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The Bothy Band – “Old Hag You Have Killed Me”

pop rock >> quarta-feira, 31.03.1993
WORLD

O FULGOR DO RELÂMPAGO


THE BOTHY BAND
Old Hag You Have Killed Me
CD Green Linnet, distri. Megamúsica



Há discos agradáveis, discos coerentes, discos importantes, discos que se deixam ouvir. Discos de que se gosta e discos de que se aprende a gostar. Mas há também uma espécie rara de discos que impressiona de maneira diferente. Discos que, além das qualidades passíveis de análise, têm algo que os distingue e os torna excepção. “Old Hag You Have Killed Me” é um desses discos. É o segundo álbum dos Bothy Band e permanece até hoje como um marco da música tradicional irlandesa.
De entre o quadrado mítico formado pelos Planxty, Chieftains, De Danann e Bothy Band, este últimos são um caso à parte. Enquanto qualquer daquelas bandas teve uma obra em continuidade, de onde sobressaíram inevotáveis obras-primas, os Bothy Band surgiram mais como um relâmpago, uma conjugação cósmica de talentos que viveu em permanente estado de graça. Nos três álbuns de estúdio que gravaram, concentraram doses maciças de talento, chispas de génio que revolucionaram por completo o modo de sentir e dizer a música irlandesa. “Old Hag You Have Killed Me” é o cume dos cumes desse génio. Era difícil encontrar reunida numa formação os nomes que no ano de 1976 se congregavam nos Bothy Band: Matt Molloy, Paddy Keenan, Kevin Burke, Triona Ní Dhomhnaill, Micheál Ó Dhomhnaill e Donal Lunny.
Os mesmos que incidiriam no posterior e igualmente magistral “Out Of The Wind Into The Sun”, já há bastante tempo editado em CD no nosso país. Impressionava então como continua a impressionar hoje, a violência e virtuosismo desmedidos das “uillean pipes” de Paddy Keenan, deste lote de músicos aquele que apresenta uma carreira mais discreta mas não menos importante (façam o favor de escutar o seu álbum a solo “Poirt Na Phiobaitre” e tirem conclusões…
Os arranjos inovadores, onde assumiam primordial relevo as cordas de Donal Lunny e a originalidade da espineta electrificada de Triona Ní Dhomhnaill (mais tarde viria a especializar-se no cravo), constituem outro pólo de originalidade. As proezas vocais de Triona ombreavam na altura com as de uma tal Dolores Keane dos De Danann. “16 come next Sunday, faixa que abria o segundo lado da velhinha rodela de vinil, brota com a frescura da água de uma fonte. Deleite absoluto. “Fionnghuala” é um exercício espantoso sobre a “mouth music” gaélica ao qual não falta o humor de palavras/fonemas totalmente inventadas.
Espantosas são igualmente todas as sequências instrumentais, com destaque para os vertiginosos “Farewell to Erin” e um “Michael Gorma’s” de antologia. A combinação da flauta de Matt Molloy com as “pipes de Paddy Keenan e o violino de Kevin Burke (álbum novo nos escaparates, “Open House”, objecto de crítica num dos próximos números deste suplemento) é perfeita. Fulgurante.
A conjunção de todos estes elementos num só disco acontece muito raramente. Como tal, a reedição, várias vezes adiada deste álbum é um acontecimento. Um objecto de culto. (10)