{"id":11128,"date":"2023-08-04T04:10:06","date_gmt":"2023-08-04T11:10:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=11128"},"modified":"2023-08-04T04:11:34","modified_gmt":"2023-08-04T11:11:34","slug":"varios-sergio-godinho-pedro-ayres-magalhaes-joao-paulo-feliciano-antonio-manuel-ribeiro-jose-mario-branco-debate-musica-portuguesa-o-primeiro-debate-dos-anos-90","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2023\/08\/04\/varios-sergio-godinho-pedro-ayres-magalhaes-joao-paulo-feliciano-antonio-manuel-ribeiro-jose-mario-branco-debate-musica-portuguesa-o-primeiro-debate-dos-anos-90\/","title":{"rendered":"V\u00e1rios (S\u00e9rgio Godinho, Pedro Ayres Magalh\u00e1es, Jo\u00e3o Paulo Feliciano, Ant\u00f3nio Manuel Ribeiro, Jos\u00e9 M\u00e1rio Branco) &#8211; &#8220;DEBATE: M\u00fasica Portuguesa &#8211; O PRIMEIRO DEBATE DOS ANOS 90&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>pop rock >> quarta-feira, 13.01.1993<br \/>\n<center><br \/>\n<strong>DEBATE<br \/>\nM\u00fasica Portuguesa<br \/>\nO PRIMEIRO DEBATE DOS ANOS 90<\/strong><br \/>\n<\/center><br \/>\n1992 FOI O ANO EM QUE PELA PRIMEIRA VEZ, DESDE Am\u00e1lia, nomes da m\u00fasica portuguesa se impuseram al\u00e9m-fronteiras, o que aconteceu com Madredeus, LX-90 e at\u00e9 R\u00e3o Kyao. O ano em que um grupo portugu\u00eas, os Resist\u00eancia, com o seu \u00e1lbum de estreia \u201cPalavras ao Vento\u201d, assomou ao topo dos cem discos mais vendidos na Europa. Em que surgiram a concorrer para os primeiros postos do top portugu\u00eas uma s\u00e9rie de discos nacionais que ultrapassaram decididamente o plano da produ\u00e7\u00e3o caseira. A qualidade de som do segundo \u00e1lbum dos j\u00e1 citados Resist\u00eancia e designado \u201cMano a Mano\u201d, como o hom\u00f3nimo de estreia dos Zero, ou \u201cRock In Rio Douro\u201d dos GNR n\u00e3o deixaram nada a desejar em rela\u00e7\u00e3o ao melhor da produ\u00e7\u00e3o estrangeira. Em paralelo apareceram editoras independentes, como a MoneyLand Records, a MTM e a Num\u00e9rica. E h\u00e1 muito tempo que n\u00e3o se apostava tanto na m\u00fasica portuguesa, justamente num ano em que a ind\u00fastria da m\u00fasica declarou recess\u00e3o em termos internacionais.<br \/>\nAfinal, o que \u00e9 que se passa na m\u00fasica portuguesa? Quais os desafios e as motiva\u00e7\u00f5es? Que sons, atitudes e est\u00e9ticas a atravessam \u00e0 entrada de um novo ano? \u00c9 preciso voltar a lan\u00e7ar a discuss\u00e3o e ningu\u00e9m como os pr\u00f3prios m\u00fasicos est\u00e1 em posi\u00e7\u00e3o de dar respostas. Mas a presente situa\u00e7\u00e3o tem tamb\u00e9m isto de in\u00e9dito: nota-se, se n\u00e3o um conflito, pelo menos uma certa clivagem de gera\u00e7\u00f5es. Da\u00ed a escolha dos protagonistas do debate: Jos\u00e9 M\u00e1rio Branco e S\u00e9rgio Godinho, que iniciaram as suas carreiras no final dos anos 60 e estiveram na linha da frente da m\u00fasica de interven\u00e7\u00e3o pr\u00e9-25 de Abril; Pedro Ayres de Magalh\u00e3es e Carlos Maria Trindade, por seu turno, foram dos principais impulsionadores da chamada m\u00fasica moderna portuguesa, no in\u00edcio dos anos 80; Ant\u00f3nio Manuel Ribeiro, o UHF que \u00e9 porventura o \u00faltimo dos puristas do rock portugu\u00eas, e Adolfo Lux\u00faria Canibal, o M\u00e3o Morta que em meados da d\u00e9cada passada introduziu uma postura de ruptura com o sistema das multinacionais. Finalmente, Jo\u00e3o Paulo Feliciano dos Tina &#038; The Top Tem, que segue essa pista de independ\u00eancia, mas faz parte de uma nova gera\u00e7\u00e3o que n\u00e3o canta na nossa l\u00edngua, nem procura reflectir valores portugueses. Factor adicional da escolha: tirando S\u00e9rgio Godinho, todos os intervenientes est\u00e3o ou estiveram ligados a editoras e \u00e0 produ\u00e7\u00e3o discogr\u00e1fica local.<br \/>\nESTE DEBATE FOI CONCEBIDO E ORIENTADO POR JORGE DIAS, FERNANDO MAGALH\u00c3ES E LU\u00cdS MAIO. AS FOTOS QUE O TESTEMUNHAM PARA A POSTERIDADE S\u00c3O DE ALFREDO CUNHA.<br \/>\n<center><br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/1-1-300x237.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"237\" class=\"alignnone size-medium wp-image-11129\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/1-1-300x237.jpg 300w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/1-1-100x79.jpg 100w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/1-1.jpg 442w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><br \/>\n<\/center><br \/>\n<strong>P\u00daBLICO \u2013 Chegados aos anos 90, h\u00e1 ou n\u00e3o um regresso da \u201cmensagem\u201d na m\u00fasica portuguesa, mais ou menos politizada, a fazer a ponte com os anos 70, depois de um certo vazio de palavras fortes na d\u00e9cada passada?<\/strong><br \/>\nADOLFO LUX\u00daRIA CANIBAL \u2013 Come\u00e7o logo por negar isso. Se havia uma fac\u00e7\u00e3o politizada que veio da pr\u00e9-revolu\u00e7\u00e3o, ou do pr\u00e9-golpe de Estado, e que continuou nos anos seguintes com uma voz activa e com mais tempo de antena em termos de grande p\u00fablico, o que \u00e9 certo \u00e9 que tamb\u00e9m j\u00e1 nessa \u00e9poca existia um outro tipo de m\u00fasica menos politizada, no sentido de ser menos militante e menos intervencionista de um ponto de vista social e pol\u00edtico prim\u00e1rio. Por outro lado, nos anos 80, se esse tipo de m\u00fasica perdeu a voz em termos de \u201cmass media\u201d e do grande p\u00fablico, n\u00e3o a perdeu totalmente, continuou a existir e o grupo que veio substitu\u00ed-la, o rock portugu\u00eas ou a m\u00fasica moderna portuguesa, tamb\u00e9m n\u00e3o era t\u00e3o despolitizada como isso. A prova foi, por exemplo, que um dos grandes grupos dessa \u00e9poca eram os Her\u00f3is do Mar, que estavam longe de ser despolitizados. Tinham uma interven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica espec\u00edfica, com outra linguagem, noutro campo porventura. Mesmo que a inten\u00e7\u00e3o fosse o divertimento.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 o aparecimento dos Resist\u00eancia que nos vem dizer que h\u00e1 outra vez uma politiza\u00e7\u00e3o da m\u00fasica portuguesa nos anos 90. Primeiro, porque os Resist\u00eancia est\u00e3o a utilizar palavras da m\u00fasica dos anos 80, que era a menos politizada, portanto h\u00e1 logo a\u00ed uma contradi\u00e7\u00e3o. Depois, os Resist\u00eancia fazem outra coisa que \u00e9 colocar a palavra em primeiro plano, com todas as consequ\u00eancias, possivelmente negativas, que \u00e9 deixar morrer, de certo modo, a politiza\u00e7\u00e3o que houve nos anos 80, que ocorreu n\u00e3o s\u00f3 ao n\u00edvel das palavras, mas tamb\u00e9m da ac\u00e7\u00e3o musical, atrav\u00e9s de uma recusa de certos par\u00e2metros musicais que os Resist\u00eancia v\u00e3o recuperar aos anos 70. No fundo, ao colocar a palavra na m\u00f3 de cima, est\u00e1 a provocar o regresso est\u00e9tico dos anos 70, ou seja, ao que est\u00e1 para tr\u00e1s.<br \/>\n<center><br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/2-1-300x243.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"243\" class=\"alignnone size-medium wp-image-11130\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/2-1-300x243.jpg 300w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/2-1-100x81.jpg 100w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/2-1.jpg 449w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><br \/>\n<\/center><br \/>\nPEDRO AYRES MAGALH\u00c3ES \u2013 Que n\u00e3o se confundam as coisas. Os Resist\u00eancia n\u00e3o s\u00e3o um projecto no sentido de \u201cgrupo\u201d. N\u00f3s estamos \u00e9 envolvidos numa manobra. Uma manobra de resist\u00eancia \u00e0 domina\u00e7\u00e3o da vida social e cultural portuguesa pela influ\u00eancia anglo-sax\u00f3nica. Depois, os Resist\u00eancia foi uma iniciativa contra um estado de moleza que grassava h\u00e1 uns dois, tr\u00eas anos. Nesse sentido \u00e9 \u201creaccion\u00e1rio\u201d a um determinado \u201cstatu quo\u201d, n\u00e3o no sentido tradicional do termo. Quanto a ser um projecto de conservadores, \u00e9 um conservadorismo no sentido de conservar ideias de uma certa maneira de estar no mundo que a nossa gera\u00e7\u00e3o consagrou e andou a cantar durante anos. As can\u00e7\u00f5es foram escolhidas a dedo. Quem quiser ler, os sintagmas est\u00e3o l\u00e1 todos.<br \/>\n<center><br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/3-1-300x239.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"239\" class=\"alignnone size-medium wp-image-11131\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/3-1-300x239.jpg 300w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/3-1-100x80.jpg 100w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/3-1.jpg 345w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><br \/>\n<\/center><br \/>\nJOS\u00c9 M\u00c1RIO BRANCO \u2013 A quest\u00e3o das vers\u00f5es prende-se com o esvaziamento das ideias sociais. Chamem-lhe \u201ccrise das ideologias\u201d, o que quiserem. Se n\u00e3o houver, por parte do m\u00fasico, num disco ou num espect\u00e1culo, uma urg\u00eancia, uma prem\u00eancia de dizer qualquer coisa, esse vazio aparece automaticamente. Ent\u00e3o ele vai recorrer ao que j\u00e1 foi feito. A tend\u00eancia para o revivalismo \u00e9 um reflexo que leva a ouvir o antigo e de, atrav\u00e9s dele, se remotivar. Grave sim \u00e9 quando isso passa a ter como significado qualquer coisa como \u201ceu n\u00e3o sei o que dizer aos outros\u201d.<br \/>\n<center><br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/4-1-300x236.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"236\" class=\"alignnone size-medium wp-image-11132\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/4-1-300x236.jpg 300w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/4-1-100x79.jpg 100w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/4-1.jpg 352w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><br \/>\n<\/center> <\/p>\n<p><strong>Um Conflito De Gera\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 300;\ngoogle_ad_height = 250;\ngoogle_ad_format = \"300x250_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p><center><br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/5-1-300x259.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"259\" class=\"alignnone size-medium wp-image-11133\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/5-1-300x259.jpg 300w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/5-1-100x86.jpg 100w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/5-1.jpg 434w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><br \/>\n<\/center><br \/>\n<strong>P. \u2013 Ser\u00e1 um pouco por esse vazio de mensagem que hoje surge uma nova gera\u00e7\u00e3o que n\u00e3o canta na nossa l\u00edngua? Ser\u00e1 conden\u00e1vel os m\u00fasicos portugueses comunicarem com plateias portuguesas em ingl\u00eas?<\/strong><br \/>\nP.A.M. \u2013 Quanto mais forte for a nossa identidade cultural mais fortes ser\u00e3o as outras que nos chegam. Nunca mais tomaremos gato por lebre e nunca mais se tornar\u00e1 dif\u00edcil a um tipo que s\u00f3 quer gravar um disco e passar num programa de r\u00e1dio chegar l\u00e1 e ouvir \u201cse \u00e9 portugu\u00eas, n\u00e3o quero!\u201d. Eu ouvi isso.<br \/>\nJO\u00c3O PAULO FELICIANO \u2013 Eu estou-me nas tintas para isso\u2026 Sendo portugu\u00eas, quando fa\u00e7o m\u00fasica, fa\u00e7o-o em ingl\u00eas\u2026<br \/>\n<center><br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/6-1-300x243.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"243\" class=\"alignnone size-medium wp-image-11134\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/6-1-300x243.jpg 300w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/6-1-100x81.jpg 100w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/6-1.jpg 339w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><br \/>\n<\/center><br \/>\nP.A.M. \u2013 Qual \u00e9 o problema? \u00c9 o que quase toda a gente faz\u2026<br \/>\nJ.P.F. \u2013 Ainda bem que n\u00e3o tem problema nenhum. N\u00e3o sinto a m\u00ednima necessidade de cantar em portugu\u00eas.<br \/>\nA.L.C. \u2013 \u00c9 preciso voltar a essa quest\u00e3o essencial que \u00e9 a da l\u00edngua. Voltar ao ingl\u00eas para assumirem o rock, para mim, \u00e9 o grande perigo, o grande erro e tem a ver com os Resist\u00eancia. Ao mesmo tempo que os Resist\u00eancia conseguem levar as palavras \u00e0s pessoas, criam uma reac\u00e7\u00e3o de nega\u00e7\u00e3o dessa palavra, de nega\u00e7\u00e3o desse tipo de m\u00fasica\u2026<br \/>\nP.A.M. \u2013 Mas junto de quem?<br \/>\nA.L.C. \u2013 Junto das novas gera\u00e7\u00f5es. Tu v\u00eas as novas bandas rock e n\u00e3o h\u00e1 nenhuma a cantar em portugu\u00eas.<br \/>\nP.A.M. \u2013 Ai \u00e9?<br \/>\nA.L.C. \u2013 Pois, tu est\u00e1 fora\u2026<br \/>\nCARLOS MARIA TRINDADE \u2013 N\u00e3o \u00e9 um conflito de gera\u00e7\u00f5es mas de estilos.<br \/>\n<center><br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/7-1-300x249.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"249\" class=\"alignnone size-medium wp-image-11135\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/7-1-300x249.jpg 300w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/7-1-100x83.jpg 100w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/7-1.jpg 555w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><br \/>\n<\/center><br \/>\nP.A.M. Essa responsabiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 abusiva\u2026<br \/>\nA.L.C. \u2013 \u00c9 evidente que n\u00e3o posso responsabilizar os Resist\u00eancia a cem por cento. Mas que t\u00eam a sua quota-parte, sobretudo por causa do seu peso medi\u00e1tico, l\u00e1 isso t\u00eam.<br \/>\nQuanto \u00e0 quest\u00e3o de, em Portugal, poder haver m\u00fasica para as minorias, \u00e9 uma quest\u00e3o de ind\u00fastria. O mercado portugu\u00eas \u00e9 pequeno, as editoras j\u00e1 se v\u00eaem \u201caos arranh\u00f5es\u201d para vender o \u201cmiddle of the road\u201d, quanto mais pensar em termos de m\u00fasica alternativa. Acaba-se sempre por cair nas pequenas editoras, com pouco dinheiro, com grava\u00e7\u00f5es mais ou menos artesanais, mais ou menos caseiras, mais ou menos mal gravadas, relativamente aos modelos comparativos que passam massificadamente na r\u00e1dio.<br \/>\nS\u00c9RGIO GODINHO \u2013 Olha que os Nirvana n\u00e3o t\u00eam o som mais \u201cclean \u201c do mundo\u2026<br \/>\nA.L.C. \u2013 Mas est\u00e1 muito bem produzido, eu n\u00e3o estou a falar de \u201cclean\u201d.<br \/>\nJ.P.F. \u2013 Nunca esse foi um problema para mim, fa\u00e7o m\u00fasica em casa e gravo sem gastar dinheiro nenhum\u2026<br \/>\nS.G. \u2013 Mas tem bem aquele som que vem do pequeno est\u00fadio\u2026<br \/>\nJ.P.F. \u2013 Isso n\u00e3o \u00e9 um problema.<br \/>\nJ.M.B. \u2013 Como a humanidade n\u00e3o \u00e9 est\u00fapida, as multinacionais do som est\u00e3o a come\u00e7ar a ter que dar resposta a essa insuportabilidade do vazio que a massifica\u00e7\u00e3o criou. Quando se fala em vazio cultural, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o \u201ceu n\u00e3o li nem ouvi os antigos, n\u00e3o sou culto, n\u00e3o tenho refer\u00eancias\u201d. E quantas vezes n\u00f3s assistimos a malta mais nova do que n\u00f3s que descobre a passagem do l\u00e1 maior para o r\u00e9 menor e depois para o d\u00f3 e depois o sol e o mi s\u00e9tima e depois o l\u00e1, e acha que descobriu a p\u00f3lvora. E \u00e9 leg\u00edtimo, porque ele descobriu aquilo naquela altura.<br \/>\nEra importante esses grupos que passaram pelo Rock Rendez-Vous ouvirem Mahler. N\u00e3o quer dizer que eu seja elitista e diga \u201cos meninos precisavam de saber isto\u201d, ou paternalista, se quiserem. N\u00e3o \u00e9 isso. \u00c9 que faz-vos falta filhos. A cultura universal s\u00f3 o \u00e9 numa coisa: nos destinat\u00e1rios. A origem da cultura nunca \u00e9 universal, porque \u00e9 aqui dentro. \u00c9 o meu sofrimento de criador. \u00c9 o meu confronto com o vazio e isso n\u00e3o \u00e9 nada universal. Quando estou a criar, estou absolutamente sozinho, pendurado no vazio com o abismo \u00e0 minha frente. \u00c9 como quando entramos em palco e olhamos para o buraco escuro do outro lado.<br \/>\nH\u00e1 uma coisa que pode ser limitativa na conversa. O caso do grupo Resist\u00eancia, sobre o qual tenho opini\u00e3o formada; mas o facto de eu achar que o disco deles \u00e9 mau \u2013 assim como j\u00e1 disse ao Pedro que acho muito boa a experi\u00eancia dos Madredeus \u2013 n\u00e3o quero que isto seja interpretado como eu a dizer \u201cmais valia n\u00e3o ter havido Resist\u00eancia\u201d. N\u00e3o \u00e9. Acho muito bem. \u00c9 errado p\u00f4r os Resist\u00eancia no centro da conversa: \u201cIsto est\u00e1 agora a dar, vamos ver se \u00e9 bom.\u201d O que est\u00e1 a dar n\u00e3o \u00e9 os Resist\u00eancia, \u00e9 a an\u00e1lise do movimento todo. Algu\u00e9m aqui falou em outras coisas que aconteceram na m\u00fasica portuguesa? Coisas importantes. O disco do Vitorino n\u00e3o \u00e9 importante? O disco da Am\u00e9lia Muge n\u00e3o \u00e9 importante? Porque \u00e9 que de repente se fala nos Resist\u00eancia? Porque foi o mais vendido, porque foi mais falado, porque foi agora a jogada das guitarras ac\u00fasticas. Jogada de qu\u00ea p\u00e1? \u00c9 gira, malta porreira, boa ideia, mas j\u00e1 foi feita milh\u00f5es de vezes por milh\u00f5es de pessoas. Isso n\u00e3o \u00e9 jogada nenhuma. A cultura n\u00e3o se faz com jogadas, nem com neg\u00f3cios. A cultura \u00e9 o que fica depois disso tudo: \u00e9 o sarro do capitalismo.<br \/>\nJ.P.F. \u2013 N\u00e3o tenho mais nada a dizer depois do que ele disse. Isso s\u00f3 confirma que n\u00e3o conflito de gera\u00e7\u00f5es nenhum.<\/p>\n<p><strong>Multinacionais E Independentes<\/strong><\/p>\n<p><strong>P. \u2013 A m\u00fasica de hoje em dia \u00e9 insepar\u00e1vel da imagem. Mas os artistas portugueses est\u00e3o de um modo geral habituados a pensar ainda e apenas em termos de som. Como \u00e9 que encaram esse que \u00e9 um dos grandes desafios para a m\u00fasica portuguesa dos anos 90?<\/strong><br \/>\nC.M.T. \u2013 A m\u00fasica hoje em dia n\u00e3o existe em si. \u00c9 uma entidade abstracta, que me d\u00e1 gozo pessoalmente e na qual acredito, mas que n\u00e3o existe sozinha, como existia nos anos 60, emq eu as pessoas ouviam de olhos fechados o som. Hoje em dia v\u00eaem de olhos abertos a imagem. O som \u00e9 um subproduto.<br \/>\nJ.P.F. \u2013 Mas eu vou ouvir o John Cage e n\u00e3o preciso de telediscos para nada.<br \/>\nC.M.T. Mas est\u00e1s-me a falar de um exemplo que \u00e9 pouco representativo para a ind\u00fastria nacional.<br \/>\nJ.P.F. \u2013 Mas n\u00f3s n\u00e3o estamos a falar de ind\u00fastria, estamos a falar de m\u00fasica. A ind\u00fastria \u00e9 outra coisa.<br \/>\nC.M.T. \u2013 N\u00f3s estamos a falar de coisas de peso. As coisa que n\u00e3o t\u00eam peso hoje e v\u00e3o ter amanh\u00e3 s\u00f3 se v\u00eaem depois, neste momento nem sequer se sabe que existem e se calhar elas j\u00e1 a\u00ed est\u00e3o. Por isso vamos deix\u00e1-las. A n\u00edvel de v\u00e9rtice \u201cmedia\u201d-imagem-som, digo que se n\u00e3o evolu\u00edrmos a par e passo, nunca conseguiremos exportar m\u00fasica portuguesa, por muito boa que a fa\u00e7amos. E eu tenho a ideia que neste momento Portugal \u00e9, na Europa, um dos pa\u00edses que mais mexem a n\u00edvel criativo, porque a Europa est\u00e1 numa crise de valores e Portugal ainda n\u00e3o se esgotou, pois esteve protegido por um isolamento protecionista, mas que pode funcionar a nosso favor. Portanto nos pr\u00f3ximos naos devemos batalhar\u2026<br \/>\n<strong>P. \u2013 O problema da afecta\u00e7\u00e3o da m\u00fasica pela promo\u00e7\u00e3o v\u00eddeo traz impl\u00edcito o da dualidade criatividade \/ ind\u00fastria. Como \u00e9 que este eterno problema se coloca hoje para a m\u00fasic aportuguesa \u00c0s portas do s\u00e9culo XXI, quando as independentes de rock come\u00e7am a dar os primeiros passos?<\/strong><br \/>\nC.M.T. \u2013 Eu, que estou na esquina do criatividade com a ind\u00fastria, sei que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel a harmoniza\u00e7\u00e3o entre a arte e o com\u00e9rcio. N\u00e3o existe isso. H\u00e1 um conflito constante.<br \/>\nJ.P.F. \u2013 N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel a harmoniza\u00e7\u00e3o. O que \u00e9 fundamental \u00e9 que as coisas se distingam umas das outras. Enquanto se confundir a cria\u00e7\u00e3o com a ind\u00fastria, o estado das coisas vai continuar o mesmo. S\u00e3o duas coisas ligadas entre si, porque as coisas est\u00e3o inter-relacionadas. A m\u00fasica existe inter-relacionada com a ind\u00fastria, assim como a ind\u00fastria est\u00e1 inter-relacionada com a fotografia com a publicidade e a publicidade com o Omo e o Omo com a roupa, e a roupa com a m\u00e1quina de lavar e a m\u00e1quina de lavar com a ind\u00fastria da tecnologia.<br \/>\nAgora que n\u00e3o haja confus\u00f5es: m\u00fasica \u00e9 m\u00fasica, ou arte ou cria\u00e7\u00e3o, e a ind\u00fastria \u00e9 outra coisa que pega nesse produto e atrav\u00e9s de um sistema, que est\u00e1 mais ou menos bem organizado, o comercializa, o vende, o faz chegar a outras pessoas. Mas quando o criador est\u00e1 a pensar nos n\u00fameros das vendas, a\u00ed podem-se p\u00f4r problemas complicados no acto criativo.<br \/>\nC.M.T. \u2013 Isso s\u00f3 acontece a partir de um certo estado de veterania, n\u00e3o compreendo eu um adolescente pense nisso.<br \/>\nS.G. \u2013 Um adolescente pensa mesmo isso.<br \/>\nJ.P.F. \u2013 Se calhar at\u00e9 \u00e9 fundamental que pense nisso, porque o que \u00e9 importante \u00e9 que se pense e se tenha consci\u00eancia desse dado. Ali est\u00e3o as pessoas que compram, aqui est\u00e1 a m\u00e1quina que vende e aqui estou eu, e estou sozinho. E agora vamos l\u00e1 ver o que \u00e9 que quero fazer.<br \/>\nC.M.T. \u2013 Mas a\u00ed chegamos ao tal conceito de editora independente, que \u00e9 a pequena editora que percebe o acto criativo e o desenvolve, trata-o e f\u00e1-lo chegar ao p\u00fablico mais adequado ao tipo de m\u00fasica que existe e ao tipo de energia que essa m\u00fasica vai transmitir \u00e0s pessoas. \u00c9 isso que n\u00e3o existe em Portugal.<br \/>\nJ.P.F. \u2013 Mas isso tem a ver com o estarmos num estado\u2026<br \/>\nC.M.T. &#8211; \u2026 De pr\u00e9-hist\u00f3ria\u2026<br \/>\nJ.P.F. &#8211; \u2026 De pr\u00e9-hist\u00f3ria, claro. Mas j\u00e1 existem algumas. Neste momento, existem cinco, dez editoras independentes\u2026<br \/>\nC.M.T. \u2013 J\u00e1 existiram mais.<br \/>\nJ.P.F. \u2013 A determinada altura, nos Estados Unidos ou na Alemanha, que s\u00e3o dois pa\u00edses que t\u00eam um movimento de edi\u00e7\u00e3o independente bastante forte, tamb\u00e9m s\u00f3 existiam cinco ou dez, agora existem muitas mais. Algumas at\u00e9 j\u00e1 est\u00e3o a fechar. Portanto n\u00f3s se calhar vamos l\u00e1 chegar\u2026<br \/>\nJ.M.B. \u2013 Ser editora marginal em Inglaterra \u00e9 possivelmente ser maior que a Polygram portuguesa ou a Valentim de Carvalho. \u00c9 preciso uma dose m\u00ednima de oxig\u00e9nio econ\u00f3mico para poder ser marginal. Num mercado pequenino onde se vendem poucos discos, onde a esperan\u00e7a de venda n\u00e3o atinge o \u201cbreak-even\u201d que rentabilize os custos fixos \u00e1 partida, tu n\u00e3o consegues sequer ser marginal. A \u00fanica hip\u00f3tese \u2013 e foi este o racioc\u00ednio que me levou a tomar determinadas iniciativas, na cooperativa de que fa\u00e7o parte, a UPAV \u2013 \u00e9 a alargar esse espa\u00e7o. Para aparecerem s\u00f3 coisas de que eu gosto? N\u00e3o, para aparecer de tudo.<br \/>\nC.M.T. \u2013 S\u00f3 temos que fazer uma coisa: obrigar os A&#038;R e os respons\u00e1veis dos outros pa\u00edses a virarem o pesco\u00e7o para aqui, cois a que eles n\u00e3o est\u00e3o habituados. O olhar deles para possivelmente em Espanha. Eles n\u00e3o sabem o que se passa aqui.<br \/>\nJ.P.F. \u2013 Nem querem saber.<br \/>\nC.M.T. \u2013 Se queres saber, neste momento, em Londres, fala-se da din\u00e2mica do meio musical portugu\u00eas. No meio, n\u00e3o no p\u00fablico. \u00c9 um princ\u00edpio.<br \/>\nJ.P.F. \u2013 Mas depois chegam c\u00e1 e apanham com coisas que depois dizem: \u201cN\u00f3s temos l\u00e1 disso, mas muito melhor\u201d, e v\u00e3o-se embora outra vez.<\/p>\n<p><strong>O Que Faz Falta<\/strong><\/p>\n<p><strong>P. \u2013 \u00c9 curioso que as independentes se comecem a mexer, em Portugal, numa altura em que nomeadamente em Inglaterra est\u00e3o todas a fechar portas\u2026<\/strong><br \/>\nC.M.T. \u2013 Para abrir independentes, ainda n\u00e3o est\u00e3o criadas algumas al\u00edneas: atrair investidores de outros meios \u2013 foio que o futebol fez. Qualquer or\u00e7amento cada vez \u00e9 mais alto: se eu gravava discos h\u00e1 dois anos com dois mil contos, agora gravo com quatro ou cinco e ainda preciso de mais tr\u00eas mil para o v\u00eddeo, preciso de mais n\u00e3o sei quanto para uma capa e o \u201cposter\u201d e mais n\u00e3o sei o qu\u00ea para a pol\u00edtica de \u201cmarketing\u201d. Nesse aspecto, quanto ao meu esfor\u00e7o na Polygram, eu costumo dizer que sou um \u201cfree lancer\u201d numa multinacional e tenho profundas dissid\u00eancias com a companhia em que me insiro, mas tenho uma vis\u00e3o pessoal que tenho de adaptar \u00e0 pol\u00edtica da empresa e aos meus patr\u00f5es estrangeiros que s\u00e3o os que me chateiam mais \u2013 portanto eu tenho que ser frio por um lado e tenho de ter entusiasmo por outro. Isto \u00e9 uma gin\u00e1stica impressionante.<br \/>\nSe eu estivesse numa independente, poderia ter mais liberdade e escolher estilos. Mas, para funcionar, trataria de estabelecer um \u201ctarget\u201d anual, porque sen\u00e3o seria a fal\u00eancia \u2013 \u00e9 fac\u00edlimo ir \u00e0 fal\u00eancia num ano. Ali\u00e1s, o Pedro Ayres tem uma boa experi\u00eancia disso na Funda\u00e7\u00e3o Atl\u00e2ntica. Podes dizer qual foi o grande problema: \u00e9 que nos primeiros doze meses a Funda\u00e7\u00e3o n\u00e3o produziu um \u201chit\u201d de vendas.<br \/>\nP.A.M. \u2013 A independente esbarrou nesta quest\u00e3o. \u201cTemos aqui esta m\u00fasica ou este grupo que nunca tinha gravado antes. Toma!\u201d Ent\u00e3o d\u00e1s ao vendedor da grande distribuidora e o gajo vende \u00e0 comiss\u00e3o e tem um ordenado fixo. A loja s\u00f3 quer comprar \u00eaxitos, porque n\u00e3o quer ficar com monos. E ent\u00e3o eles dizem: \u201cPor cada mono que eu deixo numa loja, eu levo dez novos lan\u00e7amentos bem sucedidos, para recuperar o meu prest\u00edgio.\u201d<br \/>\nH\u00e1 tempos tive ocasi\u00e3o de estar com os maiores distribuidores e vendedores de discos, e perguntei, por curiosidade: \u201cVoc\u00eas est\u00e3o organizados, t\u00eam n\u00fameros comuns? T\u00eam dados para mim, que sou m\u00fasico?\u201d N\u00e3o. Eu n\u00e3o vou falar com aquele outro vendedor porque o gajo lixa-me, e se aqui se fala, gera-se uma conspira\u00e7\u00e3o.\u201d Eles n\u00e3o falam uns com os outros, portanto n\u00e3o h\u00e1 dados sobre a venda dos discos, e tu, sentado numa independente vais escolher o azul ou o amarelo com que crit\u00e9rio? Ou ent\u00e3o vendes sempre pelo correio. Que \u00e9 o que sobeja aos portugas\u2026<br \/>\nANT\u00d3NIO MANUEL RIBEIRO \u2013 Eu n\u00e3o acredito na ind\u00fastria, ela n\u00e3o existe. Nomeadamente a d\u00e9cada de 80, que eu atravessei, foi extremamente importante para n\u00f3s m\u00fasicos. Melhoraram os est\u00fadios, melhoraram as empresas de som, melhor\u00e1mos n\u00f3s em cima do palco, mas quase mais nada mudou \u00e0 nossa volta. E com um grave problema: o disco n\u00e3o faz parte dos costumes do portugu\u00eas. O mi\u00fado de 15\/16 anos, que recebe dinheiro do pai, durante um m\u00eas seleciona o que pode comprar e se calhar pode comprar s\u00f3 um disco. Ser\u00e1 que o tipo vai comprar o disco dos UHF, se saiu o dos U2 que ele estava \u00e0 espera h\u00e1 tr\u00eas anos? O mercado do disco portugu\u00eas ser\u00e1 o qu\u00ea? O Carlos Maria sabe isso muito melhor que eu. Cinco mil? Seis mil? Sete mil unidades vendidas por disco? Talvez nem dez mil, que j\u00e1 \u00e9 prata\u2026<br \/>\nC.M.T. \u2013 Sim, uma prata hoje j\u00e1 \u00e9 uma boa meta. Boa entre aspas.<br \/>\nS.G. \u2013 Nos Estados Unidos nem imprimem.<br \/>\nA.M.R. \u2013 Isso estrangula a ind\u00fastria. Porque um artista que vende dois, tr\u00eas mil discos n\u00e3o \u00e9 independente financeiramente para prosseguir a sua obra \u2013 isso \u00e9 que \u00e9 o grave problema da nossa ind\u00fastria. N\u00f3s estamos a ver uma s\u00e9rie de casas multinacionais que est\u00e3o c\u00e1 como meros escrit\u00f3rios de representa\u00e7\u00e3o, porque v\u00e3o todos prestar contas a Madrid.<br \/>\nP.A.M. \u2013 Tudo o que fica s\u00e3o casos isolados. \u00c9 uma hist\u00f3ria de gajos teimosos.<br \/>\n<center><br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/8-1-211x300.jpg\" alt=\"\" width=\"211\" height=\"300\" class=\"alignnone size-medium wp-image-11136\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/8-1-211x300.jpg 211w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/8-1-70x100.jpg 70w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/8-1.jpg 569w\" sizes=\"auto, (max-width: 211px) 100vw, 211px\" \/><br \/>\n<\/center><\/p>\n<p><strong>Tocar Onde?<\/strong><\/p>\n<p><strong>P. \u2013 Um dos grandes problemas com que se debatem esses \u201cgajos teimosos\u201d que fazem m\u00fasica em Portugal \u00e9 o circuito de salas de concertos, sobretudo ao n\u00edvel da prov\u00edncia. Qual \u00e9 o ponto da situa\u00e7\u00e3o da m\u00fasica ao vivo no nosso pa\u00eds, em 1993?<\/strong><br \/>\nP.A.M. \u2013 H\u00e1 falta de consumo cultural, ou de exposi\u00e7\u00e3o do que n\u00f3s temos no nosso pa\u00eds, e que a meu ver \u00e9 uma coisa dram\u00e1tica. Diz o governo: \u201cN\u00f3s vamos fazer uma pol\u00edtica cultural com tal relev\u00e2ncia que vamos encher o pa\u00eds de teatros.\u201d Isto \u00e9 falso. Quando andei na digress\u00e3o dos Madredeus em Portugal, h\u00e1 dois anos, andei a ver os teatros que estavam fechados. Mas teatros das capitais de distrito. Cheguei a esta conclus\u00e3o: os nossos compatriotas n\u00e3o t\u00eam necessidade nem o gosto de receber coisas de cultura. De entretenimento, universais, que \u00e9 o que fazem os nossos vizinhos europeus. Eles t\u00eam o \u2026lho de convidar ora o portugu\u00eas, ora o chin\u00eas. T\u00eam programa. O director do teatro diz: \u201cVejam bem, este ano tenho um programa do cara\u00e7as.\u201d E vai l\u00e1 toda a gente ver, porque est\u00e1 curiosa e porque gosta de se entreter com aquilo.<br \/>\n<center><br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/9-1-300x237.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"237\" class=\"alignnone size-medium wp-image-11137\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/9-1-300x237.jpg 300w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/9-1-100x79.jpg 100w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/9-1.jpg 487w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><br \/>\n<\/center><br \/>\nS.G. \u2013 Acho que se deviam criar os equipamentos, em cada capital de distrito \u2013 no m\u00ednimo -, salas m\u00e9dias e bem equipadas que deveriam ficar \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e0 nossa, \u00e0 das popula\u00e7\u00f5es. Mesmo em Lisboa \u00e9 absolutamente incr\u00edvel, para algu\u00e9m que venha de fora, dizer-se o que \u00e9 que se est\u00e1 a passar. Se fores ao Rio de Janeiro, h\u00e1 o Canec\u00e3o, h\u00e1 o Scala, tens s\u00edtios mais alternativos, e n\u00e3o \u00e9 uma grande cidade, eles dizem que \u00e9 um deserto comparado com S\u00e3o Paulo. O que acontece em Lisboa \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 temporadas, que \u00e9 uma coisa que n\u00e3o passa pela cabe\u00e7a de ningu\u00e9m\u2026<br \/>\nJ.M.B. \u2013 \u00c9 a \u00fanica capital europeia que n\u00e3o tem \u201cmusic-hall\u201d permanente. At\u00e9 o Liechtenstein\u2026<br \/>\nS.G. \u2013 N\u00e3o h\u00e1 uma programa\u00e7\u00e3o durante todo o ano de onde est\u00e3o a actuar os Madredeus, os Resist\u00eancia (risos\u2026). Voltando \u00e0s cidades de prov\u00edncia, ent\u00e3o o deserto \u00e9 aina maior e, n\u00e3o ficando s\u00f3 pela m\u00fasica, isso acontece tamb\u00e9m por exemplo na distribui\u00e7\u00e3o do cinema.<br \/>\nP.A.M. \u2013 Porque \u00e9 que os gajos n\u00e3o se batem por ter um teatro?<br \/>\n<center><br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/10-1-170x300.jpg\" alt=\"\" width=\"170\" height=\"300\" class=\"alignnone size-medium wp-image-11138\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/10-1-170x300.jpg 170w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/10-1-57x100.jpg 57w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/10-1.jpg 307w\" sizes=\"auto, (max-width: 170px) 100vw, 170px\" \/><br \/>\n<\/center><br \/>\nS.G. \u2013 Claro, uma coisa \u00e9 baterem-se localmente e muitas vezes h\u00e1 reconvers\u00f5es de teatros. Mas era necess\u00e1rio que houvessem salas m\u00e9dias bem equipadas, um audit\u00f3rio que estivesse \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 da m\u00fasica, mas at\u00e9 de outras artes, e, mesmo dentro da m\u00fasica, de v\u00e1rios estilos\u2026<br \/>\nDa mesma maneira em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s editoras, uma das raz\u00f5es porque eu sa\u00ed amigavelmente da Polygram foi por n\u00e3o haver uma rede de distribui\u00e7\u00e3o. Quando eu fui fazer a \u201ctourn\u00e9e\u201d \u201cNa Vida Real\u201d, n\u00e3o havia o meu disco no Porto! A situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o melhorou muito, na EMI, onde estou agora: fui fora de \u00e9poca fazer o \u201cEscritor de Can\u00e7\u00f5es\u201d no Porto e foi-me dito que os donos das lojas de discos s\u00f3 estavam interessados nas novidades. E no entanto o Rivoli esteve mais que cheio.<br \/>\n<center><br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/11-197x300.jpg\" alt=\"\" width=\"197\" height=\"300\" class=\"alignnone size-medium wp-image-11139\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/11-197x300.jpg 197w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/11-66x100.jpg 66w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/11.jpg 352w\" sizes=\"auto, (max-width: 197px) 100vw, 197px\" \/><br \/>\n<\/center> <\/p>\n<p><strong>V\u00edcios De Comunica\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p><strong>P. \u2013 Hoje em dia, em Portugal, h\u00e1 mais esta\u00e7\u00f5es de televis\u00e3o e programas musicais, mais r\u00e1dios locais, e a imprensa musical escrita tem vindo a crescer. Ser\u00e1 um factor positivo para a m\u00fasica portuguesa este progresso da sua cobertura medi\u00e1tica?<\/strong><br \/>\nJ.M.B. \u2013 A comunica\u00e7\u00e3o come\u00e7a aqui \u00e0 volta desta mesa, com tr\u00eas senhores que escrevem todas as semanas, com os programadores de r\u00e1dio e televis\u00e3o e com quem decide quem vai ouvir o qu\u00ea. E vou formular uma opini\u00e3o fazendo uma pergunta: porque \u00e9 que o suplemento do P\u00daBLICO se chama PopRock? Porque \u00e9 que noventa e tal por cento dos discos de m\u00fasica ligeira citados no \u201cExpresso\u201d pelo Jo\u00e3o Lisboa e pelo Ricardo Sal\u00f3 s\u00e3o de pop-rock anglo-sax\u00f3nica? H\u00e1 tamb\u00e9m que fazer uma educa\u00e7\u00e3o dos comunicadores? Ser\u00e1 que os comunicadores tamb\u00e9m t\u00eam a tal falta de refer\u00eancias, a tal falta de largueza de horizontes, a tal falta de cultura de que se falou h\u00e1 bocado?<br \/>\n<center><br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/12-300x211.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"211\" class=\"alignnone size-medium wp-image-11140\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/12-300x211.jpg 300w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/12-100x70.jpg 100w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/12.jpg 536w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><br \/>\n<\/center><br \/>\nS.G. \u2013 N\u00e3o \u00e9 t\u00e3o manique\u00edsta\u2026<br \/>\nJ.P.F. \u2013 N\u00e3o \u00e9 um problema de manique\u00edsmo. \u00c9 um problema de forma\u00e7\u00e3o. Assim como o problema se p\u00f5e ao n\u00edvel do p\u00fablico, tamb\u00e9m se p\u00f5e ao n\u00edvel dos m\u00fasicos e ao n\u00edvel dos comunicadores. Eu n\u00e3o tenho d\u00favida que em Portugal faltam comunicadores \u2013 jornalistas, programadores de r\u00e1dio e televis\u00e3o, etc. \u2013 com bagagem. N\u00e3o h\u00e1 muitas pessoas que saibam profundamente sobre aquilo que est\u00e3o a falar. Posso falar de uma experi\u00eancia editorial recente que eu tenho (Moneyland Records). A gente p\u00f5e c\u00e1 fora um objecto e as pessoas, n\u00e3o \u00e9 que tenham dito mal ou bem, mas n\u00e3o sabem pegar naquilo. Pegam naquilo de uma maneira desajeitada.<br \/>\nS.G. \u2013 O que eu penso \u00e9 que houve uma gera\u00e7\u00e3o \u2013 a\u00ed \u00e9 que eu acho que \u00e9 um problema de gera\u00e7\u00e3o \u2013 de cr\u00edticos e divulgadores que era informada, mas que come\u00e7ou a estabelecer uma reac\u00e7\u00e3o de cansa\u00e7o e a tomar a novidade pela novidade, fazendo t\u00e1bua rasa do que est\u00e1 para tr\u00e1s. Isso aconteceu com uma certa gera\u00e7\u00e3o de jornalistas e de cr\u00edticos. A que se sucedeu \u2013 com muitas honrosas excep\u00e7\u00f5es \u2013 \u00e9 mais ignorante, porque bebeu desses. E \u00e9 uma pedagogia que se vai repercutindo. O que \u00e9 certo \u00e9 que h\u00e1 falta de mem\u00f3ria activa\u2026<br \/>\nP.A.M. \u2013 Partilho da ideia que h\u00e1 duas gera\u00e7\u00f5es de comunicadores. Quando comecei, no fim dos anos 70, a querer divulgar m\u00fasica minha, encontrei nas esta\u00e7\u00f5es de r\u00e1dio e nos jornais \u2013 na televis\u00e3o n\u00e3o havia nada \u2013 pessoas muito bem formadas, mesmo que fosse sobre os anos 60, \u201cafter-hippies\u201d, j\u00e1 uns \u201cfreaks\u201d muito retintos e tal, mas tinham aquele ideal de que tamb\u00e9m eles eram parte de um movimento comunit\u00e1rio que partilhava ideias e filosofias.<br \/>\nHoje em dia, o mais importante do trabalho dos jornais funciona para com os vizinhos comunicadores das cadeias de televis\u00e3o e esta\u00e7\u00f5es de r\u00e1dio. Este, para mim, \u00e9 o factor mais importante do estado de div\u00f3rcio a que n\u00f3s cheg\u00e1mos entre o trabalho da comunica\u00e7\u00e3o social e o grau de actividade que n\u00f3s artistas temos de manter para continuarmos a gravar, tocar e permanecermos no activo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>pop rock >> quarta-feira, 13.01.1993 DEBATE M\u00fasica Portuguesa O PRIMEIRO DEBATE DOS ANOS 90 1992 FOI O ANO EM QUE PELA PRIMEIRA VEZ, DESDE Am\u00e1lia, nomes da m\u00fasica portuguesa se impuseram al\u00e9m-fronteiras, o que aconteceu com Madredeus, LX-90 e at\u00e9 R\u00e3o Kyao. 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