{"id":10123,"date":"2022-09-26T07:50:00","date_gmt":"2022-09-26T14:50:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=10123"},"modified":"2022-09-26T07:52:16","modified_gmt":"2022-09-26T14:52:16","slug":"annette-peacock-a-voz-da-liberdade-concertos-antevisao-artigo-de-opiniao-entrevista-discografia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2022\/09\/26\/annette-peacock-a-voz-da-liberdade-concertos-antevisao-artigo-de-opiniao-entrevista-discografia\/","title":{"rendered":"Annette Peacock &#8211; &#8220;A Voz Da Liberdade&#8221; (concertos | antevis\u00e3o | artigo de opini\u00e3o | entrevista | discografia)"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 468;\ngoogle_ad_height = 60;\ngoogle_ad_format = \"468x60_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p>P\u00daBLICO QUARTA-FEIRA, 19 DEZEMBRO 1990 >> Pop Rock<br \/>\n<center><br \/>\n<strong>A VOZ DA LIBERDADE<\/strong><br \/>\n<\/center><br \/>\n<strong>N\u00e3o quer ser estrela nem que a considerem um objeto. Recusou tocar com David Bowie e Brian Eno \u2013 o sucesso n\u00e3o lhe diz nada. Prefere o prazer de um percurso solit\u00e1rio, sem perder o controlo da sua arte. P\u00f4s os sintetizadores a cantar quando estes n\u00e3o tinham ainda sequer voz. Ao fim de 25 anos de carreira, acha que as pessoas est\u00e3o aptas a compreend\u00ea-la. \u00c9 o que veremos em Lisboa, onde atua na Aula Magna, na pr\u00f3xima sexta-feira.<\/strong><\/p>\n<p><center><br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/annettepeacock.jpg\" alt=\"\" width=\"529\" height=\"802\" class=\"alignnone size-full wp-image-10126\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/annettepeacock.jpg 529w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/annettepeacock-198x300.jpg 198w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/annettepeacock-66x100.jpg 66w\" sizes=\"auto, (max-width: 529px) 100vw, 529px\" \/><br \/>\n<\/center><\/p>\n<p><strong>P\u00daBLICO \u2013 Cresceu entre m\u00fasicos de jazz, como Mingus ou Albert Ayler. A sua m\u00fasica, no entanto, parece afastar-se constantemente dessa linguagem. Ainda se considera uma int\u00e9rprete de jazz?<\/strong><br \/>\n\tAnnette Peacock \u2013 S\u00f3 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s minhas ra\u00edzes, na altura em que escrevia m\u00fasica instrumental para ser tocada por improvisadores. Havia a responsabilidade de compor uma base musical que eles pudessem desenvolver. Preocupo-me sempre com a liberdade que os m\u00fasicos t\u00eam, num contexto jazz\u00edstico. No meu caso pessoal, interessa-me a liberdade de que disponho para trabalhar elementos como a harmonia ou o ritmo, enfim os pr\u00f3prios elementos estruturais da m\u00fasica. Tudo isto est\u00e1 presente no idioma do jazz e s\u00f3 nesta medida \u00e9 que fui por ele influenciada.<br \/>\n<strong>\tP. \u2013 As palavras desempenham um papel importante nas suas can\u00e7\u00f5es, em termos de significado e musicalidade. Escreve poemas, \u00e0 maneira tradicional ou, pelo contr\u00e1rio, estes surgem a partir da voz e das t\u00e9cnicas vocais.<\/strong><br \/>\n\tR. \u2013 Dou prioridade \u00e0 m\u00fasica. O que surge em primeiro lugar \u00e9 o ambiente musical. \u00c0s vezes parto de uma atitude ou de uma vis\u00e3o particular daquilo que quero dizer. A \u00faltima coisa que me preocupa \u00e9 o que vou fazer com a minha voz. Defino primeiro o que quero fazer e s\u00f3 depois como o irei fazer.<br \/>\n<strong>\tP. \u2013 Gravou h\u00e1 anos um disco com o seu ex-marido Gary Peacock e com Paul Bley, para a editora de Manfred Eischer. O denominado \u201csom ECM\u201d exerceu alguma influ\u00eancia no seu estilo?<\/strong><br \/>\n\tR. \u2013 Pelo contr\u00e1rio. Paul Bley acha que fui eu que influenciei o tal \u201csom ECM\u201d. Nessa altura escrevia sobretudo baladas, tocadas por pequenos grupos de duas ou tr\u00eas pessoas. Ele acredita que a audi\u00e7\u00e3o da minha m\u00fasica, por parte de Manfred Eischer, foi determinante para a orienta\u00e7\u00e3o est\u00e9tica da editora. Antes n\u00e3o havia m\u00fasica lenta, era o \u201cfree jazz\u201d, tudo muito r\u00e1pido e agressivo. Faltava \u201cespa\u00e7o\u201d \u00e0 m\u00fasica. Faltava do\u00e7ura.<br \/>\n<center><br \/>\n<strong>Ironia<\/strong><br \/>\n<\/center><br \/>\n<strong>\tP. \u2013 Nas suas can\u00e7\u00f5es cruzam-se palavras por vezes violentas com uma maneira extremamente suave de as cantar. O tom dominante parece ser a ironia\u2026<\/strong><br \/>\n\tR. \u2013 Ironia, sim. Gosto de lidar com opostos. Procuro alcan\u00e7ar o equil\u00edbrio est\u00e9tico entre extremos. As ideias mais agressivas t\u00eam sempre um maior impacte quando s\u00e3o cantadas de modo n\u00e3o agressivo.<\/p>\n<p><strong>\tP. \u2013 Por falar em ironia, o que a levou a criar uma editora pr\u00f3pria, a Ironic Records?<\/strong><br \/>\n\tR. \u2013 Na altura estava a escrever um tipo de m\u00fasica sem qualquer hip\u00f3tese de ser aceite por uma grande companhia, pois n\u00e3o era de molde a agradar \u00e0s massas. Atualmente \u00e9 diferente, as pessoas t\u00eam uma maior abertura de esp\u00edrito, foram educadas num leque de experi\u00eancias musicais mais alargado. Mas no in\u00edcio dos anos 80, quando formei a minha editora, a minha m\u00fasica destinava-se somente \u00e0s audi\u00eancias mais esclarecidas.<br \/>\n<strong>\tP. \u2013 A Ironic Records possui mais alguns artistas, para al\u00e9m de si?<\/strong><br \/>\n\tR. \u2013 Apenas formei a editora para poder fazer e editar a minha m\u00fasica. Muitos m\u00fasicos j\u00e1 me pediram para incluir trabalhos seus na etiqueta, mas esquecem-se de uma coisa: n\u00e3o quero transformar-me numa editora de discos, mas simplesmente editar os meus trabalhos sem problemas e torn\u00e1-los acess\u00edveis a qualquer pessoa que os queira ouvir.<br \/>\n<center><br \/>\n<strong>\u201cN\u00e3o quero ser um objeto\u201d<\/strong><br \/>\n<\/center><br \/>\n<strong>\tP. \u2013 Porque recusou a proposta de David Bowie para tocar com ele, na \u00e9poca de \u201cAlladin Sane\u201d?<\/strong><br \/>\n\tR. \u2013 N\u00e3o quis fazer esse tipo de m\u00fasica. O que eu pretendia era andar em \u201ctourn\u00e9e\u201d pela Europa, utilizando sintetizadores numa base de improvisa\u00e7\u00e3o sobre novas estruturas musicais. Disse-lhe que, na sua qualidade de m\u00fasico, devia arranjar os seus pr\u00f3prios sintetizadores, fechar-se num quarto e aprender a toc\u00e1-los\u2026<br \/>\n<strong>\tP. \u2013 Tamb\u00e9m se recusou a trabalhar com Brian Eno\u2026<\/strong><br \/>\n\tR. \u2013 Sim, recusei o convite de Brian Eno porque ele queria separar a m\u00fasica da voz. Era como cortar-me ao meio. Eu preferia que a minha m\u00fasica aparecesse como um todo, com a voz indissociada dos poemas.<br \/>\n<strong>\tP. \u2013 Por outro lado, colaborou com Andrew Poppy, no \u00e1lbum \u201cAlphabed (a mystery dance)\u201d\u2026<\/strong><br \/>\n\tR. \u2013 Dessa vez aceitei. Gosto de colaborar nos projetos de outras pessoas quando elas respeitam aquilo que eu fa\u00e7o. No caso de Andrew Poppy n\u00e3o me vi confrontada com ter de aceitar um certo estilo de vida, como decerto teria acontecido se tivesse aceitado os convites de Bowie ou Eno, em que seria tratada como se fosse um objeto. \u00c9 dif\u00edcil ser-se real e verdadeiro quando se entra nessa grande mentira que \u00e9 o estatuto de estrela pop.<br \/>\n<strong>\tP. \u2013 O que quer dizer com \u201cser-se real e verdadeiro\u201d?<\/strong><br \/>\n\tR. \u2013 Nessa altura eu e David Bowie, que era f\u00e3 da minha m\u00fasica, partilh\u00e1vamos o mesmo \u201cmanager\u201d. Deste modo pude observar de perto a ascens\u00e3o de Bowie, quando os seus discos come\u00e7aram a tornar-se \u00eaxito na Am\u00e9rica. As pessoas tratavam-no como se fosse um objeto. Claro que era essa a imagem que ele gostava de dar aos outros, mas eu n\u00e3o me teria sentido bem nesse papel. Para mim, a m\u00fasica \u00e9 a maneira de expressar a minha vis\u00e3o pessoal, a minha arte, o meu trabalho. N\u00e3o a fa\u00e7o para obter resultados, sejam eles ganhar dinheiro ou tornar-me famosa. Fa\u00e7o m\u00fasica porque tenho de a fazer.<br \/>\n<strong>\tP. \u2013 Tem medo do sucesso?<\/strong><br \/>\n\tR. \u2013 Sim, de certo modo. N\u00e3o gosto de ser obrigada a fazer as coisas, penso que isso n\u00e3o me traria grande satisfa\u00e7\u00e3o. O sucesso acarreta a perda de controlo. O controlo da qualidade do meu trabalho \u00e9 imprescid\u00edvel para poder continuar. Mantenho-me fiel a estes princ\u00edpios e \u00e9 gra\u00e7as a eles que garanto a minha sanidade mental. O sucesso s\u00f3 me interessa se obedecer \u00e0s condi\u00e7\u00f5es que eu pr\u00f3pria imponho. Se o sucesso acontecer, n\u00e3o ser\u00e1 concerteza nos tempos mais pr\u00f3ximos\u2026 Preocupo-me apenas com a satisfa\u00e7\u00e3o que retiro do meu trabalho. N\u00e3o vou modificar esta maneira de proceder para obter resultados que n\u00e3o me trar\u00e3o qualquer felicidade.<br \/>\n<strong>\tP. \u2013 Os seus textos tratam, por vezes, temas inc\u00f3modos como a masturba\u00e7\u00e3o, o incesto ou o sadomasoquismo. N\u00e3o acha que \u00e9 a maneira mais dif\u00edcil de alcan\u00e7ar o reconhecimento p\u00fablico?<\/strong><br \/>\n\tR. \u2013 N\u00e3o gosto que me considerem uma rebelde, mas n\u00e3o tenho outra escolha: esses temas fazem parte da ess\u00eancia da vida que todos vivemos e se n\u00e3o falarmos deles estamos a incorrer numa mentira. Para se conseguir um trabalho continuado e prol\u00edfico, h\u00e1 que evitar duas coisas: uma \u00e9 n\u00e3o fazer nada, outra \u00e9 mentir. \u00c9 necess\u00e1ria a sinceridade. Decidi fazer m\u00fasica durante toda a vida. Esta decis\u00e3o torna-me capaz de ver as coisas a longo prazo e d\u00e1-me liberdade para as fazer, sem as press\u00f5es de uma editora convencional que n\u00e3o seria capaz de assumir riscos. Sem correr riscos, n\u00e3o consigo descobrir nada. Sem risco, n\u00e3o h\u00e1 prazer\u2026<br \/>\n<strong>\tP. \u2013 Nos seus at\u00e9 agora quatro \u00e1lbuns, gravados para a Ironic \u2013 \u201cSky Skating\u201d, \u201cBeen in the Streets too long\u201d, \u201cI Have no Feelings\u201d e \u201cAbstract Contact\u201d \u2013, utiliza praticamente apenas o piano e os sintetizadores\u2026<\/strong><br \/>\n\tR. \u2013 Basicamente, a m\u00fasica que gravo destina-se posteriormente a ser tocada ao vivo. Penso sempre nestes termos: \u201cComo vou tocar isto ao vivo?\u201d. Gosto de manter apenas um pequeno grupo de pessoas porque, em palco, h\u00e1 deste modo uma maior liberdade e a sensa\u00e7\u00e3o constante de que \u201ctudo pode acontecer\u201d, o que, para mim, se torna extremamente estimulante&#8230;<br \/>\n<strong>\tP. \u2013 \u00c9 verdade que foi um dos primeiros int\u00e9rpretes a utilizar o sintetizador Moog em palco?<\/strong><br \/>\n\tR. \u2013 Sim, com um dos primeiros prot\u00f3tipos do instrumento que me foi oferecido pelo seu inventor (Robert Moog). H\u00e1 tr\u00eas anos, algu\u00e9m me entregou uma revista t\u00e9cnica de computadores, em que se afirmava serem imposs\u00edveis as proezas t\u00e9cnicas que ent\u00e3o me eram atribu\u00eddas\u2026 Pensei inicialmente em fazer passar todos os outros instrumentos pelo sintetizador, transformar-lhes o som e control\u00e1-los como se fosse um dirigente de orquestra. Mas acabei por achar mais interessante filtrar antes a minha voz. Nessa altura o Vocoder (mais tarde largamente utilizado por Laurie Anderson, por exemplo) ainda n\u00e3o tinha sido inventado. O sintetizador que eu utilizava nem sequer tinha sido concebido para receber o som doutros instrumentos\u2026 Era uma coisa enorme e pesada. M\u00fasicos como Tony Williams e John McLaughlin, costumavam ent\u00e3o assistir aos meus concertos. Para eles, era uma novidade. Tinham de esperar 20 minutos entre cada can\u00e7\u00e3o, que era o tempo necess\u00e1rio para mudar as liga\u00e7\u00f5es&#8230;<br \/>\n<center><br \/>\n<strong>\u201cRap\u201d longo e profundo<\/strong><br \/>\n<\/center><br \/>\n<strong>\tP. \u2013 O que a levou a escrever o quase manifesto que \u00e9 \u201cElect yourself\u201d, inclu\u00eddo no seu mais recente disco, \u201cAbstract Contact\u201d?<\/strong><br \/>\n\tR. \u2013 Tem tudo a ver com a nova gera\u00e7\u00e3o de putos que acreditam que a m\u00fasica pode mudar o mundo. \u00c9 um \u201crap\u201d escrito \u00e0 minha maneira (como \u201cLoss of Consciousness\u201d, de \u201cThe Perfect Release\u201d); longo e profundo, que n\u00e3o tem nada a ver com os habituais egotismos do g\u00e9nero, do tipo \u201cOlhem para mim, sou o melhor compositor do mundo\u201d\u2026<br \/>\n<strong>\tP. \u2013 Tem planos para um pr\u00f3ximo \u00e1lbum?<\/strong><br \/>\n\tR. \u2013 De facto, preparo atualmente um novo disco que ser\u00e1 qualquer coisa de muito perfeito. \u00c9 uma obra em que trabalho j\u00e1 h\u00e1 alguns anos e que n\u00e3o ser\u00e1 editada na minha editora. Desta vez a m\u00fasica ser\u00e1 menos elitista e qualquer pessoa est\u00e1 apta a compreend\u00ea-la\u2026<br \/>\n<strong>\tP. \u2013 Em Lisboa, como ser\u00e1? Quais os m\u00fasicos que a acompanham e qual o report\u00f3rio escolhido?<\/strong><br \/>\n\tR. \u2013 Venho acompanhada de um trio de m\u00fasicos muito jovens: Simon Price, na bateria, que participou na grava\u00e7\u00e3o de \u201cAbstract Contact\u201d, Michael Mondesir, no baixo, durante tr\u00eas anos acompanhante do saxofonista Courtney Pine, e Amit Mukherjee, na guitarra. Cantarei can\u00e7\u00f5es de todos os meus \u00e1lbuns, a partir de \u201cX-Dreams\u201d. Tenho muito por onde escolher, entre 25 anos de can\u00e7\u00f5es. Organizei uma sequ\u00eancia estruturada de forma \u201cdram\u00e1tica\u201d, para o impacte ser maior. Espero que as pessoas percam a cabe\u00e7a, do estilo de sa\u00edrem da sala sem saber onde moram\u2026<\/p>\n<p><strong>DISCOGRAFIA<\/strong><\/p>\n<p>1968 \u2013 REVENGE<br \/>\n\tPolydor<br \/>\nEstreia de quase imposs\u00edvel acesso. Inclui o \u201cpunk rap\u201d \u201cI Belong to a World that\u2019s Destroying Itself\u201d. Prov\u00e1veis del\u00edrios eletr\u00f3nicos, suavizados pelas car\u00edcias da voz aveludada. Vingan\u00e7a contra os habitantes do mundo, na \u00e9poca entretidos a brincar \u00e0s cores nas traseiras da realidade.<\/p>\n<p><strong>1971 \u2013 I\u2019M THE ONE<\/strong><br \/>\n\tRCA<br \/>\nFoi quando Bowie a descobriu. Na altura at\u00e9 o NME dizia maravilhas. Tamb\u00e9m \u00e9 dif\u00edcil encontr\u00e1-lo. Adivinham-se para\u00edsos a que a inacessibilidade acrescenta o sabor do desconhecido.<\/p>\n<p><strong>1978 \u2013 X-DREAMS<\/strong><br \/>\n\tAura<br \/>\nApareceu por c\u00e1 na altura e foi um estouro. Com que cara se escuta algu\u00e9m cantar \u201cMy Mama Never Taught me How to Cook\u201d como se fosse a atividade mais er\u00f3tica do mundo? Em \u201cToo Much in the Skies\u201d, ficamos a saber como cantam os anjos nos ardores da primavera.<\/p>\n<p><strong>1979 \u2013 THE PERFECT RELEASE<\/strong><br \/>\n\tAura<br \/>\nMenos aparatoso que o anterior. \u201cO amor saiu para almo\u00e7ar\u201d, \u201cPerda de Consci\u00eancia\u201d. Os extremos tocam-se, a viol\u00eancia e a sensualidade da voz. Destaque para \u201cSurvival\u201d, longo tema, discretamente \u201cjazzy\u201d, em que as palavras se transformam em mantra hipn\u00f3tica.<\/p>\n<p><strong>1982 \u2013 SKY SKATING<\/strong><br \/>\n\tIronic<br \/>\nObra m\u00e1xima. Voz, piano e sintetizador bastam para fazer da balada um g\u00e9nero maior. Cada can\u00e7\u00e3o arranha c\u00e9us. A bailarina dan\u00e7a no topo dos edif\u00edcios e flutua mais para cima. A vertigem \u00e9 nossa.<\/p>\n<p><strong>1983 \u2013 BEEN IN THE STREETS TOO LONG<\/strong><br \/>\n\tIronic<br \/>\nTalvez, mas para n\u00f3s n\u00e3o. \u00c9 a continua\u00e7\u00e3o musical do \u00e1lbum anterior. Seduz irremediavelmente, como todos. A mesma instrumenta\u00e7\u00e3o, a altura de sempre das palavras. A voz. A voz que parece ter corpo e tocar-nos diretamente onde somos mais sens\u00edveis.<\/p>\n<p><strong>1986 \u2013 I HAVE NO FEELINGS<\/strong><br \/>\n\tIronic<br \/>\nMais eletr\u00f3nico que os anteriores. \u00c0s vezes lembramo-nos de Robert Wyatt, no som, na desola\u00e7\u00e3o, no tom intimista e sombrio das palavras. Ainda e sempre a ironia\u2026<\/p>\n<p><strong>1988 \u2013 ABSTRACT CONTACT<\/strong><br \/>\n\tIronic<br \/>\nO mais acess\u00edvel de todos. \u201cFunky\u201d \u00e0 maneira da senhora. Os mais despreocupados podem pois dan\u00e7ar. \u201cElect Yourself\u201d \u2013 15 minutos, os suficientes para tocar em todas as feridas da Am\u00e9rica e mesmo nas nossas. Mesmo assim, queremos mais. Annette canta todas as coisas como se fizesse amor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>P\u00daBLICO QUARTA-FEIRA, 19 DEZEMBRO 1990 >> Pop Rock A VOZ DA LIBERDADE N\u00e3o quer ser estrela nem que a considerem um objeto. Recusou tocar com David Bowie e Brian Eno \u2013 o sucesso n\u00e3o lhe diz nada. Prefere o prazer de um percurso solit\u00e1rio, sem perder o controlo da sua arte. 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