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X.Per XR – Looking Left (conj.)

31.07.1998
Electrónica
A Música Electrónica É Sexy?
Os X.Per XR acham que sim. Os Schnnistelle garantem que não. Para os QNTAL o mais importante é o amor. Para os Fuxa não há nada que não se possa fazer com Viagra. E Paul Schütze pergunta o que é o sexo.

Os Residents fizeram uma caricatura de “Meet The Beatles”, dos fabulous four, em “Meet the Residents”, cuja capa apresenta uns rabsicos desenhados por cima dos rostos dos quatro ingleses. Zappa também gozou graficamente com a capa de “Sgt. Pepper’s”. Trinta anos depois um grupo franco-japonês designado X.Per XR adulterou por completo a capa de “The Mix”, dos Kraftwerk, seguindo a mesma técnica de apagamento e garatujas dos Residents. O álbum chama-se “Looking Left” e é um delírio do princípio ao fim. Que os X.per XR não se levam muito a sério é evidente logo no início, quando colam alguns segundos de aplausos a premiar onomatopeias pseudo-nipónicas. Surgem a seguir vozes e tribalismos “naif” que fazem recordar os Renaldo & The Loaf, para depois os samplers fazerem a sua entrada triunfal. Neste aspecto os X.per XR pilham no sentido literal do termo. Há sequências inteiras de música recortada das últimas três décadas, na sua vertente mais “kitsch”, desde solos de guitarra de Carlos Santana até “disco sound” do mais pimba (“Do ya think I’m sexy?”, de Rod Stewart, por exemplo) e “hip hop”, “scratch” e “funk” com a cabeça no lugar dos pés. Sobre este arsenal de vulgaridade e de lugares-comuns erguem-se bizarrasa articulações sonoras sem sentido nem tino aparentes que vão da música industrial rançosa e bailes patrocinados por Steve Fisk, passando por “polifonias” patetas onde vale tudo. Os X.per XR atiram para dentro de um saco quantidades enormes de lixo para o reciclarem em casa, transformando-o em mutações aberrantes. É como se Holger Hiller ou os Negativland tivessem ido ao “Big Sho SIC” de João Baião e ganho o concurso. O álbum é produzido por… Quincy Bones. Na ficha técnica os X.per XR agradecem a “quem comprar esta merda”. (Geffen, distri. Matéria Prima/Ananana, 8).

No registo opsto ao dos X-per XR estão os (ou o…) Schnnitstelle, com “Rather Interesting”, uma equação gelada de música programática que cruza a sintomatologia sequencial dos Oval com o jazz digital de Paul Schütze. Destituída de qualquer emoção a música deste projecto, gravadp em Santiago (de Cuba, do Chile, de Compostela, do Cacém?…) e com monitorização digital efectuada no laboratório de um tal Antonio Monasterio (será o grupo espanhol?) petrifica o conceito de improvisação. Há em “rather Interesting” uma beleza estampada na distância cuja frieza chega a ser assustadora. Os próprios Kraftwerk sentir-se-iam perdidos neste labirinto de ligações e circuitos instalados por uma equipa de técnicos de TV por cabo no continete Ártico. “Rtather Interesting” poderá ainda ser encarado como uma extensão, levada ao absurdo, de “White Noise 2 – Concerto for Synthesizer”, de David Vorhaus. (RI, import. FNAC, 7).

Novo salto, agora para a Idade-Média, através das transcrições electrónicas dos QNTAL, no seu segundo volume de “techno medieval”, monasticamente intitulado “QNTAL II”. Do ponto de vista do respeito pelas formas musicais antigas, a linguagem deste projecto liderado por Michael Popp (que nos Estampie desenvolve, em paralelo, uma prática mais aprofundada do seu particularíssimo conceito de síntese) pode ser considerada uma heresia, cujo perdão apenas será considerado graças à excepcionalidade e pureza da voz de Sigrid Hausen, perfeitamente enquadrada no cânones da música antiga. Há nos QNTAL um entido lúdico que se torna irresistível. Faixas como “Frühling” ou “Hymni nocturnales” juntam a melodia e a leveza da pop electrónica dos OMD e dos Depeche Mode à luminosidade de uma catedral gótica. Detesta-se ou ama-se a fórmula dos QNTAL, demasiado próxima da tradição para passar despercebida, demasiado radical e “populista” no modo como dela de apropria, a música dos QNTAL, torna-se um gosto adquirido mas nunca aborrecida. Faz pensar se a noite dos trovadores não era afinal a noite do amor mas do Kremlin. (Gymnastic, distri. Symbiose, 7).

Em Itália, quando há tempo, junta-se um núcleo de executantes conotados com as “novas músicas”, os La 1919, em torno do guitarrista (mas também manipulador de samples, loops e programações várias) Luciano Margorani, autor, a solo, do magnífico “Home Recording Is Killing The Studio” e Piero Chianura (samples, electrónica e percussão). “Giorni Felici” conta, além de outros dois músicos italianos, Franco Fabbri e Fausto Rossi, com a guitarra desalinhada e o Synclavier de Henry Kaiser e, num dos temas, com o saxofone alto de John Oswald, no lugar da electrónica e das fitas magnéticas que lhe são habituais. Sem ser particularmente estimulante ou inovadora, a proposta musical dos La 1919, insere-se de forma natural na estética Recommended, com acentuações na guitarra, por vezes Frithiana, de Margorani, e uma complexidade estrutural que por vezes toca nos 5 Uu´s ou nos Motor Totemist Guild. (Materiali Sonori, distri. Megamúsica, 7).

Bom, e o.. pós-rock, ainda existe? Aparentemente sim, a julgar pela colaboração de Doug Scharin e Joe Goldring, respectivamente dos Him e Codeine, em “Out of Worship”. As coordenadas do movimento são respeitadas, embora a principal preocupação dos dois músicos se centre mais na musculatura, na energia, do que nas lições de História. “Moment must of said” dispensa o compêndio alemão e do Progressivo inglês para se albergar sob o toldo de Bill Laswell, montado na segunda e orientalista fase dos Material. “O hip hop” saturado de radiações, guitarras quase sempre a rasgar e um certo lado tribal recolhido das latas e bidões dos Chrome confluem nos 18 minutos de “Meta stigmata”, poderosa pulsão em que o pós-rock se transforma simplesmente em… rock. Inquieto e em busca de lugares escuros, na esteira do ruído e da distorsão. Um túnel de tortura, óleos pesados e ácido do inferno. Provavelmente o mesmo que corroeu a alma de Peter Hammill, em “Magog (In Bromine Chambers)”, do álbum “In Camera”. (Sub Rosa, import. Ananana, 7).

Mais ortodoxos e respeitadores das normas do pós-rock são os Fuxa, que já se tinham apresentado em Portugal com “Very Well Organized”. “3 Field Rotation”, o álbum de estreia, era bastante mais interessante que o seu sucessor. Embalada na mesma textura de mármore, desfocada por papel vegetal, a música de fumo e vapor dos Fuxa sofre aqui curiosas alterações de estado, em variações de registo que em “Very Well Organized” se deixavam sufocar pela sonoridade de um órgão sulfuroso. “3 Field Rotation” está mais próximo dos osciladores dos Silver Apples e dos Suicide em segunda via carimbados pelos Jessamine, cultivando o risco e situações sónicas de alguma indefinição que tanto podem desembocar em baladas espaciais como em carnificinas de ruído analógico ou, como acontece no tema final, num batuque libertador. Os Fuxa são ingénuos que adoram o som do som. (i-Ché, import. Lojas Valentim de Carvalho, 7).

Inventor do jazz digital, em “Site Anubis”, Paul Schütze é um compositor de música electrónica que faz questão em se demarcar de qualquer escola, sendo, por esta razão, difícil de classificar. Aflorando o ambientalismo, a “Kosmische musik”, a música industrial, o jazz programático ou a simples abstracção sonora, sempre sob perspectivas originais e conceptualmente férteis (“Site Anubis” deu origem a todo um séquito de seguidores), Schütze tem vindo a construir uma obra importantíssima da qual “Apart”, com data de edição de 1995, é um dos seus exemplos mais belos. Trata-se de um CD duplo, dividido em dois universos musicais distintos. O primeiro disco flutua em peças etéreas onde o vibrafone adquire especial relevo (como se Stomu Yamashta tivesse aderido à música cósmica, o que chegou a suceder em “Floating Music”). Não existe, à maneira de Eno, qualquer linha narrativa, mas sim uma infinita suspensão, ora de vagas sonoras imensas (algo que Steve Roach sistematiza de firma admirável) ora de pontuações minimalistas (sinos e outras percussões sequenciadas). Um mundo absolutamente alienígena – com títulos sugestivos como “Rivers of Mercury”, “Visions of a Sand Drinker” ou “The ghosts of Animals” – correspondentes à foto da capa. O segundo CD apresenta uma longa composição, dividida em três partes, à qual o compositor chamou “Sleep”. 40 minutos de viagem através do lado escuro da mente, aquele de onde nascem todas as imagens. Uma falsa “drone” onde a aparente imobilidade é quebrada, quando menos se espera, por irrupções de ruído quase subliminares que obrigam a atenção a manter-se, ela sim, acordada. Uma peça de antologia, ao nível da totalidade de “On Land”, de Brian Eno, ou “The Flight” (do álbum “Syn”), provavelmente o melhor bocado de música alguma vez composto por Pete Namlook. (Virgin, import. Lojas Valentim de Carvalho, 8).