u00ea-las. Se as palavras s\u00e3o boas, deve-se-lhes dar espa\u00e7o.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Por outro lado, nota-se que d\u00e1 cada vez mais import\u00e2ncia ao acompanhamento instrumental, em detrimento das vocaliza\u00e7\u00f5es \u201ca capella\u201d que constitu\u00edam grande parte do seu report\u00f3rio antigo\u2026<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Quando comecei, sabia cantar mas n\u00e3o sabia tocar qualquer instrumento. Hoje, continuo a n\u00e3o saber (risos). Era a maneira mais f\u00e1cil de come\u00e7ar, por temas tradicionais \u201ca capella\u201d, que t\u00eam um esquema mel\u00f3dico rigoroso. Deste modo era poss\u00edvel apresentar-me em p\u00fablico sozinha. Depois fui conhecendo outros m\u00fasicos, instrumentalistas, e a compreender o que podia ser feito com instrumentos. E tamb\u00e9m a encontrar outro tipo de can\u00e7\u00f5es, que queria cantar mas que n\u00e3o se aguentavam \u201ca capella\u201d, por n\u00e3o terem sido escritas para esse fim. Al\u00e9m disso, a for\u00e7a das vocaliza\u00e7\u00f5es \u201ca capella\u201d sai fortalecida se estas forem integradas no meio de can\u00e7\u00f5es com acompanhamento. Sobressaem muito mais. Actualmente, nos meus concertos, este estilo aparece como uma esp\u00e9cie de destaque. J\u00e1 n\u00e3o dou concertos exclusivamente \u201ca capella\u201d.<\/p>\n<p><strong>Quest\u00f5es De Estilo<\/strong><\/p>\n<p><strong>P. \u2013 O que sente ao ouvir a sua voz registada nesse \u00e1lbum j\u00e1 velhinho e lend\u00e1rio que \u00e9 \u201cThe Transports\u201d, do malogrado Peter Bellamy?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Digo para mim mesma: \u201cSou realmente eu?\u201d [Risos.] Neste intervalo de quase 20 anos a minha voz mudou. Tornou-se mais profunda, mais madura, pelo menos assim o espero (risos). Quando ou\u00e7o discos meus antigos, \u00e0s vezes \u00e9-me dif\u00edcil aceitar que seja a minha voz. Admiro-lhe a t\u00e9cnica, mas prefiro a actual. Penso que canto muito melhor do que cantava, embora admita que em termos rigorosamente t\u00e9cnicos, n\u00e3o seja t\u00e3o tecnicista como antes.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Um dos seus projectos mais bem-sucedidos \u00e9 o duo Silly Sisters, com Maddy Prior. Ap\u00f3s dois \u00e1lbuns brilhantes [\u201cSilly Sisters\u201d e \u201cNo More to the Dance\u201d], nunca mais se ouviram cantar as duas juntas\u2026<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Costumamos faz\u00ea-lo uma vez em cada dez anos (risos). Mas actualmente \u00e9 mais dif\u00edcil cantar em conjunto com Maddy, porque as nossas vozes mudaram. A de Maddy tornou-se mais aguda e a minha mais grave. E \u00e9 mais dif\u00edcil encontrar tonalidades que possam ser cantadas em conjunto pelas duas. Antes pod\u00edamos trocar, uma cantava a melodia, outra a melodia, e vice-versa. Hoje \u00e9 mais problem\u00e1tico. Por outro lado, os estilos de can\u00e7\u00f5es que cada uma de n\u00f3s deseja cantar tornaram-se cada vez mais afastados.<br \/>\n<strong>P. \u2013 \u201cSome Other Time\u201d [1989], um \u00e1lbum de \u201cstandards\u201d de jazz, n\u00e3o foi muito bem recebido pela cr\u00edtica. Ser\u00e1 porque a sua voz n\u00e3o se adapta a esse g\u00e9nero de can\u00e7\u00f5es?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 O problema est\u00e1 em que a maior parte dessas cr\u00edticas \u00e9 de ordem subjectiva. As pessoas pensam que \u00e0 partida, eu n\u00e3o devo cantar esse tipo de can\u00e7\u00f5es. Elas n\u00e3o as querem ouvir da maneira como as canto. T\u00eam um preconceito, que eu n\u00e3o devo, ou n\u00e3o consigo, cantar \u201cjazz\u201d. A quest\u00e3o essencial de \u201cSome Other Time\u201d \u00e9 que eu n\u00e3o estava a tentar transformar-me numa cantora de jazz. Apenas quis pegar em can\u00e7\u00f5es do report\u00f3rio de jazz que tivessem letras fortes, que contassem boas hist\u00f3rias, e cant\u00e1-las \u00e0 minha maneira. Nos concertos em Portugal vou cantar quatro temas do report\u00f3rio de jazz. Com Huw no piano, Mark Emerson, violino e viola de arco e Mark Lockheart e saxofone e clarinete.<\/p>\n<p><strong>A Voz Do Sil\u00eancio<\/strong><\/p>\n<p><strong>P. \u2013 A que se deveu a colabora\u00e7\u00e3o, ao vivo e em disco, com os Oyster Band? Um desejo de vestir blus\u00f5es de cabedal ou algo mais?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Gostei e continuo a gostar de cantar com os Oyster Band. E, j\u00e1 agora, de vestir blus\u00f5es de cabedal (risos9. Foi uma experi\u00eancia que, penso, resultou bem. O \u201cshow\u201d em Portugal [na Festa do Avante!\u201d em 1991] n\u00e3o aconteceu talvez no melhor local\u2026<\/p>\n<p><center><br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/2-162x300.jpg\" alt=\"\" width=\"162\" height=\"300\" class=\"alignnone size-medium wp-image-11234\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/2-162x300.jpg 162w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/2-54x100.jpg 54w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/2.jpg 417w\" sizes=\"auto, (max-width: 162px) 100vw, 162px\" \/><br \/>\n<\/center> <\/p>\n<p><strong>P. \u2013 Da outra vez que actuou em Portugal, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa [na primeira edi\u00e7\u00e3o do Folk Tejo, em 1991], a m\u00fasica esteve imaculada, mas o som voltou a falhar\u2026<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Sim, a m\u00fasica foi \u00f3ptima. Em salas grandes como essa \u00e9 imposs\u00edvel conseguir um som perfeito, porque n\u00e3o foram projectadas para este tipo de m\u00fasica. Prefiro tocar em teatros pequenos.<br \/>\n<strong>P. \u2013 N\u00e3o em clubes folk, disse-o uma vez\u2026<\/strong><br \/>\nR. \u2013 A minha m\u00fasica n\u00e3o \u00e9 propriamente para se ouvir de p\u00e9. Um teatro \u00e9 mais confort\u00e1vel, as pessoas podem concentrar-se melhor. E pode controlar-se o som. O que n\u00f3s fazemos \u00e9 muito subtil, delicado mesmo. O sil\u00eancio \u00e9 t\u00e3o importante como as notas, como a m\u00fasica. \u00c9 necess\u00e1rio poder criar a atmosfera certa. Esta \u00e9 uma luta constante. N\u00e3o acontece s\u00f3 em Portugal, em Inglaterra tamb\u00e9m.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Que crit\u00e9rio seguiu, na escolha dos compositores, em \u201cAngel Tiger\u201d? Escolhe os autores ou s\u00e3o eles que v\u00eam ter consigo?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Na maioria dos casos h\u00e1 uma escolha pr\u00e9via. Em \u201cAngel Tiger\u201d s\u00f3 constam, a meu pedido, duas can\u00e7\u00f5es escritas: \u201cAll this useless beauty\u201d, de Elvis Costello, e \u201cThe doctor calls\u201d, de Ian Telfer, dos Oyster Band. Conhecem ambos a minha m\u00fasica e os meus gostos. Mas \u00e9 sempre um risco\u2026 Felizmente gostei das duas. Seria embara\u00e7oso chegar ao p\u00e9 de Elvis Costello e dizer-lhe: \u201cObrigado, Elvis, mas n\u00e3o gostei!\u201d [Risos]. Mas a escolha \u00e9 minha. Posso sempre dizer que n\u00e3o.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Disse recentemente, numa entrevista, que podia ter feito um \u00e1lbum inteiro apenas com can\u00e7\u00f5es de Les Barker. O que encontra de especial neste autor?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 \u00c9 o exemplo de algu\u00e9m que trabalha a partir da tradi\u00e7\u00e3o. Ele usa melodias tradicionais, pe\u00e7as instrumentais ou can\u00e7\u00f5es com versos em v\u00e1rias l\u00ednguas, em ga\u00e9lico ou outra qualquer, e trabalha at\u00e9 ficar totalmente familiarizado com elas. Depois escreve palavras novas que se adequem. Quase tudo o que ele escreve me fala ao cora\u00e7\u00e3o e est\u00e1 de acordo com as minhas opini\u00f5es.<br \/>\n<strong>P. \u2013 J\u00e1 agora, h\u00e1 algo mais que fale ao seu cora\u00e7\u00e3o? Sei que gosta de gatos\u2026<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Gatos e c\u00e3es. Tenho quatro gatos, seis c\u00e3es e\u2026 um burro.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Pode explicar-nos em que consiste o projecto Passendale, em que vai colaborar?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Passendale foi uma batalha travada em 1917, durante a I Guerra Mundial, de Julho a Dezembro. 500 mil homens morreram nessa ocasi\u00e3o, de ambos os lados. Um desperd\u00edcio absurdo de vidas humanas. Esse acontecimento, no ano em que se comemora o 75\u00ba anivers\u00e1rio do fim da I Grande Guerra, vai ser evocado numa s\u00e9rie de espect\u00e1culos ao vivo, com m\u00fasicos de v\u00e1rias nacionalidades e can\u00e7\u00f5es desse conflito, a par de outras que falam da futilidade da guerra em geral. Participo eu, com Huw e Mark, uma cantora flamenga, tr\u00eas m\u00fasicos \u00e1rabes, um cantor e tocador de \u201coud\u201d do L\u00edbano e uma cantora sobrevivente do campo de concentra\u00e7\u00e3o de Auschwitz. A inten\u00e7\u00e3o \u00e9 dizer que a guerra n\u00e3o conduz a nada, uma coisa in\u00fatil que, apesar disso, est\u00e1 sempre a acontecer.<br \/>\n<strong>P. \u2013 O termo \u201cworld music\u201d faz sentido para si?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 \u00c9 um termo que se usa e de que se abusa. Deveria haver algu\u00e9m mais sincero e chamar-lhe antes \u201cm\u00fasica do Terceiro Mundo\u201d, porque \u00e9 disso eu se trata. Por mim, gosto de ouvir m\u00fasica da \u00c1sia, da Escamdin\u00e1via\u2026 N\u00e3o encontro muito com que me identifique na m\u00fasica africana, embora admire as suas t\u00e9cnicas, em particular dos cantores. Mas toda a m\u00fasica \u00e9 subjectiva.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Porque falou em t\u00e9cnica, j\u00e1 tentou cantar baladas irlandesas, em ga\u00e9lico, por exemplo?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Irlandesas sim, em ga\u00e9lico n\u00e3o, porque n\u00e3o domino a l\u00edngua. Nunca gravei nada nesse dom\u00ednio. H\u00e1 quem o fa\u00e7a muito melhor do que eu. Mas posso decorar o estilo, se quiser. Desde que as palavras sejam boas. Se quiser, nos concertos em Portugal posso cantar uma can\u00e7\u00e3o irlandesa para si (risos).<br \/>\n<strong>P. \u2013 Obrigado. Por falar em can\u00e7\u00f5es, em \u201cAshes and Diamonds\u201d h\u00e1 uma bel\u00edssima, intitulada \u201cLisbon\u201d. Pensa cant\u00e1-la em Portugal?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 \u00c9 uma \u00f3ptima ideia. J\u00e1 n\u00e3o canto essa can\u00e7\u00e3o h\u00e1 imenso tempo. Obrigado pela sugest\u00e3o. Vamos ensai\u00e1-la nas pr\u00f3ximas semanas [esta entrevista foi feita em meados de Janeiro]. Vou mesmo cant\u00e1-la!<\/p>\n<p><strong>LISBOA, TEATRO S\u00c3O LUIZ, 28 DE FEVEREIRO, 22H<br \/>\nBRAGA, TEATRO CIRCUS, 1 DE MAR\u00c7O, 22H<br \/>\nPORTO, TEATRO RIVOLI, 2 DE MAR\u00c7O, 22H<\/strong><br \/>\n<center><br \/>\n<strong>DISCOGRAFIA SELECCIONADA<\/strong><br \/>\n<\/center><br \/>\n<strong>ASHES AND DIAMONDS, TOPIC, 1977<\/strong><br \/>\nPrimeira obra-prima. O \u00e1lbum do \u201cesc\u00e2ndalo\u201d. Nele, June Tabor, purista das puristas, utilizou um sintetizador. Can\u00e7\u00f5es \u201ca capella\u201d como a prova de fogo \u201cClerk saunders\u201d, \u201cThe Easter tree\u201d e \u201cNo man\u2019s land\u201d rivalizam com os arranjos instrumentais, bel\u00edssimos, de \u201cNow, I\u2019m easy\u201d, \u201cThe earl of Aboyne\u201d e \u201cCold and raw\u201d. Dois duetos de maravilha: com o piano, em \u201cStreets of Forbes\u201d e com o sintetizador, em \u201cLisbon\u201d, balada que evoca o encontro amoroso de uma portuguesa com um marinheiro ingl\u00eas, no porto de Lisboa, durante a Renascen\u00e7a. Jon Gillespie era ent\u00e3o o teclista. Participa\u00e7\u00f5es de dois Steeleye Span, Rick Kemp e Nigel Pegrum. E de Nic Jones, um grande guitarrista da \u201cfolk\u201d inglesa.<\/p>\n<p><strong>A CUT ABOVE, TOPIC, 1980<\/strong><br \/>\nEncontro com outro guitarrista c\u00e9lebre do circuito \u201cfolk\u201d ingl\u00eas, Martin Simpson (que ensinou June Tabor a olhar para sons mais contempor\u00e2neos), e mais uma viagem pela tradi\u00e7\u00e3o da ilha, desta feita com uma aproxima\u00e7\u00e3o \u00e0s sonoridades medievais. Dave Bristow substitui Jon Gillespie nos teclados. Ric Saunders (Soft Machine, Albion Band, Fairport Convention) traz para a m\u00fasica o virtuosismo do seu violino. Um \u00e1lbum de que pouco se fala (h\u00e1 quem prefira a maior conten\u00e7\u00e3o de \u201cAbyssinians\u201d), mas que \u00e9 um dos mais conseguidos.<\/p>\n<p><strong>AQABA, TOPIC, 1988<\/strong><br \/>\nDeslumbrante. Nesta altura June Tabor passeava a voz e o talento por m\u00fasicas de outras paragens. \u00c9 o disco de apresenta\u00e7\u00e3o de Huw Warren, em quem a cantora parece ter descoberto o parceiro ideal. Os tradicionais \u201ca capella\u201d ora pairam no \u00e9ter, ora explodem nas vibra\u00e7\u00f5es vocais de June Tabor. A expressividade emocional levada ao ponto de equil\u00edbrio perfeito. As irrup\u00e7\u00f5es bruscas do clarinete e do saxofone, a par do ambiente de religiosidade, formam como que uma extens\u00e3o vocal das liturgias de John Surman para a ECM.<br \/>\nO t\u00edtulo-tema, composto por Bill Caddick, integrou-se de imediato no grupo das melhores can\u00e7\u00f5es e interpreta\u00e7\u00f5es de sempre da m\u00fasica inglesa de raiz tradicional.<\/p>\n<p><strong>ANGEL TIGER, COOKING VINYL, 1992<\/strong><br \/>\n\u00c1lbum da maturidade. A alian\u00e7a de recursos vocais aqui distribu\u00eddos por uma gama infind\u00e1vel de registos, com uma serenidade e seguran\u00e7a inquebrant\u00e1veis. Nada h\u00e1 para provar, sen\u00e3o que cada can\u00e7\u00e3o ganha, atrav\u00e9s do canto de June Tabor, significados e uma energia pr\u00f3prias. Como se ela fosse a \u00fanica que lhes consegue descobrir o cora\u00e7\u00e3o. Elvis Costello e Ian Belfer, dos Oyster Band, escreveram especialmente para a cantora. A divindade felina estendeu sobre June Tabor um sortil\u00e9gio. Uma cantora em estado de gra\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>NO MORE TO THE DANCE (SILLY SISTERS, DUO COM MADDY PRIOR), TOPIC, 1988<\/strong><br \/>\nN\u00e3o podia ser de outro modo: As vozes de duas divas da \u201cfolk\u201d brit\u00e2nica irmanadas numa causa comum \u2013 de amor a uma tradi\u00e7\u00e3o que ambas sempre serviram e ajudaram a potencializar \u2013 combinam da melhor maneira e o resultado \u00e9 um disco de m\u00fasica de inspira\u00e7\u00e3o tradicional, que marcou os anos 80. E uma reuni\u00e3o de estrelas que aqui participam: Dan Ar Braz, Andrew Cronshaw, Paul James e Nigel Eaton (dois ex-Blowzabella), Patsy Seddon e Mary McMaster (duo Sileas). Para todos aqueles a quem o termo \u201cm\u00fasica celta\u201d quer dizer tudo, este \u00e9 um dos seus tesouros mais valiosos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>pop rock >> quarta-feira, 24.02.1993 \u201cO SIL\u00caNCIO \u00c9 T\u00c3O IMPORTANTE COMO AS NOTAS\u201d June Tabor tem um ritmo pr\u00f3prio. De falar e de cantar. Misto de solenidade e alegria. Come\u00e7ou nas baladas da tradi\u00e7\u00e3o inglesa \u201ca capella\u201d, passeou pelo jazz e divertiu-se a vestir blus\u00f5es de cabedal e a cantar can\u00e7\u00f5es dos Velvet Underground e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1018,138,722,1017,179,28,379,9,68],"tags":[3635,91,2758,1828,2880,2832,2737,2819,2740,2684],"class_list":["post-11233","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos-1993","category-cantautor","category-celtica","category-entrevistas-1993","category-etno","category-folk","category-folk-rock","category-singer-songwriter","category-world","tag-circus","tag-june-tabor","tag-rivoli","tag-s-luiz","tag-teatro-circus","tag-teatro-municipal-de-s-luiz","tag-teatro-municipal-rivoli","tag-teatro-municipal-s-luiz","tag-teatro-rivoli","tag-teatro-s-luiz"],"views":479,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11233","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11233"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11233\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11236,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11233\/revisions\/11236"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11233"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11233"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11233"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}