{"id":10028,"date":"2022-09-01T06:52:04","date_gmt":"2022-09-01T13:52:04","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=10028"},"modified":"2022-09-01T06:52:04","modified_gmt":"2022-09-01T13:52:04","slug":"michael-nyman-michael-nyman-e-a-sua-banda-atuam-hoje-a-noite-no-s-luiz-em-lisboa-a-minha-musica-e-bastante-sensual-entrevista-concerto-antevisao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2022\/09\/01\/michael-nyman-michael-nyman-e-a-sua-banda-atuam-hoje-a-noite-no-s-luiz-em-lisboa-a-minha-musica-e-bastante-sensual-entrevista-concerto-antevisao\/","title":{"rendered":"Michael Nyman &#8211; &#8220;Michael Nyman E A Sua Banda Atuam Hoje \u00c0 Noite No S. Luiz, Em Lisboa &#8211;  &#8216;A Minha M\u00fasica \u00c9 Bastante Sensual'&#8221; (entrevista | concerto | antevis\u00e3o)"},"content":{"rendered":"<p>P\u00daBLICO SEXTA-FEIRA, 26 OUTUBRO 1990 >> Cultura<br \/>\n<center><br \/>\n<strong>Michael Nyman e a sua banda atuam hoje \u00e0 noite no S. Luiz, em Lisboa<\/p>\n<p>\u201cA minha m\u00fasica \u00e9 bastante sensual\u201d<\/strong><br \/>\n<\/center><br \/>\n<strong>Anal\u00edtico e intuitivo, erudito e popular, Michael Nyman confunde os acad\u00e9micos ao mesmo tempo que rivaliza com o rock no apelo \u00e0s massas e na energia da m\u00fasica. \u00c9 o ilustrador musical dos filmes de Peter Greenaway e j\u00e1 trabalhou com Kate Bush. Para ele, intelecto, emo\u00e7\u00e3o e sentidos formam um todo insepar\u00e1vel.<\/strong><\/p>\n<p><center><br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/michaelNyman.jpg\" alt=\"\" width=\"789\" height=\"486\" class=\"alignnone size-full wp-image-10029\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/michaelNyman.jpg 789w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/michaelNyman-300x185.jpg 300w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/michaelNyman-768x473.jpg 768w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/michaelNyman-624x384.jpg 624w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/michaelNyman-100x62.jpg 100w\" sizes=\"auto, (max-width: 789px) 100vw, 789px\" \/><br \/>\n<\/center> <\/p>\n<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 336;\ngoogle_ad_height = 280;\ngoogle_ad_format = \"336x280_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p>Hoje \u00e0 noite, no Teatro Municipal de S. Luiz, em Lisboa, pelas 22h30, vamos todos perder-nos no prazer dos labirintos sonoros de Michael Nyman. O concerto incidir\u00e1 sobretudo em pe\u00e7as compostas para Greenaway, como \u201cDrowning by Numbers\u201d, atualmente em exibi\u00e7\u00e3o num cinema lisboeta, \u201cThe Cook, the Thief, his Wife and her Lover\u201d e o pr\u00f3ximo \u201cProspero\u2019s Book\u201d inspirado na \u201cTempestade\u201d, de William Shakespeare. Vem acompanhado de oito m\u00fasicos. Sopros, cordas e piano formam o grupo instrumental que desde sempre tem utilizado. H\u00e1 quem considere barroca a sua m\u00fasica.<br \/>\n<strong>\tP\u00daBLICO \u2013 Um dos temas recorrentes na sua m\u00fasica \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o com os n\u00fameros, como em \u201cDecay Music\u201d ou \u201cDrowning by Numbers\u201d. A que se deve esse interesse pelos sistemas num\u00e9ricos?<\/strong><br \/>\n\tMichael Nyman \u2013 Tudo parte de John Cage e da utiliza\u00e7\u00e3o, da parte deste, de sistemas num\u00e9ricos aleat\u00f3rios. Ao contr\u00e1rio da minha, a m\u00fasica de Cage \u00e9 muito sistem\u00e1tica. Utilizo os n\u00fameros na medida em que me permitem fazer certos malabarismos e elaborar novas configura\u00e7\u00f5es musicais. Exemplo extremo de um processo mais anal\u00f3gico \u00e9 o tema \u201c1 \u2013 100\u201d (inclu\u00eddo em \u201cDecay Music\u201d). Atualmente o meu interesse por estes m\u00e9todos \u00e9 bastante menor. Fa\u00e7o m\u00fasica mais intuitiva, lidando com processos musicais em vez de matem\u00e1ticos. Os sistemas num\u00e9ricos j\u00e1 n\u00e3o chegam para algu\u00e9m que, como eu, optou por uma est\u00e9tica mais pessoal. A utiliza\u00e7\u00e3o dos n\u00fameros pressup\u00f5e a submiss\u00e3o a regras que lhe s\u00e3o exteriores.<br \/>\n<strong>\tP. \u2013 A morte \u00e9 outro tema que parece interess\u00e1-lo e que partilha com Peter Greenaway. Chega mesmo a definir \u201cDrowning by Numbers\u201d como \u201cM\u00fasica Funer\u00e1ria\u201d\u2026<\/strong><br \/>\n\tR. \u2013 Escrevi muito desse tipo de m\u00fasica sobretudo para os filmes de Greenaway porque \u00e9 um tema prevalecente na sua obra. N\u00e3o sei quais s\u00e3o as suas motiva\u00e7\u00f5es para essa quase obsess\u00e3o. No meu caso, sinto-me t\u00e3o interessado pelo assunto como outra coisa qualquer. Vivemos todos confrontados com a possibilidade de morrer. Pessoalmente n\u00e3o me sinto aterrorizado por isso.<br \/>\n\tO tema da morte abrange um determinado campo da minha escrita musical. Se, por um lado, esta \u201cm\u00fasica sobre a morte\u201d ostenta um cariz nost\u00e1lgico, por outro, em pe\u00e7as como \u201cMemorial\u201d, baseada no massacre de Heysel, procurei atingir um objetivo muito espec\u00edfico, uma maneira mais concreta de tratar o assunto.<br \/>\n\t\u201cDrowning by Numbers\u201d \u00e9 mais eleg\u00edaco, uma esp\u00e9cie de com\u00e9dia negra.<br \/>\n<strong>\tP. \u2013 Muitos dos t\u00edtulos de obras suas, referem-se \u00e0 \u00e1gua: \u201cA Watery Death\u201d, \u201cWater Dances\u201d ou \u201cWater Music\u201d, composta para um v\u00eddeo de Fabrizio Plessi.<\/strong><br \/>\n\tR. \u2013 \u00c9 um caso id\u00eantico ao tema da morte, e reflexo de mais uma das obsess\u00f5es de Peter Greenaway. No caso de Plessi, trabalh\u00e1mos numa \u00f3pera em que ele juntava a alta tecnologia a recursos b\u00e1sicos, como a \u00e1gua. Por vezes os t\u00edtulos v\u00eam a prop\u00f3sito. A rela\u00e7\u00e3o entre uma pe\u00e7a de m\u00fasica e o seu t\u00edtulo, \u00e9 bastante aleat\u00f3ria. Por exemplo, no caso de \u201cA Watery Death\u201d, a m\u00fasica n\u00e3o tinha sido escrita em particular para a sequ\u00eancia de imagens que Peter Greenaway lhe justap\u00f4s.<br \/>\nLabirintos sensuais<\/p>\n<p><strong>\tP. \u2013 \u201cThe Draughtsman\u2019s Contract\u201d funciona, em termos cinematogr\u00e1ficos e musicais, como um labirinto est\u00e9tico e mental. Poderemos considerar a sua m\u00fasica labir\u00edntica.<\/strong><br \/>\n\tR. \u2013 Se funciona como tal n\u00e3o \u00e9 premeditado. Mas, de facto, a minha m\u00fasica \u00e9 \u201ccircular\u201d, seguindo numa determinada dire\u00e7\u00e3o para, de repente, a deixar e mais tarde voltar ao ponto de partida. Avan\u00e7a no tempo ao mesmo tempo que permanece est\u00e1tica. N\u00e3o sei se, ao ouvi-la, as pessoas se perdem ou n\u00e3o. \u00c9 poss\u00edvel que por vezes n\u00e3o consigam situar-se nessa esp\u00e9cie de espiral. H\u00e1 uma analogia com os filmes de Greenaway, que quase sempre giram em torno de si mesmos, numa din\u00e2mica cont\u00ednua de avan\u00e7o e retorno ao ponto de partida.<br \/>\n<strong>\tP. \u2013 O cineasta chileno Raoul Ruiz \u00e9 outro apaixonado por labirintos. Em que ponto se encontra a vossa colabora\u00e7\u00e3o no projeto para a \u00f3pera \u201cDon Juan\u201d?<\/strong><br \/>\n\tR. \u2013 De momento est\u00e1 tudo parado. O dinheiro que dever\u00edamos receber da \u201cExpo 92\u201d, que nos encomendou esse trabalho, n\u00e3o chegou. Estamos mesmo a considerar a hip\u00f3tese de o arranjar noutro lugar ou mesmo de partir para um projeto diferente. Mas por enquanto tudo n\u00e3o passa de teoria.<br \/>\n<strong>\tP. \u2013 A sua m\u00fasica \u00e9 quase pag\u00e3 na intensidade com que apela aos sentidos, embora n\u00e3o descure o lado cerebral. A que se deve essa preocupa\u00e7\u00e3o pelas rea\u00e7\u00f5es do corpo?<\/strong><br \/>\n\tR. \u2013 Seja ou n\u00e3o pag\u00e3o, gosto do facto de escrever e tocar um tipo de m\u00fasica que atue a esses dois n\u00edveis. Quem escutar a banda que ir\u00e1 atuar em Lisboa, ter\u00e1 oportunidade de sentir o impacto f\u00edsico que a minha m\u00fasica provoca, muito diferente do dos discos, um pouco \u00e0 maneira do que se passa com o Rock.<br \/>\n<strong>\tP. \u2013 \u00c9 um hedonista?<\/strong><br \/>\n\tR. \u2013 Musicalmente, sim. Parto sempre de um \u201cprinc\u00edpio do prazer\u201d, dirigido ao p\u00fablico, a mim e aos m\u00fasicos da banda. Acho excitante estar sobre um palco, no interior da m\u00fasica, do som que eu pr\u00f3prio crio. H\u00e1 qualquer coisa de f\u00edsico. O Rock consegue \u00e0s vezes atingir esse puro prazer. No polo oposto est\u00e1 um processo intelectual de escrita, n\u00e3o muito diferente daquele utilizado pelos compositores cl\u00e1ssicos convencionais. Quando tomo notas em pequenos peda\u00e7os de papel ou manipulo material sonoro, n\u00e3o existe nada de f\u00edsico, \u00e9 um processo de an\u00e1lise, levado a cabo exclusivamente pelo c\u00e9rebro. Diria, em suma, que a minha m\u00fasica \u00e9 bastante sensual.<\/p>\n<p><strong>\tP. \u2013 Por falar em sensualidade, j\u00e1 trabalhou com Kate Bush, em \u201cThe Sensual World\u201d\u2026<\/strong><br \/>\n\tR. \u2013 Foi uma experi\u00eancia interessante, embora se tratasse apenas dos arranjos para cordas. O que mais me impressionou em Kate Bush foi o seu ouvido apurado, a concis\u00e3o e o modo meticuloso como trata o mais \u00ednfimo pormenor. Nas partes que arranjei, o som das cordas \u00e9 envolvido por uma multiplicidade de outros sons.<\/p>\n<p><strong>Rock, humor e \u201cm\u00fasica decente\u201d<\/strong><\/p>\n<p><strong>\tP. \u2013 Disse uma vez que gostaria de trabalhar com David Byrne. Donde lhe vem o interesse pela m\u00fasica Rock?<\/strong><br \/>\n\tR. \u2013 Gosto do trabalho de David Byrne. Penso que \u00e9 um m\u00fasico extremamente inteligente. A n\u00edvel pessoal damo-nos otimamente.<br \/>\n\tQuanto ao interesse que nutro pelo Rock, \u00e9 muito recente. Nos anos 50 vivi a minha adolesc\u00eancia no auge do \u201crock \u2018n\u2019 roll\u201d mas na altura n\u00e3o lhe prestava muita aten\u00e7\u00e3o. Confesso que n\u00e3o me lembro de nenhum tema em particular, dessa \u00e9poca. Ao longo dos anos 60 e 70 havia, por parte dos compositores de outras \u00e1reas musicais, uma atitude muito aberta para com este tipo de m\u00fasica. Stockhausen e Luciano Berio, por exemplo, estavam conscientes da import\u00e2ncia de que o Rock se reveste em termos culturais.<br \/>\n\tA partir de certa altura tudo se tornou progressivamente mais s\u00e9rio. Criou-se uma divis\u00f3ria artificial entre uma m\u00fasica tida por \u201cdecente, de estilo\u201d, apontada \u00e0s elites, e uma m\u00fasica vern\u00e1cula, mais popular. Pessoalmente encontro-me na estranha posi\u00e7\u00e3o de compor \u201cart music\u201d utilizando embora uma linguagem vern\u00e1cula. Para o p\u00fablico \u00e9 excitante. Os meios acad\u00e9micos criticam-me porque n\u00e3o conseguem compreender que, em termos globais, se trata de uma e a mesma coisa.<br \/>\n<strong>\tP. \u2013 Embora seja considerado pela maioria das pessoas como um compositor \u201cs\u00e9rio\u201d, esquecidas que fez parte, por exemplo, dos Flying Lizards, torna-se poss\u00edvel detetar na sua m\u00fasica um humor muito fino. \u00c9 verdade?<\/strong><br \/>\n\tR. \u2013 \u00c9 involunt\u00e1rio. Nunca me preocupei em fazer m\u00fasica que fosse humor\u00edstica. A ironia que possa ser detetada nos meus discos n\u00e3o foi l\u00e1 posta deliberadamente por mim. Estava a pensar em algum caso em particular?<br \/>\n<strong>\tP. \u2013 \u201cThe Nose List Song\u201d, por exemplo, em \u201cThe Kiss and Other Movements\u201d\u2026<\/strong><br \/>\n\tR. \u2013 Sim, por causa do texto. Se tivesse escolhido outro, era capaz de j\u00e1 n\u00e3o soar t\u00e3o engra\u00e7ado. N\u00e3o escrevo propriamente \u201cpiadas musicais\u201d mas gosto de jogar, de brincar com as palavras. Brinco com os \u201cclich\u00e9s\u201d musicais acumulados ao longo dos \u00faltimos 200 ou 300 anos. No final de \u201cWater Dances\u201d acabo por me aproximar de um registo pr\u00f3ximo do Rock. \u00c9 a minha maneira de chamar a aten\u00e7\u00e3o para a continuidade presente na evolu\u00e7\u00e3o do fen\u00f3meno musical.<br \/>\n\tH\u00e1 tamb\u00e9m uma s\u00e9rie de \u201cpersonal jokes\u201d jogadas em particular com Peter Greenaway, ao n\u00edvel de uma multiplicidade de refer\u00eancias que poder\u00e3o n\u00e3o interessar a uma determinada camada de p\u00fablico.<br \/>\n<strong>\tP. \u2013 Desde o \u201cDecay Music\u201d, produzido e gravado para a editora \u201cObscure\u201d de Brian Eno, n\u00e3o voltou a trabalhar com este m\u00fasico. Nunca se interessou por uma nova colabora\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\n\tR. \u2013 Na \u00e9poca desse disco, existia uma identidade entre os nossos pontos de vista. Depois ele come\u00e7ou a escrever m\u00fasica semelhante \u00e0 de \u201cDecay Music\u201d enquanto eu me afastava noutras dire\u00e7\u00f5es. Partimos em dire\u00e7\u00f5es opostas. N\u00e3o sei se ele ouve ou gosta do que fa\u00e7o atualmente. Se volt\u00e1ssemos a trabalhar juntos teria de ser qualquer coisa semelhante ao que ele e John Cale fizeram no seu novo projeto (o \u00e1lbum \u201cWrong Way Up\u201d). Para mim \u00e9 dif\u00edcil. Brian Eno poderia talvez ser o produtor mas mesmo a\u00ed n\u00e3o gosto de ver a minha m\u00fasica, depois de composta, ser modificada por ideias ou interfer\u00eancias provenientes de sensibilidades alheias.<br \/>\n<strong>\tP. \u2013 Nos seus discos existe sempre uma sonoridade t\u00edpica, imediatamente reconhec\u00edvel, um pouco \u00e0 maneira do que acontece com Philip Glass. Tal facto deve-se, da sua parte, a uma utiliza\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica da mesma instrumenta\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\n\tR. \u2013 A instrumenta\u00e7\u00e3o a que alude funciona como uma \u201ccamisa-de-for\u00e7as\u201d extremamente estimulante. A partir dela obtive resultados t\u00e3o diferentes como \u201cDrowning by Numbers\u201d e \u201cThe Kiss\u201d. At\u00e9 agora devo ter feito perto de 20 grava\u00e7\u00f5es e cada vez que as ou\u00e7o encontro nelas algo de novo. Em rela\u00e7\u00e3o a Glass penso que em tudo o que ele faz h\u00e1 a marca do g\u00e9nio, mas evolui por norma numa determinada dire\u00e7\u00e3o. Eu, pelo contr\u00e1rio, procuro sempre novas utiliza\u00e7\u00f5es para os mesmos recursos instrumentais. Quanto a soar \u00e0 \u201cMichael Nyman\u201d n\u00e3o gostaria que fosse de outra maneira. Mas penso que consigo faz\u00ea-lo sem cair em lugares comuns. Orgulho-me dessa variedade.<\/p>\n<p><strong>Violino ou eletr\u00f3nica?<\/strong><\/p>\n<p><strong>\tP. \u2013 Costuma privilegiar o violino. Alguma raz\u00e3o especial para isso?<\/strong><br \/>\n\tR. \u2013 Normalmente costumo tocar com um violinista (Alexander Balanescu) que funciona como um est\u00edmulo para a minha imagina\u00e7\u00e3o. Penso que escrevo muito bem para este instrumento, como mais ningu\u00e9m escreve. Fa\u00e7o-o de uma forma ativa, ao contr\u00e1rio de Glass que \u00e9 muito passivo, mec\u00e2nico e pouco \u201ccolorido\u201d.<br \/>\n<strong>\tP. \u2013 Alexander Balanescu n\u00e3o atuar\u00e1 no concerto em Lisboa, ao que parece\u2026<\/strong><br \/>\n\tR. \u2013 Sim. Ele n\u00e3o pode vir. Em sua substitui\u00e7\u00e3o vem Elizabeth Perry. Qualquer um deles tem exercido grande influ\u00eancia no meu estilo de escrita.<br \/>\n<strong>\tP. \u2013 Por que raz\u00e3o se recusa a utilizar, na sua m\u00fasica, a instrumenta\u00e7\u00e3o eletr\u00f3nica?<\/strong><br \/>\n\tR. \u2013 Tenho a sorte de poder utilizar m\u00fasicos de carne e osso. E ideias muito precisas sobre a colora\u00e7\u00e3o sonora que pretendo obter de determinado instrumento. H\u00e1 quem me tente persuadir a utilizar \u201csamplers\u201d e computadores. Mas, at\u00e9 agora, estou satisfeito com a maneira como trabalho, de poder levar verdadeiros instrumentistas para o est\u00fadio.<br \/>\n\tQuando muito, posso imaginar-me a utilizar um computador para tratar informa\u00e7\u00e3o relativa a sistemas num\u00e9ricos, mas nunca a gravar algo com mais de dez por cento de som sint\u00e9tico, \u201csamplado\u201d ou gerado por computador. Por outro lado, n\u00e3o me repugna trabalhar em projetos que utilizem vozes \u201csampladas\u201d ou mesmo sons n\u00e3o orquestrais sintetizados. Mas de momento tenho tanta coisa que quero escrever para instrumentos convencionais, que n\u00e3o tenho tempo para reorientar, de forma radical, a minha forma de escrita. Em princ\u00edpio n\u00e3o sou contra, mas, para j\u00e1, Alexander Balanescu vale para mim mais do que cem sintetizadores.<br \/>\n<strong>\tP. \u2013 Em que ponto se encontra \u201cProspero\u2019s Book\u201d, a sua mais recente colabora\u00e7\u00e3o com Peter Greenaway?<\/strong><br \/>\n\tR. \u2013 Trata-se de uma vers\u00e3o de \u201cA Tempestade\u201d, de Shakespeare, que se desenvolve num ambiente t\u00edpico de Greenaway, embora fiel ao texto original. At\u00e9 agora j\u00e1 escrevi algumas partes vocais, bem como cinco can\u00e7\u00f5es relativas \u00e0s cenas com Ariel, e algumas partes instrumentais.<br \/>\n<strong>\tP. \u2013 Numa entrevista que deu recentemente \u00e0 revista Blitz, dizia estar um pouco cansado de apenas ser referido em rela\u00e7\u00e3o a Greenaway. Continua a ser dessa opini\u00e3o?<\/strong><br \/>\n\tR. \u2013 Sim, de certo modo. Sou seu amigo e as tarefas que ele me prop\u00f5e s\u00e3o sempre estimulantes. O ponto de partida pode ser algo t\u00e3o vago como \u201cn\u00fameros\u201d, com aconteceu em \u201cDrowning\u201d, ou, pelo contr\u00e1rio, ser ele a filmar a partir da minha m\u00fasica, como aconteceu com \u201cMemorial\u201d, pr\u00e9-existente ao filme \u201cThe Cook\u2026\u201d. No fim de contas, acabo sempre por escrever m\u00fasica muito boa para ele, que depois posso utilizar na grava\u00e7\u00e3o de discos ou em concertos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>P\u00daBLICO SEXTA-FEIRA, 26 OUTUBRO 1990 >> Cultura Michael Nyman e a sua banda atuam hoje \u00e0 noite no S. Luiz, em Lisboa \u201cA minha m\u00fasica \u00e9 bastante sensual\u201d Anal\u00edtico e intuitivo, erudito e popular, Michael Nyman confunde os acad\u00e9micos ao mesmo tempo que rivaliza com o rock no apelo \u00e0s massas e na energia da [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[40,187,369,841,81,413,3172,812],"tags":[3104,1828,2832,2819,2684],"class_list":["post-10028","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ambient","category-ao-vivo","category-avant-gard","category-concertos","category-contemporanea","category-em-portugal","category-entrevistas-1990","category-minimal","tag-michael-nyman","tag-s-luiz","tag-teatro-municipal-de-s-luiz","tag-teatro-municipal-s-luiz","tag-teatro-s-luiz"],"views":486,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10028","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10028"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10028\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10030,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10028\/revisions\/10030"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10028"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10028"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10028"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}