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A Educação “segundo a Google”: as propostas de Jeff Jarvis

Em post recente falei do livro da figura acima.

Como prometido então, aqui ficam as propostas referentes à área da Educação.

Quem precisa de uma universidade quando se tem a Google? Todo o conhecimento digital do mundo está disponível numa pesquisa. Podemos ligar aqueles que querem saber com aqueles que sabem. Podemos ligar os alunos aos professores mais adequados para eles (que podem ser colegas estudantes). Podemos encontrar especialistas de qualquer área. Os manuais escolares já não necessitam de estar petrificados em páginas, mas podem ser ligados a informação e debate; podem ser produtos de colaboração, actualizados e corrigidos, respondendo a perguntas e fazendo questionários, até mesmo a cantar ou a dançar. Não há motivo para os meus filhos estarem limitados aos cursos de uma escola; agora mesmo podem fazer cursos online de nada menos que o MIT e Stanford. E não há motivo para eu, há muito saído da faculdade, não poder também frequentar esses cursos.
Pode suspeitar que, por ser professor, vou agora sair desta litania de oportunidades com uma pirueta retórica e demonstrar porque é que devemos preservar as universidades tal como elas são. Mas não vou. Claro que valorizo a academia e a sua tradição e não pretendo que sejam destruídas. Mas tal como qualquer outra instituição examinada neste livro está a enfrentar desafios fundamentais à sua essência e existência na era Google, a educação também está. Na verdade, a educação é uma das instituições mais merecedoras de ruptura, e uma das que têm mais oportunidades para resultar.
Chame-me utópico, mas eu imagino uma nova ecologia educacional em que os estudantes podem fazer cursos em qualquer sítio e os instrutores podem seleccionar quaisquer estudantes, em que os cursos são cooperativos e públicos, em que a criatividade é promovida como a Google a promove, em que aprender com os erros é valorizado em detrimento da uniformidade e segurança, em que a educação continua para além dos 21 anos, em que os testes e diplomas importam menos que um portefólio de trabalho, em que a economia de oferta pode transformar qualquer pessoa com conhecimentos num professor, em que as competências de pesquisa e de raciocínio e cepticismo são valorizadas em detrimento das capacidades de memorização e cálculo, e em que as universidades ensinam uma abundância de conhecimento àqueles que o desejam, em vez de gerirem uma escassez de lugares na sala.
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Setembro 9, 2010   Não há comentários

Roger Schank – “Virtual Learning”

Já falei de Roger Schank aqui no blog. Na altura disse que adquiri 4 livros dele, por achar que é um autor que merece ser lido. É um autor que foi professor durante mais de 30 anos, é psicólogo cognitivo, doutor em computadores (inteligência artificial) e, reunindo todas estas áreas, aplicou-as na sua prática docente. Tornou-se um autor polémico devido às suas teses contra-corrente, que vem mantendo ao longo desses últimos 30 anos, embora com pouca audiência, se constatarmos como continuam os nossos sistemas de ensino (Schank é americano e debruça-se sobretudo sobre o sistema desse país, mas quase tudo o que escreve se pode aplicar a Portugal e, certamente, a quase todos os países).
Nessa conformidade, “Virtual Learning” é um livro de 1997 que não perdeu actualidade, e, embora tenha sido escrito a pensar na formação profissional para empresas, muito do que diz é válido para o ensino. Aliás, o autor, nos seus mais de 20 livros publicados quase não tem feito mais do que repisar as mesmas teses e conceitos, com algumas nuances, pequenos acrescentos e alterações fruto de reflexão.
Aqui ficam os conceitos base da teoria de Schank aplicada ao ensino e à formação, as suas máximas e alguns excertos retirados do livro em apreço.
Em alguns casos tais frases aplicar-se-ão mais a formação profissional, noutros ao ensino escolar, noutros ainda aos dois sistemas. Caberá ao leitor interpretar a intenção face ao contexto, nos casos de maior ambiguidade.
Alguns capítulos não são aqui apresentados por se tratarem de relatos de casos em que a aplicação das teses foi feita em algumas empresas, nomeadamente a Andersen Consulting, entre outras (um capítulo para cada caso).

Uma nota final: Apesar do título do livro ser “Virtual Learning” e muito do que se explana nele se referir à aprendizagem através dos computadores, que o autor refere como imprescindível à simulação de muitas situações, o livro não se esgota, nem nada que se pareça, nesse aspecto.

capa do livro

Título: Virtual Learning – A Revolutionary Approach to Building a Highly Skilled Workforce
Autor: Roger Schank
Editora: McGraw-Hill
Ano de Publicação: 1997
Nº de Páginas: 185
ISBN: 0-7863-1148-7

Virtual Learning
Schank Conceitos

  • A aprendizagem só acontece através do fazer
  • A aprendizagem só acontece se se cometerem erros
  • A aprendizagem deve ser divertida
  • É impossível aprender a menos que esperemos alguma coisa e essa coisa não ocorre (expectativa frustrada)
  • As pessoas prendem melhor se precisarem mesmo de aprender essa competência
  • As histórias são um poderoso aliado da aprendizagem
  • Em resumo: É crítico para a aprendizagem real: histórias, simulações, metas, prática, divertimento, e falha.

Schank Máximas

1. O Desfazer do Mal – Remediando os problemas causados pela má formação
. O desenho de programas de aprendizagem para crianças devem ser divertidos com jogos de computador
. O que aprendi acerca da aprendizagem:
As pessoas odeiam a formação como ela é, passiva
As pessoas gostam das tecnologias multimédia
. É fantástico como tantas pessoas não sabem executar os seus trabalhos de forma apropriada
. Tudo o que está errado com a formação pode ser resumido em quatro palavras: é como a escola…
. A escola não trata realmente de aprendizagem: trata de memorização de curto-termo de informação sem significado, que nunca é utilizada depois na vida. O modelo da escola nunca foi intencionado para ensinar às pessoas capacidades práticas. Foi sempre objectivada para satisfazer observadores, que assim ficam a pensar que o conhecimento foi adquirido (por curtos períodos)
. Porque as pessoas trabalham tão diligentemente na escola, durante tantos anos, convenceram-se a si próprias que deve haver muita aprendizagem a circular por lá. O que funcionou para elas deverá funcionar para os outros.
. A verdadeira aprendizagem é dificilmente mensurável através de testes standardizados
. É assustador como os executivos de topo levantam tantas objecções e preocupações acerca de novas abordagens para a formação
. Quando aprender não é divertido, não é aprender
. O que é divertido é fazer

2. Trabalho de Simulação – Criando ambientes ideais para aprendizagem
. Aprender através do fazer é mais fácil de dizer do que fazer
. Se tens um objectivo podes realmente aprender bastante
. O valor da escola e da formação tradicional é fazer com que as pessoas se iniciem na direcção certa
. Mas eu não posso fazer por ti aquilo que tu precisas para ti próprio
. Começando com a aprendizagem virtual
Pense num trabalho, na sua organização, que requeira capacidades bem definidas e tangíveis
Descubra qual é o maior problema de ensinar essa tarefa
Recolha histórias
. Lidar com o inesperado é uma capacidade crítica num mundo em acelerada mudança, e é a capacidade que a maioria dos programas de formação ignoram
. Vantagens da formação virtual
Fica mais barata a longo prazo
Permite a falha sem embaraço pois o formando está sozinho
Faz-se uma vez e pode ser usada muitas
. Vantagens do “jogo de papéis”
Ficam mais baratas a curto prazo
Parecem mais realistas
São replicáveis
. Para as simulações ao vivo é crucial ter as pessoas certas a desempenhar os papéis certos
. É embaraçante falhar enquanto os outros estão a olhar
. Ao princípio as pessoas não compreendem que têm de falhar, de modo a aprender

3. Falha – O motor da aprendizagem virtual
. A verdadeira aprendizagem nunca ocorre até que o aluno falhe
. É fácil reconhecer que a sua expectativa falhou porque as pessoas insistem em explicá-la
. Ouçam os que as pessoas lhes dizem acerca delas próprias, porque isso é verdade
. Na realidade, as pessoas que nunca falham são chatas até à ponta dos cabelos e não têm a capacidade de arriscar nem de ser criativas
4. Regras para Aprender
. As pessoas lembram-se melhor daquilo que mais os impressionou
. Os empregados estúpidos não nasceram assim, foram feitos
. A formação deve ser feita quando é precisa (ou quando um aprendente falhou nalguma coisa e precisa realmente de ajuda)
. Podes falhar na aprendizagem de tudo
. Os alunos ensinam-se melhor a eles próprios do que o fará o melhor professor do mundo ou o orientador motivacional mais bem pago do mundo
. A memorização sem a correspondente experiência não vale nada
. A formação deve começar com um BANG!!!!
. Os alunos devem aprender a partir do melhor que haja
. É melhor formar muitos do que poucos
10. Como a mente aprende, o modo como o treino deve ser
. Nós lembramo-nos melhor do que causou mais impacto em nós.
Isto é aprendizagem. Neste processo, tínhamos uma série de expectativas, que foram goradas.
. Falhar de forma interessante deve ser um dos objectivos de qualquer formação. Muitos formadores resistem a este caminho.
. Sem falhas não há aprendizagem
. A nossa capacidade para etiquetar e armazenar uma falha para uso posterior é diminuída pelo embaraço, humilhação, vergonha, e raiva que acompanha uma falha pública.
. Falhar numa simulação em computador, por outro lado, habitualmente não dispara o nosso impulso de culpa. A simulação em computador oferece as seguintes vantagens:
A falha é privada
A falha pode ser explicada pelos formadores
A falha pode ser controlada
. O treino não é efectivo quando não considera os modos como as pessoas aprendem. Vejamos as três formas mais comuns de ensino que violam aqueles modos:
Embaciamento – Horrorize, imobilize, divirta, ofenda – mas faça algo que seja relembrado
Situações não reais
Má altura – A maneira como a formação deve ser ministrado é no tempo adequado, quando é precisa. A mente não pode acomodar muita informação durante muito tempo – quando existe muita informação ela deve ser encaminhada apenas um pouco antes de ser precisa. Ainda mais importante, as pessoas precisam de estar motivadas, para aprender. Se souberem que não vão usar aquela (in)formação, não se concentrarão nela, e nada aprenderão.
. Quando o tempo é crítico, então a formação pode ser preferível a deixar as pessoas aprenderem por sua conta.
. Mesmo o melhor sistema virtual de aprendizagem não consegue implantar talento e instinto
. Muita formação hoje em dia é sobre liderança, diversidade em equipas, aconselhamento. Não é que estas capacidades não possam ser ensinadas; apenas que fico nervoso só de pensar em ensiná-las.

Schank Citações

1. O Desfazer do Mal – Remediando os problemas causados pela má formação
. O desenho de programas de aprendizagem deve acomodar personalidades diferentes, que afectam a maneira como as pessoas aprendem
. Num programa virtual, deve-se prever várias alternativas de aprendizagem: algumas pessoas, consoante a sua personalidade, perante uma falha tenderão a perguntar ao chefe, outras a tentar de novo, outras ainda a ouvir uma história relacionada com essa falha
. O ponto é que, as pessoas aprendem capacidades, simulando a realidade
. O conceito medieval de aprendizagem sobreviveu como uma ferramenta de ensino até recentemente
. Será que antes de terem filosofia, os alunos não sabiam pensar?
2. Trabalho de Simulação – Criando ambientes ideais para aprendizagem
. O que é particularmente curioso acerca desta situação é que o computador faz com que a aprendizagem através da acção seja uma opção realista em muitas situações
. Nós aceitamos as falhas dos nossos filhos como parte do seu processo de aprendizagem…
. Nada do que alguém diz (não interessa o quão eloquente e inspirador for) fará mais do que te inspirar. Tens de interiorizar os procedimentos para trabalhar melhor. Para isso tens de tentar e receber ajuda quando falhas.
. Ganhando experiência e passando por centenas de caos, gradualmente aprendemos as subtilezas do trabalho que não são fáceis de ensinar
. Porquê histórias? Porque é onde estão as pepitas de ouro do conhecimento organizacional e transforme-as em ferramentas de aprendizagem
. As simulações são arquitectadas de modo a que as pessoas façam naturalmente os erros que fariam nas situações da vida real
. Quando uma falha ocorre, a simulação deve ter sido desenhada para dar aos formandos um certo número de opções sobre como prosseguir
. As simulações devem acomodar uma grande variedade de tipos de personalidade e preferências
. Seja a simulação ao vivo ou computorizada, a aprendizagem virtual não funciona se as pessoas não estiverem motivadas. A simulação deve ajudar as pessoas a atingir o objectivo que elas querem atingir – cenários baseados em objectivos.
. Não há dúvidas que há alguns empregados que não querem saber da qualidade do seu trabalho para nada – alguns são preguiçosos, cínicos, etc., aos quais falta a motivação.
3. Falha – O motor da aprendizagem virtual
. Quando as pessoas experienciam uma expectativa gorada, a sua mente cria uma estratégia de rememoração. Esta, permite-lhes pensar nessa anterior falha no contexto da nova (possível) falha e, assim, evitá-la
. Para ter essas experiências e torná-las em histórias rememoráveis, as pessoas precisam de falhar no trabalho ou na simulação. Ganhar experiência através da simulação é uma alternativa mais prática para a maioria das organizações
4. Regras para Aprender
. É precisa a intensidade emocional da experiência – ou da simulação dessa experiência – para as histórias “colarem”, é preciso evocar a emoção
. O que muitos não compreendem é que mesmo as pessoas com baixo QI ou aqueles que não foram bons na escola, são bons aprendizes
. Para ensinar uma capacidade temos de a ensinar num contexto relevante
. Na escola e no trabalho, as é dito constantemente às pessoas que as suas ideias são más. Os professores ridicularizam os alunos que fazem sugestões estapafúrdias (porque não são as respostas correctas) e os patrões rejeitam as ideias que lhes parecem esquisitas, arriscadas, ou não concordantes com as práticas tradicionais. Tudo isto coarcta a criatividade. Tal negativismo é mau, porque as pessoas são, naturalmente, criativas.
. Os professores tendem a pensar que são mais importantes para o processo de aprendizagem do que realmente são. As pessoas ensinam-se a si próprias naturalmente.
. Ser bom (chefe) para uma pessoa que não o merece magoa todos os outros empregados que se esforçam arduamente, e que merecem consideração
. As pessoas perdem montes de tempo a tentar memorizar factos, procedimentos, e slogans. Tal memorização não tem o mínimo impacto no comportamento. Vejam-se os desperdícios de rios de dinheiro n as campanhas anti-droga e noutras.
. Quando os alunos fazem algo repetidamente, eles memorizam acções
. Ao contrário do que muitas pessoas pensam, as pessoas não têm diferentes estilos de aprendizagem. Têm, contudo, diferentes personalidades. Desenhar um processo de aprendizagem de diferentes modos para pessoas diferentes, não faz sentido.
. A maioria dos formandos reage à formação de um de dois modos: ou odeiam-na ou tomam-na como tempo fora dos seus trabalhos. Pelo que temos, quase sempre audiências apresentam resistência ou desinteresse. Então a melhor maneira é uma abertura que imediatamente os envolva e divirta. Depois é logo começar a dar-lhe tarefas – mesmo que não entendam exactamente o que estão a fazer, não faz mal, pois acabarão por perceber e podem sempre ir perguntando e pedindo ajuda, durante o processo
. A aprendizagem virtual não é especulação teórica. As ideias neste livro foram aplicadas com sucesso numa vasta gama de organizações.

10. Como a mente aprende, o modo como o treino deve ser
. A queixa mais frequente é: “Ele não se lembra de nada do que aprendeu na formação”.
Talvez seja porque nunca o chegou a aprender.
As escolas e as organizações fazem uma falsa assunção: Se isto for ensinado de forma clara e se as pessoas forem testadas, será relembrado. De facto, clareza e testes têm pouco a ver com o facto de algo ser relembrado ou não.
. O cenário ideal de formação cria grande confusão; os formandos serão surpreendidos, chocados, e por outro lado boquiabertos sobre como as coisas não estão a correr conforme o planeado.
. Os computadores, contudo, são muito mais amigos-da-aprendizagem; eles fornecem um ambiente que conduz melhor à aprendizagem do que um cenário de desempenho-de-papéis.
. Os cenários de aprendizagem virtual – especialmente aqueles bem construídos em computadores – usam metas e planos de forma a que as memórias possam ser armazenadas no nível de abstracção adequado.
. a quantidade de formação desnecessária que é fornecida hoje em dia é incrível. Talvez o exemplo mais egrégio desta prática envolva a formação em computadores. As companhias gastam, rotineiramente, milhões de euros e milhares de horas de trabalho para formar os seus empregados a saber trabalhar com novo software – folhas de cálculo, processamento de texto, etc. Tal formação é um desperdício de tempo e dinheiro, por três razões:
A mente das pessoas não consegue absorver a avalanche de informação que tipicamente é fornecida nesses cursos.
Porque os sistemas são novos e não há um corpo de experiência e conhecimento para o levar a cabo. Sem o conhecimento onde as falhas devem ocorrer, a aprendizagem não acontece
Mais importante, a formação é desnecessária porque as pessoas vão acabar por aprender esse software por sua própria conta.

13. Como irão as pessoas aprender no futuro
. A revolução no ensino ainda está na sua infância
. No futuro poderemos comprar pacotes genéricos ou de software que depois adaptaremos às nossas necessidades e idiossincrasias
. Os formadores terão, contudo, um papel diferente no seio da organização
. A capacidade de levar a formação às pessoas em vez de trazer as pessoas à formação aliviará os formadores de muitas tarefas burocráticas que hoje os assoberbam.
. Adaptar software, serviços e produtos será uma capacidade altamente recompensada, e as pessoas ligadas à formação, que são bons nessas tarefas, serão de um valor extraordinário.
. Os indivíduos comprarão (ou experimentarão na biblioteca) cinco ou seis simulações de empregos em diferentes indústrias. Depois de experimentar tais simulações, os estudantes do secundário terão uma muito melhor perspectiva do tipo de empregos que gostariam de exercer.

Setembro 8, 2008   Não há comentários

Uma Ideia Perigosa – Roger Schank

Cheguei ao conhecimento de Roger Schank através do site Edge. Este site, que utiliza a forma de revista virtual, funciona como ponto de encontro virtual de intelectuais, sobretudo cientistas das mais variadas áreas, e propõe-se sobretudo a discutir as mais modernas inovações da nossa sociedade, o seu impacto actual e futuro. Desde a descodificação do genoma humano, o estudo das ondas cerebrais, a influência dos computadores e da internet na vida do dia-a-dia, os novos paradigmas sociais, enfim, a gama é aquela que compõe toda a nossa vivência, do planeta e do universo.

Para além das discussões, os participantes colocam sistematicamente artigos no site, reunidos numa espécie de revista virtual, o que, como é óbvio gera mais discussão, num corrupio de inteligência concentrada difícil de aceder em muitos locais.
Para além disso, é hábito do gestor do site lançar, todos os anos um desafio aos seus membros. No ano de 2007 ele foi “Diga-nos qual a ideia mais perigosa que consegue imaginar e porque é que ela é assim perigosa”. As contribuições, como sempre, foram riquíssimas e foi publicado um livro fascinante com as reflexões enviadas.
Tendo comprado e devorado esse livro, que atinge um nível excelente na maioria das suas dezenas de artigos, por defeito profissional chamou-me particular atenção à reflexão de Roger Schank que, de forma provocatória, como vim a descobrir ser seu timbre, apresenta a sua ideia mais perigosa para a área da educação. Essa reflexão levou-me a investigar mais sobre este cientista dos computadores (inteligência artificial) mas também psicólogo cognitivo, que aplica há mais de 20 anos (e mais de duas dezena de livros), estas duas áreas à educação, de modo a familiarizar-me com as suas teses para a educação no futuro. E não fiquei defraudado. Comprei entretanto quatro livros seus (ainda só li um) e não é que o tipo tem razão em quase tudo o que afirma.
Para já irei apenas publicar aqui o artigo que faz parte do livro que mencionei acima, ficando a promessa de me debruçar sobre os seus outros livros nos espaços que mantenho na net, por forma a expor as suas ideias para a educação e aprendizagem.
Ahhh! Uma coisa: apesar de “pedagogo”, este é dos que metem as mãos na massa e não daqueles que fogem, a todo o custo, da sala de aula, para depois passar o tempo a dar palpites, para não lhe chamar outra coisa, sobre os professores e o seu trabalho.
Como aperitivo podem ir lendo aqui uma entrevista sua sobre a educação e o ensino de modo a começarem a apanhar parte das ideias do homem, neste caso a necessidade de a universidade se tornar virtual.
Podem também começar a explorar o seu site pessoal, a partir do qual poderão navegar infindavelmente nestes temas da ciência dos computadores e da psicologia cognitiva aplicadas, de forma integrada, à educação.
O que é que isto tem a ver com a web 2.0?
Bem, a educação irá dar o passo no sentido que Roger Schank preconiza. As pessoas aprenderão mais através dos computadores e da internet do que na escola e, nesta, a forma mais proveitosa de aprender será sempre guiada pelos interesses próprios e pelo trabalho colaborativo: expurgar o “lixo” e “wikizar” a aprendizagem…

Acabaram os Olhares Zangados do Professor

Roger C. Schank
Roger C. Schank é psicólogo cognitivo, cientista de computadores, professor emeritus na Universidade Northwestern, chief learning officer na Universidade Trump, e a sua obra mais recente intitula-se Lessons in Learning, E-Learning, and Training: Perspectives and Guidance for the Enlightened Trainer.

Depois de uma calamidade natural, os apresentadores das notícias, nos meios de comunicação social, acabam sempre por anunciar, com excitação, que as escolas vão finalmente reabrir, pelo que, independentemente dos acontecimentos terríveis que possam ocorrer no sítio onde moram, os miúdos vão à escola. Tenho sempre pena dos pobres miúdos.
A minha ideia perigosa será rejeitada de imediato pela maioria das pessoas, sem pensar duas vezes: a escola faz mal aos miúdos. Fá-los infelizes e, como mostram os exames, não aprendem grande coisa.
Quando ouvimos as crianças falarem acerca da escola, descobrimos facilmente no que pensam enquanto estão na escola: em quem gosta delas, em quem é mau para elas, como melhorar o seu estatuto social, como conseguir que o professor as trate bem e lhes dê boas notas.
Hoje em dia, as escolas são basicamente estruturadas da mesma maneira que desde há centenas de anos. E, durante séculos, filósofos e outros têm feito notar que a escola é, na verdade, uma má ideia:

Somos encerrados em escolas e em salas de recitação durante dez ou quinze anos, e acabamos por sair com a cabeça cheia de palavras, e não sabemos nada.

RALPH WALDO EMERSON

A educação é uma coisa admirável, mas é bom lembrar, de tempos a tempos, que nada que valha a pena saber pode ser ensinado.

OSCAR WILDE

As escolas, sob a forma em que as conhecemos, deviam pura e simplesmente deixar de existir. O Governo tem de abandonar o negócio da educação, deixando de pensar que sabe o que as crianças devem aprender e de as testar constantemente para ver se elas regurgitam o que quer que seja que lhes enfiaram na cabeça.

O Governo é, e sempre tem sido, o problema da educação:
Se o Governo se decidisse a procurar obter, para todas as crianças, uma boa educação, poderia poupar-se ao trabalho de a fornecer. Poderia deixar aos pais a tarefa de obterem essa educação onde e como quisessem, e contentar-se em ajudar a pagar as propinas das crianças oriundas das classes mais pobres, assumindo todas as despesas escolares de quem não tem ninguém que as assuma por elas.

J.S. MILL

Primeiro, Deus criou os idiotas. Isso foi só para praticar. Depois, Ele criou também as autoridades escolares.

MARK TWAIN

As escolas têm de ser substituídas por lugares seguros, onde as crianças possam ir aprender a fazer as coisas que estão interessadas em aprender a fazer. Os seus interesses deviam orientar as suas aprendizagens. O papel do Governo devia ser o de criar lugares que fossem atraentes para as crianças e que as levassem a querer ir para lá.

De onde sucede que, por não termos escolhido o caminho adequado, com frequência passamos por grandes trabalhos e consumimos uma boa parte do nosso tempo a formar crianças em coisas para as quais, devido à sua constituição natural, elas são totalmente inadequadas.

MONTAIGNE

Há dois tipos de educação {…} Um deve ensinar-nos como ganhar a vida, e o outro como viver.

JOHN ADAMS

Mais de um milhão de estudantes optaram por abandonar o sistema escolar existente e estão agora em casa, a receber a educação à distância (nos EUA). O problema é que os estados regulam a educação à distância, e esta ainda se parece bastante com a escola.
Precisamos de para de produzir uma nação de estudantes cheios de stress que aprendem a ficar bem com o professor em vez de ficarem bem consigo próprios. Precisamos de produzir adultos com amor à aprendizagem, não adultos que evitam toda a aprendizagem porque esta lhes recorda os horrores da escola. Precisamos de para de pensar que todas as crianças têm de aprender as mesmas coisas. Precisamos de criar adultos que conseguem pensar por si próprios e que não se deixem convencer de que são capazes de compreender situações complexas em termos simplistas que podem ser debitados num sound byte.
Limitemo-nos a fechar as escolas. Transformemo-las todas em centros recreativos.

Agosto 28, 2008   Não há comentários