{"id":10670,"date":"2023-02-25T09:58:02","date_gmt":"2023-02-25T16:58:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=10670"},"modified":"2023-02-25T09:58:02","modified_gmt":"2023-02-25T16:58:02","slug":"david-byrne-the-forest-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2023\/02\/25\/david-byrne-the-forest-2\/","title":{"rendered":"David Byrne &#8211; &#8220;The Forest&#8221;"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 336;\ngoogle_ad_height = 280;\ngoogle_ad_format = \"336x280_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p>Quarta-Feira, Pop-Rock 12.06.1991<br \/>\nCr\u00edticas: Pop-Rock<br \/>\n<center><br \/>\n<strong>O Homem E O Mito<\/p>\n<p>DAVID BYRNE<br \/>\nThe Forest<br \/>\nLP, MC e CD, Luaka Pop \/ Sire, distri. Warner<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/davidByrne.jpg\" alt=\"\" width=\"656\" height=\"431\" class=\"alignnone size-full wp-image-10671\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/davidByrne.jpg 656w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/davidByrne-300x197.jpg 300w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/davidByrne-624x410.jpg 624w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/davidByrne-100x66.jpg 100w\" sizes=\"auto, (max-width: 656px) 100vw, 656px\" \/><br \/>\n<\/center><br \/>\nDavid Byrne passou definitivamente para o \u201coutro lado\u201d. \u201cThe Forest\u201d, o seu mais recente projecto, n\u00e3o tem rigorosamente nada que ver com toda a sua discografia anterior, a solo ou nos Talking Heads. Em termos formais, trata-se de uma obra conceptual, inteiramente orquestral e destitu\u00edda de quaisquer conota\u00e7\u00f5es com o rock ou a pop. O t\u00edtulo pode induzir em erro, sugerindo um manifesto ecol\u00f3gico pr\u00f3-Amaz\u00f3nia, que, no caso de Byrne, nem sequer seria despropositado, tendo em conta anteriores liga\u00e7\u00f5es ao Brasil, \u00e0 sua m\u00fasica e aos seus rituais. \u201cThe Forest\u201d avan\u00e7a exactamente na direc\u00e7\u00e3o oposta \u00e0 \u201cf\u00e9erie\u201d carnavalesca de Rei Momo ou das recentes colect\u00e2neas brasileiras. \u201cFloresta\u201d que aqui funciona antes de mais como uma met\u00e1fora do inconsciente colectivo. \u201cMenos uma pe\u00e7a e mais um processo de descoberta do nosso lugar no mundo\u201d, para utilizar as palavras do compositor. Chegados a este ponto o melhor \u00e9 sentarmo-nos todos, relaxar, cruzar as pernas, acender o cachimbo e baixar as persianas e a voz. O assunto \u00e9 s\u00e9rio e merece discuss\u00e3o. Vamos por partes. Comecemos pelo som, que \u00e9 o que chega aos ouvidos em primeiro lugar. Pe\u00e7a \u00fanica, dividida em dez partes, em que a orquestra \u00e9 o principal \u201cinstrumento\u201d solista. H\u00e1 coros grandiosos, percuss\u00f5es tonitruantes e, ocasionalmente, a voz de Byrne, quase irreconhec\u00edvel. A explica\u00e7\u00e3o encontra-se em parte no crescente interesse que o m\u00fasico tem vindo a devotar aos compositores rom\u00e2nticos do s\u00e9culo passado, saltando por cima da aventura serialista, para recuperar o maior mediatismo da \u201cm\u00fasica de filmes\u201d, aquela que as pessoas associam a sentimentos de \u201crespeito\u201d, \u201cmist\u00e9rio\u201d, \u201caventura\u201d, \u201cterror\u201d, \u201cang\u00fastia\u201d e \u201calegria\u201d.<br \/>\nOs saltos seguintes s\u00e3o menos evidentes. A ideia de Byrne \u00e9 a seguinte (baixemos ainda mais o tom de voz e, j\u00e1 agora, o de l\u00e1 do fundo que apague a luz e feche a porta): juntar a mitologia sum\u00e9ria \u00e0s novas concep\u00e7\u00f5es do mundo nascidas da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial. \u201cN\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel!\u201d, exclamam todos em coro. \u201cCom David Byrne, tudo \u00e9 poss\u00edvel\u201d, riposta, imperturb\u00e1vel, o cr\u00edtico, voltando a acender o cachimbo e descruzando as pernas, enquanto se delicia com a reac\u00e7\u00e3o da plateia. Na altura, David Byrne andava a ler muito provavelmente o cl\u00e1ssico de Mircea Eliade. De repente, descobriu que \u201cas lendas e mitos podiam funcionar como uma esp\u00e9cie de hist\u00f3rias primordiais, a partir das quais emergiriam todos os filmes contempor\u00e2neos, programas de TV e novelas\u201d. Como o mito mais antigo que conhecia era o poema sum\u00e9rio da saga de Gilgamesh, foi por a\u00ed que come\u00e7ou. J\u00e1 agora, para aliviar um bocado a tens\u00e3o (est\u00e1 um ambiente de cortar \u00e1 faca), eis alguns dos subt\u00edtulos de \u201cThe Forest\u201d: \u201cUr\u201d, \u201cDura Europus\u201d, \u201cSamara\u201d, \u201cNineveh\u201d, \u201cTeotihuacan\u201d, \u201cAsuka\u201d\u2026<br \/>\nOnde \u00e9 que \u00edamos? Ah, sim, os mitos\u2026 Pois acontece que esse, como outros mitos, descreve (de forma mais ou menos obscura(, \u201cvoil\u00e1\u201d, \u201cas rela\u00e7\u00f5es entre a natureza e a cultura, a luta do homem e da civiliza\u00e7\u00e3o contra a natureza, a imortalidade e a morte\u201d. Ora, precisamente, toda esta problem\u00e1tica foi discutida e reformulada durante a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, na Europa e nos Estados Unidos, dando origem a novos conceitos como: \u201ca natureza \u00e9 maravilhosa e as cidades s\u00e3o feias\u201d ou \u201cDeus faz parte da natureza, o homem n\u00e3o\u201d, bem assim como a no\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias sobre o que eram, ou deveriam doravante passar a ser, coisas t\u00e3o importantes como \u201cprogresso\u201d, \u201csexo\u201d, \u201ctrabalho\u201d, \u201csexo\u201d, \u201cm\u00e1quinas\u201d, \u201csexo\u201d, \u201camor\u201d e, sobretudo, \u201csexo\u201d. O problema, (e eis-nos chegados ao cerne da quest\u00e3o) est\u00e1 em que a dita revolu\u00e7\u00e3o passou para a vitrina dos museus, mas as ideias e preconceitos entretanto formados, n\u00e3o. Citando Byrne: \u201cVivemos j\u00e1 num novo mundo, com uma cultura assente no primado da informa\u00e7\u00e3o e da computoriza\u00e7\u00e3o, mas os h\u00e1bitos mentais e as cren\u00e7as das pessoas permanecem obsoletos.\u201d Para abreviar a coisa (j\u00e1 se notam ao fundo da sala alguns bocejos): Somos \u201cmodernos\u201d da treta, que s\u00f3 querem sopas e descanso.<br \/>\n\u00c9 a\u00ed que aparece \u201cThe Forest\u201d, decidido a alterra o estado calamitoso a que cheg\u00e1mos e a acabar de vez com tamanha vergonha e iniquidade. Mas, para tal, tornava-se necess\u00e1rio penetrar nos meandros da \u201cfloresta\u201d metaf\u00f3rica do inconsciente, \u201csentir o romance das f\u00e1bricas, a beleza, o poder e as possibilidades das m\u00e1quinas que iriam transformar o mundo\u201d e depois \u201ctentar usar esta m\u00fasica para entrar nas mentes dos nossos antepassados, tanto os europeus como os sum\u00e9rios\u201d. S\u00f3 assim se tornar\u00e1 ent\u00e3o poss\u00edvel dar um passo em frente, em direc\u00e7\u00e3o ao futuro, que provavelmente coincidir\u00e1 com o pr\u00f3ximo \u00e1lbum dos Talking Heads.<br \/>\nMalta, vamos acordar. A coisa n\u00e3o \u00e9 assim t\u00e3o grave. Afinal trata-se apenas do novo disco de David Byrne. O homem at\u00e9 acredita no que diz e, o que \u00e9 mais importante, de cada uma das suas loucuras resulta sempre m\u00fasica interessante. Como \u00e9 o caso. Passadas a estranheza e resist\u00eancia inicial ao radicalismo formal e \u00e0 recusa sistem\u00e1tica em conceder o m\u00ednimo espa\u00e7o \u00e0 dan\u00e7a. Substitu\u00eddo pelo rigor orquestral e pelas estruturas \u201ccla\u00b4ssicas\u201d, de que \u201cThe Forest\u201d (parte da qual foi utilizada na pe\u00e7a teatral do mesmo nome, dirigida por Robert Wilson) faz gala em ostentar, resta apenas cortar as amarras, partir \u00e0 aventura e que seja o que Deus quiser. Depois da audi\u00e7\u00e3o haver\u00e1 talvez quem desate a correr desaustinado \u00e0 procura de seguran\u00e7a nos discos dos Talking Heads. Outros pensar\u00e3o que, afinal de contas, talvez Beethoven, Wagner ou Mahler n\u00e3o sejam assim t\u00e3o maus. Outros, finalmente, ficar\u00e3o mergulhados no mais profundo estupor. A maioria ficar\u00e1 confusa, sem saber o que fazer deste objecto \u201cdiferente\u201d e impenetr\u00e1vel a emo\u00e7\u00f5es prim\u00e1rias.<br \/>\nIndependentemente de tudo, por\u00e9m, fica uma certeza: David Byrne (re)tomou a dianteira e o comando das opera\u00e7\u00f5es, na frente mais avan\u00e7ada das manobras musicais do nosso s\u00e9culo. \u201cThe Forest\u201d ficar\u00e1 na hist\u00f3ria como um dos manifestos mais belos alguma vez escritos sobre a inquieta\u00e7\u00e3o do homem perante o absoluto. Podem sair.<br \/>\n<strong>*****<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quarta-Feira, Pop-Rock 12.06.1991 Cr\u00edticas: Pop-Rock O Homem E O Mito DAVID BYRNE The Forest LP, MC e CD, Luaka Pop \/ Sire, distri. 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