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Vários – “O Balanço Final” (lista | melhores dos anos 80 – 2ª metade da década | dossier | artigo opinião)

BLITZ 23 JANEIRO 1990 >> Valores Selados


O BALANÇO FINAL

Depois dos primeiros cinco anos conclui-se nestes «valores» o balanço final dos melhores da década. A partir de 85 houve ainda mais discos a merecerem toda a nossa atenção e aplauso. Poucos os terão notado. Não faz mal, eles (os discos) continuam à espera de quem os souber merecer. Muitos dos nomes citados permanecem num injusto quase anonimato. Mas são eles que fizeram e fazem o melhor da história da música dita popular.

Novamente por ordem alfabética, eis a relação dos vinte melhores para cada ano:

1985

Alésia Cosmos: Aeroproducts (Pop minimalista francês).
Andrew Poppy: The Beating of Wings (Minimalismo outra vez, desta vez do sério. Mais eletrónico do que a concorrência).
Art Barbeque: Feet Hacked Rails (Música industrial para Sado-masoquistas).
Benjamin Lew & Steven Brown: À Propôs d’un Paysage (Paisagens ambientais em aguarela, cheias de pormenores).
Biota: Vagabones & Rockabones (Compêndio definitivo da arte do ruído).
Einstuerzende Neubauten: Halber Mensch (Os martelos-pilões finalmente domesticados).
Foetus: Nail (Viagem guiada ao Inferno).
Kalahari Surfers: Living in the Heart of the Beast (Su-africanos vanguardistas e intervencionistas).
Laibach: Nova Akropola (Neo-nazis ou brincalhões? Wagner, se fosse vivo, aprovaria).
Legendary Pink Dots: Asylum (Hippies disfarçados, clássicos, bizarros, transtornados).
Mathilde Santing: Water Under the Bridge (Pura magia. Nunca mais fez nada igual).
Michael Nyman: A Zed and Two Naughts (Novos labirintos para a fita de Greenaway).
Nico & The Faction: Camera Obscura (Requiem final pela senhora de negro).
Nurse With Wound: The Sylvie and Babs High-Thigh Companion (Stephen Stapleton é louco e gosta de misturar todos os sons, todas as músicas, todas as manias. Stephen é um génio, só que doutro mundo).
Peter Principle: Sedimental Journey (O lado mais experimental dos Tuxedomoon).
Regular Music: Regular Music (Repetitivos e barrocos. Discípulos de Nyman com Charles Hayward ao comando).
Severed Heads: Clifford Darling, Please don’t Live in the Past (Obras mestra dos terroristas australianos. O terror pode ser engraçado).
Urban Sax: Fraction sur le Temps (Os saxofones do Apocalipse).
Wondeur Brass: Ravir (Três senhoras canadianas que aprenderam muito com Carla Bley).
Zoviet France: Gris (O cimento é musical? Resposta: Neste caso é).

1986

Cassiber: Perfect Worlds (Free jazz + Beethoven + ruído, por Heiner Goebbels e Chris Cutler).
Conrad Schnitzler & Michael Otto: Micon in Italia (Fusão entre a eletrónica e instrumentos de orquestra).
Daniel Schell & Karo: If Windows They Have (Expoente máximo da nova música de câmara europeia).
David Garland: Control Songs (Canções, sampling exaustivo, acordeão, voz de «Crooner», Zorn, C. Marclay e G. Klucevsek como convidados. Chega?).
David Linton: Orchesography (As tácticas de Elliott Sharp aplicadas à eletrónica).
Elliott Sharp: Virtual Stance (As tácticas de Elliott Sharp aplicadas à eletrónica).
Godard Fans: Godard, Ça vous Chante? (Homenagem ao cineasta com interpretações brilhantes de Zorn, Lindsay, Clint Ruin (Foetus) e Amati Ensemble, ente outras).
Graeme Revell: The Insect Musicians (Inteiramente realizado com samples de sons dos ditos, pelo mentor dos SPK. Brilhante).
Holger Hiller: Oben im Eck (Opus 2 da bíblia do «sampling»).
John Zorn: The Big Gundown (Obra-prima absoluta pelo mestre da rapidez. Tudo encaixa no lugar certo, como nos desenhos animados. Só para ouvidos ultra-ágeis).
Kraftwerk: Electric Cafe (disco típico do séc. XXII).
Laurie Anderson: Home of the Brave (Laurie antes do grande pecado).
Nurse With Wound: Spiral Insana (mais contemplativo e perturbante que «Sylvie»).
O Yuki Conjugate: Into Dark Water (Eletrónicos e sombrios. Jon Hassell teve um pesadelo).
Poules (les): Contes de l’Amère-Loi (As mesmas senhoras dos Wondeur Brass brincando aos computadores).
SPK: Zamia Lehmani (Songs of Byzantine Flowers) (A Música religiosa dos discípulos das trevas).
Steve Beresford, David Toop, John Zorn, Tonie Marshall: Deadly Weapons (Quatro excêntricos unidos na produção de um filme imaginário superinspirado. Ponto de fuga das mais recentes tendências do Jazz (?) atual).
Steve Reich: Sextet/Six Marimbas (Cristal minimal).
Sussan Deyhim & Richard Horowitz: Desert Equations: Azax Attra (as vozes do deserto encontram os sintetizadores).
Test Dept: Unacceptable Face of Freedom (O Ocidente infernal)
e ainda: Bruce Gilbert: The Shivering Man; Camberwell Now: The Ghost Trade; Collectif Nox: Sessions 84/86; Derome/Lussier: Soyez Vigilants, Restez Vivants; Harold Budd: Lovely-Dusks; Jon Hassell: Power Spot; Masahide Sakuma: Lisa; Neo Museum: Nouvelles Ethnologies de L’Obscure Museum; Orthotonics: Luminous Bipeds; Peter Hammill: Skin; PFS: Illustrative Problems; Semantics: Rothenberg, Sharp, Bennett; Skeleton Crew: The Country of Blinds; Recoil: 1+2; The The: Infected; Tom Van Der Geld: Small Mountain.
1987

Arthur Russell: World of Echo (com pouco se faz muito, uito, uito…).
Art Zoyd: Berlin (O disco da década. A síntese perfeita. Encontro da Tradição com o Futuro num disco perfeito).
Derome/Lussier: Le Retour des Granules (Nova colaboração entre os sopros de Derome e a guitarra Frithiana de Lussier).
Double-X-Project: Fallobst (grupo alemão feminino de Jazz eletrónico minimalista ou lá o que isso é).
Elliott Sharp: In the Land of the Yahoos (Sharp goes Electropop? Quase!… O seu disco mais acessível, com a voz de Sussan Deyhim).
Jocelyn Robert: Stat-Live-Moniteur (Colagens. Ruído. Ambiental. Étnico. Eletrónico. Lembram-se dos Faust?).
John Zorn: Spillane (Banda sonora de filme negro a 78 rotações).
Lounge Lizards: No Pain for Cakes (John Lurie volta a atacar o Jazz com unhas e dentes. Os puristas não gostam).
Negativland: Escape from Noise (Os rapazes da Contracosta americana voltam a baralhar tudo de novo. Paranoico, diferente, divertido).
Popular Mechanics: Insect Culture (A vanguarda soviética nos desvarios de Sergei Kuriokhin, ainda não se falava da Perestroika).
Renaldo And The Loaf: The Elbow is Taboo (Discípulos dos Residents, como estes divertidos e esquisitos).
Robert LePage: La Traversée de La Mémoire Morte (Sintetizadores analógicos, manipulação de fitas à antiga, sopros ora swingantes ora fragmentados. Excelente e genuinamente original).
Robert Musci & Giovanni Venosta: Water Music on Desert Sand (A Música de todos os mundos. A síntese de todas as tradições. A mistura de todos os sons. Genial).
Scott Johnson: John Somebody (Guitarra e colagens sem tesoura. Filho do casamento entre Steve Reich e Laurie Anderson antes do pecado).
Slagerij Van Kampen: Out of the Doldrums (Inteiramente realizado com samples de percussão).
Startled Insects: Curse of the Pheromones (Funky para mentes muito, muito distorcidas).
Teargarden: Tired eyes Slowly Burning (Projeto de E. Ka-Spel dos L.P. Dots e Cevin Key, dos Skinny Puppy).
Wondeur Brass: Simoneda, Reine des Esclaves (das Canadianas apreciadoras de jazz e «Chanson Française»).
Wayne Horvitz: This New Generation (Costuma tocar com Zorn mas este disco nao tem nada a ver. Pop-Jazz, talvez?…)
e ainda: Andrew Poppy: Alphabed (a Mystery Dance); Bourbonese Qualk: Bourbonese Qualk; French, Frith, Kaiser & Thompson: Live, Love, Larf & Loaf; Jazz Passengers: Broken Night/Red Light; Kahondo Style: Green Tea and Crocodiles; Legendary Pink Dots: Any Day Now; Mark Stewart: Mark Stewart; Meredith Monk: Do You Be; Nimal: Nimal; Philip Perkins: Hall of Flowers/The Flame of Ambition; Steven Brown: Searching for Contact; Yasuaki Shimizu: Music For Commercials.

1988

Ben Neill: Mainspring (Trompete traficado em fundo minimalista).
Bobby Previte: Claude’s Late Morning (Mais um músico ligado a Elliott Sharp, desta vez o percussionista).
Coil: Gold is the Metal (As magias invertidas em tons classizantes).
David Borden/Mother Mallard: Migration (Um dos nomes fundamentais da nova escola minimalista americana).
David Fulton: Marcos & Harry, pt. 3 – Semi Trilogy (Serrotes e computadores no novo tribalismo elétrico).
Delerium: Faces, Forms & Illusions (Arabizantes, ambientais e ameaçadores).
Elliott Sharp: Larynx (Nova Iorque histérica).
Fred Frith: The Technology of Tears (A tecnologia da complexidade).
Jon Hassell/Farafina: Flash of the Spirit (A música do Burkina Faso acionada por botões e enfeitada com trompete).
Lights In A Fat City: Somewhere (Didgeridoo digital em música para aborígenes sofisticados).
Mikel Rouse Broken Consort: A Lincoln Portrait (Outro dos nomes importantes do minimalismo americano).
Motor Totemist Guild: Shapuno Zoo (Rebuscados, Perfeccionistas, tocam tudo e mais alguma coisa. Inclassificáveis).
Non Credo: Reluctant Hosts (os medos infantis. O papão. Estes alemães parecem inocentes mas tocam-nos o cérebro como se fôssemos bonecos).
Pere Ubu: The Tenement Year (Regresso em forma do gordo mais simpático do mundo em novos exercícios de contorcionismo vocal).
Recoil: Hidrology (Kraftwerk, versão esotérica).
Robert Musci & Giovanni Venosta: Urban and Tribal Portraits (O título diz tudo).
Steve Moore: A Quiet Gathering (O mistério das catedrais. Um dos lados é apelidado de «Música de câmara para sons ambientais»).
Test Dept.: Terra Firma (Depois do metal a Terra, os cânticos guerreiros e a gaita-de-foles).
Univers Zero: Uzed (Os belgas discípulos dos Magma continuam a tarefa de dar um rosto solene à velha Europa).
When: Death in the Blue Lake (O líder dos Holy Toy inspira-se na obra do seu compatriota, o escritor Henrik Ibsen, agarra em samples do «Tristão e Isolda» de Wagner e constrói um disco estranhíssimo e grandioso).
e ainda: Heiner Goebbels & Heiner Muller: Der Mann im Fahrstuhl; Jazz Passengers: Deranged and Decomposed; Jocke Soderqvist: Perma Blue; Last Exit: Iron Path; Luciano Margorani: Home Recording is Killing Studios; John Surman: Private City; Peter Blegvad: Downtime; President: Bring Yr Camera; Uludag: Mau Mau; 5UU’s: Elements.

1989

Agnes Buen Garnas/Jan Garbarek: Rosensfole (A voz celestial de Agnes leva-nos direitinho ao Céu).
Barry Adamson: Moss Side Story (O ex-Magazine numa obra heterogénea em tons de negro e sangue).
Charles W. Vrtacek: When Heaven Comes to Town (O que Eno poderia ter feito mas não fez. O que Satie faria se fosse vivo e utilizasse um sampler em vez do piano).
David Byrne: Rei Momo (Onde se prova que as boas saladas devem levar salsa).
Edward Ka-Spel: Perhaps We’ll Only See a Thin Blue Line (Edward mais experimentalista do que nos Legendary).
Einstuerzende Neubauten: Haus der Luege (Os niilistas berlinenses mais virulentos do que nunca).
Fred Frith: The Top of his Head (Aproveito para dizer que, para mim, é Frith e não Zorn, o músico da década. Zorn é o segundo… Está feita a correção).
Glenn Branca: Symphony N.º 6-Devil Choirs at the Gates of Heaven (Não sei quantas guitarras fazem a festa e o rugido do costume).
Hector Zazou: Géologies (música clássica erudita que Zazou é gente séria).
Invaders Of The Heart: Without Judgement (Oriente vs, Ocidente em guerra religiosa instigada por Jah Wobble).
Laurie Anderson: Strange Angels (Laurie Pop, a grande pecadora…).
Lounge Lizards: Voice of Chunk (O sax emblemático da Nova Iorque underground).
Michael Nyman: The Cook, The Thief, His Wife & Her Lover (De novo juntos, Nyman e Greenaway. Como sempre obcecados pela morte e desta vez também pela comida).
Philip Glass: 1000 Aeroplanes on the Roof (Ou mudava ele ou nós). Felizmente, mudou ele. Ou será que fomos nós?…).
Robert Merdzo: Darwin Waltzes (Da mesma escola que Branca).
Seigen Ono: Comme des Garçons, vols. 1 & 2 (Da New Age dos primeiros tempos passou para companhia de Frith, Zorn, Frisell, Lindsay, Lurie e por aí fora. Sim, os referidos tocam todos neste disco).
Stan Ridgway: Mosquitos (O melhor contador de histórias da América, a par de Tom Waits. Como este também das vozes mais originais).
Steve Tibbetts: Big Map Idea (o misticismo ECM por um dos melhores guitarristas da casa).
Worlds Of Love: The Worlds of Love (Depois de canções sobre o poder, David Garland regressa cantando o amor em todas as suas variantes. Apaixonado ou não, mantém-se tão excêntrico como nunca).

Vários – “O Balanço Instável” (lista | melhores dos anos 80 | dossier | artigo opinião)

BLITZ16 JANEIRO 1990 >> Valores Selados


O BALANÇO INSTÁVEL

CABE-ME a mim, finalmente, fazer o balanço dos melhores discos da década (esta semana a lista dos quinze melhores dos anos de 1980 a 1984. A outra metade fica para a semana. Decerto repararão que desta lista constam muitos nomes estranhos e desconhecidos. A culpa não é minha. Procurem-nos e talvez cheguem à conclusão que nem sempre a melhor música é a mais badalada. Para não dizerem que invento, informo que todos os discos mencionados fazem parte da minha coleção particular. E agora podem começar a copiar e a lamentar o tempo perdido…

1980

Alan Stivell: «Symphonie Celtique – Tir Na Nog» (Todas as músicas e tradições do mundo convergindo na Bretanha).
Cabaret Voltaire: «The Voice of America» (Quando ainda eram ameaçadores).
Captain Beefheart & His Magic Band: «Doc at the Radar Station» (o esquizofrénico genial de «Trout Mask Replica»).
Chrome: «Red Exposure» (Americanos precursores de tudo o que é industrial).
Flying Lizards: «The Flying Lizards» (David Cunningham e a vanguarda como grande paródia).
Fred Frith: «Gravity» (Frith é um universo inteiro à parte).
Harold Budd/Brian Eno: «Ambient 2 The Plateaux of Mirror» (o mundo cristalino).
Jon Hassell/Brian Eno: «Fourth World, Vol. 1 Possible Musics» (a selva eletrónica).
Monochrome Set: «Strange Boutique» (dandies dos eternos 60s. Tommy, can you hear me?)
Negativland: «Negativland» (a América do avesso pelos mestres da colagem).
Pere Ubu: «The Art of Walking» (o rock à beira do abismo, sem cair).
Peter Hammill: «A Black Box» (o último voo a grande altura de eterno romântico).
Talking Heads: «Remain in Light» (com Eno desta vez luxuriante).
Tuxedomoon: «Half-Mute» (os americanos mais europeus do mundo).
Univers Zero: «Ceux du Dehors» (a nova música de câmara europeia passa por estes belgas apreciadores de Lovecraft).

1981

Art Bears: «The World as it is Today» (Fred Frith, Chris Cutler e Dagmar Krause anunciando o fim do mundo).
Brian Eno/David Byrne: «My Life in the Bush of Ghosts» (sim, já se sabe, o primeiro a fazê-lo foi Holger Czukay, mas eles não se importam).
Carla Bley: «Social Studies» (a sociologia da fanfarra pela senhora sempre bem acompanhada).
Heaven 17: «Penthouse and Pavement» (os derradeiros estertores da Pop eletrónica inteligente).
King Crimson: «Discipline» (Robert Fripp e as técnicas mágicas da J.G. Bennett).
Kraftwerk: «Computer World» (o melhor disco do séc. XXI).
Marc Hollander: «Onze Danses pour Combattre la Migraine» (o homem dos Aksak Maboul e o «Vaudeville» minimalista).
Meredith Monk : «Dolmen Music» (o nascimento da voz humana).
Nick Mason/Carla Bley: «Fictitious Sports» (Carla, outra vez, brincando ao Rock. Tomara este que houvesse mais brincadeiras assim. Mason é só um pretexto).
Penguin Cafe Orchestra: «Penguin Cafe Orchestra» (a caixinha de música onde cabe tudo).
Residents: «Mark of the Mole» (Os Beatles dos anos 80? Dos 90? Mas quem são eles afinal?)
Soft Cell: «Non-Stop Erotic Cabaret» (Desculpem lá, mas muito antes de Momus já Marc Almond estava a agitar todos os fantasmas).
This Heat: «Deceit» (o som do holocausto).
Tuxedomoon: «Desire» (Aqui já eram definitivamente europeus. Até perderam a pronúncia).
ZNR: «Barricades 3» (Satie por Zazou ou vice-versa?)

1982

Andy Summers/Robert Fripp: «I Advance Masked» (Frippertronics mais Police pelos mestres da guitarra).
Annette Peacock: «Sky-Skating» (a voz mais sensual em cetim aveludado).
D.A.F.: «Fur Immer» (Um, dois, esquerdo, direito).
Etron Fou Leloublan: «Les Poumons Gonflés» (Captain Beefheart + Henry Cow em tons parisienses).
Fad Gadget : «Under the Sky» (Frank Tovey é uma espécie de Matt Johnson, só que ainda mais doentio).
John Cale: «Music for a New Society» (a sociedade ainda não é suficientemente nova. Ainda bem).
Kate Bush: «The Dreaming» (deixem a menina sonhar).
Laurie Anderson: «Big Science» (deixem a senhora falar).
Michael Nyman: «The Draughtman’s Contract» (música das imagens do labirinto das imagens da música).
Monochrome Set: «Eligible Bachelors» (Ainda e sempre o chá das cinco).
Peter Gabriel: «Peter Gabriel IV» (é o quarto, é o melhor e não embirrem mais com o homem).
Residents: «The Tunes of Two Cities» (segunda parte da luta entre toupeiras e Hrtywxlks).
Snakefinger: «Manual of Errors» (costumava tocar guitarra com os senhores acima. Seria um novo Zappa se não tivesse entretanto morrido).
Soft Veredict: «Vergessen» (Wim Mertens antes de se tornar Merdens – obrigado Jorge).
Terry Riley: «Descending Moonshire Dervishes» (Riley antes de se tomar por profeta).

1983

Art Zoyd: «Les Espaces inquiets» (franceses. Música total. Só gravaram obras-primas).
Benjamin Lew/Steven Brown: «Douzième Journée: Le Verbe, la Parure, l’Amour» (precursores da Made to Measure. Nao sei porquê lembram-me Duras).
Einstuerzende Neubauten: «Zeischnungen des Patienten O.T.» (queriam destruir a música e quase o conseguiram).
Fred Frith: «Cheap at Half the Price» (outra vez, agora em canções Pop. O quê?)
Golden Palominos: «The Golden Palominos» (primeira grande conferência nova-iorquina. Estão lá todos: Fier, Lindsay, Laswell, Zorn. Frith também, claro).
Moebius, Plank, Neumeier: «Zero Set» (alemães, eletrónicos e à procura de África).
Peter Blegvad: «The Naked Shakespeare» (o excêntrico dos Slapp Happy em canções ainda mais excêntricas).
Phantom Band: «Nowhere» (o percussionista Jaki Liebezeit continuando brilhantemente o espírito dos Can).
René Lussier: «Fin du Travail» (o Fred Frith canadiano).
Severed Heads: «Since the Accident» (os Throbbing Gristle australianos, mas com humor).
Tom Waits: «Swordfishtrombones» (a Lua na sarjeta).
Virginia Astley: «From Gardens where We Feel Secure» (Onde ficam esses jardins? Silêncio).
Wha Ha Ha: «Wha Ha Ha» (são japoneses. O Free-Jazz pode ser melodioso e dançável).
Yello: «You Gotta Say Yes to Another Excess» (Dieter Meier é suíço, gosta da Europa dos casinos e de computadores).
Zazou/Bikaye: «Noir et Blanc» (Europáfrica em ritmo de dança).

1984

After Dinner: «After Dinner» (mais japoneses. Música de bonecas e cristais).
Andre Duchenes: «Le Temps des Bombes» (as canções de Andre é que caem como bombas).
Brian Eno/Harold Budd: «The Pearl» (até onde é audível o silêncio?)
Débile Menthol: «Battre Champagne» (a boa velha música progressiva continua viva e de boa saúde).
Foetus: «Hole» (gritos. Sofrimento. Auto-Tortura).
Frank Zappa: «Them or Us» (sempre genial. Continua a fazer rir).
Hector Zazou: «Reivax au Bongo» (Zazou e Bikaye reincidentes, agora mais surrealistas).
Holger Czukay: «Der Osten ist Rot» (o homem dos Can que fez tudo antes de Brian Eno e pôs o papa a cantar Blues).
Holger Hiller: «Ein Bundel Faulnis in der Grube» (o mestre absoluto do sampler. Reinventou a música. Não me voltem a falar nos De La Soul).
Mnemonists: «Horde» (o ruído da deformidade).
Officer!: «Ossification» (música medieval na ótica de um banco de malucos).
Pascal Comelade: «Détail Monochrome» (música ambiental no quarto dos brinquedos).
Penguin Cafe Orchestra: «Broadcasting from Home» (basta sintonizar).
R. Stevie Moore: «Everything You Always Wanted to Know About R. Stevie Moore But Were Afraid to Ask» (Ufa! Tem gravadas mais de cem cassetes. Inclassificável. Como é possível ser Pop, experimentalista, doido varrido, sério, etc., etc., etc?)
Test Dept.: «Beating the Retreat» (Metal on metal).

Vários – “Breve Ensaio Sobre O Exibicionismo E Os Perigos Da Prosa” (artigo de opinião | blitz | literatura)

BLITZ 5 DEZEMBRO 1989 >> Valores Selados

Hoje nos valores está presente a literatura, nas suas duas vertentes: Poesia e Prosa. Tratarei da sua relação com os músicos e a música. Lugar pois para a cultura. Como deve ser.
A Poesia está na moda. E se virmos bem até é fácil compreender porquê. A moda está sempre, de uma forma ou outra, ligada ao exibicionismo.

BREVE ENSAIO SOBRE O EXIBICIONISMO POÉTICO E OS PERIGOS DA PROSA

A moda do vestuário não é mais do que um pretexto para se destaparem e exibirem os corpos. A tendência final é para a nudez absoluta. Estou a lembrar-me por exemplo daquele modelo de Ives Saint-Laurent que destapa completamente o seio feminino. Ora, precisamente, do corpo já pouco resta para mostrar, tornando-se já fastidiosa a sua constante exibição. Era precisamente destapar, mostrar, exibir provocatoriamente algo mais, mas o quê?
A resposta foi dada pela poesia. Como recentemente se veio a descobrir, graças ao sistemático trabalho de investigação dos meandros da mente humana levado a cabo pelas leitoras da «Maria» (notícia divulgada em primeira mão pelo «O Independente»), a poesia permite a cada um «entrar em contacto direto com os seus sentimentos mais íntimos» (sic). Daí até à exibição desses mesmos sentimentos vai um passo muito curto. Não foi aliás por acaso que a descoberta se deve a um grupo de senhoras. O sexo feminino sempre foi mais dado a este tipo de exibições, corporais ou outras. Até se costuma dizer que os poetas e os artistas em geral são um pouco efeminados. Os machos convictos devem pois abster-se completamente de lerem poesia, pelo menos em público, evitando assim o espetáculo, sempre degradante, como o dado por certos senhores que se exibem frente à «Brasileira» empunhando um livro de Pessoa e sentados ostensivamente à mesa do poeta. Em suma, quanto mais profunda a poesia, mais fácil se torna o «contacto direto» e consequente exibição. Basta ler, por exemplo, os primeiros versos de um qualquer poema de Anais Nin e, Zás, saltam cá para fora as intimidades todas, como por magia.
A moda veio do estrangeiro como não podia deixar de ser. Sabe-se como para os artistas e no caso concreto dos músicos, é fundamental o tal «contacto íntimo com os sentimentos mais profundos», indispensável para a feitura das suas obras de arte. Por outro lado os músicos são exibicionistas natos. Muito antes de terem lido a «Maria» já conheciam as faculdades despoletadoras do psiquismo humano proporcionadas pela poesia.
Mas se os efeitos da poesia são já do domínio público, em relação à prosa o problema é bem diferente. Atualmente, pouco ou quase nada se sabe ainda acerca dos seus efeitos reais sobre o psiquismo humano. Até agora as explicações dadas sobre o assunto têm sido vagas e insatisfatórias. Correm alguns rumores, surgem ocasionalmente boatos, mas nada de verdadeiramente importante transparece que mereça um mínimo de credibilidade científica.
Recentemente, uma equipa de investigadores do «lobbie» «Carícia», concorrente da «Maria», tem procurado novas vias de investigação, mas quanto a resultados concretos, nada, todos os esforços têm sido em vão. Realizaram-se, quase em segredo, alguns testes, mas os resultados, repito, não dão azo a grandes entusiasmos. Verifica-se, é verdade, que a leitura de textos como «Guerra e Paz», «Os Cinco na Ilha do Tesouro» ou a «Lista Telefónica» provocam nos leitores-cobaia reações totalmente diversas e por vezes mesmo contraditórias. Mas a questão principal permanece: Porquê? Verifica-se, por exemplo, que a maioria dos leitores a quem coube a leitura da «Lista Telefónica» se revelou incapaz de a levar até ao fim. Quase todos se ficaram pela leitura das primeiras linhas revelando ao mesmo tempo um ar de confusão e extrema perplexidade. Mais tarde, interrogados sobre o facto, revelaram achar na generalidade o texto «monótono» e «pouco interessante». A única exceção foi a de um leitor que após ter devorado avidamente todo o texto, pediu de imediato que lhe trouxessem para ler as «Páginas Amarelas». Mas a maioria não gostou. E, no entanto, a «Lista» é das obras mais pretendidas, com novas edições todos os anos. Como se explica tal paradoxo? Um entre tantos mistérios até hoje por decifrar.
Compreende-se pois a relutância dos músicos em utilizarem a prosa na sua música. Não se sabe até que ponto pode ser perigosa a sua leitura. Alguns experimentalistas mais afoitos resolveram arriscar. O compositor francês Pierre Henry foi um dos pioneiros. Leu e musicou o «Livro dos Mortos Tibetano», no álbum «Le Voyage», ou textos do Apocalipse numa obra ainda mais obscura. Mas, inexplicavelmente ou talvez não, o Estado francês resolveu intervir proibindo o prosseguimento das experiências e declarando o músico como incapaz e mentalmente desequilibrado. Nunca mais se ouviu falar no seu nome.
Entre nós, o cantor Fausto leu textos relativos aos Descobrimentos e passou-os para música. O disco daí resultante foi um êxito, com todos os portugueses a lerem sofregamente as «Crónicas» de Fernão Mendes Pinto. Foi um caso típico de resposta positiva da parte do psiquismo das massas. Quanto a Fausto, arriscou e ganhou. Mas quantos, menos afortunados, não terão também arriscado e perdido?
Talvez que os enigmas perdurem para sempre. Talvez os investigadores da «Maria» possam um dia dar a conhecer ao mundo as respostas por que todos anseiam. Talvez sejam os próprios músicos que estão mais próximos da verdade. Talvez, talvez…
Por enquanto temos de nos contentar com o quase nada que sabemos. E, no fundo, talvez seja preferível assim. Nós portugueses somos prudentes, lemos pouco e ouvimos pouca música. E temos um governo que se preocupa e nos protege, mantendo louvavelmente altos os índices de analfabetismo. Mas vale prevenir…
Fiquemos pois todos pelo seguro «Batem leve, levemente…» guardando para nós mesmos os nossos sentimentos mais íntimos. Somos púdicos, singelos, mimosos e sonhadores. Somos portugueses, mas não somos poetas. Cruzes, canhoto, que vergonha!…