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V Império – Entrevista – “Folhas Do Compêndio Da História De Portugal”

Pop Rock

30 Abril 1997

V Império começa em Maio

FOLHAS DO COMPÊNDIO DA HISTÓRIA DE PORTUGAL

V Império é um novo grupo que quer agitar as ondas da música portuguesa. No seu álbum de estreia, “Mar de Folhas”, com data de lançamento marcada para o próximo dia 5, combinam samplers, instrumentistas clássicos e “um pouco da alma portuguesa”. Uma fórmula que casa bem com o espírito da época.


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Íris, João Gata e Rui Ricardo. Aliança entre a voz feminina e a artilharia dos samplers, sintetizadores e teclados vários. Depois juntam-lhes músicos de orquestra e uma razoável carga de nostalgia que consideram bem portuguesa. Os três elementos do V Império revelaram ao PÚBLICO os preparativos da sua investida.
PÚBLICO – Como se processou a génese do V Império?
João Gata – Eu e o Rui já tínhamos trabalhado juntos há dez anos atrás, num grupo chamado Amenti que viria a extinguir-se. Há uns quatro anos, conseguimos reunir o equipamento novo necessário para iniciarmos um novo projecto…
Rui Ricardo – … Digamos que as novas possibilidades tecnológicas nos permitiram levar mais além uma ideia que já fermentara nos Amenti.
P. – Que ideia?
R. R. – Propomos a junção dessa tecnologia com instrumentos clássicos e um pouco da alma portuguesa.
P. – O que distingue o vosso projecto, por exemplo, do de Rodrigo Leão com os Vox Ensemble?
R. R. – Os arranjos são completamente diferentes. Optámos por fazer mais canções e menos temas minimalistas.
J. G. – … Tomando também em conta questões como a reacção do público, o factor de mercado, etc…
R. R. – Não quer dizer que tenhamos feito um estudo de mercado! Temos, para já, um “feedback” de amigos…
P. – Há um lado classicizante muito forte na vossa música…
R. R. – O facto de utilizarmos instrumentos clássicos pode induzir esse aspecto. O projecto contou logo, desde a base, com a presença de instrumentistas de orquestra.
P. – O livro de promoção desenrola uma lista impressionante de referências, Perotin, Tallis, Bach, Satie, Weill, Reich, Pärt, Eno, entre muitos outros. Estão à altura de tão ilustres padrinhos e antepassados?
R. R. – Não somos nós que escrevemos, mas pessoas que ouviram e chegaram a essa conclusão. Até porque os nossos gostos musicais divergem um pouco. No meu caso, gosto de Ryuichi Sakamoto mas também dos Ultravox, Joy Division, uma pop mais underground. E uma paixão por Bach enorme.
J. G. – Os meus vão do antigo pop, como os Japan, até ao Ryuichi Sakamoto, Michael Nyman, Wim Mertens. Também alguns trabalhos de Brian Eno. E os clássicos.
Íris – Música clássica. Ao nível da voz, escolho Tori Amos e Ella Fitzgerald.
P. – Como é que a Íris entrou para o grupo?
I. – Foi de repente. No próprio dia em que os conheci fomos para estúdio. Fiquei apaixonada pela base instrumental. Um amor à primeira vista.
P. – V Império. O nome que escolheram é algo pretensioso, não concordam?
J. G. – Depende da perspectiva. Escolhemo-lo apenas por corresponder a uma ideia bonita de um Portugal romântico.
P. – No entanto, a apresentação do disco vai decorrer na Casa Fernando Pessoa…
J. G. – Foi uma escolha da editora. Embora haja uma associação…
P. – Há um investimento forte na imagem do grupo?
R. R. – É fundamental. Não só em música como em qualquer tipo de arte ou de produto. E estamos a preparar uma apresentação cénica especial. Para já, vamos ter em palco um quarteto em violoncelo, viola de arco, oboé e corne inglês. Que são os nossos solistas no disco. Podíamos fazer isto tudo em sintetizadores, mas não é isso que pretendemos. Usamos os samplers para fazer sons sintéticos.
P. – Há um conceito global em “Mar de Folhas”?
J. G. – Não há. São temas separados que têm em comum determinados ambientes.
P. – O título remete para o Outono, para a nostalgia.
R. R. – Portugal e os portugueses são um pouco assim. Fugirmos disso seria cair em ambiências anglo-saxónicas, forçar algo cuja raiz não seria a nossa. Se formos verdadeiros, a nossa música terá cada vez mais aceitação no estrangeiro.
P. – Apostam no mercado internacional?
J. G. – Completamente. Há uma estratégia nesse sentido definida pela editora desde o início. Estamos a apontar para o Oriente, que já é um clássico em termos de sucesso de aceitação de projectos portugueses.
P. – Têm em comum com outros grupos portugueses recentes uma preocupação enorme por Portugal, ao ponto de o mitificarem. Há uma razão especial para isso?
R. R. – Porque não se faz nada que seja português. À parte o fado, que nem sei até que ponto será muito português, já que é sobretudo lisboeta.
P. – Precisamente. Quando se quer falar de Portugal e da música portuguesa, fica quase toda a gente presa ao fado…
R. R. – Nós quisemos avançar para além disso. Daí a nossa sonoridade não ser fadista nem tradicional. Sem deixar, no entanto, de sermos justos com as nossas raízes.
J. G. Assumindo uma série de influências que nos permitem olhar para o mundo de outra forma. A “new age” está aí, a “world music” também. Toda uma série de novas atmosferas, universais, que também temos no disco. Para nós “new age” representa um espírito semiclassicista, de ligação à terra, ao sentimento e às atmosferas.
P. – Costumam teorizar e discutir entre ambos quando compõem?
R. R. – A partir de uma linha melódica, constrói-se o resto.
J. G. – Só uma nota já dá para muitas discussões!…
P. – Em que altura é que a Íris entra em cena?
I. – Sou o elemento “purificador”. Eles fazem os instrumentais, mas depois a palavra final é a minha. Faço as linhas de voz, embora com a ajuda deles, e algumas melodias. Concordo com um ou com outro até chegarmos a um consenso.
P. – Para terminar, gostaria que cada um de vocês destacasse um tema particular do álbum.
J. G. – Gosto muito de “Sagres (de madrugada)” [N. R. – Passe a publicidade, até porque João Gata afirma preferir a Superbock.] É um local que me é aprazível. Gosto muito de vento, do mar, de montanhas. Gosto de assistir à natureza na sua força maior. Sagres enche-me de nostalgia, de uma portugalidade… Olho para o mar, para o fim do mundo e lembro-me de há 500 anos atrás. [N. R. – João Gata é mais velho do que pensávamos.] É uma das minhas letras mais conseguidas. É um jogo comigo próprio.
R. R. – “Demónios de cristal”. É uma música que tem muito a ver com os meus próprios demónios, os quais, embora poderosos, estão sob o meu domínio. Também transmite uma certa raiva, embora não de uma forma doentia.
I. – “Efémera”. Foi a primeira música a ser feita a partir da minha voz. Cantei-a primeiro e só depois é que o instrumental foi acrescentado. Uma música que passou de uma simplicidade inicial para algo bastante rico, com uma carga sentimental muito romântica.



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V Império – Mar de Folhas

07.05.1997
V Império
Mar de Folhas
ED. E DISTRI. MOVIEPLAY

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A aposta é forte, em termos de promoção. O 5º Império (da música portuguesa, lê-se nas entrelinhas…) sai dia 5 de Maio (quinto do calendário). Três vezes cinco. A imagem e conceito subjacente são familiares. Portugal e a sua História, os mitos, a nostalgia, o mar, a saudade, o destino, os bravos feitos, enfim, o quadro de honra do nosso orgulho, já que o presente deixa muito a desejar (a este propósito, consulte-se a letra de “Ventos de história”, um verdadeiro manual compilado pelo senhor de La Palice).
Um quadro que começou a ser desenhado na música popular portuguesa pelos Heróis do Mar, prosseguiu com a Sétima Legião e culminou nos Madredeus. Mar que está a dar uvas, onde navegam a Ala dos Namorados, Paulo Bragança e Frei Fado d’el Rei. Curiosamente, os V Império cruzam toda esta imagética com um universo musical cujo apuramento se deve a Rodrigo Leão e Vox Ensemble. “mar de Folhas” segue fórmula idêntica, juntar tecnologia sofisticada com textos passadistas. Mas se Rodrigo Leão foge a seguir a via fácil da tal portucalidade aprendida, tantas vezes à pressa, camuflando os seus mitos pessoais no latim e numa atmosfera de missa universal, os V Império ligam a música a uma veia romântica nacional que mergulha as suas raízes num postal ilustrado de Sintra. Depois, enquanto o ex-Sétima Legião e madredeus recorre aos coros, o Império contra-ataca com naipes de instrumentistas clássicos.
Tudo é levado aos extremos da pompa e do enfeite, nesta aliança dos sintetizadores e “samplers” de João Gata e Rui Ricardo, com slistas como Aníbal Lima (violino), alexandra Mendes (violino e viola de arco), Paulo Teixeira (oboé e corne inglês) e João murcho (violoncelo) e a voz da cantora do grupo, Íris. por falar nela, temos que falar nos Madredeus. Ouça-se , por exemplo, um tema como “Sempre (em ruelas sem nome)”. O difícil é encontrar diferenças tanto ao nível da composição como entre cada entoação de Íris e as de Teresa Salgueiro. Um exercício, de resto, aplicável amuitas outras canções de “Mar de Folhas”.
O odor classicizante sente-se à distância. Nada é simples nem evidente. Exige-se solenidade e tragédia. As cordas afogam em mágoas cada nota gemida por Íris. Michael Nyman espreita, como não podia deixar de ser, em cada arremetida. Não custa aprender o truque e resulta sempre. “Décadas” é mesmo um decalque perfeito da música do compositor inglês. se algum dia for feita a versão portuguesa de “O Piano”, algo chamado, sei lá, “A Gaita de Amolador” ou “O Bombo”, os V Império estão prontos para assinar a banda-sonora.
“Mar de Folhas” é o exemplo acabado da exploração de um conceito gasto. Não traz nada de novo à música portuguesa, reduzindo-a, ainda por cima, a uma visão demagógica onde o culto das formas (tão gastas como o conceito) substitui o acto de criação. Um longo, longo bocejo onde as ideias estão mais mortas do que as próprias folhas. (2)

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