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Von Magnet – “Von Magnet Meets the Data Gypsies: Cosmogonia”

Pop Rock

11 de Outubro de 1995
Álbuns poprock

Von Magnet
Von Magnet Meets the Data Gypsies: Cosmogonia

HYPNO BEAT, DISTRI. SYMBIOSE


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Onze arcanos do baralho esotérico “tarot” são aqui transformados em signos sónicos por um naipe variado de intérpretes, denominados Data Gypsies, através de remistura e montagem de música originalmente composta pelos Magnet, praticantes de tecno industrial, adeptos da new rage (por oposição à new age) e membros da MACOS (“Musicians against Copyright of Samples”). Monótono em alguns casos, aqueles onde a vertente tecno e industrial se sobrepõe, ocasionalmente sublimada numa voz de características étnicas ou rituais, “Cosmogonia” surpreende pelo lado mais ambiental e experimentalista. Estão neste caso os temas a cargo de Victor Sol (um espanhol que com os Xjacks, na Fax, de Pete Namlook, subverte algumas regras básicas da editora), “El carro d’Hermes”, onde máquinas monstruosas se emancipam do controlo humano; de Ken Thomas, no ritualismo obscuro de “El anciano”; e de Lassigue Bendthaus, com “El maestro”, exercício extenso de industrialismo cibernético que deriva para a colagem naturalista ao estilo dos PJR, antes de se organizar na mecanicidade pura de um Asmus Tietchens. Relativamente “conhecidos” desta área, os Bourbonese Qualk ficam-se por uma base rítmica sequenciada e bastante dançável, enquanto os estranhos Calva & Nada optam pelo discurso hermético sobre a figura de “El diablo aker” e Ian Briton com Boyd recorrem sem grande originalidade às vozes filtradas por um “vocoder” saídas da auto-estrada dos Kraftwerk. As principais referências estéticas da maioria da legião tecno giram contudo em torno dos Einsturzende Neubauten, Test Dept ou la Fura dels Baus, este últimos mimados num manifesto contra o poder por Gus Ferguson com os ICU, no derradeiro arcano, “El Ciclo”. A embalagem contém reproduções miniatura das respectivas cartas. Satisfação garantida para os apreciadores deste género de barulhos. (6)



Von Magnet – Sexo: Opção Máquina

11.05.2001
Von Magnet – Sexo: Opção Máquina

LINK (El Sexo Sur-Realista Live)

Sexo surrealista? O manual foi apresentado pelos Von Magnet em 1988, num álbum intitulado precisamente “El Sexo Sur-realista”, considerado hoje um clássico do electro-flamenco. Não se vislumbram mais praticantes deste género que combina a sensualidade das danças do Sul da Andaluzia com a electricidade das máquinas. Os Von Magnet estão, neste aspecto, sós. Isolados na visão de um mundo conceptualizado pelo cérebro e animado por pulsões sexuais tão incrustadas na carne como deslocadas do seu sentido primordial.
Embora sejam associados aos “industriais” Young Gods, Test Dept, Cassandra Complex, In The Nursery ou Psychic TV, a forma como a sua música funde os elementos étnicos e rituais com a electrónica de pendor hipnótico estará mais próxima de uns Controlled Bleeding e, sobretudo, dos Delerium, extensão electrotribal minimalista da “electronic body music” dos Front Line Assembly.
A música dos Von Magnet traduz os paradoxos, as inquietações e as fobias do homem moderno. A carne e o espírito, as tradições étnicas e a sociedade da comunicação electrónica, transe e informação, suor e magnetismo, magia sexualis e matemática aplicada, rituais arcaicos e programações digitais dilaceram-se num novo tribalismo para o novo milénio neste colectivo formado em 1985 pelo catalão Phil Von, que já actuou em Portugal, num castelo de Montemor-O-Velho, durante o festival Citemor 92. Nove anos volvidos, por iniciativa da Alcateia Plásmica, para um espectáculo multimédia com projecção de vídeos e a presença em palco de Phil Von (dança, voz), Flore Magnet (voz, cenografia), Mimetic (percussão, electrónica), Sigmoon (instrumentos étnicos) e Nikho (misturas).
Indissociável da música, a perfomance que rodeia cada espectáculo dos Von Magnet permite traçar um paralelo com os La Fura Dels Baus. Como as “ratazanas dos esgotos” da Catalunha, os Von Magnet aliam à música, predominantemente electrónica, a dança, o teatro, o circo, a tecnologia e um elemento de pânico que torna cada espectáculo numa experiência inolvidável. Não são a mesma coisa, os discos e as apresentações ao vivo. “cuidado: não estão a experienciar os Von Magnet, mas somente a escutá-los!”, explicam no booklet de “El Sexo Sur-Realista”. Fica o aviso… A arte total – e cruel – que emanava deste álbum que materializava a simbiose do humano com a máquina estabeleceu para o grupo um estatuto de culto e uma aura de esoterismo.
Um ano depois, e após colaborações com os Greater Than One e Neil Starr (dos Test Dept), renovam a sua formação que passa a contar com 14 elementos, destacando-se Jerome Soudan (Mimetic) nas percussões e electrónica. Um novo álbum, “Computador”, aprofunda a temática favorita: a ligação da Natureza com a tecnologia, dirigida para a criação de um novo ser humano, mutante cibernético, o “corpo eléctrico” que Ray Bradbury profetizou, detentor de uma alma gentil, e os Human League esticaram em betão até às alturas nietzscheianas do seu “empire state human”.
“Flamenco Mutants”, de 1992, reforça a vertente telúrica e xamânica da música e “La Centrale Magnetique” recupera ao vivo alguns dos cenários apocalípticos dos discos anteriores. “El Grito” (1993) e “Cosmogonia” (1995) são explorações divergentes do organismo Von Magnet. O primeiro é um reflexo das apropriações étnicas, e não só (“estejam À vontade para nos samplar, nós já vos samplámos a vocês!” é uma das máximas do grupo…), a que desde sempre os Von Magnet recorreram; o segundo faz circular com redobrada intensidade a corrente eléctrica e a mensagem das máquinas, através de versões de bandas como os Lassigue Bendthaus (Atom Heart, numa das suas manifestações prévias) e Bourbonese Qualk: Seguem-se, em 1996, as edições de “Mezclador” e da colectânea “Nuevas Cruzes”.
Finalmente, no ano passado, surge “El Planeta”, álbum sobre a esquizofrenia planetária e a necessidade de novas vias de comunicação para o ser humano, com base no instinto. O som de um violino, réstea de humanismo a pairar sobre as ruínas, sobrevoa paisagens de um mundo auto-regulado em circuito-fechado pelas ondas do córtex. Música electrónica sombria, plasma de sonhos, erotismo da carne vazia. O sexo surrealista dos Von Magnet é, afinal, o do corpo com os órgãos fora do lugar (como os da capa do CD) e um programa de ilusão. Posto a correr eternamente em “repeat”.

Von Magnet (1ª Parte: ZZZZZZZZZZZZZZZZZZP!)
Lisboa | Caixa Económica Operária,
R. da Voz do Operário, à Graça.
Sexta, 11 Às 21h30
Tel. 218862836. Bilhetes a 2000$00