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The Tsinandali Choir – “Table Songs From Georgia”

pop rock >> quarta-feira, 03.03.1993

WORLD


The Tsinandali Choir
Table Songs From Georgia
CD Real World, distri. Edisom



Apanhados desprevenidos, podemos ser levados a pensar que estes coros masculinos da Geórgia, – república do Cáucaso que fez parte da antiga União Soviética – são uma espécie de contrapartida de barba e bigode dos seus congéneres femininos da Bulgária. Puro engano. As vozes búlgaras falam com Deus, enquanto as vozes da Geórgia falam com o vinho. Ou talvez se trate de duas formas diferentes de contacto com a mesma divindade. A própria designação do coro, traduzida por uvas, significa um tipo de casta da qual se extrai um delicioso vinho muito apreciado na região. Na raiz de tanta devoção está uma cruz, feita de ramos de videira, que Santa Nina trouxe para a Georgia como forma de aí instaurar o Cristianismo. Assim, esta religião trouxe xonsigo o culto do vinho. O coro Tsinandali é especialista nas chamadas “canções de mesa”. No Ocidente chamamos-lhe brindes, mas na Geórgia não se brinca em serviço. Um homem, o líder, o “tamada” é escolhido para organizar o ritual. Deve ser alguém com forte resistência ao álcool. Um “tamada” embriagado é considerado uma humilhação e uma ofensa. O ritual é como segue: em frente ao fogo, cloca-se uma mesa imensa, coberta de todos os ingredientes necessários à libação. Depois, conforme a ocasião (baptismo, casamento, enterro), o “tamada” vai fazendo sucessivos brindes, enchendo e emborcando de cada vez um recipiente de vinho, de preferência um corno de boi ou de carneiro. Em seguida, volta a encher o corno e passa ao do lado, e assim sucessivamente, até se atingir a euforia, acompanhada de danças e cantoria. A audição destes cantos polifónicos dá contudo a impressão de que os membros do coro estavam sóbrios na ocasião da gravação, o que retira algum do seu impacte. São cânticos solenes, onde se adivinha a influência de Dyonisos, mais do que a de Baco (há quem diga que são o mesmo deus, nas versões “escançaõ” e “com a boca na botija”, respectivamente). Se tomados à letra (não necessariamente num corno, qualquer caneca serve), podem levar à elevação e posterior ressaca. Goste-se ou não, ninguém diga porém “desta música não beberei”! “Georgia on my mind”, hip, hip, hurra!. (7)