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Nóirin Ní Riain – “Nóirin Ní Riain Cantou No Convento Do Beato, Em Lisboa – A Voz Que Cura” (concerto)

cultura >> segunda-feira, 29.11.1993


Nóirin Ní Riain Cantou No Convento Do Beato, Em Lisboa
A Voz Que Cura


As pessoas habituaram-se a associar a música irlandesa aos copos e à dança. Nóirin Ní Riain revelou o lado oculto da ilha, convidando ao recolhimento e à escuta do silêncio. “A voz humana vem de Deus”, diz. Ao ouvi-la, fica-se com a certeza de que sim.



No Convento do Beato, em Lisboa, no sábado à noite, a voz da cantora irlandesa Nóirin Ní Riain começou por descer não das nuvens, como no álbum “Voz de Nube”, mas da parte superior dos claustros do convento, entoando um cântico de louvor a S. Francisco ao mesmo tempo que fazia soa r uma “drone” infinita numa caixa “shruti” indiana. A assistência, que encheu por completo o recinto, rendeu-se de imediato a esta voz de anjo que nos últimos anos se tem dedicado à interpretação de temas religiosos, irlandeses sobretudo, mas também indianos, além de composições da autoria da abadessa mística medieval Hildegard de Bingen ou da visionária contemporânea suíça Joa Bolendas.
O concerto durou pouco mais de uma hora. O suficiente para os ouvintes se deixarem impregnar por canções de respiração ampla, ressumando espiritualidade. A cantora irlandesa saudou o fado, abençoou pessoas e lugares, falou do seu fascínio pela serra de Sintra, que conhecera na véspera, mencionou a ocasião em que conheceu Mário Soares e cantou como só ela sabe cantar. Ora ajoelhada diante de um “surpeti” (pequeno órgão de foles indiano), ora passeando em frente à assistência. Nóirin assumiu sempre o seu canto como uma oração.
Hinos religiosos de Joa Bolendas, uma sequência de composições de Hildegard de Bingen, um “Lament for a dead child” em que aludiu à dor real de mulheres que visitou num campo de refugiados na Croácia, outrolamento, de Nossa Senhora chorando aos pés da cruz e maorte do seu filho, Jesus, uma canção de Dublin, “Cockles and mussels” (que comparou com Lisboa, pelo mesmo número de letras, que, ao contrário do que geralmente se pensa e o tradutor e apresentador de serviço teve o cuidado de referir, são cinco e não seis…), outra, “Once I Loved”, sobre amores não correspondidos, um hino de louvor a Krishna, um “Magnificat” e “The river and the ocean”, outra ainda já do novo álbum, de título “Soundings”, que será editado na próxima semana, foram alguns dos temas que se elevaram como espirais de incenso na voz sem mácula de Nóirin Ní Riain.
Há vozes como esta que navegam contra as correntes inferiores que vão empurrando o mundo para o abismo. Vozes que acordam. Vozes que oram. Vozes que curam. Nóirin Ní Riain construiu pelo canto uma ponte que conduz acima das nuvens. Ontem, domingo, de manhã, Nóirin iluminou com a sua voz uma missa realizada na Igreja do Corpo Santo, em plena zona do Cais do Sodré, local de perdição.

Noirin Ni Riain & Monks Of Glenstal – “Vox De Nube”

pop rock >> quarta-feira, 17.02.1993

WORLD

A LUZ SOBRE A NUVEM


NOIRIN NI RIAIN & MONKS OF GLENSTAL
Vox De Nube
CD Gael-Linn, distri. VGM



Não é uma metáfora. Há vozes que falam verdadeiramente com Deus. As búlgaras, por exemplo, e não só. Outras vezes é a própria voz de Deus que se deixa ouvir através da voz humana, feminina e masculina. “Vox de Nube” (“a voz que vem da nuvem”), terceira parte de uma trilogia iniciada com “Vox Populi – Good People All” e prosseguida com “Vox Clamatis in Deserto (Caoineadh na Maighdine)”, apresenta três aspectos da comunicação possível entre o humano e o divino. Três vias de manifestação: a terra, o povo e a nuvem, símbolo do véu que ao mesmo tempo oculta e revela o Verbo.
“Vox de Nube” foca este último vértice do triângulo e inspira-se directamente na tradição do cantochão (designação do cântico gregoriano na Europa Latina), bem como no acto contemplativo dos místicos Hildegard (monge beneditino do Mosteiro de Bingen, séc. XII) e, já no nosso século, do suíço Joa Bolendas. Quem vier à procura de danças, gaitas-de-foles, violinos e “bodhrans” pode passar à crítica seguinte. Mas, antes de se ir embora, fique já agora a saber que é aqui que pode encontrar o contraponto celestial ao panteísmo que anima grande parte da música tradicional de raiz celta. “Vox de Nube” é música litúrgica, sagrada. A voz do silêncio e do ar, por oposição complementar às vozes do mar, da pedra e da floresta.
Nisto que a nuvem do céu nos diz, procura-se ver para além do véu. Escreve-se na contracapa que a “a nossa visão do canto ocidental aparece filtrado por mil anos de transcrições manuscritas”. Tradição milenar que nesta perspectiva pode ser considerada como uma “subversão” de uma vibração que nenhuma notação pode traduzir. “Vox de Nube” busca então para além das aparências – essa voz que é o “coração de uma coisa selvagem” e uma consciência aprofundada da música tomada como “sopro original”. Gravado na capela de Honan, no condado de Cork, “Vox de Nube” ergue-se e ergue-nos às alturas. Transportam-nos o timbre de anjo de Nóirín Ní Riain, que os sete monges cantores do Mosteiro de Glenstal ajudam a impulsionar para o alto. Enquanto a estrutura de “Vox Populi” segue o modelo de uma missa católica, “Vox de Nube” reza e canta próximo da natureza, entre os seus sons e fragrâncias, ambas as vozes irmanadas em idêntica tenativa de ligação da terra ao seu coração primordial, que já foi e voltará a ser (e sempre tem sido: o erro, a queda, foi e é de visão…), no degrau seguinte – o paraíso.
Nóirin canta em gaélico, “a capella” ou acompanhada pela escola vocal dos religiosos de Glenstal. Por vezes sobre “drones” criadas por um “supeti” (órgão-de-foles indiano), uma caixa “sruti” ou uma “symphony” (ou “symphonia”, sanfona medieval). Os temas são na totalidade vocacionados para provocar a elevação espiritual: canções da tradição cristã baseadas no Velho Testamento, versões do “Pai Nosso”, hinos de Joa Bolendas, o visionário suíço mencionado no início, baladas tradicionais irlandesas de inspiração religiosa, um “Kyrie Eleison” e outros temas do místico Hildegard, cânticos de louvor à Virgem Maria e a Maria Madalena, uma “carol” (canção de Natal”) irlandesa do séc. XIII, uma composição de Peadar Ó Riada, entre outros. O efeito de exposição prolongada à Luz (mesmo filtrada pela nuvem) pode ser fulminante. Assim o permitam o coração flamejante e a mente desperta. Ou a fé. (10)

Nóirín Ní Riain – Entrevista

Pop Rock

24 NOVEMBRO 1993

“AQUELE QUE CANTA REZA DUAS VEZES”

Nóirín Ní Riain, “Vox de Nube” vem cantar a Portugal. Com uma voz que “vem de Deus”. A mesma que fez John Cage chorar e que um velho monge de Glenstal definiu como a “erotização do canto”.


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A música tradicional religiosa é o templo onde se comunica com o divino. Com os monges do mosteiro de Glenstal, numa peça de Hildegard von Bingen ou num campo de refugiados na Croácia, a irlandesa assume o canto como liturgia da Redenção. Mas também como algo de sensual e orgásmico. Capaz de a levar da igreja para um grupo de jazz.
PÚBLICO – O que a levou a dedicar-se ao canto religioso, em detrimento das canções gaélicas tradicionais.
Nóirín Ní Riain – Aprendi o primeiro cântico religioso aos 18 anos de idade. Comecei por cantar canções “seculares” e não sagradas. Quando escutei pela primeira vez a canção “The seven sorrows of the Virgin Mary” [incluída no álbum “Caioneadh na Maighdine” ou “Vox Clamantis in Deserto”, de 1980, já disponível em importação VGM] fiquei siderada. É uma das canções mais antigas da tradição irlandesa, trazida pelos franciscanos, que chegaram por volta de 1226. Depois surgiu a trilogia que gravei com os monges beneditinos do mosteiro de Glenstal, por sinal a única ordem beneditina masculina existente na Irlanda.
P. – Quais são as principais diferenças entre esses três discos?
R. – O primeiro, “Vox Clamantis in Deserto” foi feito em 1980, quando comecei a fazer intercâmbio de canções com os monges de Glenstal, dava-lhes e cantava canções tradicionais religiosas e eles retribuíam com cântico gregoriano. Trata-se então de um disco em que predomina aquele tipo de canções, algumas nunca gravadas anteriormente. Seguiu-se “Vox Populi – Good People All”, em 1982, que se centrou noutro tipo de tradição, dos “carols” de Natal, mas não do tipo popular cantado nas congregações religiosas. “Vox de Nube”, de 1989, é uma gravação com a música por que nos interessávamos na altura, uma mistura de estilos tradicionais na qual usei instrumentos e técnicas vocais indianos, experiência que encetei por volta de 1987. Foi também o disco em que cantámos pela primeira vez música de Hildegard von Bingen, a abadessa beneditina.
P. – Tradição e Religião. O que as une?
R. – Uma das frases que mais me influenciou foi escrita cerca do século IV e diz o seguinte: “aquele que canta reza duas vezes”. Também é verdade que “cantar é amar”. O canto e as canções centram-se na voz que é algo de poderoso e espiritual. Certa vez cantei na Polónia com uma cantora russa. Dizia-me ela que na sua aldeia não lhe pagavam por cantar, embora fosse uma cantora profissional. Os outros músicos eram pagos, ela não, porque, dizia, a “voz vem de Deus”. Não se recebe por algo que é transcendente. Felizmente que não se passa o mesmo na Irlanda.
P. – Que papel desempenhou a religião católica quando da sua chegada à Irlanda?
R. – Não existe na Irlanda uma tradição de hinos vernaculares, ao contrário do que acontece noutros países. Diria que a Igreja católica teve sobre a Irlanda como que um efeito secundário. A maioria dos temas religiosos irlandeses aparece fora da instituição sendo em primeiro lugar uma expressão singela de Fé. Falam de temas como a Virgem Maria a dar à luz o seu Filho que expressam sentimentos e emoções mais do que conceitos como a Imaculada Concepção ou a Assunção. Quando as mulheres irlandesas rezavam não o faziam a um Deus ou a uma Nossa Senhora elevados e imponentes, mas a alguém mais humano com que se pudessem identificar.
P. – Tem consciência da manifestação do diabo na sociedade moderna?
R. – Sobre isso existe um provérbio alemão que diz: “onde há alguém que canta não receies a maldade, porque as pessoas diabólicas não têm alma”. O canto é algo de benévolo. A voz, como já se disse, vem de Deus. O diabo surge quando alguém usa o canto para influenciar as pessoas de uma forma negativa.
P. – A música pode salvar?
R. – Em Setembro um grupo de ingleses esteve na Croácia, num campo de refugiados. Quando perguntaram aos refugiados o que é que queriam, responderam: “música!”. Estive lá há pouco tempo e vi pessoas no meio da maior pobreza, no meio da neve, esfomeadas, abandonadas… se conseguisse através do meu canto fazê-los transcender tudo isso, nem que fosse por um minuto…
P. – Como aconteceu e em que termos se processou o seu encontro com John Cage?
R. – Encontrei John Cage na Califórnia em 1989, num concerto em que participávamos os dois. Perguntou-me se conhecia o cantor irlandês Joe Heaney [Seosamh Ó hÉanay, em gaélico…] que foi precisamente com quem aprendi grande parte das minhas canções religiosas. Comecei a cantar-lhe uma delas e John Cage desatou a chorar. Falou-me de uma peça que pensava escrever para Joe Heaney cantar. Depois andámos juntos numa digressão de um festival de música moderna por Inglaterra. Fiquei a conhecê-lo bastante bem. Quando morreu organizou-se em Nova Iorque uma homenagem em que foram convidados os seus amigos para cantarem em sua memória. Fui um dos convidados.
P. – Fale-nos da sua experiência musical fora do contexto religioso.
R. – Comecei a trabalhar com o trompetista Markkus Stockausen. Fiz um concerto com ele e a sua banda A Paris, na Irlanda, há duas semanas. Devo voltar a vê-lo na próxima Primavera, na Alemanha. Foi deste modo que cheguei à arena da música moderna. Actualmente sou cantora num grupo local chamado Hiberno Jazz. A ideia de música contemporânea fascina-me já que o que eu faço é contemporâneo algo que é muito antigo. Refiro-me à improvisação, ponto fulcral do meu trabalho.
P. – Sente afinidades com Hildegard von Bingen, de quem já interpretou canções, em “Vox de Nube”?
R. – Claro que sinto. Mas convém não esquecer que Hildegard foi não só compositora como também visionária, ecologista, cosmóloga, dramaturga, pregadora, professora e profetiza… O papel de “Anima” que desempenhei numa das suas peças foi bastante fácil. Quase como se fizesse parte de mim. Acontece-me o mesmo com a sua música. Sou capaz de cantar as suas longas, longas sequências sem ter um único lapso de memória.
P. – Cantar é pois para si uma experiência religiosa…
R. – Há uma parte de um “Kyrie eleison”, em “Vox de Nube”, que não reduzo ao canto. Em certas ocasiões sou capaz de sentir cheiros e sabores. Até de ver cores.
P. – Há algo de erótico nessa descrição…
R. – Absolutamente. Lembro-me de uma vez, no mosteiro de Glenstal, quando cantava a música de Hildegard, um dos monges mais idosos descrever o processo como uma “erotização” do canto. É na verdade bastante sensual, de um ponto de vista feminino. Hildegard era mulher e escrevia para mulheres. Trata-se sem dúvida de uma experiência orgásmica.

CONVENTO DO BEATO, LISBOA
Dia 27 de Novembro