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Quarteto Cédron – “‘El Viejo Almacén’ Abre Série De Espectáculos No Trindade – Paixões Sob Controlo”

cultura >> sexta-feira, 21.04.1995


“El Viejo Almacén” Abre Série De Espectáculos No Trindade
Paixões Sob Controlo


‘El Viejo Almacén’, o ‘velho armazém’, reabriu as suas portas no teatro da Trindade. Na primeira de sete actuações que trazem à capital o teatro, a paixão exaltante e a sensualidade do tango argentino.



Roberto Pansera, o maestro, Edmundo “Many” Rivero, o cantor com o coração nas mãos e dois pares de dançarinos oficializaram a reabertura do mítico lugar. Agora, e ao contrário das origens, aquele “onde vêm os que recuperaram a fé”. No tango, claro.
Depois de na véspera o Quarteto Cedrón ter actuado no mesmo local, quarta-feira foi a vez do grupo “El Viejo Almacén” dar início a uma série de sete concertos no Teatro da Trindade, uma vez mais transformado em lugar de eleição do tango argentino. Assim, todos os dias, até à próxima terça-feira, o “El Viejo Almacén” acolherá na sala do Chiado os aficionados deste género de música. Às 21h45, exceptuando os espectáculos dos dias 23 e 25, Domingo e terça, cujo início está marcado para as 16h.
Edmundo Rivero foi um cantor lendário do tango de Buenos Aires e um dos fundadores do “El Viejo Almacén”, juntamente com o maestro Carlos Garcia e Alvarez Vieyrra. Por este velho armazém, que durante décadas funcionou como templo do “tango porteno” – assim designado pela sua localização junto ao porto de Santa Maria, em Buenos Aires, berço do tango argentino, lugar de gigolos e prostitutas, “onde iam os que tinham perdido a fé” – passaram praticamente todos os nomes lendários do tango. Edmundo “Many” Rivero, filho de Edmundo Rivero, decidiu perpetuar, sob uma forma itinerante, o espírito deste lugar “onde se sentia e respirava o tango”. “El Viejo Almacén” transformou-se deste modo num espectáculo de palco.
No teatro da Trindade, assistiu-se a uma das ressurreições periódicas de um lugar e de um espírito peculiares. Com um reportório variado que alternou instrumentais, tangos cantados e coreografias dançadas, o espectáculo do “El Viejo Almacén” trouxe consigo as emoções e as cores de carne do tango. De uma forma civilizada e distante das lutas amorosas de corpo a corpo que, desde os finais do século passado, transformavam a zona portuária da capital argentina num cenário de paixões canalhas mas também de grandes arrebatamentos líricos. O quarteto instrumental básico formado pelo pianista Marcelo Macri, o contrabaixista Enrique Guerra, o saxofonista/flautista Julian Vat e o mestre do bandoneon, Roberto Pansera, tocou da forma que o tango passou a ser tocado desde que Astor Piazzola lhe pegou na alma. Com a liberdade concedida pelo jazz. Pansera foi o mestre de cerimónias de uma cerimónia convulsiva, tocando o bandoneon como se o seu corpo fosse o próprio fole. Entregou-se por inteiro, nos solos de “Mi noche triste” ou do clássico “La comparsita”, ou enquanto contraponto à função dos dançarinos.
Os tangos cantados estiveram a cargo de Graciela Arselli e Edmundo “Many” Rivero. Graciela cumpriu, embora sem o brilho das lantejoulas dos vários vestidos que envergou ao longo da noite. Nos registos mais altos, faltou à sua voz extensão e drama, uma outra força que fizesse esquecer tratar-se afinal de um espectáculo ensaiado ao pormenor. “Many”, pelo contrário, empolgou. Figura carismática, de opereta, Edmundo “Many” Rivero fez todo o teatro que o tango exige, de exagero dos gestos e das emoções, levando os braços e a voz aos extremos do sentimento, entre a oração e o patético, aqui sim, “apagando” as luzes até o teatro se tornar num velho armazém à média-luz. Mãos postas, mãos à cabeça, mãos largas de “pasión”, Many encheu o Trindade com “La ultima curda”, “Cambalache” ou “Amigos que yo quierio”, entre outras interpretações de antologia.
Finalmente, os dois pares de bailarinos, fizeram o que é costume no tango dançado – bem, do que é possível dançar numa sala de espectáculos, sem ferir moralidades -, com as suas coreografias de sedução, de pernas que se entrelaçam, de beijos que se pedem sem nunca chegarem a consumar-se. Elas revoluteando nos seus vestidos que ora escondem ora deixam ver. Eles, arvorando expressões de engate, segurando e dominando para melhor se deixarem dominar. Os rostos, deles e delas, afivelando expressões onde a dor se confunde com o prazer. Tudo feito de forma estilizada, talvez demasiado estilizada. Como mandam as regras da boa-educação. “El Viejo Almacén” já tem lugares de luxo.

Bleizi Ruz – “En Concert” + Ceolbeg – “Un Unfair Dance” + Philippe Eidel – “Les Agricoles” + Ensemble Tuva – “Echoes From The Spirit World” + Kormorán – “Hungarian Rhapsody” + Pentangle – “One More Read” + Amancio Prada – “Canciones De Amory Celda” + Rossavielle – “Very F. Tricky”

pop rock >> quarta-feira, 15.12.1993
WORLD

Bleizi Ruz
En Concert
Shamrock, distri. MC – Mundo da Canção

Os lobos ver,elhos ao vivo, nas habituais trocas e baldrocas com o “cajun”, o jazz e outras capelinhas frequentadas pelos modernos bretões. Vale a pena procura-los em estúdio em “Pell Ha Kichen”. (5)

Ceolbeg
Un Unfair Dance
Greentrax, distri. VGM

Que bom seria se Davy Steele deixasse de cantar de vez, para podermos ouvir em paz a harpa de Wendy Stewart (apesar de tudo aqui mais liberta do que no anterior “Seeds to the Wind”) e as “highland pipes” de Gary West, inesquecíveis no longo adeus do tema final. (6)

Philippe Eidel
Les Agricoles
Silex, distri. Etnia

“New Age” em veludo “folk, numa misturada de estilos que faz o “tour de France” para turista ver. Guy Bertrand e Eric Montbel, os dois Le Jaj presentes, não chegam para transformar o postal emk realidade. Bonito, ms pouco convincente. (5)

Ensemble Tuva
Echoes From The Spirit World
Pan, distri. Etnia

Regresso das vozes multifónicas da terra das águias. Só subestilos desta técnica vocal, que “cria um estado geral de bem-estar”, são mencionados 13 no folheto. Prodígios da garganta em cerimónias guturais do outro mundo. Étnica da dura, quase impenetrável. (6)

Kormorán
Hungarian Rhapsody
Pan, distri. Etnia

Folk-rock da Hungria. Computadores, gaita-de-foles e flautas em imitações disparatadas dos Jethro Tull, que remexem na lixeira do pior rock sinfónico. Mau gosto e falta de jeito, num álbum caricato. (0)

Pentangle
One More Read
Permanent, distri. Megamúsica

Jacqui McShee, Bert Jansch, um grupo de anciãos bem intencionados e a nostalgia dos tempos gloriosos de “Cruel Sister”. A memória consente destas coisas. (4)

Amancio Prada
Canciones De Amory Celda
Fonomusic, distri. MC – Mundo da Canção

Reedição de um álbum de 1987, em que o trovador galego entrava em liquefacção amorosa. As palavras dizem tudo. A sanfona de “Romance del enamorado” faz suspirar pela obra-prima que já desesperamos de ver ter continuação, “Caravel de Caravels”. Amancio Prada, aqui baladeiro, intimista e razoavelmente aborrecido. (4)

Rossavielle
Very F. Tricky
Shamrock, distri. MC – Mundo da Canção

Austríacos e conceptuais, os Rossavielle não sabem o que fazer do seu amor pela tradição celta. Simulacros de feira, por euroburocratas curiosos. Um razoável tocador de “uillean pipes” convidado, Dermot Hyde, e Nupi Jenner, “rookie” da sanfona salvam o disco da mediocridade. (5)

Vários (McLaughlin, Al Di Meola, Paco de Lucia, Luís Fernando) – “Lendas Das Guitarras” (concerto)

pop rock >> quarta-feira >> 26.05.1993


LENDAS DAS GUITARRAS

“Friday Night in San Francisco” registou nos finais dos anos 70 o conjunto de guitarras de John McLaughlin, Al Di Meola e Paco de Lucia. Os três actuaram em espectáculos separados no festival “Lendas da Guitarra”, realizado no ano passado em Sevilha, onde também participou outro guitarrista de nomeada, Vicente Amigo. É este quarteto de “virtuoses” que se vai apresentar no nosso país, aos quais se juntará ainda, na qualidade de convidado, o português Luís Fernando, actual “axeman” da banda de Adelaide Ferreira.
Pioneiro dos cruzamentos jazz-rock, com os Mahavishnu Orchestra, e do jazz com a música indiana, nos Shakti, John McLaughlin é um dos guitarristas que marcaram a música popular deste século. Possuidor de uma técnica espantosa, tanto na guitarra eléctrica como na acústica, fez parte de bandas lendárias dos anos 70 – Graham Bond Organization, Brian Auger’s Trinity, Tony Williams Lifetime – e tocou, entre outros, com Gunter Hampel, John Surman, Jimi Hendrix, Dave Holland, Wayne Shorter, Charlie Haden, Larry Shankar e Carlos Santana. E com Mils Davis, nos clássicos “In s Silent Way” e “Bitches Brew” que ajudaram a inventar uma nova voz para a guitarra. “Extrapolations”, a solo, “The Inner Mounting Time Flame” e “Birds of Fire”, na Mahavishnu Orchestra, perduram como bons exemplos dos tempos em que o jazz buscava alento noutras músicas.
Paco de Lucia e Vivente Amigo representam duas gerações diferentes da guitarra de flamenco. “Monstro sagrado” e autor de obras como “Fantasia Flamenca”, “Fuente e Caldal”, “Almoraine”, o “Concerto de Aranjuez”, de Joaquin Rodrigo, e “Zyriab”, o primeiro, benjamim mas já senhor de muitos dos segredos do “duende flamenco”, o segundo. Os dois já actuaram em Portugal em concertos memoráveis que deram a escutar a vibração e o fogo da alma cigana no contacto com o jazz e com as surpresas da improvisação. Completa este quarteto de luxo Al Di Meola, outrora membro de outra grande banda de jazz-rock, os Return to Forever, de Chick Corea e Stanley Clarke, e argonauta das experimentações electrónicas com o Synclavier.
DIA 25, CAMPO PEQUENO, 22H00