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Lua Extravagante / Vitorino – “O Lado Oculto Da Lua” (entrevista)

Pop-Rock Quarta-Feira, 18.09.1991


O LADO OCULTO DA LUA

Lua Extravagante é a designação bizarra do grupo formado pelos irmãos Vitorino, Janita e Carlos Salomé que, juntamente com a cantora Filipa Pais – “A mulher canta como os anjos”, diz Vitorino -, se propõe cantar o lado mais romântico e melancólico da alma portuguesa, sem descurar, porém, as fundações da terra por baixo da cidade. Histórias da “Nau Catrineta”, da Margarida do Monte “que foi amante do rei D. João V”, ou de um “Adeus à serra da Lapa”, em homenagem ao mestre José Afonso. Histórias da noite e de boémia. Do lado oculto da Lua. O disco sai a 22 de Outubro. O PÚBLICO falou com Vitorino, à procura de luz.



PÚBLICO – Há quanto tempo existe o projecto Lua Extravagante?
VITORINO – Há quase um ano. A Valentim de Carvalho viu o nosso projecto e propôs-nos gravar um disco. Nem sequer estava nos nossos horizontes gravar. O grupo tem um sentido associativo. O disco dá-lhe consistência, mas suponho que será o único que vamos gravar.
P. – Porquê, logo à partida, essa recusa em dar sequência discográfica ao projecto?
R. – Temos todos os nossos projectos pessoais, muito fortes. Gravar um disco e manter ao mesmo tempo o projecto do grupo torna-se muito obsessivo.
P. – Quais são então os seus futuros projectos a solo?
R. – Estou a preparar um álbum duplo, com textos (isto é uma informação inédita) do António Lobo Antunes e música minha. O disco vai ser lançado no final do próximo ano, na mesma altura que o seu novo romance. É uma espécie de “joint-venture” literatura-música, baseada numa colectânea de 19 textos escritos pelo António, alguns muito jocosos, sobre a realidade portuguesa.
P. – Que público pretende atingir a Lua Extravagante?
R. – Vamos procurar alargar o nosso público. Há neste disco uma linguagem que considero moderna, na interpretação e evocação do romantismo português. Temos uma tradição harmónica e melódica forte em Portugal, que nos anos 80 foi desprezada em benfício daquilo a que se chama o “rock português”, em que a prioridade foi dada ao ritmo. Gerlamente, os cantores dos grupos rock não são grandes cantores, são mais “performers”, com um tipo de intervenção mais expectacular, encostado às formas anglo-americanas de fazer espectáculo. Quanto a nós, vamos tentar chamar a atenção para uma tradição mais recuada, expressa no “cante”. Quando falo de romantismo, refiro-me ao romantismo literário e à música romântica, não ao sentido “kitsch” do termo. Esse eleogio do canto e da voz faz parte do romantismo português. Cantava-se muito bem em Portugal.
P. – Canto esse cujas raízes se encontram decerto no canto alentejano…
R. – A nossa aprendizagem fez-se a partir dele. No disco há quase sempre uma voz solista, apoiada pelas outras. A relação com o canto alentejano é sobretudo em termos técnicos e de imaginário. De resto já estamos arredados da música rural. Metade da nossa vida já foi passada nas cidades, afastando-nos culturalmente das nossas origens.
P. – Como explica o interesse crescente do auditor pelas músicas ditas tradicionais.
R. – A “world music”, não é? Acho que estivemos muito afastados do nosso imaginário durante 10 anos. Talvez o interesse que refere não passe de um fenómeno cíclico. Ou talvez haja um cansaço com a música anglo-americana que se ouve em Portugal, que é muito monótona. No meu caso, gosto muito da música negra das Américas, do Norte e do Sul. A grande matriz da música americana está nas músicas de origem negra. Não sei se não sofremos por cá um massacre da chamada ´música de supermercado ou de elevador… Esse massacre, perpetrado pelos “media”, é uma maneira de fazer opinião pública.
P. – Que influência teve o rock ou a pop na sua música?
R. – Gosto muito de rock ‘n’ rol. Passei a minha adolescência com o Elvis Presley, Bill Haley and the Comets… Formei-me com o sentido social que tinha o rock ‘n’ rol e que agora está completamente distorcido e aviltado. O rock ‘n’ rol era contestatário, os americanos chamavam-lhe “música de pretos”. Era um contrapoder. Aquilo a que se chama hoje rock não tem nada que ver com essa atitude. Hoje, em termos gerais, o rock é betinho, do lado do poder. Suponho que a vertente pop, sobretudo inglesa – sou um grande admirador dos Beatles, do seu lado melódico -, aparece, por exemplo, num tema que dediquei especialmente aos Beatles, “Flor de Jacarandá”. No nosso disco há uma canção que lembra um bocado os Mamas and Papas.



P. – Pela amostra musical, o projecto Lua Extravagante funciona como um negativo, ou contraponto, de grupos como os Sétima Legião ou Madredeus. Há um lado negro, de luto…
R. – Mas o interior português é um interior de luto. Tudo o que tem um balanço do coração é triste. Claro que há um ritmo que evoca um pouco esse balanço. É uma forma de cantar do Sul, mediterrânica e peninsular.
P. – No seu caso, prevalece a faceta revivalista, de romântico “fin de siècle”…
R. – Sim, há uma evocação desse ambiente. Foi um tempo muito importante para a humanidade, com o nascer de ideias novas, e depois eu tenho uma grande admiração pelos anarquistas, pela carbonária portuguesa, que deixou muitas ideias. As bandas formadas no fim do século passado, princípio deste, ou as recreativas culturais são um trabalho cultural dos anarco-sindicalistas. Era um tempo de grande felicidade.
P. – Fala em anarquismo, mas grava para uma multinacional. Parece que os ideais se tornaram apenas uma evocação nostálgica…
R. – Os ideais culturais permanecem. Estou a lembrar-me de uma recreativa cultural aqui na Madragoa, o Clube dos Vendedores de Jornais, fundado em 1921. Ainda existe como recreativa, na Rua das Trinas. São coisas que permanecem sempre.
P. – Resta então, ao artista, o papel de observador que está de fora?
R. – Vivo de fora porque a minha realidade passou a ser outra, uma realidade sinistra, a da guerra do Golfo. Realidade essa transmitida nalguma boa música moderna. O pós-modernismo gerou grandes confusões e equívocos. Em Tom Waits, por exemplo, há ainda a elegia de uma certa boémia… Mesmo que, a partir dos 40 anos, seja preciso um pouco de “desporto líquido”…
P. – Que pensa da viabilidade ou não de projectos como a UPAV?
R. – Conheço muito bem o José Mário Branco, já trabalhei com ele, mas tenho uma opinião contrária à dele em relação à divulgação da música. Temos de ter os pés bem assentes no chão. O capitalismo em Portugal é uma realidade, entrámos no Mercado Comum e as leis do mercado são implacáveis. Eu vendo discos e continuarei a gravá-los só enquanto eles venderem. Só assim é possível ter força em termos de opinião pública. É dentro deste mercado selvagem que temos de lutar, resguardando embora sempre a nossa “petite force”.
P. – Não o procupa que a integridade do artista seja prejudicada por essa necessidade de vender?
R. – Não é preciso abdicar dos nossos princípios para fazer produtos de boa qualidade. Mas chegar em boas condições às pessoas só se consegue através do “marketing” e este é implacável. No que nos diz respeito, a nossa imagem nem sequer é muito vendável.
P. – O negro faz parte da sua imagem, até na maneira como se veste…
R. – Vestido de negro, confundo-me mais com a sombra, com o escuro. Isto tem que ver com o Sul, com o interior português. Curiosamente, nas zonas onde há muito sol, há o culto do negro. No Sul da Itália, na Grécia…
P. – Negro somente iluminado pela luz da Lua. A Lua Extravagante cantará esse lado lunar, oceânico, da alma lusitana?
R. – A alma lusa, sim. A Lua, no imaginário popular, é mais importante que o Sol. Repare nos símbolos que punham nos bébés, para dar sorte: uma estrela, um corno, uma Lua e uma mão fechada. Há sempre a presença da Lua.
P. – Que extravagância da Lua é essa que referem?
R. – Há uma moda alentejana, “Chamaste-me extravagante”: “Cahamaste-me extravagante / por eu ter uma noitada / eu sou um rapaz brilhante / recolho de madrugada.” O termo “extravagante”, no Alentejo, refere-se a uma pessoa estranha ao quotidiano, com um convívio diferente do normal, ao homem que canta a noite.

Vitorino – “Anos 60-70, As Saudades” (Concerto)

POP ROCK

3 de Maio de 1995

Saudades ao estetoscópio


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Vitorino, depois de “Fados Meus”, de Paulo de Carvalho, e de “Só”, de Jorge Palma, será o próximo artista a apresentar-se na atmosfera especial e sem artifícios dos Concertos Íntimos, que estão a decorrer no auditório do antigo Cine-Teatro do Casino Estoril. Uma tentativa, para Vitorino, de recuperar o conceito de “temporada”, característico da “escola francesa, de ficar uns tempos num teatro”. “Anos 60-70, As Saudades” foi o título genérico escolhido pelo artista para designar a linha geral que orientará cerca de duas horas de canções ligadas à história e às memórias daquelas duas décadas. Uma ideia que parece ter sido criada de propósito para o autor de “Leitaria Garrett”, já que Vitorino é uma espécie de enciclopédia viva de uma época em que os actos se regiam por ideais e não por interesses, como hoje é norma acontecer. Lisboa, o Alentejo, a errância pela Europa, lutas e camaradagens várias, cruzam-se na vida e no imaginário de Vitorino como num caleidoscópio.
Em toda a discografia do cantor é visível esse interesse pela natureza íntima das coisas, pelas razões e pelas emoções irrisórias, mas que, não poucas vezes, mais do que os grandes manifestos de intenções, fazem mover as pessoas e evoluir os lugares. Sabe-se do conhecimento e do gosto de Vitorino pelos salões de dança, pelos passos que conduzem à paixão, pelas horas mortas em que tantas vezes uma vida se decide. Os boleros, os tangos – “um imaginário muito presente na música portuguesa, havendo mesmo grandes compositores em Portugal deste género musical, como o Cruz e Sousa, que compôs para o Tomás Alcaide” – as quermesses e os bailes de finalistas, os bairros e as suas tentações. Com tudo isto Vitorino se cruzou, a par do convívio, directo ou indirecto, com as músicas e as atitudes importadas do estrangeiro. Os ideais e a revolução, deixaram marcas na sua música. Vitorino canta a cidade e o campo, as vielas e os montes, as noites de sol e os dias de luto. Anarquista por vocação, fez-se cantor por devoção.
Por isso a sua voz soará talvez com maior força – decerto, mais próxima e com outras “As Mais Bonitas” para cantar – numa pequena sala do que debaixo dos holofotes gigantes e da antropofagia das massas. Uma celebração de nostalgia? Talvez, se considerarmos que a música não passa de uma sucessão de modas e de um corte sistemático com o passado. Porque, sob as luzes mais baixas do pequeno auditório do Casino, Vitorino vai cantar os extremos da música portuguesa, se Zeca Afonso a Tony de Matos. Mas também as canções estrangeiras dos anos 60 e 70, dos Beatles – “uma música já muito evoluída nos anos 70, em relação aos serões para trabalhadores que se fazia em Portugal, que eram de um conservadorismo e um hermetismo a toda a prova, existindo só por teimosia, uma teimosia beirã, a teimosia do Botas. Isso reflectia-se em toda a música portuguesa, que só começou a mudar com o Adriano e com o Zeca” – de Gianni Morandi, de Jacques Brel, entre tantos outros, “que influenciaram a juventude e a própria música portuguesa” destas duas décadas. Segundo “um olhar irónico e com algum humor”. Vitorino recorda ainda, pondo alguma pimenta nas palavras, essa época “em que havia cantores, hoje muito presentes, que diziam que a língua portuguesa não prestava para cantar”.
Com o cantor, recentemente chegado de alguns espectáculos de boa memória em Goa – “lá têm uma admiração cega pela cultura e língua portuguesas, e saudades de um tempo que, se calhar, era melhor” -, vão estra em palco, em mais este “concerto íntimo”, Janita Salomé, Filipa Pais, que cantará a Billie Holiday e a Ella Fitzgerald, “cantoras eternas, cujos ‘hits’ estiveram bastante presentes nos anos 60 e 70”, e André Cabaço, juntamente com o pianista Vasco Gil, também responsável pelos arranjos musicais, o baterista Rui Alves e o percussionista Quim N’Jojo.
Vitorino, visto à lupa e escutado ao estetoscópio.

VITORINO
“Anos 60-70, As Saudades”

Auditório do antigo Cine-teatro do Casino Estoril
4, 5, 6 e 7 de Maio



O Regresso Dos Clássicos – artigo

Pop Rock

5 JANEIRO 1994
O ANO EM MÚSICA POPROCK PORTUGUESA

O REGRESSO DOS CLÁSSICOS


1111

Em 1992 o ano passado passou a sê-lo menos, na música popular portuguesa. Obras fundamentais de décadas anteriores perderam a poeira, os riscos e a “patine”, para se apresentarem de cara lavada no formato digital. Os novos têm desde agora ao seu dispor compêndios onde podem dar de beber à inspiração. Claro que muito ficou por reeditar, mas o caminho parece estar traçado, sem hipótese de retorno.

Durante os primeiros seis meses foram reeditados em Portugal e em CD algumas obras fundamentais da música de Cabo Verde. Primeiro a rainha da morna, Cesária Évora, com “Destino de Belita”, o menos conseguido, “Mar Azul”, um dos discos mais belos de sempre da música lusófona, e “Miss Perfumado” que, só em França, já vendeu para cima de 50 mil exemplares. No mesmo mês chegou aos escaparates outro nome mítico da música das ilhas, António Vicente Lopes, ou Antoninho Travadinha, com “Travadinha – Le Violin du Cap Vert”.
Junho foi o mês da chegada de mais mornas, desta feita assinadas por B. Leza, na voz de Titina. Vitorino foi o primeiro português a merecer honras de reedição. “Leitaria Garrett”, o já clássico retrato de Lisboa do princípio do século, aí está de novo, liberto de ruídos e preconceitos. Já perto do final do ano, o cantor alentejano viria a reincidir, lançando uma colectânea que inclui as canções por si consideradas “as mais bonitas” da sua carreira. Enquanto isso o seu irmão Janita Salomé soltava o “cante” alentejano e outros ventos ainda mais a sul com “Melro”. Em Setembro Pedro Caldeira Cabral mostrou na guitarra portuguesa as suas fusões com a tradição e a música de câmara em “Pedro Caldeira Cabral” e “Duas Faces”. Em minidisc saíram entretanto “Fados de Coimbra”, Traz Outro Amigo Também” e “Cantigas do Maio”, de José Afonso.
Já em Dezembro chegou a vez das homenagens. Vicente da Câmara, José da Câmara e Nuno da Câmara Pereira evocaram os fados e a música de Maria Teresa de Noronha, falecida este ano, em “Tradição”. Homenagem a Maria Teresa de Noronha”. Na calha estão o disco de homenagem a José Afonso, que levará a assinatura da maior parte dos nomes mais conhecidos da nossa cena musical, e outro em que o homenageado será António Variações, com edição prevista já para este mês.
Quem não esperou pelo novo ano foram os Castro e Barius que em “Tributo” “assassinam” a música de José Afonso, Fausto e Vitorino. José Afonso que, se fosse vivo, teria gostado de ver as reedições em compacto que se fizeram de “Galinhas do Mato” e “Zeca Afonso no Coliseu”.
Com a “Pedra Filosofal” voltou a obra de Manuel Freire. Por cumprir fica a promessa de reedição em caixa da obra completa de Adriano Correia de Oliveira. Outras duas caixas de triplos CD’s, entretanto já lançadas, são: uma de declamação de poesia pelo grande João Villaret, outra com “O Melhor” da fadista castiça Hermínia Silva.
“Cavaquinho”, de Júlio Pereira, encetou entretanto a reedição dos primeiros trabalhos deste artista, na mesma altura em que a Banda do Casaco começava pelo fim, lançando as edições em compacto de “No Jardim da Celeste”, “Também Eu” e “Banda do Casaco com Ti Chitas”, deixando para a próxima os quatro álbuns que faltam. A canção ligeira do final dos anos 60 foi recordada através de “Os Primeiros Êxitos” de Carlos Mendes e Fernando Tordo, os mesmos de Falas Tu ou Falo Eu.
Finalmente, num ano que assistiu ao renascimento do rei do twist Vítor Mendes, não causou surpresa o reaparecimento e recuperação de bandas ié-ié dos 60 como os Sheiks e o Conjunto João Paulo. E porque não começar o novo ano a ouvir “A lenda de el-rei D. Sebastião” e “Balada para D. Inês”, duas canções que puseram o comboio em andamento, incluídas na colectânea “A lenda do Quarteto 1111”?

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