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Ravi Shankar – “‘Sitar’ Do Sétimo Céu” (concerto)

pop rock >> quarta-feira, 31.03.1993


“SITAR” DO SÉTIMO CÉU



Uma “raga” é uma forma de aceder ao céu. De preferência ao sétimo. Música de transe, feita de contínuos sonoros que a maior divisão tonal da música indiana permite, é uma modalidade musical iseparável da “sitar”, instrumento criador de “drones” hipnóticas (provocadas pela exploração “simpática” de cordas específicas) e polirritmias complexas quando manuseadas por um mestre. Ravi Shankar é um mestre. Nas suas mãos, a “sitar” constrói autênticos templos de luz, propícios, consoante o modo de utilização, ao deleite dos sentidos e à contemplação interior.
Nos anos 60, os “hippies” fizeram as duas coisas. A música indiana, ou pelo menos as suas emanações alucinatórias, assentava como uma luva ao psicadelismo então emergente. Ravi Shankar, apresentado ao Ocidente por George Harrison, cedo se tornou guru espiritual de toda uma geração sequiosa de realidades mais profundas ou, no mínimo, mais coloraidas. Não espanta por isso que este músico e compositor indiano, nascido em 1920 na mítica Benares, tenha participado, no espaço de seis anos e durante o auge da música e filosofia psicadélica, em três festivais que fizeram história: Monterey, em 1967, (álbum “Live at Monterey”), Woodstock, em 1969 (álbum “Live in Woodstock”) e o concerto para o Bangla Desh, em 1971. Quanto aos Beatles, conseguiram dele que desse lições de “sitar” a George Harrison e uma boa dose de inspiração para a obra-prima “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”.
Ravi Shankar limitava-se a tocar, aproveitando para divulgar a música do seu país. Passada a época do uso e abuso do LSD, pouco interessado em ver o seu nome associado a uma forma de escapismo paralela à das drogas alucinogénias, Ravi Shankar retirou-se com discrição. A sua música permaneceu e criou raízes. A escola minimalista deve-lhe muito ao ponto de Philip Glass gravar com ele um álbum. Em disco ficaram ainda registadas mantras que, em ouvidos e corações exercitados, levam ao silêncio e à elevação espiritual, como “Four Raga Moods” (duplo, Fantasy, com Ali Akbar Khan) e “Ragas Hameer & Gara” (no selo Deutsche Gramophon, 1979). A solo ou com uma tampura e umas tablas a cantarem ao seu lado, a “sitar” de Ravi Shankar transporta-nos para muito longe e para muito alto. No Pavilhão Carlos Lopes vai ser mais difícil, por causa das traves do tecto.
Lisboa, 1 de Abril, Pavilhão Carlos Lopes, 21h30

Van Morrison – “Van Morrison Actuou Em Lisboa E No Porto – Ouvir Para Crer”

cultura >> domingo, 21.02.1993


Van Morrison Actuou Em Lisboa E No Porto
Ouvir Para Crer


É baixo, embora nos discos a sua música se eleve às alturas. Mas para muitos que pagaram para ver ao vivo Van Morrison, um dos monstros sagrados sobreviventes da década de 60, o bilhete apenas deu direito a ouvir as canções. A música, que valeu pela vitalidade demonstrada pelo mestre, não desmereceu das “Glorias” do passado.



O Parque Eduardo VII foi até há bem pouco tempo um local aprazível onde, aos domingos, as famílias iam piquenicar e as crianças se espraiavam em chilreios e brincadeiras pelos relvados em inclinação suave em direcção às torres, ao fundo e ao alto, dominando a cidade até ao Tejo. De um dos lados do jardim, altaneiro, erguia-se o então chamado Pavilhão dos Desportos, posteriormente baptizado Pavilhão Carlos Lopes, em homenagem ao campeão português. Eram coisas e locais palpáveis, que se podiam ver e sentir.
O mesmo não se pode dizer de Van Morrison que, sexta-feira à noite nesse mesmo pavilhão, foi para muitos, jornalista incluído, o homem invisível. Para arranjar um lugar, já não digo confortável, nem sequer sentado, mas pelo menos que permitisse ver alguma coisa do que se passava em palco, era preciso ter chegado ao recinto no mínimo com dois dias de antecedência. Daqui se compreende que estava cheio como um ovo. Óptimo. O que já não se compreende muito bem é que a organização, a R & B Produções, tenha despachado os jornalistas para a Geral, quer dizer, para a molhada. Para a próxima mandem-nos para o telhado, para a cave, sei lá, onde for mais desconfortável e que ofereça piores condições de trabalho.
Quanto ao concerto, a julgar apenas pela música, foi o que seria de esperar numa sala que não reúne quaisquer condições acústicas, quanto menos ambiente. Mas Van Morrison, apesar de todas as contrariedades, safou-se bem. E não foram poucas, as contrariedades. O som, como seria de esperar, falhou. Quando a voz parava de cantar, o volume sonoro dos restantes instrumentos baixava misteriosamente, quase até à inaubilidade. Assim, os diversos solos que pontuaram as canções do autor do lendário “Astral Weeks” perderam-se numa nuvem de murmúrios que não permitiram aferir da qualidade dos executantes. Mesmo assim deu para perceber que não são muito bons. Van Morrison, esse, continua em forma.

Acordar Do Transe

A primeira parte do concerto foi um bocado a atirar para o bocejo. Nela o cantor privilegiou a sua costela mística, em cerca de uma hora de “Soul gospel” à base de canções que mal se distinguiam umas das outras mas que invariavelmente falavam de uma “peaceful soul”. Seriam “Hymns to the Silence” se o barulho em redor não fosse tanto. Durante este período, digamos que de recolhimento, Van Morrison apenas saiu do transe religioso para acordar ao som de “In the Midnight Hour”, um clássico de Wilson Pickett. Intervalo para tentar encontrar um local com melhor visão para o artista. Em vão. Ainda por cima, baixote como é, com o seu ar de gnomo anafado, só dava mesmo para vê-lo nas notas mais altas.
Segunda parte. Início promissor com “Cyprus Avenue” em toada de “blues” cheio de sentimento, com passagem para um tema “jazzy” que deu direito a um solo, curto, débil, de vibrafone. Houve solos (pareciam sê-lo, pelo menos) para cada um dos seis músicos acompanhantes, apresentação dos mesmos (não se percebeu nada) e um final em beleza com o homem todo empertigado a cantar “No guru, no method, no teacher”.
A terceira e última parte foi, de longe, a melhor. Van Morrison atacou em força outro clássico, desta feita “What’d I say”, de Ray Charles, prosseguiu com o hino “Gloria”, cantado em coro pela assistência em peso, seguido de “It’s all over now”, popularizado pelos Rolling Stones mas escrito por Shirley e Bob Womack, para finalmente terminar num “slow”, “Have I told you lately”, da sua autoria. O velhote, afinal, ainda continua cheio de genica.
Para os admiradores incondicionais do cantor, o concerto terá correspondido às expectativas. Para os mais indiferentes, não chegou para aquecer. Para muitos, repete-se, nem sequer para ver. Ouvir para crer já não foi mau. O espectáculo foi reeditado ontem no Coliseu do Porto.

El Rumbero – “El Rumbero No Pavilhão Carlos Lopes, Em Lisboa – A Rumba Não Se Serve A Frio” (concerto)

Cultura >> Domingo, 29.11.1992


El Rumbero No Pavilhão Carlos Lopes, Em Lisboa
A Rumba Não Se Serve A Frio


Não façam mais concertos no Pavilhão Carlos Lopes. É frio e não tem condições acústicas. E às vezes, como aconteceu sexta-feira à noite na actuação de El Rumbero, muito grande para a escassez de público e a pequenez do talento. No final houve quem pedisse a devolução do dinheiro.



Estariam cerca de mil pessoas no Pavilhão Carlos Lopes dispostas a dançar a rumba e a soltar “olés”, entre palmas, calores e guitarradas. Nada disto aconteceu. Por culpa das condições do recinto, mas também dos músicos, que, rotulados com a auréola de “reyes”, acabaram por revelar-se uma enorme desilusão. Ou talvez fosse do cansaço. Logo no início, El Rumbero apressou-se a dizer que estava fatigado da viagem. E que, explicou, “todos os ciganos têm medo de viajar de avião”. Disse outras coisas mas não se conseguia perceber dado que a acústica do pavilhão transformava cada palavra numa pasta de reverberação que ecoava pelas paredes desoladas como um bombo descontrolado.
Em palco quatro guitarras, um baixo e percussão, mais os respectivos humanos a segurá-los. O “manager” do grupo, um italiano, fez as apresentações. Dois instrumentais mornos fizeram o que seria suposto ser o aquecimento para a entrada do herói da noite, El Rumbero, o rei da rumba, catalão há vários anos a viver em Camarga, França.
Este lá apareceu de voz rouca a dar desculpas, cantou as esperadas rumbas, muitos temas dos primos Gipsy Kings – sem esquecer o hino das feiras, “Bamboleo” – e a coisa nunca passou da mediocridade até ao final. “Vamos a bailar”, dizia a letra de uma canção. Ninguém se mexeu. Mais um esforço para mobilizar as hostes, com El Rumbero dando instruções de canto à assistência que, devido ao som empastelado, soaram ininteligíveis para o público. Percebia-se “oh oh” e “ay ay ay mi madre” seguido por uma série indecifrável de gemidos e interjeições.
Mas o momento mais caricato do espectáculo estava reservado para o final. El Rumbero e os rapazes, enfadados, terminaram abruptamente a actuação e abandonaram o palco, pouco mais de uma hora depois do seu início. Toda a gente pensou que era o intervalo e ficou a espera, muda e queda, da segunda parte. Entrou então o empresário italiano que desatou a berrar “rumbero, rumbero, rumbero!” perante o pasmo colectivo. Como por esta altura o pavilhão já se encontrava completamente enregelado claro que nenhuma alma foi sensível a este entusiasmo empresarial. Mesmo assim a banda regressou ao palco, simulando o empolgamento, para dois “encores” despropositados que ninguém pediu a não ser o patrão.
Algumas ciganitas adolescentes pediam à saída a devolução do dinheiro gasto no bilhete, descontentes com o pobre espectáculo a que tinham assistido. Falataram às rumbas de El Rumbero a “raça” e o nervo que caracterizam a música cigana. E, isso, nem sequer os seus irmãos de sangue perdoaram.