{"id":10229,"date":"2022-10-19T07:04:14","date_gmt":"2022-10-19T14:04:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=10229"},"modified":"2022-10-19T07:04:14","modified_gmt":"2022-10-19T14:04:14","slug":"varios-breve-ensaio-sobre-o-exibicionismo-e-os-perigos-da-prosa-artigo-de-opiniao-blitz-literatura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2022\/10\/19\/varios-breve-ensaio-sobre-o-exibicionismo-e-os-perigos-da-prosa-artigo-de-opiniao-blitz-literatura\/","title":{"rendered":"V\u00e1rios &#8211; &#8220;Breve Ensaio Sobre O Exibicionismo E Os Perigos Da Prosa&#8221; (artigo de opini\u00e3o | blitz | literatura)"},"content":{"rendered":"<p>BLITZ 5 DEZEMBRO 1989 >> Valores Selados<\/p>\n<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 200;\ngoogle_ad_height = 200;\ngoogle_ad_format = \"200x200_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p>\tHoje nos valores est\u00e1 presente a literatura, nas suas duas vertentes: Poesia e Prosa. Tratarei da sua rela\u00e7\u00e3o com os m\u00fasicos e a m\u00fasica. Lugar pois para a cultura. Como deve ser.<br \/>\n\tA Poesia est\u00e1 na moda. E se virmos bem at\u00e9 \u00e9 f\u00e1cil compreender porqu\u00ea. A moda est\u00e1 sempre, de uma forma ou outra, ligada ao exibicionismo.<\/p>\n<p>BREVE ENSAIO SOBRE O EXIBICIONISMO PO\u00c9TICO E OS PERIGOS DA PROSA<\/p>\n<p>A moda do vestu\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 mais do que um pretexto para se destaparem e exibirem os corpos. A tend\u00eancia final \u00e9 para a nudez absoluta. Estou a lembrar-me por exemplo daquele modelo de Ives Saint-Laurent que destapa completamente o seio feminino. Ora, precisamente, do corpo j\u00e1 pouco resta para mostrar, tornando-se j\u00e1 fastidiosa a sua constante exibi\u00e7\u00e3o. Era precisamente destapar, mostrar, exibir provocatoriamente algo mais, mas o qu\u00ea?<br \/>\nA resposta foi dada pela poesia. Como recentemente se veio a descobrir, gra\u00e7as ao sistem\u00e1tico trabalho de investiga\u00e7\u00e3o dos meandros da mente humana levado a cabo pelas leitoras da \u00abMaria\u00bb (not\u00edcia divulgada em primeira m\u00e3o pelo \u00abO Independente\u00bb), a poesia permite a cada um \u00abentrar em contacto direto com os seus sentimentos mais \u00edntimos\u00bb (sic). Da\u00ed at\u00e9 \u00e0 exibi\u00e7\u00e3o desses mesmos sentimentos vai um passo muito curto. N\u00e3o foi ali\u00e1s por acaso que a descoberta se deve a um grupo de senhoras. O sexo feminino sempre foi mais dado a este tipo de exibi\u00e7\u00f5es, corporais ou outras. At\u00e9 se costuma dizer que os poetas e os artistas em geral s\u00e3o um pouco efeminados. Os machos convictos devem pois abster-se completamente de lerem poesia, pelo menos em p\u00fablico, evitando assim o espet\u00e1culo, sempre degradante, como o dado por certos senhores que se exibem frente \u00e0 \u00abBrasileira\u00bb empunhando um livro de Pessoa e sentados ostensivamente \u00e0 mesa do poeta. Em suma, quanto mais profunda a poesia, mais f\u00e1cil se torna o \u00abcontacto direto\u00bb e consequente exibi\u00e7\u00e3o. Basta ler, por exemplo, os primeiros versos de um qualquer poema de Anais Nin e, Z\u00e1s, saltam c\u00e1 para fora as intimidades todas, como por magia.<br \/>\nA moda veio do estrangeiro como n\u00e3o podia deixar de ser. Sabe-se como para os artistas e no caso concreto dos m\u00fasicos, \u00e9 fundamental o tal \u00abcontacto \u00edntimo com os sentimentos mais profundos\u00bb, indispens\u00e1vel para a feitura das suas obras de arte. Por outro lado os m\u00fasicos s\u00e3o exibicionistas natos. Muito antes de terem lido a \u00abMaria\u00bb j\u00e1 conheciam as faculdades despoletadoras do psiquismo humano proporcionadas pela poesia.<br \/>\nMas se os efeitos da poesia s\u00e3o j\u00e1 do dom\u00ednio p\u00fablico, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 prosa o problema \u00e9 bem diferente. Atualmente, pouco ou quase nada se sabe ainda acerca dos seus efeitos reais sobre o psiquismo humano. At\u00e9 agora as explica\u00e7\u00f5es dadas sobre o assunto t\u00eam sido vagas e insatisfat\u00f3rias. Correm alguns rumores, surgem ocasionalmente boatos, mas nada de verdadeiramente importante transparece que mere\u00e7a um m\u00ednimo de credibilidade cient\u00edfica.<br \/>\nRecentemente, uma equipa de investigadores do \u00ablobbie\u00bb \u00abCar\u00edcia\u00bb, concorrente da \u00abMaria\u00bb, tem procurado novas vias de investiga\u00e7\u00e3o, mas quanto a resultados concretos, nada, todos os esfor\u00e7os t\u00eam sido em v\u00e3o. Realizaram-se, quase em segredo, alguns testes, mas os resultados, repito, n\u00e3o d\u00e3o azo a grandes entusiasmos. Verifica-se, \u00e9 verdade, que a leitura de textos como \u00abGuerra e Paz\u00bb, \u00abOs Cinco na Ilha do Tesouro\u00bb ou a \u00abLista Telef\u00f3nica\u00bb provocam nos leitores-cobaia rea\u00e7\u00f5es totalmente diversas e por vezes mesmo contradit\u00f3rias. Mas a quest\u00e3o principal permanece: Porqu\u00ea? Verifica-se, por exemplo, que a maioria dos leitores a quem coube a leitura da \u00abLista Telef\u00f3nica\u00bb se revelou incapaz de a levar at\u00e9 ao fim. Quase todos se ficaram pela leitura das primeiras linhas revelando ao mesmo tempo um ar de confus\u00e3o e extrema perplexidade. Mais tarde, interrogados sobre o facto, revelaram achar na generalidade o texto \u00abmon\u00f3tono\u00bb e \u00abpouco interessante\u00bb. A \u00fanica exce\u00e7\u00e3o foi a de um leitor que ap\u00f3s ter devorado avidamente todo o texto, pediu de imediato que lhe trouxessem para ler as \u00abP\u00e1ginas Amarelas\u00bb. Mas a maioria n\u00e3o gostou. E, no entanto, a \u00abLista\u00bb \u00e9 das obras mais pretendidas, com novas edi\u00e7\u00f5es todos os anos. Como se explica tal paradoxo? Um entre tantos mist\u00e9rios at\u00e9 hoje por decifrar.<br \/>\nCompreende-se pois a relut\u00e2ncia dos m\u00fasicos em utilizarem a prosa na sua m\u00fasica. N\u00e3o se sabe at\u00e9 que ponto pode ser perigosa a sua leitura. Alguns experimentalistas mais afoitos resolveram arriscar. O compositor franc\u00eas Pierre Henry foi um dos pioneiros. Leu e musicou o \u00abLivro dos Mortos Tibetano\u00bb, no \u00e1lbum \u00abLe Voyage\u00bb, ou textos do Apocalipse numa obra ainda mais obscura. Mas, inexplicavelmente ou talvez n\u00e3o, o Estado franc\u00eas resolveu intervir proibindo o prosseguimento das experi\u00eancias e declarando o m\u00fasico como incapaz e mentalmente desequilibrado. Nunca mais se ouviu falar no seu nome.<br \/>\nEntre n\u00f3s, o cantor Fausto leu textos relativos aos Descobrimentos e passou-os para m\u00fasica. O disco da\u00ed resultante foi um \u00eaxito, com todos os portugueses a lerem sofregamente as \u00abCr\u00f3nicas\u00bb de Fern\u00e3o Mendes Pinto. Foi um caso t\u00edpico de resposta positiva da parte do psiquismo das massas. Quanto a Fausto, arriscou e ganhou. Mas quantos, menos afortunados, n\u00e3o ter\u00e3o tamb\u00e9m arriscado e perdido?<br \/>\nTalvez que os enigmas perdurem para sempre. Talvez os investigadores da \u00abMaria\u00bb possam um dia dar a conhecer ao mundo as respostas por que todos anseiam. Talvez sejam os pr\u00f3prios m\u00fasicos que est\u00e3o mais pr\u00f3ximos da verdade. Talvez, talvez\u2026<br \/>\nPor enquanto temos de nos contentar com o quase nada que sabemos. E, no fundo, talvez seja prefer\u00edvel assim. N\u00f3s portugueses somos prudentes, lemos pouco e ouvimos pouca m\u00fasica. E temos um governo que se preocupa e nos protege, mantendo louvavelmente altos os \u00edndices de analfabetismo. Mas vale prevenir\u2026<br \/>\nFiquemos pois todos pelo seguro \u00abBatem leve, levemente\u2026\u00bb guardando para n\u00f3s mesmos os nossos sentimentos mais \u00edntimos. Somos p\u00fadicos, singelos, mimosos e sonhadores. Somos portugueses, mas n\u00e3o somos poetas. Cruzes, canhoto, que vergonha!&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>BLITZ 5 DEZEMBRO 1989 >> Valores Selados Hoje nos valores est\u00e1 presente a literatura, nas suas duas vertentes: Poesia e Prosa. Tratarei da sua rela\u00e7\u00e3o com os m\u00fasicos e a m\u00fasica. Lugar pois para a cultura. Como deve ser. A Poesia est\u00e1 na moda. 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