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Venâncio Castro – Entrevista

Pop Rock

2 de Novembro de 1994
EM PÚBLICO

VENÂNCIO CASTRO *


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Foi um dos fundadores do grupo António Mafra, já lá vão 40 anos…
Tinha nessa altura 16 anos. Embora todos no grupo sejamos amigos de infância, tivemos direcções de vida diferentes. Foi essa amizade que nos uniu. No meu caso, costumo dizer que vim de Marte.

Pode repetir?
Como dizem que as pessoas são postas na Terra pelos extraterrestres… Esta ideia veio por eu não estar de acordo com os homens da Terra. Isso confunde muitas pessoas, e até alguns ouvintes. Quando digo isto, é porque não estou satisfeito com o que o homem faz na Terra. Digo que sou de Marte porque me coloco à parte dos homens, embora vivendo com eles e não estando de acordo com a sociedade actual. Esta é tão má, tão má, mesmo em Portugal há tanta máfia, mesmo na música, e nas políticas, nos futebóis, nas telenovelas… É tudo preparado para pôr as mentalidades das pessoas cá na Terra.
Se andarmos uns anos para trás e falarmos no Salazar e na ditadura, vemos que hoje estamos precisamente na mesma. Só há diferenças políticas. E mais estradas, mais prédios, mas tudo isto apenas para enganar o homem. Se fosse extraterrestre, até porque é uma coisa em que acredito – tenho algumas provas disso, visuais, testemunhas, mas não só, leio há muitos anos revistas sobre a vida nos outros planetas –, definia tudo numa palavra: acho estranho que nós, na Terra, este bocadinho em relação a toda uma galáxia que o homem conhece perfeitamente, façamos tanta asneira.
Em relação aos extraterrestres, eu vi, com a minha família, no Algarve, passar determinadas coisas que não eram focos de luz, nem helicópteros, nem meteoritos. Nem sequer estávamos alcoolizados, nada disso. Vimos, eu, a minha mulher e alguns vizinhos, três bolas grandes perto de nós, por volta das quatro da manhã. O tal homem continua a enganar. Por causa, neste caso, das religiões, porque o Nosso Senhor está lá em cima e, daqui para cima, não pode haver mais nada.

Como articula essas posições com a vivência no grupo?
Respeito as pessoas todas, e muito mais as que pertencem ao grupo. Mas logicamente, como faço parte dele há muito tempo, estou em desacordo na maior parte das coisas que lá se fazem. Isso chama-se “marketing”. Mas há coisas que se estão a modificar, e posso dizer que fui eu, e só eu, a pessoa que lutou por isso durante anos. Gravámos um novo disco há seis meses, “Não Pára”, e nestes seis meses o grupo modificou-se mais do que em 35 anos de existência. Tudo da minha responsabilidade, no aspecto de concretização de ideias. O tal “marketing”.

Mas não se dará o caso de as pessoas gostarem do Conjunto de António Mafra precisamente por este nunca se modificar?
Acho que não. Falamos em voltar outra vez ao princípio. Lá está o eu não estar de acordo com o homem e falar nos extraterrestres – a minha defesa. Eu ataco os homens, mas como não os posso atacar porque eles são muito mais fortes do que eu, mentalmente, e até na prática, eu, e as pessoas que estão mais ligadas a mim, a família e alguns amigos, em particular os cinco do grupo, de vem em quando entramos em luta, para o aperfeiçoamento daquilo. A minha mentalidade não está de modo algum de acordo com a deles. Musicalmente, não gosto da música do Conjunto António Mafra.

Sendo assim, como é que está há tantos anos no grupo?
Primeiro, porque não me ocupou tempo. Há as tais diferenças entre mim e os restantes elementos. Andámos juntos desde a infância, da primária até à quarta-classe. Depois fui-me embora. Passeei. Eles continuaram juntos. Neste momento tenho dez passaportes cheios. Conheço o mundo inteiro e qualquer um deles, do conjunto, não passou de Vigo. Eu conheci novas culturas, muita gente, gastei muitos milhares de contos, eles passaram de Vigo por acaso, porque fomos com o conjunto aos Estados Unidos e a França. Quando digo que não gosto da música do grupo, é porque gosto muito doutra. Viajo todos os anos ao festival de jazz de Haia, em Amesterdão, porque se reúnem oitocentos ou novecentos músicos do melhor que há no mundo inteiro. De jazz e, principalmente, de blues.

Como gostaria então que fosse a música do grupo?
Assim como é! Se tivesse que mudar, ia tocar até com o Quim Barreiros, embora comercialmente não goste da música dele. Já disse que acho a sua música porca e que ele é badalhoco, ou algo parecido. Por a Maria ir cheiras o bacalhau lá dentro e outro tipo de coisas que não interessa estar agora aqui a referir. O poema dessa música é feita pelo Quim Barreiros com uma intenção, e só é possível porque a cultura musical do nosso povo é pobre. Porque senão ele não existia.
A mudança do grupo, com os mesmos músicos que estão lá, não é possível de forma nenhuma. Porque nenhum deles toca outros instrumentos para fazer um tipo de música, por exemplo, como o do Pedro Abrunhosa e os Bandemónio. Alguém que já conheço há muitos anos e com quem me dou muito bem, que lutou mas que sempre tocou música de jazz e de repente pegou numa cassete e foi para Lisboa, onde houve alguém que disse: “Eh pá, vamos experimentar esta porcaria!” Hoje é o que se sabe. Está em primeiro lugar no top, recebeu dois discos de platina e anda agora com uma barraca insuflável. E tem um “manager” fabuloso, que faz “marketing”. Se o Pedro precisasse de percussão – eu toco bombo e bateria no conjunto –, eu ia imediatamente para lá tocar bateria. Abandonava logo o Conjunto de António Mafra. Não abandonava a amizade, abandonava o conjunto. Porque é que não o fiz durante estes 40 anos? Porque sou sensível, embora seja Leão e arranque para tudo com muita força.

Quer dizer que o grupo precisa mesmo de si ou que sem si acabava?
Já disse e volto a repetir: 50 por cento do Conjunto António Mafra sou eu. Se ele é brejeiro (“cachopa se queres ser bonita, arrebita, arrebita, arrebita”, isto é brejeiro), embora sem ter palavrões – o português é mais para aquela senhora da televisão que agora está em Sintra, a Edite Estrela –, a mim o deve. Como já disse, continuo no grupo pela amizade que me liga sobretudo aos seus elementos mais velhos.

Mas essa amizade decerto não acabava se saísse do grupo?
Não, mas… Já agora, tenho que dizer: estive para sair do grupo precisamente há seis ou sete meses. Não o fiz porque o grupo nunca prendeu a minha vida. Houve espectáculos aos quais não fui porque não troquei a minha vida – as tais idas para o estrangeiro, as férias com a mulher – pelo grupo. Os meus colegas nunca fizeram férias nem foram para lado nenhum, por causa dos espectáculos. Tínhamos litígios por causa disso. Mas se eu não fosse, como toco bombo, ou ferrinhos, não tinha tanta importância como aconteceria se faltasse o Manuel Barros, o vocalista, ou o Campanhã, neste caso o falecido António Mafra. Embora eu seja o mais alegre em palco. Como fiz e adoro teatro… por exemplo, nas “Tocatas de Fafe do Morgado”, vou para cima do palco e danço, pincho, meto a maçaneta debaixo das pernas quando digo que arrebita.

A sua alma?
Isso, exactamente. Julgo que a alma de um corpo… Aí é que a gente não chega, o que é uma chatice. Mas julgo que a alma é mais do que 50 por cento. O resto é isto que se vai desfazendo e, quando for para debaixo da terra, desaparece. Em cima de um palco, ou a fazer qualquer outra coisa, se não houver alma, perde-se um bocado.

Deduz-se das suas palavras que é um místico?
Se não me ligar durante um segundo ao grupo, sou realmente místico. Tenho tido um tipo de vida bastante místico. Ao percorrer o mundo, vi que a África e, sobretudo, a Índia são muito místicas. A gente fica a olhar para aquilo e não são as cobras-capelo, nem aquelas coisas que nos atiram a pedir dinheiro – isso é a religião, a política e a pobreza – que impressionam, mas qualquer coisa no ar a que eu chamo misticismo.

O que se passa com a sua casa de espectáculos?
Chama-se “Taberna 2000”. Tem vinte anos e actualmente foi mandada fechar pelo senhor governador civil, porque houve uns senhores de cima que disseram que fazia barulho. Quando se provou que isso era mentira, foi preciso meter o caso em tribunal. Uma grande parte dos músicos e políticos do país passaram nesta casa durante vinte anos. É uma casa com características especiais, com a tal paz, talvez a tal mística, e ao fim de vinte anos apareceram dois senhores que não me conhece de lado nenhum e que, por qualquer interesse pessoal, mandaram dizer ao senhor governador civil que eu faia muito barulho. Vinte anos depois é que comecei a fazer barulho… Agora tenho que tirar atestado de pobre, queixar-me ao ministro da Administração Interna… É só isto que ando a fazer. Meter outra vez papéis no Governo Civil a pedir para abrir a porta. Está a ver como tenho que ser místico! [Risos] Senão, punha uma bomba e isto levantava voo!

* percussionista do Conjunto de António Mafra

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