{"id":10141,"date":"2022-09-30T12:51:05","date_gmt":"2022-09-30T19:51:05","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=10141"},"modified":"2022-09-30T12:51:05","modified_gmt":"2022-09-30T19:51:05","slug":"annette-peacock-annette-peacock-deu-concerto-unico-em-lisboa-fogo-que-arde-sem-se-ver-concertos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2022\/09\/30\/annette-peacock-annette-peacock-deu-concerto-unico-em-lisboa-fogo-que-arde-sem-se-ver-concertos\/","title":{"rendered":"Annette Peacock &#8211; &#8220;Annette Peacock Deu Concerto \u00danico Em Lisboa  &#8211; Fogo Que Arde Sem Se Ver&#8221; (concertos)"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 336;\ngoogle_ad_height = 280;\ngoogle_ad_format = \"336x280_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p>P\u00daBLICO DOMINGO, 23 DEZEMBRO 1990 >> Cultura<br \/>\n<center><br \/>\n<strong>Annette Peacock deu concerto \u00fanico em Lisboa<\/p>\n<p>Fogo que arde sem se ver<\/strong><br \/>\n<\/center><br \/>\n<strong>Arde devagar a m\u00fasica de Annette Peacock, em combust\u00e3o lenta.<br \/>\nO concerto de anteontem \u00e0 noite na Aula Magna da Universidade de Lisboa foi assim \u2013 o contacto de uma voz l\u00e2nguida que se elevou, devagar, de um corpo esguio e hier\u00e1tico, at\u00e9 \u00e0 ab\u00f3boda do firmamento.<\/strong><\/p>\n<p><center><br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/annettepeacock3.jpg\" alt=\"\" width=\"789\" height=\"543\" class=\"alignnone size-full wp-image-10142\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/annettepeacock3.jpg 789w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/annettepeacock3-300x206.jpg 300w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/annettepeacock3-768x529.jpg 768w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/annettepeacock3-624x429.jpg 624w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/annettepeacock3-100x69.jpg 100w\" sizes=\"auto, (max-width: 789px) 100vw, 789px\" \/><br \/>\n<\/center><\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do fogo, cuja queimadura \u00e9 instant\u00e2nea, o gelo leva o seu tempo para fazer arder. Mas queima na mesma. Vestida de negro, sapatos de salto alto, chap\u00e9u a envolver os cabelos escuros, a cantora americana Annette Peacock surgiu na sala como uma est\u00e1tua, gelada e distante. Surgiu s\u00f3 e s\u00f3 permaneceu durante os primeiros temas \u2013 um sintetizador e uma voz.<\/p>\n<p>A m\u00e1quina falhou logo de in\u00edcio (tamb\u00e9m ela gelada, como calmamente explicou). A voz, essa, desde as primeiras notas levantou voo. Annette canta o mundo inteiro, filtrado pelo eterno feminino. O poder, o sexo, o poder do sexo e as pervers\u00f5es do poder pol\u00edtico, as rela\u00e7\u00f5es entre os seus atores, s\u00e3o dissecadas ao ponto de se poder, de novo, recuperar sem vergonha o conceito de \u201cmensagem\u201d.<br \/>\n\tAnnette Peacock n\u00e3o vai ter com as pessoas. Espera que estas venham ter consigo. Assim tem sido sempre, assim continuar\u00e1 a ser, enquanto tiver voz e o universo para cantar. Quando ocorreu a j\u00e1 citada falha t\u00e9cnica no sintetizador, limitou-se a pedir \u00e0 assist\u00eancia para esperar. Esta, numerosa, embora n\u00e3o suficiente para encher a sala, paciente, esperou. Ningu\u00e9m se enervou. O tempo n\u00e3o existe.<br \/>\n\tAos poucos, foram entrando em palco os restantes m\u00fasicos: Michael Mondesir (baixo) e Simon Price (percuss\u00e3o), primeiro. Finalmente Amit Mukhergee, o guitarrista. Acelerou-se a velocidade do degelo. A teia enfeiti\u00e7ante aprisionava aten\u00e7\u00f5es e emo\u00e7\u00f5es. A est\u00e1tua n\u00e3o mexia um m\u00fasculo. Mas a voz e a dan\u00e7a das m\u00e3os sobre o teclado ardiam cada vez com mais fulgor. S\u00f3 o homem da guitarra, de longa cabeleira como j\u00e1 n\u00e3o se usa, se entusiasmava por fora, pulando sobre o palco.<br \/>\n\tSensa\u00e7\u00e3o, para muitos de estranheza, aumentada por \u201cMemory Is\u201d, com as suas armadilhas circulares, a voz sintetizada repetindo \u201cremembering\u201d e a outra, a mesma, procurando fugir \u00e0 pris\u00e3o das imagens e das palavras inacabadas. O risco, como ela gosta. A aventura. E logo a seguir \u201cWe Are Adnate\u201d (\u201cestamos ligados\u201d) \u2013 \u201co inimigo real \u00e9 a natureza humana\/(\u2026)\/n\u00e3o nos podemos permitir ser pacientes nem acomodarmo-nos por mais tempo \u00e0 mentira\/desta vez n\u00e3o temos um futuro infinito \u00e0 nossa frente\u201d, a guitarra desvairada, acentuando o dramatismo das palavras, de \u201cAbstract Contact\u201d.<br \/>\n\tA autora de \u201cSonhos X\u201d funciona como um recetor de energia. Percorrem-na fluxos ora negativos, ora positivos. Antena. Eixo. Espada. Em palco, a horizontalidade do teclado cruza-se com a verticalidade aprumada do corpo. Como uma cruz, por cujo centro tudo flui e passa. \u00c9 por aqui que se pode e deve avaliar o sentido da arte e postura da cantora \u2013 centro ext\u00e1tico de um turbilh\u00e3o por si gerado, sem a atingir. Movimento de proje\u00e7\u00e3o centr\u00edfuga, de dentro para fora, do sil\u00eancio para a vertigem dos significados. As emo\u00e7\u00f5es nascem da impassibilidade, a energia eclode da quietude.<br \/>\n\tO pr\u00f3prio jogo instrumental dos restantes m\u00fasicos resolve-se nesse jogo de tens\u00f5es, constru\u00eddas a partir de pequenas frases, s\u00fabitas puls\u00f5es, numa estrutura paradoxalmente s\u00f3lida e prec\u00e1ria, desfeita imediatamente ap\u00f3s a cessa\u00e7\u00e3o dos sons. Explos\u00e3o-implos\u00e3o \u2013 respira\u00e7\u00e3o que deu vida ao concerto da Aula Magna.<br \/>\n\tEm \u201cPride\u201d (de \u201cSky-Skating\u201d, talvez a sublima\u00e7\u00e3o apote\u00f3tica da sua arte), a voz apoiou-se no registo de vibrafone do sintetizador, acentuando o tom vibr\u00e1til da interpreta\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o tempo que \u00e9 vencido por Annette Peacock. A gravidade tamb\u00e9m. Momentos altos foram ainda \u201cTaking It as It Comes\u201d e \u201cStill Too Far\u201d, cabais demonstra\u00e7\u00f5es de que for\u00e7a n\u00e3o \u00e9 sin\u00f3nimo de viol\u00eancia. O cl\u00edmax atingiu-se com a sequ\u00eancia \u201cLost In Your Speed\u201d e, \u00e0 sua maneira, o \u201crap\u201d-manifesto, \u201cElect Yourself\u201d, longos minutos em que a palavra derrubou os preconceitos e, pela gram\u00e1tica, o mundo se reconstruiu de novo.<br \/>\n\tA assist\u00eancia pediu mais. Annette consentiu mas avisou, no seu tom calmo, que seriam apenas dois \u201cencores\u201d. Assim foi, com \u201cMy Mama Never Taught Me How to Cook\u201d (de \u201cX-Dreams\u201d) e \u201cExpress Yourself\u201d. N\u00e3o se sabe se os presentes, rendidos, seguiram o conselho. O gelo tinha derretido. Ficava a noite, ardendo em fogo lento.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>P\u00daBLICO DOMINGO, 23 DEZEMBRO 1990 >> Cultura Annette Peacock deu concerto \u00fanico em Lisboa Fogo que arde sem se ver Arde devagar a m\u00fasica de Annette Peacock, em combust\u00e3o lenta. 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