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Vários – “The Disney Collection – Favourite Songs From Disney”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 09.12.1992

INFANTIS


VÁRIOS
The Disney Collection
– Favourite Songs From Disney
3xCD, Pickwick, distri. Megamúsica



Se há filmes em que as fantasias das crianças se confundem com os sonhos dos adultos, eles foram quase todos assinados por Walt Disnet – e, depois da sua morte, pela equipa produtora – em cerca das três dezenas de longas-metragens, das quais se destacam as obras-primas do cinema de animação que são “Pinóquio”, “Bambi”, “Dumbo”, “Peter Pan”, “A Bela Adormecida”, “A Gata Borralheira”, “Branca de Neve”, “A Espada era a Lei” e tantas outras que, ainda hoje, levam à sala escura pais e filhos irmanados no mesmo desejo de evasão. À deriva no fundo do “faz de conta” em que tudo é possível, povoado de príncipes e princesas, bruxas e dragões, bonecos falantes e piratas e fadas que habitam na “terra do nunca”. Muito do fascínio destes filmes vive da música, complemento indispensável para que a magia funcione a cem por cento. Por cá, estamos habituados às dobragens em “brasileiro”, que se por um lado facilitam aos mais novos a compreensão das palavras, por outro traem a força e o encanto das composições originais. Esta colecção de três volumes em formato compacto (podem ser comprados separadamente), que inclui excertos de canções compostas durante um período que vai de 1933 (“Os Três Porquinhos”) a 1989 (“A Pequena Sereia”) e abarca praticamente todos os principais filmes de Disney (além dos citados podem referir-se ainda “O Livro da Selva”, “Mary Poppins”, “O Clube do Rato Mickey”, “A Dama e o Vagabundo”, “Os 101 Dalamatas” e “Os Aristogatos”), sofre dessa virtude e desse defeito. Ou seja, os mais novos não deverão compreender as letras cantadas em inglês, enquanto os mais velhos vão rejubilar com a autenticidade do registo. Uns e outros vão poder associar as canções aos respectivos argumentos, através, por exemplo, da justaposição com os vídeos da série “Clássicos Disney” já disponíveis no mercado. A qualidade sonora varia obviamente entre as gravações mais recentes e as antiguidades arqueológicas. Da ficha de compositores, destaque para as parcerias R. M. Sherman / R. B. Sherman, David-Hoffman/Livingston, Morey/Churchill, responsáveis pelos melhores e mais clássicos momentos desta súmula musical. Do lote de intérpretes, na maioria esquecidos e tragados pela voragem do tempo, salientam-se os nomes de Julie Andrews e Dick Van Dyke, actores/cantores de “Mary Poppins”, e de Peggy Lee, que fez as vocalizações de “A Dama e o Vagabundo”.
“The Disney Collection” afasta-se das vulgaridades que nesta quadra se impingem à miudagem, assumindo-se como um verdadeiro exemplar de colecção. Um mundo de imagens contidas num mundo de sons. Como seria de esperar, não são contempladas as peças clássicas de “Fantasia”, um universo à parte na “Disneylândia” da nossa imaginação. (8)

Vários – “Noches Gitanas En Lebrija”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 10.06.1992


AO REDOR DAS CHAMAS

VÁRIOS
Noches Gitanas En Lebrija
4xCD, EPM, distri. Dargil


Os vários em questão são na realidade um agregado familiar à volta do guitarrista Pedro Bacan, que convocou para estas noites de flamenco o pai, Bastian Bacan, a tia-avó, Luisa Pena, a irmã Ines Bacan e um punhado de primos, Pepa de Benito, Manuel de la Costa, Diego El Daito, Concha del Lagana, La Morena, La Perrenga e Diego Vargas. Os nomes não serão conhecidos da maioria. É a família dos Bacan como poderia ser a dos Silvas. Mas que ninguém se iluda: a verdade da música flamenca está toda aqui. Na guitarra e, sobretudo, no canto que vibra, vive e sangra naquilo que o flamenco tem de mais profundo e genuíno. Noites ciganas, entre o fogo e as estrelas, registadas ao vivo em quatro volumes correspondentes a outros tantos títulos temáticos: “Fiesta”, “Luna”, “Solera e “Al Alba”. Quanto ao aglutinador do projecto, Pedro Bacan, foi-lhe atribuída pela Fundação Machado o prémio para o melhor espectáculo apresentado na Bienal de Flamenco de Sevilha, em 1990: “Nuestra Historia al Sul”.
Da “Fiesta” à volta da fogueira até à primeira luz da madrugada, é toda a história de um povo que se desenrola no espaço de uma noite mítica e por todos os cambiantes que pode assumir a alma cigana enquanto caminha. Nesse caminhar que é a sua própria essência. A noite é então o espaço, físico e poético, onde cabem, paredes meias, a celebração e o sofrimento, ao mesmo tempo que uma metáfora sobre a condição existencial de uma raça em busca de um centro.
Nos quatro álbuns é a voz que conta a história. Vozes masculinas, de luta, sol, vinho e suor, e vozes femininas, de lua, sangue, terra e pranto. Há um mistério neste canto e nestas vozes que se soltam para o negrume do céu, envoltas pelas chamas. Há quem diga que esta música se situa para além de toda a estética e que se confunde com a própria vida. Silverio Franconetti, estudioso da cultura do “povo descendente do faraó” e considerado o primeiro divulgador da sua música no exterior, julgou encontrar o segredo dos ciganos cantores, ou “flamencos”, numa sílaba que em si condensa e concentra a existência e o mundo “ay” – a chave de dentro e de fora, do sentimento e das formas de que se revestem as típicas vocalizações ciganas, feitas de espasmos, suspiros, gritos, cortes, modulações e ornamentações, que se diriam arrancadas à própria carne, movimento perpétuo, a um tempo infinito e fugaz, como uma chama – fogo e chamada.
No ciclo destas noites de Lebrija, encontram-se ainda outras chaves que dão acesso ao interior do continente (ou será ilha?) cigano. A principal abre o portão da comunicabilidade, do contacto directo entre os entes, sejam eles divinos ou humanos, e aqui reside mais um ponto essencial. O canto “flamenco” exprime uma ligação real e por isso se pode considerar sagrado. Ligação entre os vários elementos da família, entre os apaixonados, entre o homem e a terra, o homem e o céu, o homem, a sua alegria e a sua dor. Enquanto canta, o cigano transforma-se, concentra-se, encontra o seu lugar no universo. E perde-se, porque se abre, se deixa percorrer pelas correntes que através de si fluem, telúricas e celestes. Um cigano é como uma árvore a que só o canto permite criar raízes. Um cigano é a personificação do destino. Inevitável e incerto. Uma dança sem fim. Bulerias, fandangos, siguiryas, soleás… Mas atenção: para fruirmos a noite e aluz ciganas é preciso que também nós saibamos acender a fogueira. Porque a luz da Lua enlouquece. (9)

Vários – “Coal Heart Forever”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 10.06.1992


VÁRIOS
Coal Heart Forever
CD, Sub Rosa, distri. Contraverso



Uma das características interessantes do fenómeno musical neste final de milénio é a deslocação do próprio conceito de “música”. Sem ser preciso recuar até ao canto sacro da Idade Média e a uma função específica da música enquanto elo, enquanto “ser” e “via de acesso”, pode analisar-se, pelo menos, o progressivo esvaziamento da noção romântica de “obra”, como um todo musical orgânico produzido e autorizado por um indivíduo que, diferentemente da tradição medieval (e até certo ponto renascentista), em que o divino se sobrepunha ao humano e este se “limitava” a ser o veículo transmissor de forças que o transcendiam, se contrapunha e lutava contra quem se opusesse ao movimento centrípeto da sua paixão. A esta noção de “obra” veio sobrepor-se a de “matéria sonora” e, como consequência, também a alteração da “ordem” convencional. O som deixou de ser “composto”, segundo a acepção clássica do termo, para ser “recolhido” e “organizado”. As técnicas de “samplagem” contribuíram, por seu lado, para o esbatimento do estatuto de “autor”. Tudo passou a ser música, “material” susceptível de ser manipulado e transformado, o que acarretou outro dano maior, o da abolição da história, enquanto movimento no tempo. “Coal Heart Forever”, à semelhança de parte de um anterior projecto da mesma editora, da série Myths, é exemplar de tudo o que acima foi dito. Aqui não há autores mas apenas sons e “pilhagens” feitas a diferentes arquivos sonoros pertencentes a diferentes espaços geográficos e temporais, se é que estas palavras ainda fazem algum sentido: cerimónias religiosas recolhidas no Tibete (entre 1963 e 1972), Turquia (1973) e Bélgica (1989), num dos temas, fragmentos de diálogos de uma série de vídeos experimentais, noutro, e finalmente uma “aural subjective vision” de um ritual religiosos tibetano, à semelhança do primeiro tema, gravado “in loco” por John Scividya.
Neste caso, a “subjectividade” reside em que as gravações originais são praticamente inaudíveis, substituídas por um zumbido contínuo e, no final, por uma conversa de teor hermético-aleatório. Interessante, sobretudo para os cegos que gostam de cinema e para os interessados em cursos de habilitação a Dalai Lama por correspondência. (6)