Arquivo mensal: Fevereiro 2009

Ani DiFranco – Up Up Up Up Up Up

29.01.1999
Mãos Para Cima
Ani DiFranco
Up Up Up Up Up Up (8)
Cooking Vinyl, distri. Megamúsica


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Ao fim de nove anos de carreira e doze álbuns gravados, não se pode dizer que Ani DiFranco seja dada a poupanças no que diz respeito a mostrar ao mundo as suas capacidades de compositora-intérprete. “Up Up Up Up Up Up” (Por pouco não chegava a “Seven-Up”…) é o 12º álbum da sua discografia e surge não muito tempo depois de “Little Plastric castle”, cujas vendas, a rondar os 244 mil exemplares, o levaram a subir ao 22º ligar do top de vendas do Billboard. Para Ani DiFranco, não se põe, sequer, a questão do esbanjamento. Primeiro, porque o seu talento chega e sobeja para encher álbuns de enfiada. Depois, porque ela própria detém todo o poder sobre a carreira, já que lhe pertence a editora para onde grava, a Righteous Babe, com sede em Buffalo, de onde é natural. Desta maneira Ani DiFranco tem inteira liberdade para fazer aquilo de que mais gosta: a reavaliação constante da sua música e da sua evolução enquanto intérprete. Ani DiFranco adopta as suas próprias normas, que passam ao lado da estrutura convencional da canção. Em “Up Up Up Up Up Up”, trata-se da exposição de ambientes e cambiantes interiores que Ani veste com arranjos atmosféricos, vagamente jazzy nalguns casos, declaradamente experimentais e quase obsessivos noutros. Mathilde Santing (repare-se na semelhança de entoações e de timbres, em “Come away from it”) e Suzanne Vega, (numa simbiose com Kate Bush, em “Virtue”) serão, porventura, os dois nomes mais próximos das suas próprias concepções e motivações estéticas. O gosto pelo insólito e pela camuflagem vocal estão presentes em “Jukebox”, “Trickle down” e “Angel Food”, neste caso com a voz enfiada no mesmo cabaré-jazz e nas mesmas noites negras de Barry Adamson. “Hat shaped hat”, a digressão de onze minutos e meio finais, dispara em acentos jazz e “funky” com as agulhas apontadas para a pista de dança, entrecortados por interjeições e acentuações bizarras reveladoras de uma coragem e de uma maturidade que em “Little Plastic Castle” já eram visíveis, mas que em “Up Up Up Up Up Up” se confundem com um saudável descaramento. Para cima, sempre para cima, parece ter-se tornado o lema definitivo desta compositora, que, também no cinema, não pára. Depois de assinar participações nas bandas sonoras de “O Casamento do Meu Melhor Amigo”, “O Chacal” e “All Over Me”, Ani DiFranco está pronta para compor para “Steal this Movie (Abbie!)”, um “biopic” independente sobre a vida de Abbie Hoffman, com realização de Robert Greenwald. Também na televisão a voz de Ani DiFranco pode ser ouvida, na série de humor The Mississipi River: River of Song. Quanto ao 13º e próximo álbum, já não deve tardar…

Palinckx – It´s Frontal Dog

29.01.1999
Palinckx
It´s Frontal Dog (8)
Victo, distri. Áudeo


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Jacques e Bert Palinckx, formam o núcleo principal dos Palinckx, banda já com 15 anos de existência e 10 álbuns gravados. Tocaram há dois anos no festival de novas músicas de Victoriaville, no Canadá (daí a sua ligação actual à editora Victo) onde um crítico (de jazz, note-se…) chamou à sua música “pós punk” e um delírio “pós-Beefheart”. Captain Beefheart é, de facto, uma das referências que permite situar a música dos Palinckx num contexto cujas fronteiras tocam no “free jazz”, no “hard rock”, na colagem e manipulação de fitas magnéticas e na canção pop segundo a visão psicótica de Don Van Vliet, aliás, Captain Beefheart. Navegando entre a brutalidade de um “ready-made” Dada e vocalizações que a todo o momento parecem querer extravasar doses incontroláveis de fúria, “It´s Frontal Dog” vinga-se nas descargas de electricidade da guitarra de Jacques Palinckx, cão-mor destes holandeses que no tema de abertura, “Arms in doubt (Chickensoup II)”, fazem frente aos Black Sabbath, em “Airbag” não escondem a sua admiração por Beefheart e pelos ensinamentos de “Trout Mask Replica” e em “Placenta boogie” rebuscam na garagem dos Pere Ubu. “Supervixen!” é um tormento de “musci-hall” e alarmes electrónicos onde, de novo, assoma a barriga de David Thomas. Viagem alucinante, entre a crueldade e o humor – “A short klingon opera (Sid in space)” com o seu minuto e meio de duração dividido em seis andamentos -, por ela passam ainda as sombras de Zappa, dos MC5 e dos… Beatles, esventrados em “I think I’m down”, um farrapo do “single” de Lennon e McCartney, “I’m down”. “It´s Frontal Dog” é uma dentada de um cão raivoso.

Groundhogs – Split (conj.)

22.01.1999
Reedições
Obrigado, Cristo Pela Bomba
Os “blues” e a paranóia, o rock sinfónico e a poesia de um bardo celta – três apontamentos nas margens dos anos 70.

Os Groundhogs nasceram no final dos anos 60, isnpirados pelos “blues” de John Lee Hooker e pela pop dos Beatles e dos Kinks. Mas é no início da década seguinte que o grupo do guitarrista Tony McPhee atinge a maturidade e a popularidade. “Thank Christ For the Bomb”, de 1970 (reedição remasterizada), terceiro álbum da banda, reflecte a nota de estranheza que sempre caracterizou a música do grupo. A temática antibelicista, perspectivada com uma ironia e uma crueza pouco habituais na época, funciona como suporte de uma música assombrada por melodias aveludadas (John Peel tocou até mÀ exaustão o tema “Soldier”, cujas mudanças de tom e “nuances” vocais deixam adivinhar a presença fantasmagórica de Paul McCartney e Ray Davies…) e uma leitura dos “blues” pautada pela suavidade. Uma sonoridade estranha, fora do tempo e das regras de um estilo, “os blues”, que Tony McPhee condensa no formato guitarra/baixo/bateria de forma inigualável.


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Esta estranheza acentua-se em “Split”, de 1971, com reedição também remasterizada. “Split” disseca a paranóia e a dissociação de personalidade sofridas por McPhee, na consequência de um “flipanço” (seis meses de “bad trip”, incluindo a ressaca…) provocado pela ingestão involuntária (?) de LSD. A guitarra explode literalmente, nas quatro secções que compõem o título-tema, em solos de uma violência, intensidade e experimentação sónica que tocam o génio de Jimi Hendrix. O público britânico vibrou com o sofrimento e fez de “Split” um dos álbuns mais vendidos de toda a carreira dos Groundhogs – chegando ao 5º lugar do top.
“Hogwash”, de 1972, já com Clive Brooks, ex-Egg, no baixo, em substituição de Pete Cruickshank (que nunca chegou a recuperar a sanidade mental, também ele exagerando na dose de LSD…), introduz pela primeira vez a electrónica na música dos Groundhogs, acentuando ainda mais a dicotomia entre a força e a simplicidade emocional aprendidas com os mestres dos “blues” e um lado mais conceptualista e abstracto que McPhee constrói com o “mellotron” e uma panóplia de sintetizadores. Entre os “blues” psicadélicos e uma mutação aberrante da música cósmico-progressiva, “Hogwash” infecta como uma bactéria demoníaca. (BGO, Distri. Megamúsica, 8, 8, e 8)

Curiosamente, em paralelo com estas três reedições, foi lançado no ano passado um novo álbum dos Groundhogs, “Hogs in Wolf’s Clothing”, que assinala o regresso de Tony McPhee às origens, com uma colecção de versões de temas de outro dos seus heróis, Howlin’ Wolf, “bluesman” do Inferno, do abandono e do desespero absolutos. Uma viagem através da noite e da solidão, com a guitarra eléctrica de McPhee galgando até aos limites da desolação. (HTD, Distri. Megamúsica, 7)

No extremo oposto do espectro da música dos anos 70, estão os Strawbs. “Hero and Heroine” e “Ghosts”, ambos editados em 1974, regressam remasterizados, como exemplo de uma música que nessa altura já deixara para trás a herança folk dos primeiros álbuns e superara o trauma provocado pela saída de Rick Wakeman. Nasciam os grandes instrumentais e as profundas tiradas poéticas típicas do rock sinfónico, na sombra dos Genesis e da herança dos Beatles, para onde Dave Cousins, vocalista de inquestionável carisma, empurrara o grupo. Sem atingir o brilho e a originalidade dos anteriores “From the Witchwood” e “Grave New World”, os Strawbs aproximavam-se aqui do fim de uma carreira, que se foi esvaindo num rasto de teatralidade e elegância. (A&M, import. Lojas Valentim de Carvalho, 6 / 6)

Ao contrário de Dave Cousins, Robin Williamson é um verdadeiro bardo. O cantor e multi-instrumentista dos Incredible String Band, extinta a sua parceria, nesta banda, com Mike Heron, pegou na harpa, viajou para a sua Escócia natal e perdeu-se nas névoas da mitologia e música célticas. Não é bem o caso de “Dream Journals 1966-76”, fragmentos instrumentais e peças declamatórias (exploradas por Williamson nos Merry Band), que o músico recuperou e alterou para criar um novo painel de sonhos onde o surrealismo se cruza com a magia das histórias e lendas que o ex-Incredible String Band narra de forma quase radiofónica. “Dream Journals” devolve-nos o prazer da escuta dapalavra. Da sua música, dos seus desenhos, das suas entoações mágicas. (Pigs Whisker, import. Virgin, 7)