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Vários – “Festivais De Verão – Festa No Bosque Dos Druidas” (concertos / festivais / destaque)

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sexta-feira, 4 Julho 2003
destaque


FESTIVAIS DE VERÃO

Festa no bosque dos druidas

Vizela, Sines e Sendim são os polos da música tradicional neste Verão


No ainda jovem Intercéltico de Vizela, o ambiente conta muito para o sucesso das celebrações em torno da nova cultura com origem na história e imaginário célticos. Os galegos Berroguetto, do multi-instrumentista Anxo Pinto, garantem nota máxima para um festival que terá bandas de gaitas a tocar pelas ruas e uma festa no “bosque dos druidas”, onde público e músicos se juntam para uma viagem pelas tradições milenares, de união e convívio com a música e a Natureza. Em Sendim os celtas estão vivos. Além da presença dos espanhóis Luétiga, o acontecimento será o regresso a Portugal dos Dervish (e, logo, da voz de Cathy Jordan), num festival que encerra com o ritual de uma Missa Intercéltica, onde os homens e os deuses comunicam ao som das gaitas-de-foles. Mais a sul, o castelo de Sines abre-se às músicas do mundo. Como sempre com uma proposta de programação que distingue várias vertentes da “world”, ao ponto de, este ano, trazer o Kronos Quartet, grupo de cordas com especial predileção pela destruição dos dogmas. Para derreter, haverá “reggae” pelos The Skatalites.

Dervish – “Midsummer’s Night”

Sons

17 de Dezembro 1999
WORLD


Dervish
Midsummer’s Night (9)
Whirling Discs, distri. MC – Mundo da Canção


dervish

No capítulo da melhor música tradicional da Irlanda não há pai para os Dervish. Disco após disco, do já distante “The Boys of Sligo” ao recente duplo ao vivo “Live in Palma”, passando pelos exemplares “Harmony Hill” e “Playing with Fire” e a obra-prima “At the End of the Day”, a banda de Cathy Jordan, Tom Moore, Shane Mitchell, Liam Kelly, Séanus O’Dowd, Michael Holmes e Brian McDonagh não tem parado de evoluir, chegando a este “Midsummer’s Night” com o estatuto de banda clássica da “irish folk”. Mais do que nunca fazem-se sentir as raízes das quais o grupo cresceu. Ouça-se o violino e o jorro de energia que brota de um tema como “Séan bháin” e, logo a seguir, a divinal interpretação vocal de Cathy Jordan. Não é preciso procurar muito no passado para confirmar que os Dervish ocupam hoje na folk irlandesa o mesmo lugar que os Bothy Band ocuparam nos anos 70, sendo Cathy a legítima herdeira de Triona Ní Dhomnaill. Em “Midsummer’s Night” não há, aliás como nunca houve, preocupações em inventar. Para os Dervish a viagem faz-se no sentido do mergulho continuado na alma e na música da ilha. Os músicos da banda respiram a música que fazem, confundindo-se com ela. É isso que distingue os mestres e lhes concede o dom da liberdade. Não é preciso procurar longe o que está perto. Nos jigs e reels, como nas baladas, sente-se a proximidade de uma essência. De uma terra e do seu sonho. Quando ouvimos Cathy Jordan cantar “The banks of sweet Viledee”, “Èrin grá mo chroi” (aqui num registo tímbrico diferente do habitual, mais aquático e lunar), “There was a maid in her father’s garden”, “An-T-‘Ull”, “Bold Doherty” ou “Red-haired Mary”, somos confrontados e transportados pela melhor música vocal que hoje se pode ouvir na Irlanda. “Midsummer’s Night” é mais um clássico dos Dervish e um triunfo para Cathy Jordan, elevada definitivamente à condição de deusa. Em pleno voo.



Dervish – “At the End of the Day”

POP ROCK

26 Fevereiro 1997
world

A felicidade ao fim do dia

DERVISH
At the End of the Day (10)
Whirling Discs, distri. MC – Mundo da Canção


dervish

Tudo bate certo no novo álbum dos Dervish, o quarto, depois de “Boys of Sligo”, “Harmony Hill” e “Playing with Fire”. O “set” inicial de “reels” instala, desde logo, o clima de calorosa intimidade que as várias imagens da capa sugerem. Em tons de ouro e fogo, os músicos da banda misturam-se com o cidadão vulgar, na mesma comunhão que, ao cair do dia, faz do “pub” o templo de convívio entre os homens e as gerações, numa ligação de velhos hábitos que se perpetua na música e nas libações. A sensação de partilha acentua-se ainda mais quando a voz de Cathy Jordan surge na primeira das canções. Mais do que nunca fazendo lembrar, pela semelhança do timbre e das entoações, quase infantis, Triona Ní Dhomnhail, evidenciando uma técnica e controlo talvez ainda mais apurados que os da antiga vocalista dos Bothy Band. A musicalidade que Cathy extrai do gaélico, numa canção como “Peata beag”, representa a depuração e compreensão máximas da quintessência dos ritmos e acentuações mais íntimos desta língua ancestral.
O esquema de alternância entre as “tunes” instrumentais e as canções vocalizadas mantém-se até final, conferindo a “At the End of the Day” um equilíbrio e diversidade de registos cuidadosamente geridos. Na mazurka e “reel” de “Jim Coleman’s set” o espírito dos Bothy Band volta a bailar, sendo verdadeiramente espantosas as prestações de Liam Kelly, na flauta, e Shane McAleer, na rabeca, firmemente apoiados pela batida poderosíssima de Cathy Jordan, no “bodrhan” e “bonés”. De resto, somos esmagados, tema após tema, pelos níveis de execução e sensibilidade atingidos pelos seis músicos que compõem actualmente o grupo. Como curiosidade, registe-se que em “Josefin’s waltz” os Dervish convidaram, para os acompanhar, o grupo sueco Väsen.
Música tradicional irlandesa em estado de completa maturação mas segurando com firmeza a flama do entusiasmo de quem sente ter ainda mais e melhor para lhe dar. Música que estabelece a comunicação com os deuses e os homens, possuída, do princípio ao fim, pelos rasgos de génio que são timbre exclusivo dos eleitos. Música feliz, que sabe não serem necessárias operações de maquilhagem para tocar no coração de quem verdadeiramente a ama. Na contracapa, consumada a alegria pagã do “pub”, com a silhueta recortada em contraluz, os Dervish olham o reflexo do crepúsculo nas águas esmeraldinas de um lago da Irlanda. A mesma tónica de nostálgica contemplação posta nos sons de despedida de “Eileen McMahon”. Uma vocalização “a capella” de Cathy Jordan gravada entre as paredes e a reverberação de uma velha igreja em Laragh, no condado de Wicklow, onde se conta a história de uma “rapariga maravilhosa que aparece num sonho a lamentar a situação triste da velha Irlanda”.
Há nesta luz e nestes sons qualquer coisa de sagrado. É o melhor disco dos Dervish e um dos melhores de sempre da música tradicional irlandesa. No panteão, junte-se aos nomes dos Chieftains, Planxty, Bothy Band, De Dannan, Patrick Street, Altan e Skylark o dos Dervish.