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No Noise Reduction – “The Complete No Noise Reduction” + Vítor Rua E Os Ressoadores – “Scratch”

Pop Rock

21 de Junho de 1995
álbuns poprock

AVARIAS

NO NOISE REDUCTION
The Complete No Noise Reduction (8)
Moneyland, distri. Música Alternativa


nnr

VITOR RUA E OS RESSOADORES
Scratch (7)
Ed. e distri. Ananana


vr

Dois conceitos alternativos para a música portuguesa. Os No Noise Reduction, de Rafael Toral e Paulo Feliciano, partem da compreensão do ruído, qualquer ruído, como célula ou tecido musical, transformado em música através de processo que podem passar pela simples recontextualização das fontes sonoras, como um leitor de CD ou vinilo riscado (ex: o som de um aspirador deixa de ser simplesmente o som de um aspirador se for colocado numa situação conceptual deslocada da sua esfera natural), ou por formas de tratamento sonoro efectuadas “a posteriori” (filtragens electrónicas, samplagens, “cut-up”). Deste tipo de operações resultaram 46 segmentos sónicos que podem ser encarados como uma espécie de “ready-mades” (objectos reinventados ou despojados das suas funções originais, apresentados como obras de arte) musicais que tanto podem incluir o processamento de fontes musicais simples, como a voz ou uma guitarra eléctrica, como agruparem-se em construções/montagens complexas e de sintaxe mais elaborada, em peças como “Stewart mix”. “Everyone else’s universe” ou “The Incredible Marvin”, que poderemos designar de canções, numa estética bastante próxima dos Negativland. Um acto de risco que começou por ser assumido há alguns anos, com a participação na colectânea “Em Tempo Real” (cujas canções estão aqui todas incluídas), e agora se desenrola na sua máxima extensão. De forma coerente e – algo que vai faltando ao meio – criativa.
O risco está de igual modo presente no compacto de Vítor Rua com os Ressoadores. Neste caso sobrelevam os conceitos de manipulação e aleatoriedade. O instrumentista dos Telectu preparou previamente instrumentos e situações musicais que depois colocou na mão dos seus “discípulos”, criando deste modo acções de interactividade entre uma base pré-programada e a “execução” – de níveis técnicos bastante díspares – em tempo real dos vários participantes, tornados extensões de Rua, ao mesmo tempo manipuláveis mas apesar de tudo com uma margem de liberdade descoberta no próprio instante do contacto. Sequências repetitivas, pequenas gravuras ambientais, cacofonias sem lógica perceptível e explorações tímbricas várias, sobretudo da guitarra, alinham-se num discurso cuja unidade advém dessa espécie de caos organizado que o anima.





Vítor Rua – Artigo de Opinião

POP ROCK

29 de Março de 1995

VERSIFERO REZENTAL E OS RECHINOS*


vr

O humor e as estratégias do acaso desempenham papéis importantes no mais recente projecto musical de Vítor Rua, os Ressoadores, dos quais acabou de ser lançado, com selo Ananana, o CD “Scratch”. Os Ressoadores são alunos de um seminário de guitarra, leccionado pelo músico dos Telectu, que no ano passado deu origem a um espectáculo ao vivo. “Desta vez, além das quinze pessoas que participaram no seminário, reuni os convidados Paulo Eno, António Duarte e Fernando Guiomar”, diz Rua, referindo-se à gravação, objectivo principal desta segunda fase do projecto.
Pouco vulgar é o mínimo que se poderá dizer dos métodos utilizados para a feitura de “Scratch”, cuja direcção estética é da inteira responsabilidade de Rua. Os títulos, por exemplo, foram escolhidos por Jorge Lima Barreto, que retirou ao acaso de um dicionário palavras com iniciais iguais às dos nomes dos vários participantes. Assim, o tema tocado por José Guilherme chama-se “Júpiter genitor” e o de Nuno Silva, “Nebelina sociauxia”. Encontram-se ainda “Facial galiambo”, “Pingo apotrópio”, “Goliardo favila” e “Oxítono hoje muvuga”, entre outras designações bizarras. “Não foi por pretensiosismo”, garante Vítor Rua, a rir.
Além dos títulos, também o próprio corpo musical surgiu a partir de procedimentos do mesmo estilo. Um dos casos mais “radicais”, segundo o guitarrista, é o tema “Geada flavo”, interpretado por Gonçalo Freitas. Dada a ausência forçada de um dos participantes – necessariamente dezoito,- um para cada faixa -, foi preciso arranjar um substituto. Vítor Rua conta que telefonou para Gonçalo Falcão, guitarrista e produtor executivo do projecto, que trabalha numa empresa de “design gráfico”, dizendo-lhe que “tinha um problema”. “Meio a sério, meio a brincar, perguntei-lhe se não haveria alguém no escritório interessado em participar. Ele levantou o telefone e gritou para trás: ‘Alguém quer entrar num disco?’ Ouviu-se uma voz ao fundo a dizer ‘sim!’. Perguntei o que é que tocava. ‘Assobios!’, respondeu a voz, ainda a pensar que era brincadeira. Assobios? Óptimo! Disse para aparecer no dia seguinte às dez da manhã para fazer a gravação!” E assim foi, com o anónimo executante a ser creditado em “Scratch” com uma “whistle guitar”… “É um dos temas que mais gosto”, concluiu Vítor Rua.
Todos estes episódios constituem, pela atitude, uma forma original de Vítor Rua manifestar a sua discordância de um certo pretensiosismo que, segundo ele, afecta o meio artístico nacional: “Há uns tempos, podia dizer-se que havia grupos de rock português maus e bons. No caso da música improvisada, ou das novas músicas, eram tão poucas as pessoas a fazerem-na – o Zíngaro, Telectu, Miso Ensemble… – que não fazia sequer sentido fazer comparações valorativas. De repente, hoje, qualquer pessoa, sobretudo se tiver um pai rico, grava um disco e, como não tem jeito, vai para a música improvisada. Como não consegue fazer três acordes, já não dá para ir para o rock. Então põe uns paus entre a guitarra, compra três discos do Derek Bailey e está a gravar, com uma teoria qualquer na capa do disco, do tipo a dizer ‘polirritmia’ ou expressões como ‘work in progress’ ou ‘politonalidade’…” Vítor Rua fez questão que “Scratch” não tivesse qualquer texto explicativo, fazendo acompanhar essa ausência de informação com uma estrutura musical onde coabitam os ressoadores, desde principiantes a professores de guitarra. “Quase como se as pessoas, nem todas, fossem um instrumento em si, que eu estivesse a tocar”, diz Rua, assumindo por inteiro a sua condição de manipulador. “A ideia foi criar para cada pessoa, ou cada situação, um eco-sistema metodológico de maneira que pouco importava o que cada um iria fazer. À partida estava tudo pré-determinado.”

* título inventado segundo a mesma lógica de “Scratch”, com as mesmas iniciais de “Vítor Rua e os Ressoadores”.


Vidya Ensemble – Stress/Relax

11.12.1996
Vidya Ensemble
Stress/Relax
ED. FAROL

vydiaensemble_stress

O minimalismo é factor de “stress”? A repetição provoca o acidente? A ruptura pode transformar-se em lei? Para Vítor Rua, a prática musical funciona mais como manual de interrogações do que como acta de trabalho. O guitarrista dos Telectu, como já acontecera no seu disco com os “ressoadores”, volta a defrontar-se com os limites da “perfomance” e da memória musical. Mas se, com os seus alunos, era o conceito de aleatoriedade e improvisação que funcionava como regra do jogo, em “Stress/Relax” é a exploração da noção de “ensemble” e a composição escrita que se questionam na forma de uma “música de intrenção” ou “daquilo que é a propósito de qualquer coisa”. O conceito é familiar, sugerindo as estratégias dde clonagem e o mimetismo propostos em fase recente dos Telectu. Significa isto que “Stress/Relax” deva ser ouvido com a municiação de um “a priori” musical impeditivo de toda e qualquer “inocência” do acto criativo? O conceito também não é novo e está no cerne de toda a atitude do pós-modernismo, assim se compreendendo, de resto, que Rua defina “Stress/Relax” como “propedêutica estética e caleidoscópica sobre o situacionismo musical pós-moderno, proposição de um novo msubjectivismo musical”. Ouvir um trecho musical será então, hoje, ouvir sempre um outro, essa tal “outra coisa” entretanto levado ao esgotamento pelo excesso das escolas e dos géneros musicais deste século. O “novo” passou a existir, deste modo, na forma subjectiva de reorganização de memórias e acumulações culturais da parte do ouvinte. Assim se compreende, ainda, a profusão e inutilidade das palavras que embalam este compacto. Do esgotamento de significados surgirá uma nova disponibilidade de audição? As faixas de “Stress/Relax” podem arrumar-se confortavelmente em géneros, do minimalismo reichiano do tema inicial, “Stress”, ao ambientalismo “enoiano” de “Tracet”. São o mesmo e o outro, da mesma maneira que, no conto de Borges, o “Quixote” de Pierre Ménard era igual e diferente do “Quixote” de Cervantes. Aprende-se, então, a reescutar o gesto primordial proposto por “Stress/Relax”, afinal contido no próprio título – um jogo de tensões onde a criatividade se joga na estruturação, pura e simples, do tempo e da multiplicidade dos seus tempos interiores. Era esse o sentido primordial do minimalismo. Uma faixa emblemática? Experimente-se ouvir “Cream Dream” para se perceber que o infinito dos sons nasce dentro da nossa cabeça. (8)