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Chico Buarque – “Chico Buarque Em Portugal – Geração Derrotada”

cultura >> quinta-feira >> 27.05.1993


Chico Buarque Em Portugal
Geração Derrotada

Chico Buarque regressa a Portugal e aos sons num novo espectáculo de “reconciliação com a música e o violão”. Canções novas, outras pouco conhecidas, a rodagem para um novo disco a editar no final do ano. A contrariar a imagem de um homem desiludido que fez parte de “uma geração derrotada”: “Nos anos 70 queria derrubar o Governo. Hoje não quero derrubar governo nenhum.”

Envergando uma camisola azul-escura de gola alta (dá a impressão que ultimamente apenas veste camisolas azuis de gola alta), olhar atento e penetrante, Francisco Buarque de Holanda, Chico Buarque, falou ontem em confer~encia de imprensa realizada na embaixada do Brasil sobre o seu novo espectáculo, com organização da Propalco, a apresentar em Portugal. Hoje À noite no Teatro São Luiz, só para convidados, com filmagem da SIC para posterior apresentação televisiva; dias 28 e 29, no Pavilhão Carlos Lopes, dia 3 de Junho em Aveiro, no Teatro Aveirense, e 4 e 5 de Junho no Coliseu do Porto. Todos às 22h.
“Mais ‘cool’, intimista – prometo não dançar – e apurado musicalmente” que o seu anterior “show”, “Frncisco”, é como o cantor e compositor brasileiro define a nova apresentação ao vivo, ultrapassada para já a faceta de escritor que lhe tomou toda a atenção durante os últimos meses. Do novo recital, como Chico Buarque prefere chamar-lhe, fazem parte quatro canções novas: as parcerias “Choro bandido”, com Edu Lobo, “Pianao na Mangueira”, com Tom Jobim, e “Outra noite”, escrita para a mini-série portuguesa “Procura-se”, ainda inédita, com Luís Cláudio Ramos, maestro e guitarrista do actual agrupamento, além de um novo arranjo para o tema “Pivete” (o puto da rua, no Brasil).
O resto será constituído por temas menos conhecidos do público aos quais se irão acrescentar novas composições, à medida que a digressão for decorrendo, para inclusão num próximo álbum a editar no final do ano. Completam a banda que acompanha Chico a Portugal o percussionista Chico Batera, o baterista Wilson das Neves, o baixista Jorge Hélder, o pianista João Rebouças e Marcelo Bernardes, nos sopros.
Chico Buarque, prestes a atingir os 50 anos de idade, está diferente. Joga futebol e distancia-se da política: “Aconteceu alguma coisa nova em política este ano no Brasil?” A ironia, percebe-se, tornou-se uma arma de dois gumes. Deixou de parte os temas mais politizados porque “há canções que ficam datadas, demasiado vinculadas a determinados momentos. Até podem voltar mais tarde, mas com uma referência histórica. Existe um hiato de tempo em que é melhor elas ficarem na geladeira”.
Canções “escritas na época mais dura da repressão brasileira, pela necessidade de contestar, mas que com o tempo se desgastam”. Depois, “a quantidade de problemas e de miséria é tão grande que chega a saturar. A canção, que pretendia tocar as pessoas, chamar-lhes a atenção, despertar emoções, tornou-se insuficiente. A realidade está ali gritante, na televisão e na rua, em toda a parte”.
Nota-se nas palavras o cansaço e a desilusão. Para o autor da “Ópera do Malandro”, “o papel político do artista tem muito menos peso hoje do que nos anos 70”. Aponta como exemplo as campanhas eleitorais em que “os artistas se fazem pagar para fazer propaganda política. Há dez anos, quando se queria insultar um artista dizia-se que tinha sido pago para fazer tal propaganda. Hoje já não é insulto mais uma coisa rotineira. Tudo ‘show business’”.
Sem querer fazer “juízos de valores”, Chico Buarwue diz que “são profissionais que, assim como anunciam uma geladeira ou um automóvel, também anunciam um candidato político”. “A opinião do artista”, acrescenta, “perdeu em termos de testemunho para se transformar num testemunho meramente comercial.”
Mas não se escusou a comentar problemas como a segregação dos brasileiros em Portugal (o cantor manifestou-se, inclusive, preocupado com a possibilidade de a sua filha ser impedida de desembarcar em Lisboa na próxima quinta-feira, por não trazer os documentos em ordem, estar sem dinheiro e não possuir visto de trabalho) – “resultante de uma ignorância que está um pouco disseminada por toda a parte” – ou o próximo acordo ortográfico: “Eu vou ter que mudar a minha escrita? [depois de algumas explicações] Ah, então para mim não muda nada, vocês é que vão ter que arranjar uma solução para o problema!…”
Por trás do sorriso ressalta, porém, a imagem do cidadão que viu desfazerem-se muitos dos seus sonhos. De alguém “com quase 50 anos” que “andou criticando muitas coisas que não se modificaram”. De Chico Buarque que um dia cantou “eu pergunto a você onde vai se esconder da enorme euforia” espanta ouvir dizer: “De certa forma pertenço a uma geração derrotada. Mas uma geração que se orgulha das suas derrotas, que sempre se manifestou contra o que está acontecendo hoje.”
Mas o tempo e o cansaço vão corroendo os ideais. Uma justificação: “O que muda é a atitude. Nos anos 70, se pudesse, eu derrubava o Governo. Hoje não quero derrubar governo nenhum.” E um conforto: “Continuo a ter uma reacção crítica em relação ao actual Governo, mas estou aqui na embaixada…”

June Tabor – “June Tabor, Em Lisboa, Braga E Porto – ‘Basso Profondo'” (concertos)

Cultura >> terça-feira >> 02.03.2019

June Tabor, Em Lisboa, Braga E Porto
“Basso Profondo”

Na sua terceira apresentação em Portugal, as circunstâncias estiveram por fim à altura da cantora. June Tabor, mais do que desenrolar um reportório, criou um ambiente. A sala do teatro S. Luiz encheu-se de silêncio para escutar a sua voz grave cantar canções de amor e desencanto.



Sexta-feira à noite, no velho recinto do Chiado, em Lisboa, aconteceu finalmente a consagração de uma grande cantora, após as más condições com que foi recebida nas duas anteriores visitas ao nosso país, no mesmo ano, 1991, no Folk Tejo e na Festa do “Avante!”. O som esteve perfeito e a assistência, que encheu pouco mais de metade da sala, soube sintonizar na frequência adequada. A voz e a música de June Tabor fizeram o resto. Decerto, também ontem em Braga. O Porto recebe a cantora esta noite, no Rivoli.
Música que exige silêncio e concentração absoluta, não admitindo transgressões nem falhas de atenção. Semelhante à superfície de um lago, pode ser espelho e pode ser lente. Mas é necessário que as águas estejam calmas e planas se quisermos ver, além da imagem reflectida, o fundo.
A voz falou devagar, preocupada em tornar compreensível cada palavra, cada história encerrada no coração das canções. Uma voz grave, sem mácula nem rugosidades que, pela vibração, irradia directamente do centro, com a profundidade de um oráculo. June Tabor foi sacerdotisa de um magistério iniciado há longos anos no templo das músicas tradicionais e finalmente depurado em escolas e linguagens contemporâneas.
Oficiou logo de início com a tradição, em “Month of January”, que deu o mote a todo o concerto: solenidade, contenção, centrados numa figura franzina, vestida de negro, de mãos caídas ao longo do corpo em pose hierática. Esfinge. June Tabor lembra essa figura ocultadora e reveladora de segredos. Por detrás da imobilidade, e através dela, arde uma chama, invisível aos olhos de quem não souber romper o véu das aparências.
June Tabor não cantou “All tomorrow’s parties”, o clássico de Lou Reed e dos Velvet Underground que a voz de Nico imortalizou – esse lado de tragédia que também habita em si, mas que na sua voz é redimido. June Tabor dobrou o Cabo das Tormentas e optou pela serenidade da maioria dos temas que integram o seu disco mais recente, “Angel Tiger”: “Hard Love”, “All our trades are gone”, “Sudden Waves”, “The doctor calls” (de Ian Belfer, dos Oyster Band, cuja ambiência sinistra comparou ao “film noir”), “All this useless beauty” (Elvis Costello) e “10 000 miles”.
Cada tema foi antecedido de uma curta explicação, dita em voz baixa de maneira a reforçar o tom de intimismo que caracterizou o concerto. “Esta é uma história de amor que acaba mal”. O estilo de histórias que disse gostar mais de cantar mas que ela própria, com quase imperceptível ironia, desmistificou comentando várias vezes no final de cada canção: “Afinal esta tem um final feliz! Estranho, não me estou a reconhecer!…”. “Game keepers”, em interpretação “a capella”, dedicou-a ao “homem” que ama, o seu cão Flynn (em homenagem a Errol Flynn…), inveterado bebedor de cerveja Guiness. O standard “I’ve got you under my skin2, de Cole Porter, dedicou-o igualmente ao amigo canino. Distanciação. Um sorriso de mil rostos, a sugerir enigmas.
Momentos altíssimos, viveram-se sobretudo nos duetos mantidos com o piano de Huw Warren, de longe o melhor instrumentista da noite: “You don’t know” e “Sudden waves”. A Mark Emerson, violino e viola de arco, e Marl Lockheart, saxofones, foi deixado espaço para brilharem no compasso emaranhado de um tradicional da Bulgária, “Rucenista”, (deu para perceber que não são búlgaros…) e em duas polkas tradicionais igualmente mal aproveitadas. O segundo solou, esforçado, no sax tenor, em “I’ve got you under my skin”, tema que serviu ao mesmo tempo para mostrar não ser este, em definitivo, o campo onde a voz da cantora se sente mais à vontade.
“Dogs of Money”, de Richard Thompson e os tradicionais “Mount and go” e “10 000 miles”, subiram alto numa actuação que nunca chegou verdadeiramente a tocar a terra. “Retreat”, outra composição de Richard Thompson, trouxe para o S. Luiz o espectro da diva desaparecida, Sandy Denny. Um único “encore”, “Light Dragon”, encerrou o ciclo de luz. Com a chave do silêncio. No intervalo, alguém da assistência comentara: “Esta mulher tem qualquer coisa de comovente!”

June Tabor – “O Silêncio É Tão Importante Como As Palavras” (entrevista)

pop rock >> quarta-feira, 24.02.1993


“O SILÊNCIO É TÃO IMPORTANTE COMO AS NOTAS”

June Tabor tem um ritmo próprio. De falar e de cantar. Misto de solenidade e alegria. Começou nas baladas da tradição inglesa “a capella”, passeou pelo jazz e divertiu-se a vestir blusões de cabedal e a cantar canções dos Velvet Underground e Oyster Band. Hoje canta as canções que lhe falam directamente ao coração.



June Tabor vem cantar a Portugal pela terceira vez. Nas suas anteriores passagens pelo nosso país, ambas em Lisboa, no mesmo ano de 1991 – primeiro em Junho, no Coliseu dos Recreios, em espectáculo integrado na edição inaugural do Folk Tejo, depois em Setembro, no relvado do Jamor, na Festa do Avante! -, a cantora não terá encontrado as melhores condições para fazer ouvir o registo intimista da sua música. O som e o ambiente não ajudaram. Desta vez, espera-se, tudo será diferente, para melhor. Considerada uma das maiores “folk singers” britânicas de sempre, a sua voz, de timbre puro e austero, projecta-se como luz – umas vezes velada, outras radiante – numa catedral. Especialista no canto tradicional “a capella”, foi alargando, ao longo dos anos, o seu campo de acção. Hoje canta com o mesmo à vontade as baladas ancestrais da velha Albion, “standards” de Cole Porter, Gershwin, Ellington, Charles Mingus e Thelonius Monk, ou uma descarga eléctrica dos Velvet Underground. Gosta sobretudo de canções que contem uma história. Em cerca de 20 anos de carreira não gravou muitos discos. Mas os que gravou (seis a solo, um de parceria com Martin Simpson, dois com Maddy Prior, outro com os Oyster Band, mais a participação no mítico “The Transports”, de Peter Bellamy) tornaram-se, quase todos, clássicos. “Angel Tiger”, o mais recente, revela June Tabor no auge da criatividade. Uma grande cantora, perto da perfeição.

PÚBLICO – Comecemos pelo estômago. Esteve até 1988 à frente de um restaurante. Considera o alimentopara o corpo tão importante como o alimento para o espírito?
JUNE TABOR – O restaurante foi uma coisa boa, que me mantinha muito ocupada. Não me deixava tempo para cantar. Quando foi vendido, pensei que finalmente era chegada a altura de me dedicar à música em tempo inteiro.
P. – Por que demorou tanto até tomar essa decisão?
R. – Bem, quando comecei a minha carreira, há cerca de 20 anos, não queria ficar dependente da música. Não me queria sentir comprometida. Tinha medo que, se essa fosse a minha única ocupação, não pudesse ser aquilo que queria. Nessa altura tinha uma profissão – bibliotecária – e não queria abdicar dela. Podia ao mesmo tempo cantar a música de que gostava e, como bibliotecária, ganhar o dinheiro que precisava para viver. Sentia-me bem assim.

Segredos Do Canto

P. – Que relação mantém hoje com a cultura tradicional inglesa?
R. – Ainda canto algumas canções dessa tradição. Aquelas em que sinto as palavras. Sempre escolhi as canções em função das palavras. As melhores canções tradicionais são intemporais. Pode haver uma balada com 200 anos mas que continua a ser actual. Recuso-me a cantar peças de museu. A música tradicional não pode continuar uma coisa viva se não sofrer mudanças. Porque as circunstâncias actuais são outras.
P. – Houve uma época em que foi considerada uma purista. Estou a lembrar-me do escândalo que causou quando decidiu utilizar um sintetizador no álbum “Ashes and Diamonds”…
R. – Ainda hoje muitas pessoas pensam que, se eu não cantar só sem acompanhamento, é uma heresia (risos). Então um sintetizador, “oh my God!”.
P. – O mais curioso é que o novo álbum, “Angel Tiger”, está bastante próximo, em termos de sonoridade, de arranjos e de ambiência, dessa obra de 1977, não concorda?
R. – Sim, de facto, o ambiente e os arranjos, que são bastante austeros. É uma aproximação [“approach”] às canções que procura eixar as palavras e a melodia falarem por si próprias. O acompanhamento deve suportar as palavras e não escondê-las. Se as palavras são boas, deve-se-lhes dar espaço.
P. – Por outro lado, nota-se que dá cada vez mais importância ao acompanhamento instrumental, em detrimento das vocalizações “a capella” que constituíam grande parte do seu reportório antigo…
R. – Quando comecei, sabia cantar mas não sabia tocar qualquer instrumento. Hoje, continuo a não saber (risos). Era a maneira mais fácil de começar, por temas tradicionais “a capella”, que têm um esquema melódico rigoroso. Deste modo era possível apresentar-me em público sozinha. Depois fui conhecendo outros músicos, instrumentalistas, e a compreender o que podia ser feito com instrumentos. E também a encontrar outro tipo de canções, que queria cantar mas que não se aguentavam “a capella”, por não terem sido escritas para esse fim. Além disso, a força das vocalizações “a capella” sai fortalecida se estas forem integradas no meio de canções com acompanhamento. Sobressaem muito mais. Actualmente, nos meus concertos, este estilo aparece como uma espécie de destaque. Já não dou concertos exclusivamente “a capella”.

Questões De Estilo

P. – O que sente ao ouvir a sua voz registada nesse álbum já velhinho e lendário que é “The Transports”, do malogrado Peter Bellamy?
R. – Digo para mim mesma: “Sou realmente eu?” [Risos.] Neste intervalo de quase 20 anos a minha voz mudou. Tornou-se mais profunda, mais madura, pelo menos assim o espero (risos). Quando ouço discos meus antigos, às vezes é-me difícil aceitar que seja a minha voz. Admiro-lhe a técnica, mas prefiro a actual. Penso que canto muito melhor do que cantava, embora admita que em termos rigorosamente técnicos, não seja tão tecnicista como antes.
P. – Um dos seus projectos mais bem-sucedidos é o duo Silly Sisters, com Maddy Prior. Após dois álbuns brilhantes [“Silly Sisters” e “No More to the Dance”], nunca mais se ouviram cantar as duas juntas…
R. – Costumamos fazê-lo uma vez em cada dez anos (risos). Mas actualmente é mais difícil cantar em conjunto com Maddy, porque as nossas vozes mudaram. A de Maddy tornou-se mais aguda e a minha mais grave. E é mais difícil encontrar tonalidades que possam ser cantadas em conjunto pelas duas. Antes podíamos trocar, uma cantava a melodia, outra a melodia, e vice-versa. Hoje é mais problemático. Por outro lado, os estilos de canções que cada uma de nós deseja cantar tornaram-se cada vez mais afastados.
P. – “Some Other Time” [1989], um álbum de “standards” de jazz, não foi muito bem recebido pela crítica. Será porque a sua voz não se adapta a esse género de canções?
R. – O problema está em que a maior parte dessas críticas é de ordem subjectiva. As pessoas pensam que à partida, eu não devo cantar esse tipo de canções. Elas não as querem ouvir da maneira como as canto. Têm um preconceito, que eu não devo, ou não consigo, cantar “jazz”. A questão essencial de “Some Other Time” é que eu não estava a tentar transformar-me numa cantora de jazz. Apenas quis pegar em canções do reportório de jazz que tivessem letras fortes, que contassem boas histórias, e cantá-las à minha maneira. Nos concertos em Portugal vou cantar quatro temas do reportório de jazz. Com Huw no piano, Mark Emerson, violino e viola de arco e Mark Lockheart e saxofone e clarinete.

A Voz Do Silêncio

P. – A que se deveu a colaboração, ao vivo e em disco, com os Oyster Band? Um desejo de vestir blusões de cabedal ou algo mais?
R. – Gostei e continuo a gostar de cantar com os Oyster Band. E, já agora, de vestir blusões de cabedal (risos9. Foi uma experiência que, penso, resultou bem. O “show” em Portugal [na Festa do Avante!” em 1991] não aconteceu talvez no melhor local…



P. – Da outra vez que actuou em Portugal, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa [na primeira edição do Folk Tejo, em 1991], a música esteve imaculada, mas o som voltou a falhar…
R. – Sim, a música foi óptima. Em salas grandes como essa é impossível conseguir um som perfeito, porque não foram projectadas para este tipo de música. Prefiro tocar em teatros pequenos.
P. – Não em clubes folk, disse-o uma vez…
R. – A minha música não é propriamente para se ouvir de pé. Um teatro é mais confortável, as pessoas podem concentrar-se melhor. E pode controlar-se o som. O que nós fazemos é muito subtil, delicado mesmo. O silêncio é tão importante como as notas, como a música. É necessário poder criar a atmosfera certa. Esta é uma luta constante. Não acontece só em Portugal, em Inglaterra também.
P. – Que critério seguiu, na escolha dos compositores, em “Angel Tiger”? Escolhe os autores ou são eles que vêm ter consigo?
R. – Na maioria dos casos há uma escolha prévia. Em “Angel Tiger” só constam, a meu pedido, duas canções escritas: “All this useless beauty”, de Elvis Costello, e “The doctor calls”, de Ian Telfer, dos Oyster Band. Conhecem ambos a minha música e os meus gostos. Mas é sempre um risco… Felizmente gostei das duas. Seria embaraçoso chegar ao pé de Elvis Costello e dizer-lhe: “Obrigado, Elvis, mas não gostei!” [Risos]. Mas a escolha é minha. Posso sempre dizer que não.
P. – Disse recentemente, numa entrevista, que podia ter feito um álbum inteiro apenas com canções de Les Barker. O que encontra de especial neste autor?
R. – É o exemplo de alguém que trabalha a partir da tradição. Ele usa melodias tradicionais, peças instrumentais ou canções com versos em várias línguas, em gaélico ou outra qualquer, e trabalha até ficar totalmente familiarizado com elas. Depois escreve palavras novas que se adequem. Quase tudo o que ele escreve me fala ao coração e está de acordo com as minhas opiniões.
P. – Já agora, há algo mais que fale ao seu coração? Sei que gosta de gatos…
R. – Gatos e cães. Tenho quatro gatos, seis cães e… um burro.
P. – Pode explicar-nos em que consiste o projecto Passendale, em que vai colaborar?
R. – Passendale foi uma batalha travada em 1917, durante a I Guerra Mundial, de Julho a Dezembro. 500 mil homens morreram nessa ocasião, de ambos os lados. Um desperdício absurdo de vidas humanas. Esse acontecimento, no ano em que se comemora o 75º aniversário do fim da I Grande Guerra, vai ser evocado numa série de espectáculos ao vivo, com músicos de várias nacionalidades e canções desse conflito, a par de outras que falam da futilidade da guerra em geral. Participo eu, com Huw e Mark, uma cantora flamenga, três músicos árabes, um cantor e tocador de “oud” do Líbano e uma cantora sobrevivente do campo de concentração de Auschwitz. A intenção é dizer que a guerra não conduz a nada, uma coisa inútil que, apesar disso, está sempre a acontecer.
P. – O termo “world music” faz sentido para si?
R. – É um termo que se usa e de que se abusa. Deveria haver alguém mais sincero e chamar-lhe antes “música do Terceiro Mundo”, porque é disso eu se trata. Por mim, gosto de ouvir música da Ásia, da Escamdinávia… Não encontro muito com que me identifique na música africana, embora admire as suas técnicas, em particular dos cantores. Mas toda a música é subjectiva.
P. – Porque falou em técnica, já tentou cantar baladas irlandesas, em gaélico, por exemplo?
R. – Irlandesas sim, em gaélico não, porque não domino a língua. Nunca gravei nada nesse domínio. Há quem o faça muito melhor do que eu. Mas posso decorar o estilo, se quiser. Desde que as palavras sejam boas. Se quiser, nos concertos em Portugal posso cantar uma canção irlandesa para si (risos).
P. – Obrigado. Por falar em canções, em “Ashes and Diamonds” há uma belíssima, intitulada “Lisbon”. Pensa cantá-la em Portugal?
R. – É uma óptima ideia. Já não canto essa canção há imenso tempo. Obrigado pela sugestão. Vamos ensaiá-la nas próximas semanas [esta entrevista foi feita em meados de Janeiro]. Vou mesmo cantá-la!

LISBOA, TEATRO SÃO LUIZ, 28 DE FEVEREIRO, 22H
BRAGA, TEATRO CIRCUS, 1 DE MARÇO, 22H
PORTO, TEATRO RIVOLI, 2 DE MARÇO, 22H

DISCOGRAFIA SELECCIONADA
ASHES AND DIAMONDS, TOPIC, 1977

Primeira obra-prima. O álbum do “escândalo”. Nele, June Tabor, purista das puristas, utilizou um sintetizador. Canções “a capella” como a prova de fogo “Clerk saunders”, “The Easter tree” e “No man’s land” rivalizam com os arranjos instrumentais, belíssimos, de “Now, I’m easy”, “The earl of Aboyne” e “Cold and raw”. Dois duetos de maravilha: com o piano, em “Streets of Forbes” e com o sintetizador, em “Lisbon”, balada que evoca o encontro amoroso de uma portuguesa com um marinheiro inglês, no porto de Lisboa, durante a Renascença. Jon Gillespie era então o teclista. Participações de dois Steeleye Span, Rick Kemp e Nigel Pegrum. E de Nic Jones, um grande guitarrista da “folk” inglesa.

A CUT ABOVE, TOPIC, 1980
Encontro com outro guitarrista célebre do circuito “folk” inglês, Martin Simpson (que ensinou June Tabor a olhar para sons mais contemporâneos), e mais uma viagem pela tradição da ilha, desta feita com uma aproximação às sonoridades medievais. Dave Bristow substitui Jon Gillespie nos teclados. Ric Saunders (Soft Machine, Albion Band, Fairport Convention) traz para a música o virtuosismo do seu violino. Um álbum de que pouco se fala (há quem prefira a maior contenção de “Abyssinians”), mas que é um dos mais conseguidos.

AQABA, TOPIC, 1988
Deslumbrante. Nesta altura June Tabor passeava a voz e o talento por músicas de outras paragens. É o disco de apresentação de Huw Warren, em quem a cantora parece ter descoberto o parceiro ideal. Os tradicionais “a capella” ora pairam no éter, ora explodem nas vibrações vocais de June Tabor. A expressividade emocional levada ao ponto de equilíbrio perfeito. As irrupções bruscas do clarinete e do saxofone, a par do ambiente de religiosidade, formam como que uma extensão vocal das liturgias de John Surman para a ECM.
O título-tema, composto por Bill Caddick, integrou-se de imediato no grupo das melhores canções e interpretações de sempre da música inglesa de raiz tradicional.

ANGEL TIGER, COOKING VINYL, 1992
Álbum da maturidade. A aliança de recursos vocais aqui distribuídos por uma gama infindável de registos, com uma serenidade e segurança inquebrantáveis. Nada há para provar, senão que cada canção ganha, através do canto de June Tabor, significados e uma energia próprias. Como se ela fosse a única que lhes consegue descobrir o coração. Elvis Costello e Ian Belfer, dos Oyster Band, escreveram especialmente para a cantora. A divindade felina estendeu sobre June Tabor um sortilégio. Uma cantora em estado de graça.

NO MORE TO THE DANCE (SILLY SISTERS, DUO COM MADDY PRIOR), TOPIC, 1988
Não podia ser de outro modo: As vozes de duas divas da “folk” britânica irmanadas numa causa comum – de amor a uma tradição que ambas sempre serviram e ajudaram a potencializar – combinam da melhor maneira e o resultado é um disco de música de inspiração tradicional, que marcou os anos 80. E uma reunião de estrelas que aqui participam: Dan Ar Braz, Andrew Cronshaw, Paul James e Nigel Eaton (dois ex-Blowzabella), Patsy Seddon e Mary McMaster (duo Sileas). Para todos aqueles a quem o termo “música celta” quer dizer tudo, este é um dos seus tesouros mais valiosos.