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Os Bonzos da Estatística – Santana Castilho

Este livro reúne as crónicas publicadas semanalmente no jornal Público, pelo professor Santana Castilho, entre 2005 e 2009.
Professor da Escola Superior de Educação de Santarém, Santana Castilho tece nas suas crónicas críticas profundas e fundamentadas ao desvario que varreu a educação em Portugal entre aquelas datas, precisamente o período em que o último governo ocupou o poder.
Leitura aconselhada a todos aqueles que se interessam pela problemática da educação mas também ao grande público, que assim pode ser esclarecido sobre a realidade, que, infelizmente, é diametralmente oposta ao propagandeado até exaustão pelo governo, com a conivência e amplificação da comunicação social.
Deixamos abaixo um exemplo de uma das crónicas.

Título: Os Bonzos da Estatística – Ideias Falsas que Travaram a Educação
Autor: Santana Castilho
Editora: Edições Pedago
Data: Setembro de 2009
Nº de Páginas: 318
ISBN: 978-972-8980-83-2

Ressuscitem O Papel Selado
Esta crónica tem uma causa próxima: um pequeno texto inserto na rubrica “Sobe e Desce” deste jornal, no passado dia 24. Rezava assim, a dado passo: “Os sindicatos dos professores não querem, de todo, a avaliação. A maioria da classe não quer, de todo, a avaliação…” Quem escreveu isto desconhece por completo o que se passa no sistema de ensino e propala uma enorme falsidade, que ficaria sem reparo, não fora a gravidade do que actualmente se vive nas escolas portuguesas e a necessidade de esclarecer, por isso, a opinião pública.
Mente quem diz que os sindicatos e os professores não querem sujeitar-se a avaliação. Mentiu o próprio primeiro-ministro quando há dias disse ao “Diário de Notícias” que nunca no passado foi feita avaliação dos professores. Desafio quem quer que seja a sustentar documentalmente tais enormidades,. A realidade é bem diferente. Os professores rejeitam este (e sublinho o pronome demonstrativo este) modelo de avaliação. Porque não cumpre o fim primeiro de qualquer exercício de avaliação do desempenho: a melhoria do próprio desempenho e a valorização das práticas profissionais. Quando o primeiro-ministro, em acto sintomática e reveladoramente falhado, afirma que a avaliação dos professores se faz por “uma” (e sublinho o artigo uma) razão, “premiar o mérito”, torna-se patente por que os professores não aceitam visão tão redutora. Sobretudo porque este “premiar o mérito” se construiu por via de uma tômbola aviltante, que dividiu os professores em titulares e outros, deixou de fora profissionais altamente qualificados e esmagou dedicações e competências. Se tivessem vergonha, os seus autores, que têm nome e rosto, pintavam a cara de negro, a cor do luto, e não ousavam falar de premiar o mérito. Mas há mais, que ninguém pode desmentir. Este modelo de avaliação penaliza os professores que usem direitos protegidos por leis de dignidade superior: direito de engravidar, direito a estar doente, direito ao recolhimento (nojo) por morte de pai, mãe, filho ou filha, mulher ou marido e até o elementar direito de não ser prejudicado por cumprimento de obrigações legais impositivas (comparecer em tribunais). Este modelo de avaliação penaliza os professores quando os alunos desertam da escola ou chumbam; põe professores de música a avaliar professores de matemática, bacharéis a avaliar doutores; mete no mesmo saco, para efeitos de graduação profissional, quem seja classificado com insuficiente, regular ou bom; instala nas escolas um pernicioso clima de desconfiança e competição; coloca toda a classe numa espécie de estágio permanente, com uma vida profissional inteira de duração; privilegia os cargos administrativos e burocráticos em detrimento das funções lectivas; constitui uma casta de kapos incumbidos de controlar e reportar aos donos; aniquila a liberdade pedagógica e intelectual do professor. Isto e muito mais são bestialidades que um coio de incompetentes quer impor aos professores. Que diriam jornalistas e comentadores, que escrevem ligeiro sobre a matéria, se os arrastassem em tal caudal de disparates?
Esta é apenas uma, eventualmente a mais gritante, das vertentes que asfixiam os docentes em burocracia e afastam a Escola da sua missão principal: ensinar. Os portugueses não percepcionam quanto o sistema de ensino está à beira do abismo. Os professores sufocam com tarefas administrativas e reuniões. Há reuniões de todo o tipo: de coordenação de ano, para conceber testes conjuntos, para desenhar grelhas, para analisar resultados, de Conselho Pedagógico, com encarregados de educação, com alunos, para preparar as actividades de estudo acompanhado, de formação cívica, da área de projecto, de tutoria, de apoio educativo, de recuperação de resultados, de superação de necessidades educativas especiais, entre outras.
Os papéis não têm fim. Tenho à minha frente seis folhas de um documento intitulado: “Coordenação de Ano”, de um agrupamento de escolas. Para o interpretar tive que me socorrer de um glossário. Aqui fica a tradução das siglas, omissão feita às que não consigo decifrar: CD (Conselho Executivo); CA (Conselho de Ano); PRAE (Plano de Recuperação e Apoio Educativo); PCT (Projecto Curricular de Turma); CGAS (Critérios Gerias de Avaliação Somativa); AEC (Actividades de Enriquecimento Curricular; PTT (Professor Titular de Turma); TIC (Tecnologias de Informação e Comunicação; PGEI (Programa de Generalização do Ensino de Inglês); CAA (Comissão de Acompanhamento Alargada); CAR (Comissão de Acompanhamento Restrita); SPAEC (Supervisão Pedagógica das Actividades de Enriquecimento Curricular; CEI (Currículo Específico Individual); UAM (Unidade de Apoio à Multideficiência); PAA (Plano Anual de Actividades); PA (Plataforma do Agrupamento); CAD (Comissão de Avaliação do Desempenho).
Chega? Não! Por favor, Maria Lurdes e Santo Valter, ressuscitem o papel selado!

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