{"id":10267,"date":"2022-10-31T06:44:53","date_gmt":"2022-10-31T13:44:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=10267"},"modified":"2022-10-31T06:44:53","modified_gmt":"2022-10-31T13:44:53","slug":"varios-e-preciso-violentar-o-sistema-artigo-de-opiniao-blitz-valores-selados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2022\/10\/31\/varios-e-preciso-violentar-o-sistema-artigo-de-opiniao-blitz-valores-selados\/","title":{"rendered":"V\u00e1rios &#8211; &#8220;\u00c9 Preciso Violentar O Sistema&#8221; (artigo de opini\u00e3o | blitz | valores selados)"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 200;\ngoogle_ad_height = 200;\ngoogle_ad_format = \"200x200_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p>BLITZ 20 FEVEREIRO 1990 >> Valores Selados<\/p>\n<p><strong>O universo do Rock tem as suas mitologias bem demarcadas. Ao longo de quase 40 anos a ind\u00fastria soube sempre absorver as inova\u00e7\u00f5es e a rebeldia pretensamente t\u00edpicas do g\u00e9nero, retendo apenas a sua imagem superficial, integrando-a e faturando \u00e0 sua conta. Em Portugal somos mais aconchegados. Poucos arriscam sair dos c\u00edrculos de amigalha\u00e7os. Rocker portugu\u00eas sofre? Felizmente ainda h\u00e1 quem v\u00e1 fazendo por isso\u2026<\/strong><br \/>\n<center><br \/>\n<strong>\u00ab\u00c9 PRECISO VIOLENTAR O SISTEMA\u00bb<\/strong><br \/>\n<\/center><br \/>\nA galeria de mitos fabricada pelo business, desde Presley at\u00e9 Ian Curtis dos Joy Division, passando por Hendrix, Jim Morrison ou Janis Joplin, tem como caracter\u00edsticas comuns a morte e o excesso. O her\u00f3i rocker \u00e9 insepar\u00e1vel da sua condi\u00e7\u00e3o de m\u00e1rtir. A fama, o dinheiro e o sucesso tornam-se demasiado pesados para serem suportados. O ego das estrelas \u00e9 sempre extremamente fr\u00e1gil e complexo. No fundo s\u00e3o pessoas como n\u00f3s s\u00f3 que mais sens\u00edveis e vulner\u00e1veis.<br \/>\nV\u00e3o-se abaixo facilmente, afundados em terr\u00edveis dilemas existenciais. O seu estatuto de stars torna-se penoso. O sucesso \u00e9 insuport\u00e1vel, a sua aus\u00eancia tamb\u00e9m. O medo do palco transforma-se, com a experi\u00eancia dos anos, em p\u00e2nico. O talento passa a funcionar unicamente ao toque do \u00e1lcool e das drogas.<br \/>\nA imagem p\u00fablica sobrep\u00f5e-se \u00e0 verdadeira personalidade. Tudo \u00e9 agonia e sofrimento.<br \/>\nA ind\u00fastria sofre em sil\u00eancio com a dor dos seus meninos de ouro e tamb\u00e9m em comovido sil\u00eancio vai fornecendo a farmacologia necess\u00e1ria e esfregando as m\u00e3os de contentamento. \u00c9 um ciclo vicioso que desemboca na morte ou no abandono.<br \/>\nNo nosso pa\u00eds de pequeninos s\u00e3o poucos os m\u00fasicos que alcan\u00e7aram o estatuto de mitos\/m\u00e1rtires incompreendidos. O guitarrista Filipe Mendes, o Jimi Hendrix portugu\u00eas, e mais recentemente Ant\u00f3nio Varia\u00e7\u00f5es s\u00e3o os dois \u00fanicos exemplos conhecidos. O primeiro nunca alcan\u00e7ou a merecida gl\u00f3ria, o segundo passou de quase desprezado em vida para refer\u00eancia obrigat\u00f3ria para a nova gera\u00e7\u00e3o de rockers, depois de morto. \u00c9 triste, mas a coisa funciona mesmo assim.<br \/>\nOs nossos m\u00fasicos n\u00e3o se arriscam muito. Morrer sim, talvez, mas muito devagarinho e de prefer\u00eancia s\u00f3 depois dos 90. Em vez de se afogarem em quantidades inimagin\u00e1veis de subst\u00e2ncias proibidas caminhando rapidamente para a autodestrui\u00e7\u00e3o, preferem ser empregados de escrit\u00f3rio, banc\u00e1rios ou t\u00e9cnicos e computadores.<br \/>\nA m\u00e1xima punk de que se \u00e9 velho aos vinte anos n\u00e3o lhes diz nada. Em vez de se divertirem \u00e0 grande em orgias com groupies apetitosas, casam e constituem fam\u00edlia. Em vez de provocarem dist\u00farbios na rua ou nos hot\u00e9is, serem presos por posse de droga ou destru\u00edrem em palco material do mais caro, preferem trabalhar e ser \u00fateis \u00e0 sociedade. Ent\u00e3o essa rebeldia e esp\u00edrito de transgress\u00e3o? Que \u00e9 feito da insol\u00eancia e da provoca\u00e7\u00e3o gratuita? Ou ser\u00e1 que os nossos rockers s\u00e3o todos quarent\u00f5es de barriguinha e bem instalados na vida?<br \/>\nAos fins-de-semana, os nossos m\u00fasicos rock tiram a m\u00e1scara de cidad\u00e3os normais e cumpridores e trocam-na pela de estrelas do rock and roll. Mas porqu\u00ea s\u00f3 aos fins-de-semana? Todos sabemos que o Pa\u00eds fervilha de salas e de gente \u00e1vidas do bom velho compasso de 4\/4. N\u00e3o precisavam de se esconder por detr\u00e1s de balc\u00f5es de banco ou de escrit\u00f3rio. Ou ser\u00e1 que os nossos jovens rebeldes encontraram novas e mais subtis formas de subvers\u00e3o e contesta\u00e7\u00e3o social? \u00c0 f\u00faria das guitarras el\u00e9tricas, das cal\u00e7as justas e das letras intervencionistas, estilo \u00ab\u00e9 preciso violentar o sistema\u00bb, ter\u00e3o achado mais eficaz o desvio volunt\u00e1rio de um processo lan\u00e7ado nos labirintos de um arquivo ou a introdu\u00e7\u00e3o de um v\u00edrus no computador? N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que os tempos s\u00e3o outros?<br \/>\nN\u00e3o se conhecem muitos casos apaixonantes ocorridos com m\u00fasicos portugueses. H\u00e1 o Jorge Palma que tocava no Metro, o Ant\u00f3nio Manuel Ribeiro que levou com a casca de noz no olho e se casou, ou uma ou outra queda do palco. \u00c9 pouco. A maior parte da vida do m\u00fasico \u00e9 passada a protestar: contra a falta de condi\u00e7\u00f5es e de organiza\u00e7\u00e3o dos espet\u00e1culos ao vivo, o pre\u00e7o dos instrumentos musicais, a falta de um lugar para ensaiar sem incomodar os ouvidos dos vizinhos, a aus\u00eancia de salas e de interesse das editoras. Uma vida de c\u00e3o.<br \/>\nOs nossos m\u00fasicos de rock dividem-se em tr\u00eas grupos distintos: o primeiro \u00e9 o dos consagrados que subiram a pulso a escada do sucesso. \u00c9 o caso dos UHF, GNR, Her\u00f3is do Mar ou dos Xutos e Pontap\u00e9s. Ao fim de 10 anos de esfor\u00e7os e ced\u00eancias conseguiram obter discos de prata e ouro, com vendas astron\u00f3micas na casa dos dois e tr\u00eas mil exemplares. V\u00e3o \u00e0 televis\u00e3o e enchem os arraiais de prov\u00edncia. Ao fim de mais 10 anos arriscam o Coliseu. E ao fim de outros 10 come\u00e7am a considerar a hip\u00f3tese de abandonar os empregos seguros. Passam a vida \u00e0 procura de proje\u00e7\u00e3o no estrangeiro e a afirmarem que \u00abdesta vez \u00e9 que \u00e9\u00bb, \u00abo empres\u00e1rio interessa-se mesmo pela nossa m\u00fasica\u00bb e \u00abest\u00e3o reunidas as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias\u00bb. O melhor que conseguem \u00e9 ir tocar a Espanha, v\u00e1 l\u00e1, com sorte, a Fran\u00e7a, perante emigrantes. No regresso contam que a Europa os adorou.<br \/>\nO segundo grupo \u00e9 o dos desgra\u00e7ados tesos, sem dinheiro sequer para comprarem os instrumentos. Procuram furar a todo o custo mas raramente o conseguem. Afirmam-se todos independentes e marginais mas \u00e0 primeira oportunidade assinam por uma multinacional. A maioria n\u00e3o chega a gravar qualquer disco e mesmo esse vende-se pouco. Incluem-se neste grupo os incont\u00e1veis concorrentes aos concursos do Rock Rendez-Vous ou a massa amorfa das bandas de bailarico. N\u00e3o cito nomes para n\u00e3o desmoralizar. Al\u00e9m de que a vida n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 m\u00fasica.<br \/>\nPor fim h\u00e1 os queridos da cr\u00edtica, uns realmente bons outros nem tanto, que ou por terem verdadeiro talento ou boas amizades nos meios certos adquirem uma aura de prest\u00edgio e qualidade. T\u00eam mais fama que proveito. \u00c9 o caso dos realmente talentosos Mler Ife Dada, S\u00e9tima Legi\u00e3o, Madredeus, ou Nuno Canavarro, entre outros apenas preocupados com a qualidade da m\u00fasica que praticam. Tocam poucas vezes ao vivo mas n\u00e3o se ralam muito. Gravam bons discos mas as massas persistem em ignor\u00e1-los. S\u00e3o teimosos e ing\u00e9nuos e pensam que a qualidade, a sinceridade e a honestidade de processos bastam para a obten\u00e7\u00e3o de sucesso. N\u00e3o bastam. Mas ainda bem que persistem na sua ingenuidade e teimosia.<br \/>\nO melhor do \u00abrock portugu\u00eas\u00bb n\u00e3o \u00e9 rock. \u00c0s vezes \u00e9 portugu\u00eas\u2026<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>BLITZ 20 FEVEREIRO 1990 >> Valores Selados O universo do Rock tem as suas mitologias bem demarcadas. Ao longo de quase 40 anos a ind\u00fastria soube sempre absorver as inova\u00e7\u00f5es e a rebeldia pretensamente t\u00edpicas do g\u00e9nero, retendo apenas a sua imagem superficial, integrando-a e faturando \u00e0 sua conta. Em Portugal somos mais aconchegados. 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