{"id":10218,"date":"2022-10-17T04:37:13","date_gmt":"2022-10-17T11:37:13","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=10218"},"modified":"2022-10-17T04:37:13","modified_gmt":"2022-10-17T11:37:13","slug":"peter-hammill-prometeu-agrilhoado-valores-selados-blitz-artigo-de-opiniao-dossier","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2022\/10\/17\/peter-hammill-prometeu-agrilhoado-valores-selados-blitz-artigo-de-opiniao-dossier\/","title":{"rendered":"Peter Hammill &#8211; &#8220;Prometeu Agrilhoado&#8221; (valores selados | blitz | artigo de opini\u00e3o | dossier)"},"content":{"rendered":"<p>BLITZ 21 NOVEMBRO 1989 >> Valores Selados<\/p>\n<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 200;\ngoogle_ad_height = 200;\ngoogle_ad_format = \"200x200_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p>Como certamente repararam, estive ausente desta p\u00e1gina a passada semana. Outros deveres jornal\u00edsticos impuseram que me deslocasse \u00e0 Rep\u00fablica do Alto Volta para fazer a reportagem sobre os pequenos-almo\u00e7os de Paul McCartney nessa mesma Rep\u00fablica.<br \/>\nMas eis que regresso s\u00e3o e salvo, j\u00e1 refeito do choque McCartney e pronto para mais prosas sobre os \u00abValores\u00bb, talvez n\u00e3o t\u00e3o interessantes como as refei\u00e7\u00f5es do ex-Beatle, mas olhem, faz-se o que se pode. Dizia eu ent\u00e3o que os Van Der Graaf foram o grupo mais importante da d\u00e9cada de 70. Foram sim senhor e Peter Hammill um dos maiores poetas e compositores de sempre da m\u00fasica dita popular. \u00c9 sobre este senhor que, como tinha prometido, escreverei esta semana. Como o assunto \u00e9 extenso tra\u00e7arei a sua hist\u00f3ria cingindo-me apenas aos discos que, ao longo de duas d\u00e9cadas, Hammill vem brilhantemente assinando. O t\u00edtulo deste artigo \u00e9:<br \/>\n<center><br \/>\n<strong>PETER HAMMILL \u2013 PROMETEU  AGRILHOADO<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/ph1.jpg\" alt=\"\" width=\"289\" height=\"434\" class=\"alignnone size-full wp-image-10219\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/ph1.jpg 289w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/ph1-200x300.jpg 200w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/ph1-67x100.jpg 67w\" sizes=\"auto, (max-width: 289px) 100vw, 289px\" \/><br \/>\n<\/center><br \/>\nPorqu\u00ea Prometeu? Ora, porque foi esta personagem m\u00edtica quem roubou o Fogo Celeste, mesmo nas barbas do Criador. Depois foi castigado, como se impunha. Peter Hammill imitou o her\u00f3i do mito mas, como Fernando Pessoas bem acentuou, a posse do g\u00e9nio paga-se bem cara. Hammill nunca alcan\u00e7ou a gl\u00f3ria que j\u00e1 h\u00e1 muito merece. A sua obra \u00e9 conhecida apenas por um clube de iniciados, felizmente com cada vez mais s\u00f3cios.<br \/>\nPeter Hammill \u00e9 o rom\u00e2ntico por excel\u00eancia. N\u00e3o no sentido degradado do termo, geralmente associado aos remoques de um Tony de Matos ou, mais modernamente, a um V\u00edtor Espadinha, mas naquele, bem mais elevado, dos poetas do s\u00e9culo passado. O genu\u00edno poeta rom\u00e2ntico \u00e9 aquele que enfrenta, numa irremedi\u00e1vel solid\u00e3o, as for\u00e7as sobrenaturais que o transcendem, sejam deuses ou dem\u00f3nios. No s\u00e9c. XIX estes paladinos do eterno confronto entre o humano e a condi\u00e7\u00e3o divina acabavam sempre tuberculosos, apaixonavam-se por rapariguitas andrajosas que invariavelmente tomavam pela Mulher ideal, embebedavam-se e drogavam-se muito e \u00e0s vezes, por fastio ou verdadeiro desespero, suicidavam-se.<br \/>\nO nosso homem, mais prudente e avisado, escolheu antes escrever can\u00e7\u00f5es e gravar discos. As suas ang\u00fastias existenciais e dilaceramento interior t\u00eam sido \u00f3timos pretextos para a cria\u00e7\u00e3o de alguns momentos decisivos na hist\u00f3ria dos songwriters ocidentais (mas h\u00e1 outros?). Al\u00e9m de sofredor nato, Hammill \u00e9 um razo\u00e1vel pianista e guitarrista. Mas \u00e9 a VOZ que faz a diferen\u00e7a. A voz e a maneira como a utiliza. S\u00e3o \u00fanicos e est\u00e1 tudo dito.<br \/>\nPassemos ent\u00e3o aos discos e \u00e0 sua descri\u00e7\u00e3o sucinta. Passemos tamb\u00e9m para um tom mais s\u00e9rio que o homem e a obra assim o justificam.<br \/>\n1971 \u2013 (O mesmo ano da edi\u00e7\u00e3o de \u00abPawn Hearts\u00bb) &#8211; \u00abFool\u2019s Mate\u00bb, em portugu\u00eas, \u00abcheque \u00e0 pastora\u00bb aplicado no jogo do xadrez aos mais idiotas ou simplesmente inexperientes. Hammill tem a obsess\u00e3o do xadrez e \u00e9 um \u00f3timo jogador sobretudo quando joga sozinho, o que acontece quase sempre. Can\u00e7\u00f5es da primeira inf\u00e2ncia, ainda otimistas como \u00abImperial Zeppelin\u00bb ou \u00abSunshine\u00bb, mas otentando j\u00e1 os germes de iminentes dramas interiores. Participa no disco um tal Robert Fripp, o senhor que se segue nos \u00abValores\u00bb.<br \/>\n1973 &#8211; \u00abChameleon in the Shadow of the Night\u00bb. O primeiro cl\u00e1ssico. As paranoias em volta do estatuto do rockstar (que Hammill, de resto, nunca foi) em \u00abGerman Overalls\u00bb e \u00abRock and Role\u00bb. O fim dos fins, o Apocalipse, interior e planet\u00e1rio, nunca resolvido, nunca redentor, de \u00abIn the End\u00bb e a grande ode \u00e0 solid\u00e3o pintada em tons \u00e9picos e desamparados que \u00e9 \u00abIn the Black Room\u00bb.<\/p>\n<p><center><br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/ph2.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"595\" class=\"alignnone size-full wp-image-10220\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/ph2.jpg 600w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/ph2-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/ph2-300x298.jpg 300w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/ph2-100x100.jpg 100w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><br \/>\n<\/center \n\n1974 - \u00abThe Silent Corner and the Empty Stage\u00bb. A capa interior mostra uma cruz no centro de uma garganta desmesuradamente aberta. A totalidade da obra do autor de \u00abPawn Hearts\u00bb constitui a sua pr\u00f3pria crucifica\u00e7\u00e3o. Mas Hammill tamb\u00e9m ataca: o vazio do mundo moderno em \u00abModern\u00bb, as hipocrisias religiosas em \u00abThe Lie\u00bb ou a polui\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica em \u00abRed Shift\u00bb. Mas tamb\u00e9m uma imensa e entristecida ternura na balada \u00abWilhelmina\u00bb, deposi\u00e7\u00e3o do futuro nas m\u00e3os de uma crian\u00e7a. \u00abA Louse is not a Home\u00bb (um piolho n\u00e3o \u00e9 uma casa) \u00e9 uma longa e brilhante incurs\u00e3o na esquizofrenia mais terr\u00edvel que \u00e9 a da absoluta lucidez. Musicalmente o \u00e1lbum marca uma aproxima\u00e7\u00e3o mais not\u00f3ria ao som dos Van Der Graaf.\n1974 - \u00abIn Camera\u00bb. A obra m\u00e1xima. Basta escutar \u00abTapeworm\u00bb - o som da grande explos\u00e3o c\u00f3smica final ou a sequ\u00eancia final \u00abGog\/Magog\u00bb (dois dem\u00f3nios do Apocalipse), mergulho definitivo nos abismos do inconsciente, o desvendar de todos os seus c\u00f3digos e a agonia e dissolu\u00e7\u00e3o final do \u00abEu\u00bb nas c\u00e2maras do Inferno. Aterrador e sublime.\n1975 - \u00abNadir\u2019s Big Chance\u00bb. Nasce Ricky Nadir, alter-Ego de Hammill, primeiro dos punks. Guitarra em punho, blus\u00e3o de cabedal, \u00f3culos escuros, revolta contra tudo e todos. A fuga para a frente do desespero terminal do \u00e1lbum anterior. Um som genuinamente rock a quem John Lydon deve a paternidade dos Sex Pistols e um t\u00edtulo de faixa que diz tudo: \u00abThe Institute of Mental Health, Burning.\u00bb\n1977 - \u00abOver\u00bb. O disco das can\u00e7\u00f5es de amor, algumas das quais remisturadas para \u00abThe Love Songs\u00bb. De amores fracassados, como n\u00e3o podia deixar de ser. Arranjos orquestrais e um tom geral de abandono bem representado pelo magn\u00edfico e pungente \u00abTime Heals\u00bb. O tempo curar\u00e1 realmente todas as feridas?\n1978 - \u00abThe Future Now\u00bb. A grande viragem. Sonoridades predominantemente eletr\u00f3nicas e can\u00e7\u00f5es voltadas para o lado de fora como \u00abEnergy Vampires\u00bb ou \u00abMotorbike in Africa\u00bb, cheias de sintetizadores e sequenciadores. Capa a preto e branco, positivo e negativo da personalidade do m\u00fasico, num arranjo gr\u00e1fico brilhante.\n1979 - \u00abPH7\u00bb. Prossegue as vias abertas pelo \u00e1lbum anterior. Novas e mais complexas incurs\u00f5es na eletr\u00f3nica como o som industrial da \u00abPorton Down\u00bb ou as abstra\u00e7\u00f5es metaf\u00edsicas no labirinto de \u00abMr. X\u00bb e \u00abFaculty X\u00bb, aliena\u00e7\u00e3o de todos os sentidos numa vertigem sonora o n\u00edvel dos melhores arranjos dos Van Der Graaf.\n1980 - \u00abA Black Box\u00bb. A dualidade negro\/branco resolve-se ao negro absoluto. Um tema ocupa a totalidade do segundo lado: \u00abFlight\u00bb, justaposi\u00e7\u00e3o dos voos aeron\u00e1uticos \u00e0queles outros voos, interiores e bem mais perigosos. A arte da pilotagem e as piruetas prenunciadoras do desastre final. \u00abBlack Box\u00bb \u00e9 a caixinha que resta dos destro\u00e7os onde ficam registadas as causas da cat\u00e1strofe.\n1981 - \u00abSitting Targets\u00bb. Novamente os desastres, desta vez automobil\u00edsticos. O alvo humano, o boneco amarrado ao banco da frente, submetido a testes de acelera\u00e7\u00e3o e choque brutais. Se o conceito \u00e9 brilhante, o resto assinala a exaust\u00e3o da f\u00f3rmula \u00abHammill\u00bb, repetindo at\u00e9 \u00e0 exaust\u00e3o os temas e arranjos de sempre.\n1981 - \u00abEnter K\u00bb. Hammill, num derradeiro esfor\u00e7o de camale\u00e3o, transforma-se no enigm\u00e1tico K. O \u00faltimo sopro inspirador vem, previsivelmente, dos \u00abBlues\u00bb como \u00e9 exemplarmente demonstrado em \u00abHappy Hour\u00bb.\n1983 - \u00abPatience\u00bb, 1986 - \u00abSkin\u00bb. Dois \u00e1lbuns que nada trazem de novo. Hammill a meio-g\u00e1s procurando tardiamente e sem sucesso o reconhecimento em grande escala, recorrendo \u00e0 via nem sempre mais aconselh\u00e1vel da facilidade. Pelo meio a grava\u00e7\u00e3o do duplo ao vivo \u00abThe Margin\u00bb.\n1987 - \u00abAnd Close as This\u00bb. Voz e piano simulado por computador. Baladas tristes e despojadas reduzindo ao essencial a beleza do canto e da m\u00fasica daquele que por esta altura se transformara j\u00e1 numa esp\u00e9cie de Mito amaldi\u00e7oado. \u00abAnd Close as This\u00bb \u00e9 o \u00e1lbum da introspe\u00e7\u00e3o tranquila, o descanso do her\u00f3i.\n1988 - \u00abSpur of the Moment\u00bb. Gravado exclusivamente em CD. Explora\u00e7\u00f5es abstratas eletr\u00f3nicas realizadas inteiramente em computador, com a ajuda de Guy Evans.\n1989 - \u00abIn a Foreign Town\u00bb. O pior Hammill de sempre. Cr\u00edtica social e pol\u00edtica na sua vertente mais demag\u00f3gica. A m\u00fasica resume-se \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica dos truques e tiques do costume, despojos caricatos de um som que durante anos soube sempre manter-se original.\nRegiste-se ainda a participa\u00e7\u00e3o no \u00e1lbum de estreia de Robert Fripp, \u00abExposure\u00bb juntando a viol\u00eancia contida e envenenada do ex-King Crimson \u00e0 viol\u00eancia mais direta do ex-Van Der Graaf. O resultado \u00e9 avassalador em temas como \u00abChicago\u00bb ou \u00abDisengage\u00bb.\nFinalmente a c\u00e9lebre \u00f3pera, h\u00e1 muito anunciada e nunca concretizada. H\u00e1 uns quinze anos atr\u00e1s Hammill afirmava faltar apenas compor dez minutos de m\u00fasica. Est\u00e1 dif\u00edcil, hem, Peter?\nP.S. \u2013 Peter Hammill esteve duas vezes em Portugal. Em 81 no pavilh\u00e3o de Alvalade, na pele de Ricky Nadir e poucos anos mais tarde no Terreiro do Pa\u00e7o, associando-se, como bom looser que \u00e9, ao com\u00edcio do PS no ano da sua estrondosa derrota eleitoral. Mas nessa noite Hammill e os seus an\u00f3nimos amigos portugueses estavam bem mais longe\u2026\n\n<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>BLITZ 21 NOVEMBRO 1989 >> Valores Selados Como certamente repararam, estive ausente desta p\u00e1gina a passada semana. Outros deveres jornal\u00edsticos impuseram que me deslocasse \u00e0 Rep\u00fablica do Alto Volta para fazer a reportagem sobre os pequenos-almo\u00e7os de Paul McCartney nessa mesma Rep\u00fablica. 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