Arquivo de etiquetas: Três Tristes Tigres

Os (dez) maiores talentos portugueses dos anos 90 (artigo de opinião conjunto)

Sons

10 de Setembro 1999


Os maiores talentos portugueses dos anos 90


ttt

Luís Maio

Quisemos eleger os maiores artistas pop/rock/world portugueses dos anos 90. Não aqueles com uma carreira já antes estabelecida, que chegaram ou se mantiveram na ribalta nestes últimos dez anos, o que exclui à partida nomes como Madredeus ou Dulce Pontes. Mas apenas os novos talentos, que gravaram pela primeira vez em longa-duração e marcaram a música portuguesa (ou, para ser mais rigoroso, produzida em Portugal) nesta década. “Marcar” aqui, tem de se reconhecer, é um pouco ambíguo e esta escolha é um compromisso entre a importância objectiva dos artistas e os nossos gostos pessoais.
A conclusão a que chegámos é que há pelo menos dez nomes fundamentais dos nossos anos 90, o que já não é nada mau. Mas a impressão com que também ficámos, e deverá ficar como objecto de uma futura sistematização, é que esta década não foi genericamente tão produtiva quanto a precedente para a música portuguesa. Houve alguma necessidade da parte dos novos talentos de cortarem com a geração precedente, a dos GNR, Delfins, Trovante e Xutos, nomeadamente no sentido de questionar a necessidade de obedecer a um formato de canção pop/rock e de cantar em inglês. Mas essa ruptura não foi tão frutuosa ou ainda está em boa parte por cumprir.

1. PEDRO ABRUNHOSA (texto Pedro Ribeiro)

2. TRÊS TRISTES TIGRES
Já não há desculpa para se afirmar que não existe uma verdadeira banda portuguesa de pop psicadélica. Ela existe e chama-se Três Tristes Tigres. Mas se esta vertente, se não inédita (quem se recorda, no anos 70, dos Beatnicks, da “Cosmonicação”?), pelo menos muito pouco comum, da música popular produzida em Portugal, tem razão de existir, quando estamos prestes a entrar num novo milénio, tal deve-se ao “input” dos TTT de Alexandre Soares. Foi graças às novas ideias do antigo guitarrista dos GNR que a banda do porto renovou o seu stock de canções assentes no delírio sonoro e na qualidade dos textos escritos por Regina Guimarães. Com Alexandre Soares, os TTT entraram, sem medo, no comboio-fantasma da electrónica e dos sonhos com ligação directa, até ao mais recente, “Comum”, passando por “Guia Espiritual”, os TTT passaram de sonoplastas da palavra a arquitectos do inconsciente. Ana Deus, cantora dos TTT, faz a síntese do caminho recentemente aberto pelo grupo: “É perturbador!”. (texto FM)

3. GAITEIROS DE LISBOA
“Bárbaros!” Era o grito de susceptibilidade ferida com que o bardo Assuracentorix respondia aos insultos que o resto da tribo de irredutíveis gauleses lhe dirigia, quando se atrevia a cantar. Os Gaiteiros de Lisboa nunca foram propriamente insultados, mas, se o fossem, seria sempre por outras razões. Porque, antes deles, a música de raiz tradicional portuguesa descansava à sombra da bananeira, que é como quem diz, da papa toda feita nas décadas anteriores por José Afonso, dos que faziam das recolhas étnicas profissão de fé e do trabalho, sem dúvida louvável, mas sempre respeitador, da geração anterior de grupos da mesma área. Os Gaiteiros chegaram e deitaram tudo abaixo. Niilistas? Iconoclastas, talvez! Depois, sobre os escombros, edificaram um edifício novo tão ou mais deslumbrante que o antigo. Em apenas dois álbuns, “Invasões Bárbaras” e “Bocas do Inferno” (vencedor do Prémio José Afonso do ano passado), os Gaiteiros de Lisboa deram um rosto novo e de desafio à música popular portuguesa. Para muitos, o rosto de um demónio. Mas não é Lúcifer o anjo portador da luz? (texto FM)

4. ITHAKA (texto Tiago Luz Pedro)

5. BELLE CHASE HOTEL (texto Rui Catalão)

6. UNDERGROUND SOUND OF LISBOA (texto Vítor Belanciano)

7. DA WEASEL (texto Tiago Luz Pedro)

8. AMÉLIA MUGE
A conquista recente do Prémio José Afonso, pelo álbum “Taco a Taco”, não fez mais do que reconhecer a importância da obra de Amélia Muge enquanto herdeira daquele que foi, em Portugal, o arauto da insatisfação, do empenhamento ideológico e da inovação estética: José Afonso. Como o autor de “Cantigas do Maio”, Amélia Muge não dispensa a interrogação dos propósitos e motivos que conduzem à criação musical, o que significa que o disco, mais do que produto de uma indústria, deverá ser o espelho da história – do criador e do tempo em que vive. Mas a esta necessidade de conceptualização correspondeu desde o início, com o álbum de estreia, “Múgicas”, essa outra necessidade de arriscar e pôr em causa o que se fez e pensou antes. Amélia Muge, para além do prodígio de força e expressividade que é a sua voz, possui esse outro talento, bastante mais raro: do fogo de uma alma em eterna demanda. Com ela a música tradicional e o legado de autores como José Afonso ou José Mário Branco ganhou verdadeiramente o direito de entrar no 5º império. (texto FM)

9. REPÓRTER ESTRÁBICO (texto Vítor Belanciano)

10. MOONSPELL (texto Pedro Ribeiro)



Três Tristes Tigres – “Guia Espiritual”

Pop Rock

3 de Abril de 1996
Álbuns portugueses

Alma ecrã

TRÊS TRISTES TIGRES
Guia Espiritual

EMI, ed. EMI – VC


ttt

“Partes Sensíveis”, o álbum de estreia destes Tigres de caninos afiados, chamava atenção para as palavras, para os seus duplos sentidos, os seus ritmos, o seu poder de sugestão. O salto dado com “Guia Espiritual” faz perder de vista esta perspectiva. Trata-se agora, antes de mais, de uma operação sobre um conceito global de som. A esta deslocação do ponto de focagem correspondeu obviamente uma transferência de poderes no seio do grupo. Regina Guimarães, autora de todos os textos das “Partes”, recuou para a sombra, entrando para a boca de cena Alexandre Soares, que, no primeiro álbum, se limitara a cumprir a sua função de guitarrista. Em “Guia Espiritual”, o ex-GNR cria uma paleta sonora que, sendo sua, deriva de uma leitura selectiva de concepções – sobretudo, ao nível da construção – que remontam aos anos 70 e 80, para desaguar numa síntese de modernidade em que as noções de composição e produção se confundem. A aproximação literária, até certo ponto humanista, de “Partes Sensíveis” (muito se referiu, a propósito deste, o seu lado cabarético, abrigo de uma humanidade no limite do teatral, logo, do virtual) deu lugar a um outro espaço em que as palavras de Ana Deus se diluem numa paisagem complexa de memórias e reconversões musicais. A passagem, de um para o outro disco, tem lógica. O “novo realismo” que Alexandre Soares enuncia (ver artigo no Poprock da semana passada), construído sobre imagens, alucinações – um filme, enfim, ou filmes – não faz, afinal, mais do que elevar a estética dos Três Tristes Tigres do patamar da história temporal dos homens para a intemporalidade (o tempo cinematográfico) de algo mais difuso, em que o imagético se sobrepõe ao poético. É nessa justa medida que a música de “Guia Espiritual” se abre numa caleidoscópio de ecos, fragmentos e discursos, cujo efeito mais consistente (e perturbante) é a hipnose, a diluição da escuta num som que preza tanto a arquitectura como a sua própria textura. Se os Can, e a escola alemã dos anos 70, em geral, estão presentes, em temas como “Ruído rosa” ou “Kindergarten” e “Missão impossível” se aproxima descaradamente da Suzanne Veja de “99,9 F”, o que releva no subconsciente, após a imersão auditiva, é uma espécie de flutuação num largo sem margens, onde a espiritualidade de que fala o título se afirma como o derradeiro dos enganos ou das armadilhas. A imagem da capa, uma mancha negra rodeada de “vida artificial”, ilustra de forma exemplar um disco que dá a imagem fenoménica dos anos 90. Em Portugal ou qualquer outra parte do mundo dito civilizado. Fotografia “kirlian” de um corpo que já não existe ou se perdeu. Fala da mutação física, do “Anormal” (um dos títulos do guia) tornado normal. E da alma, transmutada num ecrã. (8)