{"id":10828,"date":"2023-04-14T04:56:39","date_gmt":"2023-04-14T11:56:39","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=10828"},"modified":"2023-04-14T04:56:53","modified_gmt":"2023-04-14T11:56:53","slug":"varios-festa-do-avante-91-a-musica-em-comicio-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2023\/04\/14\/varios-festa-do-avante-91-a-musica-em-comicio-2\/","title":{"rendered":"V\u00e1rios &#8211; &#8220;Festa Do &#8216;Avante!&#8217; 91 &#8211; A M\u00fasica Em Com\u00edcio&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Sec\u00e7\u00e3o Cultura  Segunda-Feira, 09.09.1991<br \/>\n<center><br \/>\n<strong>Festa Do \u201cAvante!\u201d 91<br \/>\nA M\u00fasica Em Com\u00edcio<\/strong><br \/>\n<\/center><br \/>\n<strong>Na Festa do \u201cAvante!\u201d \u00e9 sempre assim todos os anos: bons nomes em cartaz, actua\u00e7\u00f5es invariavelmente prejudicadas por defici\u00eancias e o desconforto inerentes ao gigantismo do evento. Sabe-se que \u00e9 assim, mas vai-se na mesma. Festa \u00e9 festa, como se costuma dizer. O contingente \u201cfolk\u201d foi refrig\u00e9rio no banho de poeira.<\/strong><\/p>\n<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 300;\ngoogle_ad_height = 250;\ngoogle_ad_format = \"300x250_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p>H\u00e1 duas maneiras de apreciar a Festa do \u201cAvante!. Impressiona, por um lado, a reconhecida capacidade de organiza\u00e7\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o dos comunistas portugueses. Montar uma cidade descart\u00e1vel n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil e o milagre \u00e9 alcan\u00e7ado todos os anos. De resto, o partido \u00e9 especialista em milagres. Por outro lado, essa mesma cidade, erguida com o objectivo de proporcionar a frui\u00e7\u00e3o, seja ela est\u00e9tica, ideol\u00f3gica ou gastron\u00f3mica, ao apostar na massifica\u00e7\u00e3o acaba por deixar em muitos um sabor a frustra\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEvidentemente, h\u00e1 quem tenha opini\u00e3o contr\u00e1ria e aprecie. Para os da casa est\u00e1 sempre tudo bem. Festejar \u00e9, como no resto, nivelar por baixo. Quem tamb\u00e9m gosta muito, numa popula\u00e7\u00e3o de circunst\u00e2ncia, \u00e9 aquela camada de \u201cjovens\u201d para quem o para\u00edso consiste em emborcar quilolitros de seja o que for com \u00e1lcool na composi\u00e7\u00e3o, rebolar na terra, sozinho ou \u00e0s voltas com o parceiro(a) e, com sorte, culminar a aventura no hospital mais pr\u00f3ximo. Na Quinta da Atalaia, foi um rodopio de ambul\u00e2ncias para c\u00e1 e para l\u00e1 a transportar os despojos humanos resultantes dos \u00eaxtases instant\u00e2neos. Em qualquer dos casos, do militante fan\u00e1tico ao \u201cfreak\u201d andrajoso, a festa funciona ao n\u00edvel da alucina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>O Inferno S\u00e3o Os Outros<\/strong><\/p>\n<p>Para complicar, o programa das actividades culturais (e em particular as muitas m\u00fasicas que s\u00e3o o mel da festa) costuma ser aliciante. S\u00e3o as circunst\u00e2ncias que fazem o inferno. O anjibho incauto atra\u00eddo pela promessa de boa m\u00fasica sofre a bom sofrer, numa correria de poeira e encontr\u00f5es, para finalmente ver recompensado o esfor\u00e7o com mais poeira, parasitagens extra-musicais de toda a esp\u00e9cie (defici\u00eancias t\u00e9cnicas, atropelos \u00e0 higiene mais elementar, interfer\u00eancias humanas provocadas por gritos e choros de crian\u00e7as ou milit\u00e2ncias mais inflamadas, v\u00f3mitos \u00e0 tangente, numa massa envolta na bruma poeirenta que transforma o cen\u00e1rio numa variante prolet\u00e1ria de \u201cMad Max\u2026) ou o desespero terminal de n\u00e3o conseguir chegar a tempo ao espect\u00e1culo ansiado, devido ao desfasamento e atrasos de hor\u00e1rio.<br \/>\nSa\u00edram-se bem os Pop Dell\u2019Arte que na sexta \u00e0 noite se embrenharam num del\u00edrio psicad\u00e9lico \u201ckitsch\u201d apoiado por um eficaz show de luzes psicoalucinantes de tend\u00eancia dada\u00edsta. Jo\u00e3o Peste contorceu-se vocalmente a contento, emitou a Piaf, fez inveja a V\u00edtor \u201cGoodbye Maria Ivone\u201d Peter e embasbacou meio povo presente em mil e uma provoca\u00e7\u00f5es inteligentes.<br \/>\nProvocantes e inteligentes foram ainda os Telectu que, depois de Elliott Sharp, voltaram a escolher o parceiro certo \u2013 desta feita o percussionista Chris Cutler \u2013 para mostrar que por c\u00e1 a vanguarda tamb\u00e9m mexe. Espa\u00e7o para a improvisa\u00e7\u00e3o e para o di\u00e1logo entre m\u00fasicos de diferente forma\u00e7\u00e3o e sensibilidade. Num instante o caos, no outro a converg\u00eancia. Jorge Lima Barreto, em tom de conten\u00e7\u00e3o, sugeriu ambientes e avan\u00e7ou pistas. V\u00edtor Rua provou at\u00e9 que ponto \u00e9 bom guitarrista, sobretudo quando se esquece dos bot\u00f5es e pedais de efeitos, como aconteceu no encore final. Chris Cutler construiu, destuiu, brincou, ordenou e explodiu em compasos ora bin\u00e1rios ora impossivelmente complexos. Experi\u00eancia radical.<\/p>\n<p><strong>Uma Fada Entre A Poeira<\/strong><\/p>\n<p>Quem sofreu mais foram os representantes da \u201cfolk\u201d. Prejudicados por investidas sistem\u00e1ticas de \u201cfeedback\u201d e pela indiferen\u00e7a de um p\u00fablico na maioria j\u00e1 em avan\u00e7ado estado de decrepitude f\u00edsica e moral, os Boys of the Lough mostraram no palco grande, com a dignidade que se impunha, os mist\u00e9rios da m\u00fasica irlandesa, a que poucos ter\u00e3o sido sens\u00edveis, distra\u00eddos da hora m\u00e1gica do p\u00f4r-do-sol.<br \/>\nNo audit\u00f3rio \u201c1\u00ba de Maio\u201d (uma tenda de circo montada sobre a terra) a harpista Savourna Stevenson fez esquecer o mundo exterior e material. Nem o ru\u00eddo insistente de um baixo tonitruante e monoc\u00f3rdico do grupo de arraial do lado conseguiu vencer a atmosfera intimista criada pela fada. Fada sensual, diga-se de passagem, mini-saia negra recuada em volta da madeira central do instrumento, acrescentando outras divaga\u00e7\u00f5es ao sonho do esp\u00edrito. Acompanhada em dois temas pelo violinista dos Boys of the Lough, Aly Bain, Savourna Stevenson alternou temas swingantes com tradicionais do seu mais recente disco \u201cTweed Journey \u201cou a revisita\u00e7\u00e3o de um tema de Duke Ellington. Brilhante, num barrac\u00e3o ou num pal\u00e1cio.<br \/>\n\u00c0 noite, os Oyster Band enlouqueceram por completo uma assist\u00eancia (em parte j\u00e1 recuperada da ressaca vespertina) que n\u00e3o se fartou de dan\u00e7ar e formar rodas ao som da \u201cPunk Folk\u201d da banda brit\u00e2nica. Alheados da agita\u00e7\u00e3o geral, dois jovens jogavam \u00e0s cartas no escuro entre pernas, sentados no ch\u00e3o\u2026 Folia somente perturbada pela presen\u00e7a emblem\u00e1tica da vocalista June Tabor que, sem voz, e desfasada do grupo, arrefeceu os entusiasmos e conseguiu assassinar o cl\u00e1ssico dos Velvet Underground \u201cAll Tomorrow\u2019s parties\u201d, fazendo Nico revolver-se no t\u00famulo. Rainha de outros reinos, June Tabor, ao contr\u00e1rio do que aconteceu no \u201cFolk Tejo\u201d, n\u00e3o deslumbrou.<br \/>\nDo reino da poeira, terra e confus\u00e3o fica a recorda\u00e7\u00e3o de umas febras com sabor a pl\u00e1stico rotuladas de \u201ccozinha t\u00edpica\u201d, as imagens apocal\u00edpticas do imp\u00e9rio das latas de cerveja amontoadas rivalizando com os corpos empilhados e o coment\u00e1rio sabedor de algu\u00e9m ao passar no palco onde actuava um \u201censemble\u201d de contrabaixos: \u201colha um violino!\u201d. \u00c9 assim na Festa do \u201cAvante!\u201d, os olhos s\u00f3 v\u00eaem aquilo que sabem ou querem ver\u2026<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sec\u00e7\u00e3o Cultura Segunda-Feira, 09.09.1991 Festa Do \u201cAvante!\u201d 91 A M\u00fasica Em Com\u00edcio Na Festa do \u201cAvante!\u201d \u00e9 sempre assim todos os anos: bons nomes em cartaz, actua\u00e7\u00f5es invariavelmente prejudicadas por defici\u00eancias e o desconforto inerentes ao gigantismo do evento. 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