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Violent Femmes – “Why Do Birds Sing?”

Pop Rock

 

19 JUNHO 1991

 

JOGOS PROIBIDOS

 

VIOLENT FEMMES

Why do Birds Sing?

LP/CD, Slash, distri. Polygram

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A América tem essa estranha capacidade para se autoparodiar. Como se tudo se reduzisse a uma imensa feira consumista e Deus, o Presidente, Marilyn, cowboys, a Coca-Cola ou a “fast food” fossem uma espécie de mitos comerciais despejando eternamente no mercado produtos para usar e deitar fora. Para o americano médio, não há coisas mais importantes que outras. Cada uma será importante apenas à medida das necessidades imediatas do seu utilizador. A religião não escapa à regra. Há religiões para todos os gostos, publicitadas preferencialmente via televisão. Os Violent Femmes são os representantes típicos desta atitude, para muitos leviana, mas para eles perfeitamente natural. A Gordon Gano, vocalista de voz esganiçada, não faz impressão tocar guitarra ao domingo, durante a missa, numa qualquer igreja americana (não diz qual, já que o segredo é a alma do negócio) e, nos discos, berrar imprecações ou descrever minuciosamente perversões várias, desvios sexuais e violência gratuita. A sua filosofia consiste em levar a vida a brincar, mesmo quando os assuntos são sérios. “A vida tende para o cómico” – diz ele –, “o que não impede que a levemos a sério.” De facto, nada impede. Os discos dos Violent Femmes (incluindo este último) são até, neste aspecto, extremamente divertidos. Se só o estilo vocal de Gano faz rir, quanto mais palavras tão divertidas como “o passeio rebentou-lhe a cabeça, quando ela se atirou pela janela de um altura de 30 andares e atingiu o cimento sólido do chão” (em “Out the window”). Coisas da vida. Ridículas, triviais. Não por acaso, Gano considera “Why do Birds Sing” o álbum mais leve e engraçado da banda. Todos lhe perdoam as brincadeiras. Até o padre da igreja de que é membro efectivo assegura que jamais o expulsará. Mesmo as ovelhas negras têm direito a pertencer ao rebanho.

Para além dos “gospels” perversos espalhados um pouco por todo o álbum (“Girl trouble”, cuja introdução ostensivamente evangélica precede uma invocação a James Brown ou “He likes me”, em que Jesus ensina “a amar os inimigos”), Gordon Gano deu recentemente livre curso às suas tendências religiosas no seio da banda “gospel” Mercy Seat (onde afirma ter aprendido “imenso”). Hoje toca regularmente guitarra numa igrejinha, ao lado de um padre organista de 75 anos e de um rapazinho baterista, de 12. A explicação para tanta virtude é simples: para Gordon Gano, a “principal motivação está no conteúdo espiritual das letras”, para muitos uma mera cumulação de “clichés”, mas para ele “símbolos das experiências mais positivas da vida”.

Os outros músicos, Brian Ritchie (foi-lhe concedido tempo para gravar dois álbuns a solo – “The Blend” e o recente “I See a Noise”), Michael Beinhorn (companheiro habitual de Bill Laswell, nas suas aventuras fusionistas, fez parte dos Material e Golden Palominos) e Victor de Lorenzo fazem o possível por conter o rido enquanto se divertem à grande. Ritchie no baixo, Beinhorn armado em sacristão, no órgão Hammond, ambos compenetrados, a acompanhar respectivamente os delírios “country” da guitarra acústica e os discursos inflamados de Gano.

Quanto a este, completamente tresloucado, na guitarra (qual Eugene Chadbourne em versão protestante) e nas vocalizações (a abertura, “American music”, soa como uma mescla de Lou Reed, Don MacLean – o tema é, de certa forma, uma “pastiche” ao hino americano “American Pie” – e Jonathan Richman; em “Hey nonny nonny”, a voz rivaliza, no exagero nasal, com Michael Stipe, dos REM), lá vai, cinicamente ou não, convertendo uns quantos nababos ao seu credo abastardado. Mesmo quando ele próprio dá tudo por tudo para parecer sério, na versão muito especial do queixume Culture Club de “Do you really want to hurt me?”. Com os Violent Femmes, é preciso acrescentar “religion” à tríade “sex, drugs & rock’n’roll”. ***

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